Parte I
Certa noite, indo fazer minhas compras no Supermercado local, encontrei Morgana pelo caminho.
Fazia algum tempo que não a via.
Por suas incompreensões e insinceridades, decidi afastar-me definitivamente de seu convívio.
Morgana nunca se dignou a me esclarecer alguns assuntos importantes do passado, e também criticava minha amizade como os jovens bruxos.
E nada, e nem ninguém, poderia questionar minha amizade por eles.
Eles faziam parte da família que eu escolhi.
Se alguém tivesse o direito de criticá-los, esse alguém seria eu.
Morgana preferiu manter-se afastada da ribalta e agir como uma ave de rapina, sem contar o juízo impertinente e desarrazoado que fazia do meu estudo da cabala.
Apesar de desculpar-se tardiamente por alguns de seus erros, ainda assim haviam muitas coisas a serem esclarecidas.
Morgana devia saber de meus ressentimentos, pois decerto notou minha mudança comportamental.
Apesar de desconfiar que eu guardava mágoas passadas, mesmo assim nunca teve a coragem de posicionar-se francamente comigo e nunca perguntou-me o que havia de errado.
E com certeza havia um certo receio do que eu pudesse saber sobre ela.
E muitas vezes eu me insinuei em algumas questões do nosso interesse e lhe dei a oportunidade de me perguntar — coisa que ela nunca o fez.
Então, por falta de franqueza de sua parte, ou uma falha de caráter, muitas coisas que eu sabia eu tive que ocultar.
E acabamos nos tornando uns falsos.
E a falsidade é um erro tão imperdoável que se torna digno de perdão.
Quando aconteciam seus erros, ela calava-se.
E eu, por falta de confiança, resolvia calar-me também.
E, por seu orgulho, ela partiu sem saber de coisas muito importantes que aconteciam em seu meio.
E quem perdeu foi ela, irremediavelmente.
São histórias que não contarei aqui, quem sabe um dia, em uma outra oportunidade.
Algumas coisas insinuei-lhe em parábolas e nem sei se ela me entendeu.
Em outras, calei-me, com receio de ser atingido novamente pelas bruxarias pueris, mas lesivas, que partiam do seu meio na época.
Alguma coisa ela deve ter compreendido, pois sempre se mostrou grata a mim.
E tenho que admitir, após estes episódios, algumas correções ela teve que fazer em em seu círculo de amigos, caso contrário, as ações que praticavam trariam riscos aos seus protegidos.
E Morgana sabia muito bem que eu poderia revidar os ataques a altura.
Mas Morgana tinha suas fraquezas, e uma delas era gostar de mim, e isto a fazia submeter-se ao final, caso contrário, manipularia-me também, como tentou algumas vezes.
Quando encontrei Morgana no trajeto do Supermercado, paramos para conversar:
— Oi Morgana! Tudo bem contigo?
— Tudo bem Celso! Que bom te ver! Faz tanto tempo que não nos vemos! Como você está? Você está bem?
— Estou bem Morgana, e você?
— Eu vou indo! Ando preocupada com minha saúde. Você desapareceu Celso! O que houve?
— Eu ando com muitos problemas Morgana. Você sabe! A loja, a incomodações com minha ex-esposa, as fofocas, as agressões por causa do pessoal do grupo, minhas desilusões com Inocência. É muito problema! Eu acabo depressivo e esquecendo o resto dos meus amigos. Mas um dia, quando der, eu apareço por lá. — falei com sinceridade.
— Eu e a Regina sentimos saudade de ti, de nossas conversas, de nossas brincadeiras.
— Eu também sinto saudade de vocês Morgana! Manda um beijo pra Regina! Diz pra ela que quando der eu passo por lá!
— Está bem, nós te esperamos, tá bom! — disse-me ela com aquele seu meigo sorriso.
Morgana ficou pensativa antes de perguntar:
— Celso, eu queria te pedir um favor.
— Qual?
Nós estávamos atrás de uma parada de ônibus, atrapalhando o movimento das pessoas.
Morgana recuou um pouco, parando em frente a uma loja.
— Não sei se você vai aceitar Celso, pois você já me disse várias vezes que não queria mais ensinar Cabala.
— É mesmo, Morgana! Eu não quero mais ensinar cabala. Me cansei! Chega!
— Pois é Celso! Eu sei que sempre te recriminei pelo teus estudos, mas hoje vejo que errei. Me desculpa!
E não acreditei quando Morgana pediu:
— Eu queria aprender Cabala! Me ensina? Me faz este favor?
— Mas, agora Morgana! Depois de todo este tempo?
— Eu sei! Eu sei que errei. Mas eu sinto que perdi o conhecimento. Eu preciso saber mais do que eu sei. Meus conhecimentos não são mais suficientes. Quando o pessoal do meio se reúne para conversar e começam a comentar sobre Cabala, eu me sinto uma analfabeta. Você me ensina?
Eu ainda magoado com Morgana, respondi secamente:
— Me desculpa Morgana, mas eu não ensino mais Cabala pra ninguém! Prometi isto para mim! Não é por tua causa, é por mim!
— Tem certeza, Celso! Nem para mim, que sou tua amiga?
Ao contrário do que sempre fui, e ainda guardando cicatrizes de um passado distante, respondi categórico:
— Nem para ti Morgana! Eu me decepcionei muito com tudo o que aconteceu, com a incompreensão das pessoas. Me magoaram demais. Foi muito difícil. Com a minha ingenuidade, eu me tornei vítima de preconceitos. Me desculpa Morgana, mas eu não quero mais ensinar Cabala para ninguém. Eu preciso me valorizar mais.
Morgana olhou-me entristecida:
— Não te preocupa Celso, eu te entendo! Eu sei o que você passou. Tudo bem! Eu já esperava por esta resposta. Eu sabia que você não ia querer me ensinar mesmo, até comentei com Regina! Mas não custa tentar, né?
— Me desculpa, Morgana, mas não é pessoal. Quem sabe algum dia desses eu mude de ideia, mas por enquanto, não.
Após algumas conversas triviais, despedimos-nos amigavelmente.
Apesar de tudo o que aconteceu conosco, eu sempre gostei de Morgana, e despedi-me entristecido.
Sua insinceridade foi uma grande perda.
Seu reconhecimento chegava tarde demais.
Parte II
Algumas semanas depois, e Morgana apareceu na loja para conversar.
Foi numa tarde de outono, numa época em que eu ainda estava com Inocência.
Quando ela entrou, estávamos reunidos à mesa, na lateral esquerda da Lan.
Morgana entrou sorridente, com aquele seu jeito maternal que tanto cativava as pessoas.
Sentou-se ao nosso lado e começou a conversar.
Primeiro comigo, depois com os jovens.
Senti-me feliz ao vê-la entusiasmada conversando com eles, de igual para igual, sem soberba.
Fui buscar um cafezinho para mim e outro para ela, que fumava e bebia café tanto quanto eu.
Enquanto preparava o café, dei um tempo e fiquei no "cantinho" ouvindo-a falar entretidamente com os jovens.
E digo que me emocionei.
Quando voltei, a conversa continuava animada.
Servi o café para Morgana e não me intrometi, fiquei a escutar.
Morgana estava feliz com as perguntas e os questionamentos dos jovens.
E agradeço a eles está compreensão.
Então, eu senti que todos os meus esforços valeram a pena, que todas as lutas que enfrentei valeram a pena e haviam sido compreendidos por ela, e de que ali não haviam separações, todos eram iguais para mim.
Do meu jeito, eu gostava de todos, independente de suas idades, raças e religiões, e apenas queria que me respeitassem por isto.
E nesse dia, quando Morgana olhou-me, eu senti que ela me compreendeu e respeitou os meus sentimentos por eles.
Nós tínhamos uma grande empatia.
Infelizmente, em todos estes anos, por suas insinceridades e rivalidades, ela deixou de usufruir o afeto que eu e toda a minha família tínhamos por ela.
Vendo inimigos onde não existiam, ela perdeu seu amigos sinceros.
Acredito que neste dia ela veio se redimir de seus erros passados, conversando com os jovens e se libertando de preconceitos.
Esta foi a última vez que nos encontramos.
Alguns meses depois, recebi a triste notícia.
Morgana, caminhando no centro de uma capital turística de outro estado, teve um mal súbito e veio a falecer no local, exatamente como ela previra em seus medos.
Deixo aqui meu abraço de despedida à Morgana e meu pesar sincero por uma amizade que, apesar de tudo, eternizei.
No momentos em que escrevo estas palavras, um som esquisito, parecendo o assobio de um pássaro, ecoou em meu apartamento.
Agora são 4 h e 13 m da manhã.
Levantei-me assustado com a invasão.
Arrepiei-me até a alma.
Verifiquei rapidamente a porta de entrada, a porta do quarto e a janela da cozinha.
Interiormente, eu já sabia que não encontraria o que esperava.
EPÍLOGO
Já faz muitos anos daquele dia em que vi os trés jovens bruxos no mercado da esquina próximo ao colégio de Sara.
Faz tanto tempo que os vi pela primeira vez, mas parece-me que foi ontem, pois jamais os esquecerei.
Hoje, Samara cresceu e tem uma filha muito bonita.
Lembro-me de seu rostinho lindo, de sua coragem e até das roupas que usava no dia em que a conheci.
Lembro-me de sua calças jeans rasgada e de sua ousadia.
Agora, já adulta, com outros afazeres, afastou-se de nosso convívio.
Quando vem me visitar não paramos para relembrar os tempos passados.
Tana casou e vive para o marido, a casa e o trabalho, mas sempre quando pode, vem visitar-me.
Tana sempre esteve em meu coração.
Com nossas divergências nas áreas ocultistas e nossos conflitos emocionais, acabamos aprendendo um com o outro, sem jamais deixar que estes caminhos interferissem em nossa amizade.
Dimitryus anda mais preocupado com seus estudos, o trabalho, e em arrumar uma companheira, do que relembrar seus tempos idiotas de adolescente, segundo ele.
Sua amizade e seu carinho por mim continuam, e sempre quando pode, vem me visitar.
Os trés amigos separaram-se.
Os interesses infantis que os unia se acabou.
Suas crenças em Deuses e Deusas, anjos e demônios, vampiros e entidades, ficaram esquecidas com o tempo, dando lugares a outras preocupações.
Lucius casou e hoje tem um filha.
Muitas vezes nos reencontramos na loja para conversar e, algumas vezes, relembrar os tempos passados.
Vivian sempre vem me visitar, somos grandes amigos.
Samael ficou por uns três anos conosco e separou-se do grupo.
Agora, raramente vem me visitar, mas quando vem, parece que o tempo e a distância deixaram de existir.
Adão separou-se definitivamente do grupo.
Algumas vezes encontro-o pela rua e trocamos um cumprimento cordial.
Ele sempre foi um cavalheiro.
Karla, no dia em que veio se despedir de mim na loja, eu estava no quarto com Inocência, e não fui recebê-la.
Ela e meu irmão ficaram conversando por algum tempo.
Karla sempre foi muito comunicativa, ao contrário de meu irmão, sempre calado.
Antes de sair, Karla mandou-me um abraço de despedida e disse que não voltaria mais.
Eu fiquei ouvindo-a por entre a porta entreaberta do quarto, mas decidi não levantar-me para me despedir.
Não queria que ela conhecesse Inocência e deixei passar um momento importante de minha vida.
Depois disso Karla nunca mais retornou.
Segundo o que contou para meu irmão, e que eu ouvi de longe, ela estava casada e feliz, morando na Zona Sul, longe daqui.
Peter, Rodrigo e Pedro, por enquanto, continuam me visitando e seguindo suas vidas de solteiros.
Pame casou com Felipe e têm um filho lindo, pouco nos vemos.
Inocência, retornou há uns dois anos atrás.
Apareceu um dia na loja, à tarde, com sua filha.
Como receio de não ser bem recebida por meu irmão, ficou esperando-me na calçada enquanto sua filha veio me chamar.
Fomos até o supermercado do bairro fazer um lanche e, depois, caminhando devagar, fomos ao shopping center fazer algumas compras e conversar sobre o passado.
Nos despedimos numa esquina atrás da loja.
Eu ainda dei uma olhadinha para trás, mas não parei.
Fiquei com o seu telefone, mas também não liguei.
Alguns meses depois, acabei jogando fora o papel com o número de seu celular.
Um dia à tarde, tirei o papel que sempre levava no bolso de minha calça e fiquei olhando-o por alguns instantes, vacilante; mas, não sentindo mais sua energia, entristecido, enterrei o meu passado e joguei-o no lixo, sem remorsos, para evitar cair em tentação de ligar novamente.
Depois deste reencontro, nunca mais a vi.
Jorge, com o tempo, pediu-me desculpas pelo seus erros, mas devido a gravidade dos acontecimentos, resolvi não reatar nossa amizade.
Ainda nos vemos, mas pouco conversamos.
Mas a vida continua e como os fatos alteram-se rapidamente, resolvi parar por aqui.
Escrevi para manter as lembranças e deixar, principalmente para os jovens, uma recordação destes tempos e, também, para encerrar uma capítulo de minha vida.
Meus agradecimentos e meu amor a todos os que compartilharam comigo, desta louca e aventureira jornada.
E a vida segue seu rumo, e os acontecimentos se modificam rapidamente.
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