Tana e Carlos vieram à noite.
Tana veio com o seu cachorro Thor, da raça Beagle.
Um grande amor a unia a este cão, os dois eram inseparáveis.
Quando eles entraram na loja, eu estava sozinho.
Ficamos algum tempo conversando na vídeo, quando de repente lembrei-me de algo que havia esquecido.
Enquanto se distraíam olhando os filmes, fui buscar o que não recordo-me mais, talvez o tarô, ou quem sabe meus cigarros, sei lá.
No lado esquerdo do cantinho, na segunda prateleira acima do chão, ficava nosso esconderijo secreto.
Ali guardávamos o nosso dinheiro, que ficava dentro de um estojo de fitas vhs, misturado aos demais, e somente algumas pessoas de nosso círculo de amizades sabiam de sua existência e onde ele estava.
Ao chegar perto da mesa, assustei-me.
No meu lado esquerdo, próximo à cortina um pouco berta, ao lado das prateleiras onde guardávamos o dinheiro, um grande gato marrom claro encarava-me imóvel, com aquele olhar indecifrável de um felino.
E pelos olhos serenos com que me fitou, quem se assustou fui eu, porque nunca confiei em gatos, e ainda mais daquele tamanho e gordo daquele jeito.
Em minha infância, convivíamos com muitos gatos em nossa casa em Canoas, e nenhum deles era castrado e a ninhada proliferava-se infinitamente.
E nesta época, todos eles me pareciam agressivos e perigosos, mas depois que cresci, comecei a compreender que o agressivo e o perigoso sempre fui eu, um animal totalmente inconsciente e predador.
Nossos gatos conviviam pacificamente, mas eu, uma criança, infernizava-os.
Certo domingo estávamos na copa almoçando, quando o gato preto, meu inimigo número um, subiu na mesa e acariciou meu pai.
Depois de alguns miados sensíveis, ele roçou sua cabeça na mão direita dele, e depois, colocando as patas em seu ombro, lambeu-lhe carinhosamente o rosto, em sua face direita.
Meu pai emocionou-se e quase chorou.
Aquele gato preto que eu odiava, que parecia-me um capeta danado, gostava mesmo do meu pai.
Mas voltando a história...
No cantinho, o felino, estaqueado, encarou-me tranquilamente por alguns segundos e depois saltou em direção a cortina e desapareceu.
Assustei-me com a sua visita inesperada e, cauteloso, também não me movi, mas depois que ele pulou na cortina, rapidamente a corri e inspecionei o local.
Não havia nenhum gato ali.
Surpreso, fui contar para Tana.
Ela estranhou a passividade de seu cão:— Estranho Thor não ter dado o alarme, Celso? Ele tem o faro muito aguçado, e detesta gatos! Se tivesse um aqui, certamente ele já teria dado o sinal.
— Tem certeza Tana!
— Tenho! Thor odeia gatos e sente o cheiro deles a distância.
— Mesmo se o gato estivesse lá no cantinho? — insisti.
— Mesmo que ele estivesse lá! Ih! Até é perto. Uma noite, Thor sentiu o cheiro de um gato a quase uma quadra de distância e ficou todo agitado.
— É, mas tinha um gato lá, Tana, eu vi! Quando cheguei na mesa, o gato estava parado no canto de cá, perto das fitas ... — e contei o que vi.
— Que estranho, Thor não der dado um sinal?! — repetiu ela.
— Mas não custa verificar. Vamos Thor!
Tana fez uma careta incrédula, mas para me tranquilizar, andou com ele por toda a loja.
Mas Thor continuava impassível!
Só depois é que fui perceber que, quando o gato pulou em direção a cortina, ela não se moveu!
Quando contei para Tana, ela franziu a testa, decerto achou que eu estivesse ficando louco.
Mas foi Incrível!
O Gato simplesmente entrou na cortina e desapareceu!
Algumas semanas depois veio o sinal, o dinheiro guardado no estojo, milagrosamente desapareceu.
Alguém o roubara, e com certeza não foi o mesmo gato.
Curioso com o significado de minha visão, fui para a internet pesquisar sua simbologia.
Os gatos são nossos guardiões e representam vigilância e proteção, alertando-nos de entidades maléficas.
Em hipótese alguma "eu" estava preparado para ver um gato naquele local e muito menos para intuir a respeito do que poderia acontecer!
Que grande ocultista me tornei!
Quem sabe, eu não continuava a ser aquela mesma pessoa desligada e indiferente que sempre fui, com uma mente expansiva e diversificada, altamente questionadora e curiosa, mas desfocada e despreparada para sentir as minúcias da realidade.
Quem sabe não andei me traumatizando por esta escola da vida, preferindo não ver para não sofrer.
Mas a vida é assim, vai ensinando, mas leva tempo, ainda mais quando os fatos não se repetem mais.
Devíamos nascer sabendo.
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