terça-feira, 9 de outubro de 2012
BRUXA MORGANA
Meus contatos com Bruxa Morgana reduziram-se bastante.
Apesar de morar quase em frente à loja, raramente nos víamos.
Nestes tempos, eu ia visitá-la na esotérica de Regina.
Algumas vezes nos encontrávamos no Supermercado do bairro à noite, que era o seu trajeto de casa.
Eram momentos raros em que aproveitávamos para conversar.
Regina, a proprietária da loja onde Morgana trabalhava, era uma pessoas séria e formal, contudo, sincera e de bom coração, e eu sabia que simpatizava comigo.
Em minhas visitas à Morgana, entre os intervalos de suas consultas, nós três passávamos as tardes conversando.
Era muito engraçado.
Elas riam de minhas brincadeiras e divertiam-se com minhas ironias, e, ao final, pediam para eu ler o tarô para elas.
Morgana retribuía minhas gentilezas jogando para mim.
Morgana era uma bruxa.
Vindo de mim pode até parecer estranho, pois eu nunca soube muito bem o que significava esta palavra.
Existem tantas bruxas por aí...
Sei que seus conhecimentos de magia impressionavam-me.
Lidava com os elementais como se fossem velhos amigos e falava-me deles com um carinho especial.
Num sábado à noite, de um mês de Janeiro, a convite das duas, participei de um churrasco na casa de Regina.
Enquanto conversávamos na peça dos fundos, contígua a cozinha, Morgana pediu-me para acender o fogo da churrasqueira.
Regina comemorava o seu aniversário algumas dias depois do meu, e elas resolveram me convidar para confraternizarmos juntos, e eu não imaginava que seria o assador.
Apesar de estar num ambiente fechado, ventava muito, o que dificultava minha ação.
A churrasqueira ficava aos fundos, no canto esquerdo da peça, e no lado oposto, ao centro, havia uma grande porta que dava para o pátio gramado e duas grandes janelas laterais.
Era um dia quente de verão.
Coloquei o carvão e depois um cone de papel no centro para fazer o fogo, mas não estava conseguindo acendê-lo.
O carvão não abrasava, nem o fogo se mantinha.
Tínhamos esquecido de comprar álcool. O que fazer?!
Morgana me observava de longe.
Enquanto conversava com suas amigas, seguidamente olhava-me intrigada, persistente.
Estranhava minha demora.
Depois de algum tempo, preocupada com o horário da ceia e com as minhas vãs tentativas para acender o fogo, Morgana levantou-se e veio até mim.
— E aí Celso, o que houve? Não está conseguindo acender o fogo?
— Não, Morgana! Ou é o vento, ou o carvão deve estar úmido. — fiquei atrapalhado.
— Que estranho! Por que não pede para elas te ajudarem, Celso? Conversa com elas!
— Com elas quem? — perguntei tenso, com a responsabilidade da janta em minhas mãos, suando.
"Pronto, lá vinha Morgana com suas tiradinhas de bruxa."
— As Salamandras, Celso! Converse com elas! Nem parece que é bruxo! — disse-me com um leve tom de ironia.
— Fale com elas!
— Como assim Morgana? — fiquei à deriva.
Então, sem me responder, olhando-me de soslaio, num deboche, iniciou o ritual.
Virando-se para a churrasqueira, gesticulando carinhosamente, pediu:
— Venham meus amores, mostrem-se para nós! Venham minhas adoráveis crianças, mostrem suas belezas para nós! Nós precisamos de vocês!... Venham minhas adoráveis crianças!...
E eu, que assistia a tudo maravilhado, senti-me impotente ante os poderes de Morgana.
Pela primeira vez em sua vida Morgana confiou em mim desta maneira, e revelou-me seu ritual sem se envaidecer, e eu me emocionei.
Morgana voltava a ser aquela mesma pessoa de outrora; agora, voltava melhor, mais amiga, mais sincera.
Então, como num passe de mágica, as chamas começaram a subir.
Morgana repetia-se, com um carinho que me contagiou:
— Vamos meus amores, dancem para nós.....Vamos...dancem.
Chamas coloridas e ondulantes crepitavam, quase que instantaneamente aos seus chamados, e pareciam vaidosas e belas ao responder.
As labaredas erguiam-se aos saltos, e as Salamandras dançavam para nós.
— Olhe, Celso, elas estão se exibindo! — E batia palmas feliz.
E num mimo, falou-lhes com ternura:
— Que lindas vocês são meus amores, que lindas vocês são! Que coisas mais maravilhosas vocês são! Que adoráveis vocês são!
E em silêncio, ficamos admirando-as se exibirem.
Línguas de fogo diluíam-se nas alturas.
Mas, como nem tudo é perfeito, Morgana, para estragar o meu enlevo, sorridente, com aquele seu jeito meigo de falar, não perdeu a sua deixa e, antes de sair, censurou-me:
— Celso, que estranho você não saber disso!... Quantas vezes já te falei! Você é muito lógico! Use um pouco o seu coração. Fale com elas, não precisa se envergonhar, elas gostam de carinho...
E depois de me criticar, despachou-se ereta, com uma sensação de bem estar, de dever cumprido, e retornou satisfeita ao lugar onde estavam suas amigas, e eu fiquei desenxabido.
E ninguém mais viu o que se passou.
Depois disso o fogo não mais se apagou.
E Morgana, de longe, olhava-me com um carinho, como se me quisesse dizer que ainda éramos os mesmos amigos de sempre.
Como se me confirmasse com o seu olhar e o seu sorriso, que sempre gostou de mim e que me admirava também, tínhamos uma grande empatia.
De madrugada, após o churrasco e de muito bate-papo, encerramos a noite no pátio.
A noite continuava muito quente.
Antes de se despedir, Morgana reuniu-nos no centro do gramado.
Fizemos um circulo, e ela iniciou os rituais de agradecimento.
Bruxa Morgana, falando pausadamente, agradeceu as Deusas da natureza e, em seguida, invocou o reino dos elementais.
De mãos dadas mantínhamos o circulo fechado, concentrados, ouvindo-a falar, quando, de repente, um vento forte começou a rodopiar.
Uma corrente magnética circulava entre nós.
A natureza respondia à sua maneira.
As folhas giravam ao redor.
As deusas responderam ao chamado, e os elementais, orgulhosos, mostravam o seu poder.
Foi uma das coisas mais bonitas que presenciei.
Nos fundos da casa um bonito parreiral, com uvas verdes em maturação.
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