terça-feira, 9 de outubro de 2012

V FESTIVAL DE ROCK DE PORTO ALEGRE



Ano de 2001

Neste ano, soube por um amigo, que a prefeitura de Porto Alegre estava selecionando composições de novos autores para participarem do festival de rock da cidade.
Seriam escolhidas 10 músicas por região.
Destas, as três melhores participariam da final.
O festival seria patrocinado pela prefeitura, cabendo aos músicos levarem apenas seus instrumentos musicais.
Então, sem suporte musical, resolvi aventurar-me e inscrevi-me com a música " A luz do seu olhar", que gravara há alguns anos atrás numa gravadora pequena, de poucos recursos financeiros e profissionais.
No ano de 1999, gravei 14 músicas, num CD intitulado Alma Gêmea.
Nesta época, sem alguém que se interessasse em cantar minhas músicas, tive que me esforçar.
Ensaiei minha voz por um ano a fio, diariamente, todas as madrugadas, até conseguir desenvolvê-la satisfatoriamente.
Mas, voltando ao assunto do festival.
Certo dia, sem esperar, fui notificado pela prefeitura que minha música tinha sido selecionada, e de que iria participar do festival em uma praça do Bairro IAPI, zona norte de POA, com mais 9 bandas de Rock.
Com a boa notícia, corri atrás dos músicos.
Beto, meu velho parceiro musical, prontificou-se a participar, mas, sempre que eu o convidava para ensaiar, ele tirava o corpo fora.
O prazo era curto, menos de 2 meses para o início do festival e preocupei-me com a situação.
Incrível, apesar de tocar grande parte de minha vida em bandas de Rock, não conseguia ninguém para me ajudar.
Do jeito que as coisas andavam, talvez tivesse que desistir.
Através de Beto, consegui o telefone de Patrick, antigo solista do "Beat Som", nossa banda de rock de adolescência em Canoas.
Mas, minha esperanças duraram pouco.
Numa conversa curta, Patrick expõem suas condições.
Disse que tocaria minha música, desde que eu lhe conseguisse um espaço no festival para divulgar sua atual banda de rock.
Expliquei-lhe que seria impossível eu conseguir seus intentos, mas ele foi irredutível.
Contra-argumentou que eu o conseguiria, se o quisesse..
Então, sem saída, contemporizei, dizendo que ia tentar, e não liguei mais e Patrick fez o mesmo.
E isto serviu-me de lição.
Senti-me triste por ter perdido tanto tempo de minha juventude com um egocêntrico.
Mas esta sua presunção apenas confirmou o que Beto e eu já sabíamos.
E a vida me ensinou que a amizade também é uma questão de sorte, e tem pessoas que nunca deveriam ter estado conosco em nossos anseios profissionais.
Se todos os seres humanos fossem mais verdadeiros e menos competitivos, teríamos uma chance maior.
Mas, apesar de tudo, ele sempre foi um bom profissional, tenho que admitir, mas um péssimo realizador de seus sonhos de sucesso, que acabaram em nada como suas vaidades.
Quando caímos no buraco, sempre tentamos levar alguém conosco.
Mas neste buraco de suas vaidades, eu não cairia mais.
Agora era a minha vez, que se danem.
Porém, certo dia, minha ex-esposa, conversando com uma vizinha do prédio ao lado, acabou sabendo que seu filho era músico e tocava teclado.
Surgia uma esperança.
Nesta época, Felipe, tinha 19 anos de idade.
Um jovem muito educado, paciente e inteligente.
E ele que me desculpe por dizer isto, mas casadoiro também.
Felipe aceitou meu convite sem se opor.
Muito responsável, preocupou-se comigo e com o meu desempenho, e propôs-me ensaiarmos em sua casa, quase que diariamente.
Sem outros componentes para nos ajudar na execução musical, Felipe programou a linha melódica no teclado, inclusive a bateria.
Neste tempo, coincidentemente, Lucius aparecia na loja com Cláudio, um amigo do trabalho.
Vendo meu sufoco, Cláudio, um pouco inseguro, propõe-se a me ajudar.
Disse-me que tocava violão, mas que não tinha muita prática, mas se eu quisesse ele participaria do festival para me ajudar.
Sem muitas opções, sua ajuda foi bem-vinda, porém Cláudio acabou me surpreendendo, levou a coisa a sério e mostrou sua arte muito bem.
Emprestei-lhe meu violão Yamaha e começamos os ensaios.
Cláudio tocava com acordes dissonantes e firmes e tinha um ritmo muito bom.
Algumas semanas antes do festival, Aban trouxe-me uma novidade.
Aban era um dos comerciantes mais antigos e conhecidos do bairro, amigo de anos.
Conseguiu, não sei aonde, uma Cantora de Coral para me ajudar no vocal.
Ana era uma morena de meia idade, com uma voz muito bonita, era muito simpática e compreensiva.
No primeiro dia, depois de passar-lhe a melodia da segunda voz, pedi que ensaiasse.
Contrariada, disse-me que Aban tinha lhe dito que ela é quem cantaria a música.
Eu expliquei, já prevendo sua desilusão, que isto seria impossível, visto eu já ter me inscrito na prefeitura como intérprete.
Então, Ana, até que tentou esforçar-se por fazer a segunda voz, mas sem prática em vocais de bandas de rock, não conseguiu encontrar o tom e desistiu.
Depois disso, com o prazo esgotado, e tendo que dar os nomes dos músicos que participariam do festival, finalizei minha procura.
Seja o que Deus quiser.
Felizmente, Beto, em sua vaidade, como sempre brincalhão, apareceu uns dois dias antes do festival para ensaiar, uma hora, no máximo.
Mas eu, como o conhecia muito bem, e sabia de sua capacidade profissional, não me preocupei e confiei nele.
Então, no dia marcado, estávamos lá.
Felipe, Cláudio, Beto e eu.
Reconheço que no dia do festival, acabei dando pouca atenção ao pessoal da banda e, como sempre, dediquei mais tempo aos meus amiguinhos inseparáveis, pois sentia-me feliz com eles.
Em minhas paranoias, temia que Karla, apesar de sua compreensão, viesse a brigar com Samara.
E num momento tão importante de minha vida, descuidei de Beto e Felipe, e desviei meu amor para os jovens.
O interesse de Samara por Lucius era visível e Lucius também mal disfarçava seus sentimentos.
Karla já andava desconfiada, mas hoje sei que não dava a mínima para isso, e não temia a concorrência com uma jovem de apenas 14 anos, o que foi um erro.
Acredito que ela gostava de Samara tanto quanto nós.
Afinal de contas, Samara era apenas uma adorável adolescente.
Mas enquanto esperávamos o início de festival, Beto aproximou-se com dois copos de caipirinha.
— Trouxe uma caipirinha pra ti Celso. Bebe pra esquentar!
— É uma boa! — agradeci.
Depois de um tempo, como o papo furado e as brincadeiras estavam boas, o copo secou.
Quando olhei para o lado, Beto já estava me cutucando com mais um copo de caipirinha na mão.
— Bebe mais esta pra relaxar.
Mas este segundo copo de caipirinha, sem eu perceber, na verdade não estava me relaxando, mas, sim, levando-me para o buraco.
Algum tempo depois entrei no nirvana.
E se não fosse Dimitryus dar um tapa em minha mão e derrubar o copo na grama, acho que ficaria por ali bebendo eternamente.
Esqueci-me do festival.
Quis ficar brabo, mas Dimitryus retrucou imediatamente:
— Celso, é a tua vez! Estão te chamando no palco! Vai logo! — falou irritado.
— Como assim? — atordoei-me com a notícia.
— O festival já começou há muito tempo, Celso...vai... agora é a tua vez!... Vai!
Dimitryus me empurrou.
E pelo modo como gesticulava e botava as mãos na cabeça, deve ter se atucanado também, ou então pensado:
" O Celso é um  louco varrido!"
Quando subi no palco pela íngreme escadinha lateral, todos já me esperavam em suas posições.
Felipe, tenso, passou-me as últimas instruções:
— Tudo bem contigo? — perguntou-me quase sussurrando, sem se mover detrás do teclado, mansamente preocupado, com um sorriso nervoso.
— Tudo bem! — respondi fora do ar.
— Presta atenção ao rolo da bateria, Celso! Vê se não vai errar de novo! — e cantou baixinho o tempo do rolo para eu ouvir e sorriu, decerto estressado, pensando, "aonde eu fui me meter!"
E vocês acham que eu o estava ouvindo bem? Eu estava plainando no céu, tentando encontrar uma terra firme para aterrissar, enquanto repassava a música de memória para não esquecer a letra.
Mas Felipe recomendou-me com razão, pois com o teclado programado, não havia hipóteses para erros no tempo.
No dia anterior, no único ensaio oficial da banda, quando começou com o rolo da bateria, eram tantas as caixas de som que tinham ao redor do palco, que eu, perplexo, saí do ar e perdi o tempo.
Isto virou motivo de gozação de minha parte e de preocupação para Felipe.
Até que foi bem engraçado.
Fiquei tão maravilhado com a potência de som das caixas cedidas pela prefeitura, que esqueci da música e sai do ar.
A impressão que tive, foi a de que o rolo da bateria começava numa das caixas e caminhava pelas outras, deu eco.
E foi bem feito para mim, que gostava de me gabar, dizendo que nunca errei o ritmo em minha vida.
Agora, Felipe, de longe, me fazia um sinal de ok.
Fiquei em dúvida, se ele queria saber se eu estava bem, ou se podia iniciar a música.
Pelo seu ar de preocupação, acho que eram os dois.
Acenei que sim.
No começo da música, estudei o pedestal do microfone como um apoio com que pudesse contar, caso me desequilibra-se, mas não confiei, se eu tonteasse, iríamos os dois para o chão.
Mas em seguida me descontrai e entrei na música.
Alguns minutos foram o suficiente para resgatar todo um passado.
Alguns minutos memoráveis, que significaram a realização dos sonhos de uma vida, de divulgar e cantar minhas próprias canções.
Com um óculos de lentes amarelas, que comprei exclusivamente para o festival, me transportei.
E quando o canhão de luz se projetou em minha direção o mundo se iluminou e amarelou, e não vi mais nada além disso.
Sem Felipe, estes sonhos não se concretizariam.
Sem Beto e Cláudio, eles não seriam tão bons.
Depois disto, Felipe e eu nos tornamos bons amigos, e sinto por ele uma grande afeição e uma gratidão do tamanho do meu coração.
Agradeço também a Cláudio e a Beto, apesar do suspense em que me deixou, pela ajuda e cooperação.
Tempos depois, Lucius pediu demissão do emprego e separou-se de Cláudio.
Cláudio voltou a visitar-me algumas vezes na loja, e depois desapareceu.

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