Parte I
Peter estava com 17 anos de idade.
Cabelos castanhos escuros e longos, e olhos castanhos escuros, estatura e compleição média.
Era, segundo a opinião de alguns amigos e de suas fãs, o mais bonito de todos.
Apesar das confusões em que me envolveu, nunca me arrependi de tê-lo deixado entrar para o grupo.
Pelo contrário, acertei em minha escolha, pois hoje somos grandes amigos e tenho por ele uma grande afeição.
Apesar de ser um jovem muito seletivo em seus relacionamentos e um tanto reservado, sempre foi fiel aos seus amigos e aos seus propósitos de vida.
E sei que, apesar de suas traquinagens, sempre foi uma pessoa de bom coração.
Peter, nesta época, estudava no mesmo colégio de Adão e não sei como se conheceram, e por mais que me explicassem, minha memória já um tanto esgotada, não gravou tais informações.
Conheci-o de forma inusitada.
Numa certa tarde ensolarada de um domingo eu estava depressivo.
Eu e Jorge conversávamos atrás do balcão da ferragem, quando Peter apareceu.
De supetão, ele parou em frente a loja com um ar sério e desajeitado.
E falou comigo como se estivesse testando sua coragem:
— Posso falar contigo?
— O que você quer? — perguntei já irritado.
Neste dia, eu estava num mal dia, ele me pegou atravessado.
Neste dia eu andava avesso a essa gurizada neurótica e prepotente, cansado de suas pecuinhas.
Juntando as pressões que sofria de minha grande família, mais as brigas lá em casa, junto com as discórdias e choradeiras que ouvia dos jovens do grupo quase que diariamente, eu ia ficando cada vez mais debilitado.
E nesta época, o vírus do amor propagava-se pelo ar do meu ambiente como uma praga e contagiava a todos.
Minhas refeições, muitas vezes resumiam-se a um ovo cozido, muitos cafezinhos e cigarros, e dormia muito pouco.
Nem sei como sobrevivi assim.
Acredito que Deus, em todos estes tempos de sedução, nunca me desamparou, pois não adoeci um dia sequer.
Jorge, que sempre considerei um neurótico de guerra, nesta tarde estava calmo e calado, e só para me contrariar, não se intrometeu.
Ele apenas olhava-me com aquele seu sorrizinho idiota e safado; o demoniozinho divertia-se as minhas custas, pagava pra ver.
Ora olhava para mim, ora para o rapaz.
Enquanto isto, Peter, inocentemente — o coitadinho — incumbido de sua difícil missão, corajoso, em tom seco e baixo, respondeu-me à indagação:
— Me pediram pra te entregar esta carta.
Me estendeu a mão sério e entregou-me a carta.
E por ali ficou, esperando não sei o que, com uma cara de não sei o que, talvez pronto para o que desse e viesse.
Mais um guri cara de pau, pensei, não acredito!
Irritei-me:
— Mas que carta é essa? Quem mandou? — já fui me estressando, sem saber como o tratar e com o que me preocupar.
— Não sei, só me mandaram te entregar! — respondeu sério, o rapazinho.
Peguei a carta e quando comecei a lê-la, enfureci.
Mal iniciei a ler as primeiras linhas e já explodi:
— Mas que merda!
Pronto! Lá vinham de novo minhas explosões temperamentais nascendo incontroláveis.
Sem conseguir me conter, dirigi-me à Jorge:
— Olha só Jorge! Olha que cara mais imbecil! Olha que guri mais idiota! Olha só o que ele escreveu!
E totalmente desconcertado e estressado até para ler, comentei em voz alta o que o amigo de Peter dizia-me na carta.
E ao mesmo tempo em que lia, xingava Peter:
— Que imbecil!
Descontrolei-me e ceguei:
— Ivan? Quem é esse idiota do Ivan? Nem conheço esse cara! O que esse filha da p...quer comigo?...
Alguns intermináveis minutos depois de muitas broncas temperamentais e de minhas explosões e repetições sem fim, Jorge, impassível, intercedeu e me apaziguou:
— Te acalma, Celso! Isto são coisas de adolescentes! Eles não estão fazendo por mal! Eles sabem que todo mundo vem aqui. Sabem que a única maneira de atingi-los é te atingindo! Te acalma!...
Jorge, quando as confusões se armavam, sempre era uma pessoa muito sensata, ou quem sabe hoje ele não estava num daqueles dias, que, como sempre dizia: "calmo com um furacão"?!
Vai saber!
E no final, quem sempre pagava o "pato" era eu.
Depois desta tempestade, depois que toda a m...aconteceu, o neurótico fui eu.
E, como se Jorge não tivesse entendido muito bem o que eu li na carta, polemizei:
— Mas o cara disse na carta que ia tocar fogo na minha garagem, Jorge! Como se a minha loja fosse uma garagem! Mas que filha da p... — retruquei indignado.
— Te acalma Celso, é só criancice! Quem sabe o que está acontecendo agora, não está querendo lhe dizer alguma coisa para o futuro, que hoje você não compreende?
Jorge sempre foi um sábio e um místico safado.
Pensei: "Que papo mais furado! Pimenta nos olhos dos outros não arde, né!"
— Mas o cara me chamou de Buda magrão, Jorge! O idiota me chamou de Buda magrão! Que merda meu! Que guri mais idiota!
— Ele não fez por mal, Celso. Ele não vai lhe fazer mal nenhum, não esquenta. O problema deles é com o grupo, não é com você... se acalma!
"Que coisa estranha! Jorge, conciliando?!
Eu não merecia isso, ninguém merece isso... Que droga! — me chateei.
Mas Jorge conseguiu me apaziguar.
Então, entre incrédulo com os acontecimentos, indignado com Peter, e desconfiado dos conselhos de Jorge, na dúvida entre o que fazer, num impulso, devolvi a carta a Peter, pedindo-lhe que não o fizesse mais.
E passei-lhe um sermão daqueles, que só terminou quando o oxigênio queimou.
Peter, que ouvia-me calado, estava com a mesma cara de pau com que chegou, reafirmando que não sabia o que estava escrito naquela carta, e que só fez o que Ivan lhe pediu para fazer.
Decerto era um guri bem mandado.
Quando Peter foi embora, ainda preocupado, questionei meus receios com Jorge:
— Mas o cara disse que ia tocar fogo na minha garagem, Jorge! E se ele fizer o que prometeu? O que vai acontecer? Vai destruir minha loja? Vai acabar com o meu trabalho e vou deixar por isso mesmo?
— Ele não vai te fazer nada, Celso! Eu te garanto! Eles são uns jovens inconsequentes. Perdoa eles, esquece o que aconteceu. — e Jorge, vai entender a figurinha, estava calmo e apaziguador.
E depois disso, até que compreendi Peter, pois também já fui jovem um dia, por mais incrível que isto possa parecer aos ignaros.
Para mim, parecia-me que foi ontem, mas para eles, imagino, deveria ter sido há muitos séculos atrás, ou quem sabe, já nasci um velho, os desfraldados.
Vai entender estes capetinhas do inferno!
Mas agora, chamar-me de Buda magrão, era demais.
— Vão se f... — e as labaredas alcançavam as alturas.
Esta minha geniosidade!
Mas como a bola da vez era eu, não adiantava chorar.
As experiências por que eu estava passando eram novas para mim e fiquei um pouco temeroso com as ameaças de Ivan, à princípio, pois depois resignei-me com os fatos, e aceitei estas tolas brincadeiras as minhas custas.
Hoje, recrimino-me por minhas atitudes, e arrependo-me de meus descontroles histéricos e, principalmente, por ter devolvido aquela maldita carta a Peter.
Hoje esta carta seria um testemunho pessoal, uma comprovação histórica de fatos inesquecíveis para mim.
Eu teria uma assinatura de Ivan, uma desforra, uma confirmação inquestionável de suas idiotices, contra as quais eles não poderiam negar.
E quando viessem tirar uma "onda com a minha cara", como fizeram várias vezes, ela estaria guardada comigo para eu os relembrar de suas molecagens.
Guardo esparsas memórias do conteúdo desta carta, sem exatidão em suas palavras.
Mas, numa delas, numa de suas frases memoráveis, Ivan dizia que "ia ter um papo cabeça com o guru" e por aí afora.....coisas mais ofensivas.
Ivan menosprezava-me em sua soberba juvenil.
Sentindo-se rejeitado pelo grupo, para se incluir, ou melhor, para se destruir, desrespeitava os mais velhos e agredia a quem sequer o conhecia.
Um ego insuflado de um jovem preconceituoso, um idiota.
Mas alguns seres humanos são assim, já nasceram sem noção alguma de valores morais, sem noção da realidade e de sua estupidez, de sua sina.
Já nascem remando contra a maré estes diabinhos.
E isto é apenas um desabafo, críticas momentâneas, que jamais deveriam servir para julgar o caráter de alguém.
E jovens são jovens, e nós viemos aqui para aceitar e brincar.
E a vida é sempre assim, temos muito o que aprender.
Então, em minha imaginação afetada, eu me visualizava um velho magricela sentado num trono, ouvindo as inocentes criancinhas de Deus dizendo-me suas besteiras prepotentes e divinas.
"Será que Deus agora estava criando demônios impúberes por aí?! Só me faltava essa!"
Que vergonha. Que triste figura me tornei. Que triste esteriótipo passei.
Chateei-me com a imagem que faziam de mim.
E nestes tempos eu apenas queria viver minha vida em paz e ser feliz, não imaginava que pudesse estar atraindo pessoas assim, vindos de escolinhas infernais que se formavam por aí.
E nesta tarde ensolarada de domingo, minha tristeza aumentou e, junto com a solidão, me abraçou.
O destino interferia novamente.
Parte II
Peter apareceu numa época em que o pessoal grupo começava a se separar.
Samara já estava namorando Lucius e, para o meu desprazer, passava os dias com ele no Bar.
E eu, acostumado com sua convivência, andava triste.
Muito raramente ela vinha me ver, e sua ausência era quase que insuportável de se manter.
Um dia, totalmente desesperado, liguei para ela implorando para que viesse me ver.
Ela me disse que estava em casa lavando os pratos e que assim que terminasse de lavá-los, viria me ver.
Pediu para que eu me acalmasse.
E, ao longe, eu ouvia o barulho dos pratos e da água escorrendo pela pia.
E ela veio de tarde, depois do meio-dia, escondida de Lucius, às pressas, me visitar.
Trazia um flor em suas mãos e ficou por pouco tempo, mas o suficiente para eu me acalmar; e eu me senti feliz, indescritivelmente feliz.
Tana, também aparecia muito pouco.
E meu coração quase não suportava sua ausência também.
E Tana, com sua distância, fazia-me sofrer.
E o resto do pessoal também trocara minha loja pelo bar de Lucius.
Consecutivamente, as brigas em casa aumentavam e eu sentia-me cercado, não havia mais como retroceder.
Magoado com todos, eu erguia minhas barreiras, ou quem sabe eram eles que erguiam seus muros para não me ver e compreender.
Nestes tristes dias, apesar da companhia de Jorge, eu andava infeliz.
Parte final
Mas a rixa que os jovens me incluíram, não terminou por aí.
Alguns dias depois, Peter retornou com Ivan.
E Jorge e eu, como sempre, dois tagarelas desocupados e mal-amados, conversando atrás do balcão da ferragem.
Quando vimos os dois se aproximando, caímos no silêncio.
Confesso que fiquei temeroso.
Ivan chegou impaciente, jactancioso, o peito estufado.
Em vez de me cumprimentar, a primeira coisa que fez foi perguntar por Samara:
— A Samara está aí?
— Não, não está! — receei.
Avaliei minhas possibilidades defensivas.
O rapaz chegou ameaçador.
Decerto jogou o maldito respeito em alguma lata de lixo por onde passou.
Mas ele tinha um físico avantajado e me assustei.
Ele fazia questão de mostrar sua força, parecia um galo de rinha.
E ainda bem que não tirou sua camisa para se mostrar; felizmente nos poupou de mais esta visão aterradora.
Estufando o peito enquanto falava, inquiriu ameaçador:
— Onde ela está? Eu quero falar com ela!
— O que você quer com ela? — perguntei coagido.
— Eu vou quebrar a cara dela! Ela andou falando mal de mim! Agora ela vai ver! Vou bater nela!
— Como assim, vai bater nela, o guri?! — perguntei atônito, precavendo-me do descontrole. — Você não pode bater numa mulher, meu!
— Bato nela e em quem quiser defendê-la! Não tenho medo de vocês! — e olhou-me com cara feia.
"Putz! Que baixaria!"
Jorge, que era metido a valentão nas horas vagas, ficou calado; e eu, que nunca briguei em minha vida, senti-me com os sintomas de vítima.
Me vi como carne moída.
Então, como a vida prega suas peças — seriam dois coroas sedentários, azarados e enferrujados, enfrentando um porra louca de um adolescente valentão.
As vantagens não estavam a nosso favor.
Mas nós tínhamos a inegável experiência da idade, o que em algumas situações não serve para nada; mas eu confiava em Jorge, mas o f...da p... do Jorge não falava nada!
— Olha meu, ela tem namorado! — ameacei esperto, um pouco temeroso.
— Bato nele também!
Puta merda! Este cara andava brabo mesmo; e de um lado para o outro, com os braços abaixados e o peitos bem estufados, queria brigar.
Jorge, com todas as técnicas de lutas que me ensinou, dizendo-me que era só dar um soco bem dado no pescoço do agressor que botava ele para dormir, se ele não conseguisse respirar é claro; agora, só para me contrariar, estava calmo e calado, não se mexia, só olhava.
Minha esperança era a de que ele se comportava assim para se concentrar, para usar as suas técnicas, caso precisasse.
E eu, de tão nervoso que fiquei, comecei a irritar-me:
— Ela está lá no bar, guri! Vou chamá-la! Mas antes te digo uma coisa, meu! O namorado dela é muito forte, tô te avisando!
— Pode chamar ele, bato nele também! — repetiu o fanfarrão.
Putz...Aí eu me indignei, e avisei.
Tentei minar sua altivez:
— Meu...você é um cara bonitão... saudável... tem todos os dentes na boca. Por que você vai querer brigar com Lucius?... Eu conheço ele, meu! Ele é um cara muito brabo e descontrolado. E ele vai te quebrar todo. Ele não vai conseguir parar.
— Eu não tenho medo dele! — respondeu Ivan desinchando um pouco.
Agora eu senti um leve tom de receio em sua voz; ficou inseguro com minhas palavras e eu aproveitei:
— Eu estou te avisando rapaz! O Lucius vai te quebrar todo. Ele não vai deixar você bater na namorada dele! Nem pensar! Ele vai ficar enfurecido, e eu não me responsabilizo pelo que possa acontecer! É melhor você ir pra casa! Acho mais saudável para você continuar com todos os dentes na boca.
Enquanto isso, Samara, que a tudo assistia, pressentindo que a confusão armada era por sua causa, aproximou-se para tomar satisfações.
Samara também era uma sacana, gostava de provocar.
E eu digo com certeza, Ivan não sairia vivo dali se por acaso tentasse tocar nela.
Lucius, vendo-a afastar-se do bar e vir em nossa direção, sem saber o que estava acontecendo, se aproximou.
Enquanto isso, Samara e Ivan já trocavam acusações em frente à minha loja.
Ele, dizendo que ela o difamou pela internet e ela negando.
Disse que ela o chamou de viado, mas ela negou tudo.
O estranho é que Samara negava a tudo, mas sempre com um sorrisinho maroto que parecia divertir-se com a confusão.
Lucius olhava para os dois, e sem entender nada, me olhava arqueando os ombros e gesticulando os braços.
Eu lhe devolvia o sinal, insinuando que também não estava entendendo nada.
Então, no disse que disse entre os dois, a discussão terminou num impasse.
Ivan, que era um valentão, mas não era burro, esperto, sentiu a maldade e a tensão ao redor, e suavizou.
Para não se dar mal, contemporizou e resolveu ir embora.
Os dois acabaram confraternizando, e os mal-entendidos desapareceram rapidamente, já pareciam velhos amigos.
E eu, apesar de ser contra a violência, confesso que alimentei um certo prazer.
Gostaria de ver Ivan levando uma surra daquelas de Lucius; ele merecia isso, era um guri muito arrogante.
Até hoje não sei se Samara teve alguma culpa no incidente, o que sempre negou.
Mas Samara era muito sapeca, gostava de aprontar.
Ou, quem sabe Ivan não tivesse vindo tomar as dores de Adão, seu amigo, que perdera sua namorada para Lucius?
Nunca saberei.
Depois disso a vida voltou ao normal.
Ivan, para o bem de todos, talvez envergonhado com sua atitude ou por medo das consequências, pois Lucius jamais o deixaria tocar em Samara, nunca mais apareceu.
Também, não sei exatamente como Peter entrou para o grupo.
Sei, que algum dias depois, ele veio até a loja para se desculpar.
Depois disso ficamos amigos.
Mas, com ele, viriam outros....entre eles, Rodrigo e Samuel.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
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