terça-feira, 9 de outubro de 2012

ESCORPIÃO, UM ANIMAL DE PODER



                                            
                                                Parte I

Numa de minhas visitas à Morgana e Regina, entre uma conversa e outra, Morgana, achando-me um pouco esquisito, perguntou o que eu tinha:
— Estou com dor nos dentes Morgana. Tomo comprimidos a vários dias e a dor não passa!
Nesta época, com sérios problemas odontológicos para resolver e com medo de ir ao dentista, eu suportava a dor e postergava o tratamento.
Ouvindo meus lamentos, Morgana desabafou os seus receios:
— Eu estou fazendo tratamento dentário com o filho de uma amiga, Celso. Ele é a coisa mais querida, é muito paciencioso. Às vezes vou até lá mas não deixo ele mexer na minha boca, de tão nervosa que fico. Ele sabe como eu sou, não adianta insistir. Roberto ri dos meus medos e desisti. Então, acabamos conversando sobre outras coisas e marcando a consulta para um outro dia.
— Que legal, Morgana. — e desviei o assunto.
Depois desta simpática e animada conversa, num outro dia, para me azarar, ela vem me visitar preocupada!
De cara, já quis saber como eu estava e se já tinha encontrado um dentista.
Eu ainda medroso, precavido, justifiquei-me, antecipando a pressão:
— Ainda não, Morgana! Ainda estou sem coragem para procurar um dentista, e, além do mais, não conheço nenhum dentista bom por aqui em quem eu possa confiar. Sabe como é que é, né?  — falei sem graça.
Então, Morgana não perdeu sua viagem.
Recomendou-me seu amigo Roberto como a solução para todos os meus problemas.
— Vim aqui só para isso Celso. Já Falei com Roberto sobre o seu caso. Ele me pediu para você ir  lá falar com ele.
— Quem é o Roberto? — perguntei assustado.
— O meu amigo Dentista! Aquele que te falei!
"Putz..."
— Hum... Não sei não, Morgana. Ele é bom dentista? — desestabilizei-me e estressei.
— Deixa de ser medroso Celso! Eu conheço Roberto desde pequeno. Sou suspeita pra falar dele, mas ele é um ótimo dentista. Formou-se cedo, e já é cirurgião de reconstrução facial no hospital de clínicas.
Roberto é um jovem muito inteligente, sempre tirou as melhores notas no colégio e está sempre se atualizando, acho que você vai gostar dele. Vale a pena ir até lá conversar com ele. Falei que você tem mais medo de dentista do que eu, e ele riu.
E eu que já imaginava uma pobre vítima acidentada com um monte de ossos quebrados pelo rosto e Rodrigo recompondo prazeirosamente sua face, pedaço por pedaço, sentia passar um calafrio pelas pernas.
— E a forma de pagamento? — procurei adiar minha decisão com algum empecilho.
Mas, Morgana, me conhecia muito bem.
Olhando-me com um sorriso irônico, não desistiu:
— Não precisa se preocupar Celso, ele é meu amigo! Você paga como puder, ele facilita.
"Mas que droga!"                    

                                                Parte II

Alguns dias depois de minha agradável conversa com Morgana, como a dor de dentes não passava e minha agonia tornava-se insuportável, na ausência de algum milagre de Deus, tive que recorrer.
Decidi seguir sua indicação, criei coragem e fui procurar Roberto.
Com certeza eu não iria morrer antes de meus dentes se destruírem.
E, afinal de contas, bem como Morgana me disse: "Você é um homem ou um rato?!"
Bem que eu já andava me posicionando a favor do rato, pois às vezes me imaginava correndo de lá para cá, escondendo-me pelas vielas escuras da vida.
Mas agora não, agora tinha me decidido a dar um basta nestas dores, decidi ser um homem afinal.
Liguei para sua secretária e marquei um horário.
Roberto recebeu-me cordialmente.
Sabendo dos meus receios pelas fofocas de Morgana, o espertinho procurou ganhar minha confiança.
Com o tempo, foi me amaciando, me preparando.
Decerto achou que eu era bobo, que não adivinhava suas artimanhas.
Até que, finalmente, quase amigos, comunicou-me o que eu mais temia:
— Celso! Vou ter que fazer uma cirurgia. Não há outra saída. Mas não se preocupe, fica tranquilo, tudo vai correr bem. É coisa simples, você não vai sentir dor nenhuma, te prometo.
Em seguida explicou-me os procedimentos de rotina.
Meu stress foi imediato.
Coisa simples uma droga; a coisa era feia.
Quis sugerir um outro tratamento.
Tentei adiar, postergar para não sei quando, talvez para daqui a alguns anos...
Mas não adiantou, seus argumentos eram irrefutáveis.
A situação era grave e premente, não havia escapatória, era a cura ou a dor.
Eu sabia que ele estava com a razão, ou melhor, achava que estava, pois como o tempo provou, infelizmente, ele errou em seus procedimentos profissionais.
Isto confirma certos conceitos populares.
Nem sempre os jovens recém-formados mais inteligentes e atualizados, no início de suas carreiras são os melhores profissionais.
Alguns jovens insanos, com a mente diabólica que têm, querendo ganhar fama, se formam e saem como porra-loucas por aí, inventando e testando suas mirabolantes ideias em suas vítimas.
Em alguns casos, a maturidade, que alguns criticam ser desatualizada, tem o seu valor!
O velho, apesar de já tremer a mão, é um gato escaldado, explica com calma, vai devagar, troca ideias, não morre na praia e nem quer matar seu paciente afogado, planeja melhor.
Ele já sabe que não estamos aqui para ganhar a vida e sim vivê-la, e vai consertando-a aos poucos, comendo o bolo pelas beiradas.
O jovem não, já quer comer tudo de uma vez.
Alguns chegam a se engasgar e a passear mal de tão esfomeados que são, depois se complicam com indigestões de tantas informações e ansiedades que têm, e de tão afoitos que são.
Finalmente, marcamos a data fatídica.
Várias vezes pensei em desistir e desmarcar a consulta; mas não sei porque, na hora prevista, eu estava lá.
Era uma cirurgia delicada e demorada.
Sem saída, sentei na cadeira e procurei me acalmar.
Numa posição bem inclinada, anestesiado, não sentindo dor alguma, confiei em Roberto e relaxei; algumas vezes até cochilei.
Com os olhos fechados, percebendo apenas a claridade do holofote sob minhas pálpebras, em vez de rezar, procurei desviar minha mente para um outro lugar e me desligar.
Para me teletransportar daquela maldita cadeira, eu remoía meus enredos favoritos.
Então, de repente, um pequeno ponto escuro surgiu em meu campo de visão.
À princípio, pensei tratar-se de um minúsculo inseto.
"Mas que merda!"
O bicho mais parecia um mosquito morto e encravado sob minha pálpebra esquerda superior.
"Só me faltava essa! Será que depois desta cirurgia eu ainda vou ter que fazer outra!?"
"Só me faltava essa! Que droga!"
Enervei-me de novo.
Mas, devido a duração da cirurgia, a visão distraiu-me e aliviou-me a tensão.
Passado o estresse, aos poucos, focou minha atenção.
Então, eu percebi que não estava vendo um inseto, mas, sim, um aracnídeo.
" Putz! As coisas são piores do que pensei. E agora? Como vou tirar esse bicho de dentro do meu olho!"
Quase bateu um pânico, senti uma tristeza, depois resignei-me e aceitei o carma.
Então, à medida que o bicho se aproximava, mais nítido ele ficava, até que exteriorizando-se em um campo de visão central, apareceu em todos os seus detalhes.
Mas que coisa estranha, agora, para minha surpresa, eu não estava vendo uma aranha, mas sim um agressivo escorpião preto.
À princípio, achei tratar-se de alguma impressão visual causada pela forte iluminação.
Mas agora não! Meu Deus do céu! Agora o que eu via era inacreditável...magnífico! Que coisa mais incrível!... Inacreditável...não pode ser... E estupefato, apaguei.
Após a cirurgia, preocupado com minha recuperação e com o sucesso da operação, me esqueci temporariamente do fato.

                                                Parte III

Como na consulta seguinte os procedimentos seriam mais suaves, cheguei mais tranquilo.
Sem anestesia, sonolento, e sem a expectativa da dor, relaxei.
Mas, agora, a visão foi mais rápida.
Roberto mal se inclinou para iniciar o tratamento e o maldito escorpião surgiu.
Com a cauda arqueada, em posição de ataque, com suas garras semi-abertas, o escorpião balançava-se na minha frente.
Analisei-o intrigado e receoso, pois mais parecia uma gravura recortada em papel do que um ser vivo.
Que loucura!
Percebi que movia-se junto com Roberto.
Na tênue luminosidade sob minhas pálpebras, fiquei observando-o admirado.
Mas eis que as emoções se sobressaltam.
Sentindo-me ameaçado pelo maldito escorpião, uma raiva invadiu-me contra a vontade.
Este reação instintiva precedeu a uma outra visão, uma visão mais espetacular que a anterior.
Num instante, a cena mudou, e um ponto distante surgiu.
Com sua veloz aproximação vi que era uma bandeira vermelha.
Uma bandeira ondulada, parecendo mais uma outra gravura recortada em papel do que uma bandeira real.
Mas, agora, aos saltos, em quadros entrecortados, aproximava-se de mim.
Extasiei-me.
Um silêncio, um suspense total!
No último salto, o pano vermelho cobriu minha visão e transformou-se numa imensa cortina vermelha.de um teatro.
Fiquei olhando-a com uma atenção.
Intui que atrás desta cortina encerrava-se um grande mistério.
Um segredo divino convidava-me para ver o que jamais pensei existir.
Uma ondulada cortina de veludo vermelho cor de sangue, silenciosa e imóvel, fazia uma barreira entre eu e a eternidade.
Transcendente, limítrofe de dois mundos, um portal do tempo sedutor apresentou-se para eu ver o destino das pessoas que eu escolhesse.
Os filmes ocultavam-se atrás daquela cortina vermelha, esperando que eu a abrisse para o espetáculo começar.
Maravilhei-me, uma visão alucinante!
Hipnotizado, relutei em esticar a mão para abri-la; caso fizesse, a vida de Roberto desenrolar-se-ia como um filme!
Este era o meu sentimento, a minha graça e o meu poder, a minha grandeza.
Um portal vermelho enlouquecedor, impossível de acreditar, que jamais sonhei encontrar!
Exultei sem compreender: "Eu posso saber o que você pensa Roberto! Posso saber de tudo! Posso ver o seu passado, o seu presente, o seu futuro! Posso conhecer sua vida!"
Impregnei-me com um doce sabor de vingança, uma sensação desarrazoada.
Se o escorpião me ameaçava, eu poderia ameaçá-lo também.
Mas com a grandiosidade do êxtase, toda a mágoa desapareceu rapidamente.
Era maravilhoso o que eu estava vendo! Não havia possibilidade de existir tal incoerência! Não podia ser verdade!
Mas minha alma gritava: É verdade! Tudo o que você está sentindo é verdade. Tudo está escrito! Tudo vai acontecer como é para acontecer.
Nenhum ponto pode ser mudado, nenhuma vírgula vai sair do seu lugar.
Estamos repetindo o filme para nos conhecer e aprender.
Curioso, quis levantar minha mão para a cortina, mas controlei o impulso.
Seria um pecado, uma insensatez, uma possibilidade totalmente desarrazoada e onipotente, um risco para minha sanidade.
Roberto era solteiro e, ainda hoje, recordo-me vagamente do delírio.
Lembro-me que, sem ao menos tocar na cortina, uma cena onírica de sua vida se descortinou.
Vi-o segurando pelas mãos uma menina de aproximadamente cinco anos de idade, e um menino um pouco maior, de uns sete anos talvez .
Eles entravam de mãos dadas por um grande parque pouco arborizado.
Roberto olhava para seus filhos feliz.
Guardei na memória a grandeza desta paisagem, e seria bem trabalhoso descrevê-la em todos os seus detalhes.
Neste parque haviam bancos espalhados em toda a sua extensão, invadido por trilhas que conduziam ao seu interior.
E, ao meu lado direito, um pouco distante da entrada, havia um lago sereno com pessoas em pedalinhos.
E de onde eu estava, olhando para eles seguirem felizes, não consegui divisar a dimensão real deste lago.
Hipnotizado pela visão, apaguei.
Podem chamar-me de louco, de visionário inconsistente, de um sentimental incoerente, mas este foi um dom que Deus me concedeu pelo tempo de um clarão, para eu compreender que estes mistérios existiam.
Visões semelhantes a estas, nunca mais se repetiram.
                   

                                                Parte IV

Algumas semanas depois que comecei o tratamento com Roberto, Morgana voltou a me procurar.
Eu já tinha me decidido a não contar-lhe o que vi no consultório de Roberto.
Não tocaria no assunto, pois achava-o totalmente inverossímil, mas quando comecei a conversar com Morgana não resisti a tentação.
Velhas mágoas e rixas voltavam a fervilhar.
Morgana mal entrou na loja e já foi logo perguntando:
— Como você está, Celso? Como está indo o tratamento? Eu estava preocupada contigo, vim saber como você está.
— Estou bem, Morgana.
— Você está gostando do Roberto?
— Estou! Roberto está me tratando muito bem... Mas anda acontecendo algumas coisas estranhas por lá.
— O que está acontecendo, Celso?
— Eu tenho até vergonha de lhe falar. Nem sei como explicar, não estou entendendo.
— O que está acontecendo? — Morgana arqueou as sobrancelhas.
— Você não vai ficar chateada comigo se eu lhe contar?
— Nós somos amigos Celso, pode me falar!
— Nem sei como lhe dizer isto Morgana, mas toda a vez que eu sento na cadeira do Roberto, eu vejo um bicho estranho!
— Que bicho você vê? — Morgana se sobressaltou e mudou seu comportamento.
— Me desculpa Morgana, mas não vou lhe dizer! — Fiz para provocar, para ver sua reação.
— Que estranho você me falar isso Celso, e depois não querer me dizer o que viu?!... Pense bem!...O que você viu?
Morgana rapidamente perdeu sua meiguice e pareceu-me braba, e me entristeceu.
Agora olhava-me séria, com a cara fechada.
— Pense bem se não quer me dizer! — insistiu, num tom quase ameaçador.
— Quem sabe num outro dia eu lhe fale, está bem? — repliquei vingativo, indignado e irônico, com uma pitada de satisfação.
"Te peguei!" Pensei.
Afinal de contas eu também era "bruxo", e tinha que honrar a minha camiseta, e pressentia um grande mistério ali.
E, por sinal, eu detestava ameaças de quem quer que fosse, ainda mais vindas de Morgana, que já deveria me conhecer muito bem.
E, além do mais, ela já me devia explicações de feitiços que não revidei.
Amigos não agridem amigos, e nossas amizades e nossos sentimentos deveriam ser dignos de existirem.
E Morgana ficaria seriamente abalada se eu lhe contasse o que eu sabia.
E bruxos que são amigos de bruxos, deveriam se respeitar.
E esta briga eu a comprei no sigilo de meus conhecimentos ocultistas, e iria até o fim se precisasse vencê-la em suas magias.
E este poder eu o tinha para usar contra suas presunções de feitiçarias.
E até hoje não entendo como Morgana não percebeu e nem leu nas cartas o risco que uma pessoa de sua família correu.
E nesta guerra, se não parassem com suas perigosas magias negras, não seria eu quem os iria avisar, Morgana não compreendeu a verdade.
Certamente me desmereceu.
Morgana caiu em meu conceito e eu a desmerecia também, silenciosamente.
Ela, que se intitulava a bruxa toda poderosa, estava em minhas mãos.
Morgana talvez fosse uma fraude, uma mentira, um engodo, apenas mais uma pessoa sem coração, usando de quaisquer métodos para sobreviver.
E para manter vantagem, deixei Morgana tratar-me como imbecil.
Morgana despediu-se friamente e saiu irritada, e eu fiquei indignado.
E esta guerra eu não a perderia para de jeito nenhum,  com certeza, pois eu não estava mais disposto a ceder as suas ameaças, e iria revidar com todas as minhas forças caso continuasse com suas maldições.
Mas, alguns dias depois, compreendendo minha resistência a sua pressão, voltou mais controlada, querendo confabular.
Após certificar-se de que mais ninguém nos ouvia, contou-me um segredo:
— Celso, eu tenho algumas coisas muito importantes para lhe contar e muito sérias! É um segredo. Não quero que as conte para ninguém! Está bem?
— Tá bom! - respondi friamente.
                                     
                                                 Parte V

Morgana contou-me seus segredos:
— Você sabe que eu ensino bruxaria Celso. Roberto é meu iniciado. Não lhe contei isso antes, porque achei que fosse não gostar, mas já que você viu, tenho que te contar:  Roberto faz parte do meu coven de bruxos.
— Roberto faz bruxarias? Achei que você só ensinasse mulheres? — questionei-a chateado.
— Eu ensino homens também, Celso. A maioria deles são jovens, filhos de amigas minhas, que os trazem para aprender magia. Acham que é importante para o aprendizado deles!
— Gozado!... Você que sempre me criticou meu relacionamento com os jovens, fazendo o mesmo?
— Me desculpa, Celso. Me desculpa pelo meus erros, mas na época eu não sabia o que estava acontecendo aqui. Tinha muita fofoca no meu prédio e na vizinhança. Eu sei que pelo menos eu deveria ter vindo aqui conversar contigo, antes de dar ouvidos a estas pessoas. Eu te conheço há anos, nós somos amigos. Eu deveria saber que tudo o que falavam de ti era mentira, que não passavam de fofocas. Regina até me censurou por não ter vindo conversar contigo a este respeito. Me desculpa, Celso!
— Bem, mas pelo menos você poderia ter me defendido Morgana!
— Mas eu te defendia Celso! Sempre falei para eles que você seria incapaz de fazer o que diziam. Inclusive comentei com Regina o meu erro.
Morgana mal disfarçava sua ansiedade:
— Mas, voltando ao assunto Celso. Eu preciso saber que animal que você viu. É muito importante para mim! Dependendo do que você me falar, eu vou ter que refazer todo o meu trabalho, tudo o que eu fiz com Roberto. É muito sério! Mas antes, quero te explicar uma coisa! Ninguém tem condições de ver um animal de poder! Nós tomamos todos os cuidados para que isto não aconteça. Colocamo-os num plano muito elevado, é a segurança do discípulo. Se você acertar o nome do animal de poder de Roberto, alguma coisa saiu errado e vou ter que refazer todo o meu trabalho. Já falei pro Roberto!
— Você contou pra ele?
— Claro que contei! Eu tive que contar, apesar de confiar em você!
— Mas você não precisava temer nada de mim, Morgana! Eu seria incapaz de fazer algum mal a Roberto.
— Eu sei Celso, eu te conheço há anos e sei que você jamais faria mal a alguém. Mas, afinal de contas, ele é o meu discípulo, e é a segurança dele que está em jogo! Eu preciso saber o que deu errado! Eu preciso ter certeza! Não posso deixar Roberto desprotegido. Afinal de contas Celso, que animal você viu?
                         

                                                 Parte final

Morgana estava impaciente:
— Você não está me mentindo, não é? Que animal você viu? — insistiu séria e irritada, querendo deixar transparecer um ar de incredulidade. Morgana, não estava para brincadeiras!
E eu inspirava-me, calado.
Até que decidi falar.
Eu também tinha que saber a verdade.
— Um Escorpião! — respondi secamente.
— Tem certeza?
— Tenho!
— De que cor era?
— Preto!
Morgana quase caiu para trás.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
Nenhuma queda de braços me faria perder.
Disse e estava dito.
Então, Morgana, entre triste e transtornada, concordou:
— Você está certo Celso! É realmente um escorpião preto o animal de poder de Roberto... Você fez alguma coisa em relação a isto? — perguntou-me preocupada.
 — Não, por quê? O que eu poderia fazer?
Morgana apreensiva falou:
 — Muitas coisas Celso... muitas coisas... Bom, mas eu confio em ti. Sei que você jamais faria algo para prejudicá-lo. Mas agora, o único remédio que tenho, é substituir o animal de poder de Rodrigo. Só não entendo como você conseguiu ver?! Talvez pelos teus conhecimentos, tua intuição ou a proximidade com ele...sei lá. Mas mesmo assim eu te agradeço por me contar. Agora não importa mais. Vou ter que substituir o seu guardião.
Então, mais aliviada, baixando a guarda, quis retribuir a minha sinceridade, e desabafou:
— Você poderia ter preso o guardião de Roberto e tê-lo deixado vulnerável, sabia?
—  Não! Não sabia!
 Morgana intrigada, desconfiou:
— Você não tem mais coisas para me contar, não é mesmo, Celso?
— Não!
— Tem certeza?
— Tenho!
E voltando a sua antiga meiguice, com seu jeito maternal, retribuindo minha gentileza, explicou-me como eu poderia ter prendido o guardião de Roberto.
Agradeci suas informações e nos despedimos.
Morgana saiu desalentada, abatida.
Nunca lhe contei sobre a visão da cortina vermelha.
Hoje, tenho certeza que errei, talvez ela tivesse mais coisas para me contar e ensinar.
Após os eventos troquei de dentista e os meus contatos com Morgana reduziram-se drasticamente.
Nunca mais tocamos no assunto.

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