terça-feira, 9 de outubro de 2012

O GATO MARROM


Ano de 2007

Tana e Carlos vieram à noite. 
Tana veio com o seu cachorro Thor, da raça Beagle. 
Um grande amor a unia a este cão, os dois eram inseparáveis.
Quando eles entraram na loja, eu estava sozinho.
Ficamos algum tempo conversando na vídeo, quando de repente lembrei-me de algo que havia esquecido.
Enquanto se distraíam olhando os filmes, fui buscar o que não recordo-me mais, talvez o tarô, ou quem sabe meus cigarros, sei lá.
No lado esquerdo do cantinho, na segunda prateleira acima do chão, ficava nosso esconderijo secreto.
Ali guardávamos o nosso dinheiro, que ficava dentro de um estojo de fitas vhs, misturado aos demais, e somente algumas pessoas de nosso círculo de amizades sabiam de sua existência e onde ele estava.
Ao chegar perto da mesa, assustei-me.
No meu lado esquerdo, próximo à cortina um pouco berta, ao lado das prateleiras onde guardávamos o dinheiro, um grande gato marrom claro encarava-me imóvel, com aquele olhar indecifrável de um felino.
E pelos olhos serenos com que me fitou, quem se assustou fui eu, porque nunca confiei em gatos, e ainda mais daquele tamanho e gordo daquele jeito.
Em minha infância, convivíamos com muitos gatos em nossa casa em Canoas, e nenhum deles era castrado e a ninhada proliferava-se infinitamente.
E nesta época, todos eles me pareciam agressivos e perigosos, mas depois que cresci, comecei a compreender que o agressivo e o perigoso sempre fui eu, um animal totalmente inconsciente e predador.
Nossos gatos conviviam pacificamente, mas eu, uma criança, infernizava-os.
Certo domingo estávamos na copa almoçando, quando o gato preto, meu inimigo número um, subiu na mesa e acariciou meu pai.
Depois de alguns miados sensíveis, ele roçou sua cabeça na mão direita dele, e depois, colocando as patas em seu ombro, lambeu-lhe carinhosamente o rosto, em sua face direita.
Meu pai emocionou-se e quase chorou.
Aquele gato preto que eu odiava, que parecia-me um capeta danado, gostava mesmo do meu pai.
Mas voltando a história...
No cantinho, o felino, estaqueado, encarou-me tranquilamente por alguns segundos e depois saltou em direção a cortina e desapareceu.
Assustei-me com a sua visita inesperada e, cauteloso, também não me movi, mas depois que ele pulou na cortina, rapidamente a corri e inspecionei o local.
Não havia nenhum gato ali.
Surpreso, fui contar para Tana.
Ela estranhou a passividade de seu cão:
 Estranho Thor não ter dado o alarme, Celso? Ele tem o faro muito aguçado, e detesta gatos! Se tivesse um aqui, certamente ele já teria dado o sinal. 
 Tem certeza Tana!
 Tenho! Thor odeia gatos e sente o cheiro deles a distância.
 Mesmo se o gato estivesse lá no cantinho? — insisti.
 Mesmo que ele estivesse lá! Ih! Até é perto. Uma noite, Thor sentiu o cheiro de um gato a quase uma quadra de distância e ficou todo agitado.
— É, mas tinha um gato lá, Tana, eu vi! Quando cheguei na mesa, o gato estava parado no canto de cá, perto das fitas ...  e contei o que vi.
 Que estranho, Thor não der dado um sinal?!  repetiu ela.
 Mas não custa verificar. Vamos Thor!
Tana fez uma careta incrédula, mas para me tranquilizar, andou com ele por toda a loja.
Mas Thor continuava impassível!
Só depois é que fui perceber que, quando o gato pulou em direção a cortina, ela não se moveu!
Quando contei para Tana, ela franziu a testa, decerto achou que eu estivesse ficando louco.
Mas foi Incrível!
O Gato simplesmente entrou na cortina e desapareceu!
Algumas semanas depois veio o sinal, o dinheiro guardado no estojo, milagrosamente desapareceu.
Alguém o roubara, e com certeza não foi o mesmo gato.
Curioso com o significado de minha visão, fui para a internet pesquisar sua simbologia.
Os gatos são nossos guardiões e representam vigilância e proteção, alertando-nos de entidades maléficas.
Em hipótese alguma "eu" estava preparado para ver um gato naquele local e muito menos para intuir a respeito do que poderia acontecer!
Que grande ocultista me tornei!
Quem sabe, eu não continuava a ser aquela mesma pessoa desligada e indiferente que sempre fui, com uma mente expansiva e diversificada, altamente questionadora e curiosa, mas desfocada e despreparada para sentir as minúcias da realidade.
Quem sabe não andei me traumatizando por esta escola da vida, preferindo não ver para não sofrer.
Mas a vida é assim, vai ensinando, mas leva tempo, ainda mais quando os fatos não se repetem mais.
Devíamos nascer sabendo.

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