" Se eu tivesse mais coragem e sabedoria, olharia para as flores destes jardins e deixaria que me encantassem mais.
Passaria feliz por estas fragrâncias alucinatórias, deleitando-me com suas belezas perfeitas, vivendo e superando meus medos e imperfeições, amando, pois nada teria a temer."
Celso Orsini.
Naquela tarde ociosa de um dia qualquer, quando Morgana sentou-se num banquinho atrás do balcão da vídeo locadora, apresentou-me o tarô e disse:
— Celso, eu vou ler as cartas para ti!
Mal sabia eu que minha vida estava prestes a mudar radicalmente.
E se naquela tarde ociosa e vazia meus antigos sonhos findaram, é por que eles teriam que findar.
E se estes novos conceitos clarearam o horizonte de minhas aflições e limitações e abalaram os alicerces de meu ego desgastado e ineficaz, não foi proposital.
E se as mudanças, com meu criticismo, atingiram emocionalmente os meus antigos relacionamentos, era porque eles, de alguma forma, já não morriam, porque eu não os deixava morrer, somente por isto.
À partir daquela tarde, num encantamento, um simples jogo de cartas alterou-me o astral e conduziu-me a uma procura incansável e apaixonante por outros valores espirituais.
E foi por esta sofreguidão que sofri e suportei o que vivi, senão teria que reconhecer que enlouqueci.
Só Deus poderá julgar-me os atos.
Só Ele poderá julgar-me as alegrias, as tristezas e a dor, às vezes quase que insuportáveis de se manter, mas que esforçava-me ao máximo para não deixar transparecer.
A iluminação ocasionou-me a renovação dos atos e, consequentemente, a quebra desencadeada de antigos padrões de comportamento e desgastados valores morais.
As mudanças atingiam-me imprevistas e surgiram tão opressivas e radicais que, muitas vezes, procuro-me entre os destroços.
Se, com o tarô descobri a Cabala, com ela, velejei por mares distantes.
Viajei por mundos distantes e fascinantes, desvelando progressivamente os seus mistérios.
Foram tempos de êxtase e de euforia, de estudos diários e estupefatos.
Imaginem eu, um pragmático que sou, envolvido com conhecimentos que sempre considerei impalpáveis por serem divinos.
Inevitavelmente, meu passado teria que esboroar-se num nada de crendices e superstições.
Como gostaria de voltar ao passado e conversar com meu pai.
Dizer-lhe que tudo estava bem.
Dizer-lhe que as crenças por que tanto sofreu e temeu não foram tão reais assim quanto ele pensava.
Que ele poderia ter superado os seus medos e vencido.
Mas, infelizmente, lamentavelmente, já era tarde demais.
Tempos perdidos em vão.
Lamentavelmente, estórias de desconhecimentos do além jaziam sob os escombros da vida.
Agonias passadas em vão.
E eu, com esta tristeza insofismável e com esta saudade persistente e amorosa, seguia arrebatado por novos caminhos, desbravando o meu mundo novo e encantado, desconhecido dos demais.
Inevitavelmente, diante destas novas descobertas, a compreensão filosófica da doutrina cabalística alterou-me a visão da realidade e desamparou-me do mundo real.
Quando conheci a Cabala e compreendi o seu poder infinito, admirei-me.
E admirar-se assim é quase enlouquecer.
E aventurar-me pelo desconhecido como o fiz, sem preparação, é arriscar-me.
E arriscar-se foi a sina de um louco.
Mas havia uma razão inadiável e inquestionável.
E esta razão era eu.
E tamanho foi o impacto psicológico das forças recém descobertas que dissociei-me, e entrei numa luz de tamanha felicidade que não teria medo de olhar para Deus em sua plenitude.
E é incrível dizer isto, mas, nestas épocas de êxtases e de iluminação, eu não teria medo de olhar para Deus.
Mas o tempo não se preocupa com nossos desejos e regalias pessoais, ele segue adiante, matemático, imutável.
Ele não se preocupa com nossas viagens oníricas, nem com nossos conhecimentos.
E muito tempo depois, à alguns anos atrás, para me consolar, olhando para os meus livros amados jogados nas estantes da ferragem, encontrei um deles que melhor descreveu os processos que passei.
E sintonizando com suas palavras, meu ser inculto e sem fé, foi compreender.
O livro foi-me dado de presente por uma parente que desconhecia o seu significado.
Este livro jazia empoeirado na estante há décadas, esperando por um milagre, por um dia que eu desse conta de sua existência.
E quem sabe, neste dia ele ainda estivesse lá com suas explicações.
Este livro intitula-se a "Cabala", de Perle Epstein.Um livro iluminado.
Um escrito de grande sabedoria e lucidez, que trouxe-me à tona algumas respostas dos episódios que passei.
A seguir, um texto extraído do capítulo "O jardim oculto".
Segundo Perle Epstein, estudar a Cabala assemelha-se a entrar num jardim esplêndido, porém perigoso.
Cada portão desse jardim conduz-nos mais fundo para visões alucinatórias, ciladas que ludibriam o viajante incauto em cada volta.
Segundo ele, os sábios judeus previnem a todos, exceto ao homem perfeitamente ético, que se afastem deste lugar
Alertam para o perigo que espera os desejosos de entrar neste jardim.
O peregrino bem sucedido, que integrou seus "eus" psicológicos, éticos e espirituais, continuará até atingir um espaço aberto.
E neste espaço cresce uma árvore frondosa, cujos ramos são compostos por dez esferas de cores diferentes, cada uma representando um "mundo" ascendente, um nível de percepção espiritual.
Ao encontrar essa "árvore da vida", o místico sabe que atingiu o ponto onde está realmente pronto para a escalada.
Os portões o conduziram ao pardes oculto, o jardim secreto, onde cresce a árvore sagrada, que marca sua ascensão a Deus.
Segundo Perle Epstein, os rabinos talmúdicos contam a história de quatro grandes sábios:
Ben Zoma, Ben Abuyah, Ben Azai e o rabino Akiva.
Segundo os relatos históricos, Ben Zoma enlouqueceu, e Ben Abuyah tornou-se um traidor apóstata.
Ben Azai morreu em sua plenitude e Akiva, aos noventa anos, tornou-se uma santo iluminado e um mártir.
Ben Azai "olhou e morreu", pois sua alma ansiava tanto pela sua fonte, que instantaneamente abandonou o corpo físico ao entrar na luz.
Ben Abuyah, cuja confusão mental não tinha sido suficientemente aclarada, olhou, e vendo não um Deus, mas dois, tornou-se instantaneamente um apóstata.
Ben Zoma olhou e enlouqueceu, pois não tinha reconciliado a vida comum com sua experiência visionária.
Apenas o rabino Akiva, o homem de equilíbrio perfeito, entrou e saiu em paz.
Espero que meus amigos gostem das histórias que publiquei.
Descrevo neste livro minhas experiências pessoais e deixo-as para a eternidade.
Liberto experiências incomuns que gravaram-se ao longo do tempo em que a iluminação chegou.
Entrego aos piedosos leitores as críticas e avaliações arbitrárias destes momentos únicos e mágicos que passei e que, com certeza, jamais retornarão.
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