quarta-feira, 10 de outubro de 2012
SÍLVIA
Pequenas mentiras podem nos parecer inofensivas, mas, num futuro, nos impedirão de viver com plenitude a nossa felicidade.
Se optarmos por mentir, que seja sobre algo do qual nunca iremos nos arrepender.
Mesmo assim, temos que admitir, que nossas mentiras jamais se tornarão verdades em nossos corações, ou no coração daqueles que infligimos a dor, e sofreremos e nos puniremos por isso.
A menor das mentiras poderá tornar-se o nosso maior desengano, assim como o menor dos ventos, o maior dos furacões.
E as promessas ditas nunca deveriam ser feitas em vão.
Celso Orsini
Sílvia era uma mulher muito simpática e gentil, de um caráter simples, de um bom nível cultural.
Apesar de suas explicações, nunca aceitei bem os motivos que a levaram a deixar uma cidade tão bonita como a do Rio de Janeiro para vir morar em Porto Alegre.
Mas Sílvia vivia bem aqui e morava com sua filha adolescente num dos prédios do condomínio, atrás das lojas.
Longe de seus parentes levava uma vida despreocupada, pois, além da pensão do seu ex-companheiro, recebia a pensão do seu falecido pai, como filha de militar.
Conheci Sílvia como cliente da loja e com o tempo tornamo-nos amigos.
Quando soube que eu jogava tarô se entusiasmou e nunca mais deixou de me procurar.
Sílvia conciliava sua rotina caseira com os estudos na faculdade, onde trabalhava também.
E pegava o ônibus sempre no mesmo horário e no mesmo lugar.
Concluo que, sem uma vida emocional satisfatória, acabou se apaixonando pelo motorista do coletivo e estava feliz.
E não foi por falta de homens nem o que ter de fazer de sua vida, talvez só um pouquinho, mas sim porque Sílvia tinha lá suas predileções.
Quando lhe perguntei por que se apaixonara logo por um motorista de ônibus, ela me disse sorrindo:
— Não sei, Celso! Acho que foram suas mãos.
— Como assim, Sílvia? Não te entendi!
— Ele tinha as mãos grandes, Celso! E quando eu subia no ônibus, eu sentava no banco da frente. Aí, eu ficava olhando para as mãos dele... e me apaixonei.
— Você está brincando comigo Sílvia! Não pode ser verdade?!
— Não... é sério! Eu gosto de homens com as mãos grandes e ainda mais peludas como a dele.
Sílvia, em seu desabafo íntimo, arregalou os olhos e olhou-me com um sorriso encabulado.
Eu cai na gargalhada e me diverti com sua colocação.
— Também, pra dirigir um ônibus daquele tamanho, tem que ter as mãos grandes, não é mesmo?... Mas peludas?... Não entendi! — ironizei.
— Ele também não é muito alto! — emendou Sílvia, para azarar ainda mais o pobre coitadinho.
— Ah!... Putz.. Que droga!... Mais essa agora! O cara ainda é baixinho!... Sua taradinha!... Hum...acho que agora eu te entendi!... Quer dizer então que o cara é baixinho, tem as mãos grandes, né...e peludas... não acredito...sua safadinha. — e riamos pra valer.
Mas o que fazer, se este era um fetiche de Sílvia.
E Sílvia amava este homem.
Mas, infelizmente, sua felicidade durou pouco e os problemas começaram a surgir.
Então, como sempre acontecia assim que me via pelo bairro ou me encontrava na loja, lá vinha ela ansiosa para contar-me as novidades e desfiar o seu rosário de lamentações.
No começo Ari mentia para ela, mas, com o namoro, ela descobriu a verdade.
Alguns colegas dele, com dó de Sílvia, pressentindo o desastre, contaram-lhe a verdade.
Seu Ari, o guloso trapalhão, era casado, e agora não havia mais como retroceder.
Para Sílvia, o papel de amante vinha lhe trazendo sérios problemas emocionais e psicológicos.
Apaixonada, até que aceitou conviver com a situação por algum tempo, mas como as promessas dele de deixar sua esposa e ficar com ela nunca se concretizavam, suas esperanças ruíam e sua tristeza aumentava e Sílvia ficava perigosamente cada vez mais doente e transtornada.
Foram mais de dois anos de sofrimento.
Sentindo-se usada pelo companheiro, seus sentimentos de impotência, aliados ao ciúmes e a degradação moral, alimentavam paulatinamente seus pensamentos de ódio e de vingança.
Entristecida e amargurada, Silvia seguidamente vinha até a minha loja confessar os seus problemas e ouvir os meus conselhos.
Apesar dela estar fazendo tratamento psicológico, eu sabia que, na realidade, as cartas eram apenas mais um pretexto para conversarmos e um paliativo para o seu sofrimento.
A propósito, Sílvia ao final, apesar das injúrias e humilhações por que passou, acabou obtendo a sua vitória pessoal.
Conseguiu fazer justiça a seu modo.
Uma mulher meiga e gentil, aparentemente frágil, mas de um temperamento forte e corajosa.
Fez o que eu também a incentivava a fazer, mas somente como um pretexto para apaziguar o seu coração. Jamais acreditei que seguisse em frente com seus propósitos.
Mas, enganei-me.
Certa tarde, alguns meses depois, Sílvia contou-me no "cantinho" o seu doce sabor da vingança.
Disse-me que entrou com uma ação judicial contra o amante, por danos morais e falsidade ideológica e conseguiu vencer.
No dia da audiência de conciliação estavam todos presentes.
Ari, para tentar safar-se, trouxe sua esposa e seus dois filhos, que vergonha.
A punição de Ari foi pequena, alguns serviços comunitários e alguns constrangimentos que teve que passar, mas que a deixaram feliz.
À seguir, temendo represálias, já que Ari a seguia pelo trajeto, decidiu partir.
Para esquecer o seu "ex-amante" ferido, Sílvia deixou Porto Alegre e voltou a morar perto de sua mãe, no Rio de Janeiro.
Um dia antes de partir, Sílvia veio se despedir e convidou-me para ir visitá-la no Rio de Janeiro.
Disse-me com tristeza, que partiria sem deixar saudades nem amigos, e que eu era a única pessoa sincera em quem confiava.
Caso eu fosse, insistiu:
— Me liga antes de ir Celso, que eu te espero no aeroporto e te mostro o Rio. Você vai ser bem recebido, tanto por mim, quanto por minha família. — disse-me com um triste sorriso.
Mas eu, com outras tristezas, numa vida turbulenta e desordenada, sem saber nem onde guardar minhas coisas, acabei extraviando o pequeno papel em que anotara o número de seu telefone.
Infelizmente, nunca mais tivemos contato.
Ainda lembro-me de Sílvia com saudades e me vem uma tristeza por ela, pelas dores de amores do mundo.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário