terça-feira, 9 de outubro de 2012

A PAPISA - UM ATO DE FÉ


Ratziel estava em seu quarto.
E sempre que estava sozinho, a tristeza e a desilusão vinham atormentá-lo como demônios, apoderar-se de sua mente.
E nesta noite, uma tempestade se aproximava.
A luta ficou evidente.
Num corpo enfraquecido, com a mente esgotada, desesperançado, a possessão se tornou eminente.
O grande anjo negro erguia suas garras sobre ele.
As armadilhas estavam por todos os lados, o cercavam e o impediam de andar e de viver.
Ao comando do mal, outros seres, lendo os sinais, também vinham de outras regiões.
E eles aproximavam-se pelo sul, pelo norte, pelo leste e oeste e obsediavam-no.
Tentariam dominá-lo.
Surdamente, rasteiramente, na razão esmaecida, suas forças enfraquecidas não reagiriam mais.
E os dez raios trovejavam e desabavam num céu que se escureceu.
Sua crucificação na reclusão acontecia.
Os urros do animal , que instintivamente não soube definir, de um ponto culminante, talvez para os assustar e se defender e sobreviver, surgiam incontroláveis.
Separado do mundo, sem entender, Ratziel sofria.
Nenhum querer, nenhuma procura, nenhum interesse o vinham acalentar.
Pensamentos se cravavam em sua dor.
E como se defender, se os demônios pediam sua alma, sedentos.
Dois medos: o da morte e o da solidão.
Qual deles o mais assustador?
Gritos brandiam em seu quarto e ninguém os escutou, a não ser o sons que não transpassavam as paredes e que traziam-lhe de volta o ecos do sofrimento e aumentavam-lhe o pavor.
Os instintos alterados, incontroláveis, indefesos, esgotavam-se pela noite.
O perigo, grande;  a desolação ainda maior, assustadora; mas, Ratziel, ainda vivo.
Os amores enganaram-lhe, despediram-se fracassados.
Os jovens amigos trocavam de pele, cresciam e formavam suas personalidades.
E aflorando seus desejos por interesses de realizações e de sobrevivência, tornavam-se iguais a todos os seus iguais, tornavam-se soberbos, manipuladores, críticos e agressivos.
Faziam concorrência, competiam entre si.
E todos queriam ganhar suas vidas.
A época da inocência se perdeu.
E tentavam lutar como Ulisses lutou.
E ninguém é melhor ou pode saber mais que eu. Lembram-se do que falei?
Ratziel, para não se prostrar, saiu de seu quarto e sentou-se à mesa no canto esquerdo da sala.
E os questionamentos feriam-lhe a mente.
Na sala imensa, ele esperava e pensava.
De repente, o sinal, um arrepio. uma insensatez.
Como um destino programado, as luzes se apagam e os seus antigos demônios, juntando-se aos novos, ressurgiam da escuridão..
Então, o medo, seu braço esquerdo, seu pior companheiro, seu demônio interior, eleva-se do stress e mostra-se como um anjo de luz.
Na escuridão exterior e interior, a compreensão ilumina.
E todos nós temos esta voz, um anjo, um protetor que nos ensina e nos guia.
Daath, o ponto de transição, fulgurante, sobrenatural, mostra-se como uma legião de anjos decaídos.
Um portal de entrada e saída de mundos incomunicáveis.
O êxtase da compreensão foi maior do que o medo e a solidão.
E a papisa revela-se em sua face fria, abominável, imperturbável.
A inteligência unificadora de todos os caminhos revela-se nesta noite como uma aberração insidiosa, um êxtase de iluminação.
O véu transparente do ocultamento. O que isto significa?
A cortina vermelha que nos separa de Deus e nos torna Deuses.
A insidiosa força que se oculta para preservar a lei.
A profanação da verdade dos altares sagrados.
As luzes voltaram.
Ratziel compreendeu o segredo dos hierofantes, mas sua crença o prendeu.
Não realizou a crucificação, não conseguiu vender sua alma.
A vida o prendeu nos laços de amor.
A pior noite, a noite de seus piores pesadelos, trouxe-lhe um mistério de  vida, uma compreensão desalentadora.
Saltar sobre o abismo, seria inimaginável sem a convicção de uma fé.
E se ele desistisse de seus dogmas, poderia até morrer, mas, se voltasse, voltaria renascido de um outro lugar.
Naturalmente, ou podemos dizer que certamente, ele poderia entregar o seu corpo e sua alma para definir o seu Deus, mas para ele, hoje, isto não aconteceria.
Desistir, não poderia, mentir ele não poderia.
Ele ainda tinha muito o que ascender espiritualmente, apesar de todos os demônios fracassados que o tentavam e queriam o seu ser.
Depois desta noite, o cerco esvaiu-se em seu coração e evaporou-se no ar.
Um novo sol nasceu para Ratziel, que ainda procura viver em paz.
Sua iluminação e a beleza de todas as coisas criadas o mantinham com fé na verdade de uma troca perfeita..
E com sua fé, que fazia parte de seu ser, compreendeu que só poderia chegar a Deus, através da fidelidade e do amor de Jesus.

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