quarta-feira, 10 de outubro de 2012

AS PROFECIAS DE HUGO


"As profecias de Hugo chegaram num dia de meu esquecimento.
E se duvidei de suas virtudes e esqueci-me temporariamente de suas palavras, estarreci-me com suas verdades imortais."

Celso Orsini.

                                                       Parte I

Tudo começou em meados de Dezembro, numa tarde de primavera.
Eu andava de carro pelo bairro, quando minha sobrinha Kátia me ligou entusiasmada.
Foi numa tarde comum, daquelas em que não temos nada para fazer, a não ser deixar a vida fluir.
Quando meu celular tocou, jogado ao banco do lado, não ouvi sons de trombetas nem um aviso do além, tampouco uma estrela cadente surgiu rasgando os céus do horizonte.
E nenhum obelisco negro estacou para indicar-me os sinais do que estava prestes a acontecer.
E nem recordo-me para onde estava indo nem o que estava fazendo naquele dia, simplesmente parei o carro no acostamento para ouvi-la falar.
Kátia ligava-me de Curitiba para contar-me as profecias de Hugo.
E, neste momento, desavisado, meu mundo pacato de problemas conhecidos nunca mais se realizou.
O limiar de minhas mudanças psicológicas, o limiar de todas as mudanças drásticas que vivi, sobressaíram-se com a voz ansiosa de Kátia anunciando-me o porvir.
E este novo mundo nascia sem fulgor, sem qualquer tipo de emoção.
Nascia frio naquela tarde ociosa e ensolarada.
E se vim despreparado, vim para saber.
E, apesar das incompreensões que amarguei, agradeço a Deus o que pude saber, os enigmas que decifrei, as alturas que cheguei, apesar de quase enlouquecer.
E se ficaram mágoas e tristezas em meu coração, é porque ainda tenho muito o que aprender.
E faltariam-me palavras para explicar o êxtase desta década que deixo aqui gravada imortal.
Das profecias contadas por Kátia, a que mais me surpreendeu foi a das jovens bruxas.
Uma história de terror, uma assombração.
No início, uma desilusão.
Sempre fui um descrente quanto ao assunto de espirítos vagando sobre a  Terra e, confesso, ainda o sou.
Mas agora, seres espirituais andando de um lado para o outro, como se fossem simples mortais, como se fossem quaisquer um de nós, aí foi demais.
Kátia estava brincando comigo.
Kátia estava brincando de faz de conta com os delírios de Hugo.
Mas eu não estava preparado para ouvir o que ouvi, e esta profecia atingiu-me em cheio, desconcertante.
Atingiu-me como um raio de luz ancestral que vagava esquecido pelos tempos, trazendo-me à tona valores adormecidos do inconsciente coletivo e rompendo paradigmas existenciais, beirando a  crendice dos contos de fadas e das lendas sobrenaturais.
Enquanto Kátia contava-me eufórica suas previsões, entre maravilhado e incrédulo, confesso que decepcionei-me um pouco com Hugo.
Mas loucos são loucos, e eu era bastante louco para os ouvir.
E se a vida criava um desafio, eu a desafiava com minha vida de sonhador.
E esta vida que fermentava dentro de mim, sempre foi maior do que eu.
Nela embutia-se todas as minhas ânsias de realização, de exploração de minhas belezas, de reconhecimento de minha arte e de reencontro com o meu amor.
Hoje compreendo Hugo e entendo suas razões para me falar o que falou.
E relembrando o passado, ainda emociono-me com seus vaticínios e sua perfeição; e, portanto, perplexo, digo sem medo de errar:
Esta foi uma das mais impressionantes, gratificantes e iluminadas profecias que o destino me proporcionou, e das quais tive a honra de protagonizar.

                                                       Parte II

Kátia tagarelava sem parar.
Ansiosa para contar-me as novidades, não me deixava argumentar.
Eufórica, repetia-me constantemente, deixando-me em suspense:
— Tio!... Te prepara!... Você não vai acreditar no que eu tenho pra te contar!
Mas antes, uma história de amor...
Kátia e Hugo conheceram-se pela internet e conversavam "online" quase que diariamente.
Kátia morava em Santa Catarina, e Hugo no Rio de Janeiro.
Com o tempo, uma grande amizade os uniu.
Os dois alimentavam os mesmos sonhos e ideais.
Kátia gostava de jogar o tarô das bruxas e Hugo, sem dizer que linha seguia, fazia suas previsões.
Desgostosa com seu casamento Kátia pediu o divórcio, e os problemas começaram.
Passando por fortes crises emocionais, financeiras e familiares, ela ligava-me seguidamente de Joinville e depois de Curitiba para desabafar.
Entretanto, agora, fascinada com seu novo amigo e encantada com suas previsões, contava-me maravilhas que lhe aconteciam, exatamente como ele previra.
Hugo era vidente e morava na cidade do Rio de Janeiro.
Tinha uma entidade muito conhecida no meio Umbandista e, como me fez prometer, não vou revelar o seu nome.
Quando Kátia me disse:
— Tio!... Te prepara!... Você não vai acreditar no que eu tenho pra te contar!
Sequer imaginava como iria me preparar para ouvir o que ela tinha para me dizer?!
A seguir, num continuum, estarrecido com o que ouvia, sem achar relação alguma com a realidade, minha mente lógica parou de funcionar.
O que Kátia contava-me era inacreditável, totalmente improvável, chocante, para não dizer absurdo.
Kátia brincava comigo.
Neste livro contarei apenas duas das profecias de Hugo, as outras, deixarei subentendidas no curso de minhas histórias.
Infelizmente, como a maioria dos relacionamentos "on line", a amizade dos dois terminou.
Com o divórcio, Kátia mudou-se para Curitiba, para perto de sua mãe e irmãs.
Sem internet em sua nova casa, o alto custo das ligações interurbanas para Hugo destruíram sua renda e tornaram-se impagáveis.
E Hugo, que trabalhava na seguradora de seu irmão, também estava falido.
Conclusão, com a empresa de seu irmão passando por sérias dificuldades econômicas e Kátia sem condições financeiras, as ligações começaram a rarear.
Antes disso, foram quase dois anos de comunicação quase diária.
Mas agora, endividada, com o telefone de casa cortado por excesso de gastos, ela foi perdendo gradativamente o contato com ele.
Desgraça pouca é bobagem, pois enquanto não achamos o fundo do poço e não nos afogamos em nossas desilusões, nossas esperanças não diminuem e a nossa sede não minora.
E a sede e as esperanças de Kátia eram grandes.
Certo dia, sem avisar, Hugo ligou pela última vez.
Sentindo-se responsável pelo alto endividamento dela, para não prejudicá-la ainda mais, decidiu parar de ligar.
Muito chateado, pede um tempo, e desaba:
— Quando as coisas melhorarem Kátia, eu te procuro novamente.
Infelizmente, o mentiroso descumpriu sua promessa, ou então as coisas nunca melhoraram.
Os cientistas bem que poderiam descobrir uma vacina contra a pobreza, pois os economistas brasileiros, por mais que tentem, não a conseguem achar.
Uma vez na praia onde veraneamos, questionei-a do porquê ela também não o procurou mais.
Kátia respondeu-me melancólica:
— Eu estava muito abatida tio, com muitos problemas, você sabe! Então, não sei  por que, eu não quis questionar a atitude dele e resolvi não procurá-lo mais. Fiquei chateada. Eu não esperava isso dele.
— Você não achou errado a atitude dele Kátia? Sumir assim, de repente?
— Eu achei, né, tio! Mas o que eu posso fazer? — e deu de ombros, com um ar pensativo.
Depois deste telefonema, Hugo desapareceu para sempre da vida de Kátia e nunca mais soubemos de seu paradeiro.
Tornou-se um fantasma em nossas recordações, e isto foi terrível.
Mas, apesar de tudo, deixou-nos o prazer indiscutível de contarmos nossas lembranças.
As profecias que descreverei a seguir, foram feitas um pouco antes do término da relação dos dois, no tempo em que eles ainda se comunicavam pela internet.
Profecias que, infelizmente, ele não teve o prazer de vê-las confirmarem-se.

                                                       Parte III                       

A primeira profecia

Pelo celular, Kátia descreve-me as profecias:
— Em uma de suas previsões ele me disse que você vai conhecer muitos bruxos e bruxas, que no devido tempo virão te procurar.
— Que estranho Kátia!
Algo difícil de entender, pensei.
Jamais acreditei em bruxas.
Bruxos, ainda traziam-me a mente alguma relação com seitas afro e religiões pagãs, mas, bruxas não!
Bruxas realmente não existiam.
A perplexidade e a curiosidade tomaram conta de mim, um céptico, ouvindo loucuras de minha melhor amiga.
Comecei a sentir que viajava em um mundo paralelo, e o que é pior, eu estava gostando disso.
Na época, imaginei que talvez pessoas interessadas em cabala ou algum grupo místico viessem me procurar, sei lá.

                                                       Parte IV                 

A segunda profecia

Kátia continua:
— Tio, ele me disse que você vai conhecer duas jovens. Ele me disse que elas não são da Terra. Disse que são bruxas e que você não deve se aproximar delas, viu! Escuta bem!
Elas assumem qualquer forma, são seres espirituais.
Se você conhecê-las, nada do que foi previsto acontecerá.
Ele pediu pra você não esquecer disso! Presta atenção!
"Pronto, a Kátia surtou de vez."
E Kátia relata-me com impressionante exatidão, os momentos do meu encontro com as jovens bruxas.
— À princípio, tio... uma delas — a que irá te chamar a atenção — se apresentará muito jovem e mal vestida... Mas depois tio, não se engane, como numa ilusão de ótica, ela irá se transformando... Ficará cada vez mais velha...cada vez mais velha e bonita... Ela vai estar usando um casaco de lã, que a princípio parecerá velho, mas depois você verá que se enganou... Ela estará calçando sandálias com tiras marrons... E quando você a olhar de perto, quando olhar para as suas mãos... você vai se surpreender. Elas vieram testá-lo tio, cuidado! Ele me recomendou várias vezes para que você tenha cuidado com elas! Vê se não esquece. tá! Disse que quando chegar a hora, você se lembrará do que ele falou! Ele me disse que elas sabem que você é. Sabem que estuda Cabala, e que isto esta interferindo com o mundo espiritual, e que elas não gostam. Disse que vieram te testar, querem saber se você tem poder para vê-las. Disse que elas vivem num mundo paralelo ao nosso e que estão te observando.
— Que coisa mais estranha Kátia! O que ele quis dizer com isso?
— Não sei tio, também não entendi. Mas não custa esperar né! Vamos ver o que acontece! Ele já acertou tantas coisas pra mim, não custa dar um crédito de confiança pra ele. — Kátia estava eufórica e eu atônito.

Obs:  Esta profecia surpreendeu-me pela riqueza de detalhes.
Na época, minha mente travou.
Sem dados razoáveis para compreender suas palavras, não consegui assimilar os seus vaticínios.
Então, com problemas reais para resolver, segui minha vida e descartei as profecias de Hugo, colocando-as temporariamente no esquecimento, em alguma gaveta em meu cérebro.
Confesso que depois desse dia, decepcionei-me bastante com Hugo e com suas estórias; mas, como os acontecimentos provaram, eu estava totalmente errado.
Às vezes, ainda surpreendo-me pensando em Hugo.
Sem entender o seu grande alcance visionário, nem tampouco como conseguiu detalhar em minúcias, situações e visões que só a mim diziam respeito e que aconteceriam muito tempo depois, me surpreendo e me encanto.
A não ser, é claro, que realmente exista um destino.

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