quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O CANTINHO



             * Os temores que conhecemos
                São os de não conhecer. O cair da noite virá trazer-nos
                Alguma ordem medonha — Abra uma loja de ferragens
                Numa pequena cidade... Ensina ciência a vida inteira a
                Meninas progressistas — ? Está ficando tarde.
                Seremos chamados algum dia? Somos simplesmente
                Não desejados para nada?
   
                                        W. H. Auden — A idade da Ansiedade
           

No ano de 1.984, após uma desastrosa aventura comercial em Blumenau/SC, meu irmão e eu, desgostosos, retornamos a Porto Alegre.
Aportamos falidos, sem quaisquer condições financeiras para reabrir um outro negócio.
Atordoados com o fracasso de nossa empreitada em terras distantes, ainda desanimados, ficamos a deriva.
Nestes tempos de tristezas e incertezas, nossa mãe, para nos socorrer e auxiliar, veio nos incentivar a prosseguir.
Com seu apoio financeiro otimista e complacente, depois de algum tempo de desesperanças, a fé retornou, e, corajosos, decidimos reabrir um novo negócio na capital e trabalhar no que sabíamos fazer.
E tudo começou assim.
Abrimos uma pequena loja de consertos de aparelhos eletrônicos no bairro onde eu moro.
À princípio tudo bem.
Com laminados de madeira dividimos a loja pequena.
Na frente recebíamos os clientes e na parte de trás fazíamos os nossos concertos.
Passados dois anos improdutivos e cansativos, como o dinheiro ainda era pouco, decidimos incrementar os negócios.
Fixamos um expositor na parede esquerda da loja e começamos a montar a nossa ferragem.
Nos ganchos pendurávamos produtos encartelados, basicamente materiais elétricos e utilidades, tais como buchas e parafusos.
Como ninguém é louco ou bobo para perder o pouco que tem, sem quaisquer conhecimento do ramo, nos aventuramos aos poucos.
Logo a seguir, compramos um novo balcão de vidro para expor as mercadorias e fomos nos especializando.
Apesar das perdas por gerências inaptas, este novo conceito começou a dar certo.
Aos fundos, conjugado ao banheiro, há um pequeno espaço, com 2 m e 13 cm de largura por 74 cm de profundidade.
Com o crescimento dos negócios, neste pequeno espaço vazio, construímos um pavimento de madeira.
Acima do teto, feito de madeira bem forte, alicerçado por seis grossas vigas, colocávamos o estoque de mercadorias e, abaixo, para clarear o ambiente, uma lâmpada no centro da construção e uma outra na viga externa do meio.
Seguindo nossas metas, com o crescente das vendas, encerramos os cansativos e paupérrimos concertos eletrônicos e partimos para solidificar o nosso negócio.
Anos depois, com o sucesso explosivo de locações de filmes em fitas VHS, arriscamos.
Com os dólares economizados no tempo, compramos o ponto da sorveteria ao lado e abrimos a nossa vídeo locadora no local.
Por sorte, e por divagações econômicas, acertamos em nossa escolha.
Compramos as nossas primeiras fitas de vídeo um dia antes do congelamento de preços e da poupança no Brasil, (Plano Brasil Novo ou Plano Collor), promulgado pelo então presidente eleito Fernando Collor de Mello, em 16 de março de 1990.
Lembro-me que, no sábado, um dia anterior a posse do eleito, comentei com meu irmão que acreditava que "eles", depois de tantos planos econômicos que ocorreram ao londo do tempo, sem outras alternativas, iriam modificar o nosso dinheiro, e que ele perderia totalmente o seu valor.
Meu irmão, preocupado com o nosso futuro financeiro, concordou com minhas especulações.
Na verdade, afora a coragem para acelerar o processo, não tínhamos nada a perder.
E acertamos em nossas divagações filosóficas e fomos mais espertos do que eles, até onde deu, é claro, pois ninguém é mais esperto do que eles, ainda mais num plano em que, segundo a mídia e a oposição, matou milhares de velhinhos do coração e deixou desamparados outros tantos aposentados que tinham suas poupanças pelo Brasil.
A desgraceira, a choradeira e a pressão dos bancos, e o jogo político foi geral.
Mas, nós, tivemos sorte.
No mesmo dia, à tardinha, após uma rápida confabulação com meu irmão, corri para uma loja do shopping center do bairro para comprar as nossas primeiras fitas de vídeo.
E paguei com cheque.
Se adivinhamos a artimanha do poder, imaginem os experts, os economistas e os amigos do status quo.
Quanto não devem ter ganho com estes planos econômicos.
Não é a toa que muitos ficaram ricos neste país.
Os novos ricos que ninguém sabe de onde vêm.
Nós nos ferramos com as mudanças econômicas, mas ferramos a loja que nos vendeu as fitas de vídeo também, pois segunda-feira, como havíamos previsto, o dinheiro havia perdido totalmente o valor.
Segunda feira, num desespero falimentar, uma funcionária da loja nos ligou tentando negociar a troca de nosso cheque por dinheiro novo, mas teve que desistir.
Que tristeza infiel.
Não tínhamos este dinheiro novo.
Ninguém tinha este dinheiro novo.
Na troca da moeda, ficamos com a merreca.
A perda foi para todos, não havia o que negociar.
E o que foi a bancarrota para alguns, foi a sorte e a felicidade para uns.
A vida no Brasil sempre foi assim.
Foram tantos planos econômicos que vivenciamos pelo tempo, que viramos apostadores do imponderável.
E meu irmão e eu nunca fomos jogadores, mas num mundo de espertos temos que nos avivar.
E este plano econômico, graças a Deus, nós conseguimos prevê-lo antes de chegar, sorte a nossa.
E nesta época de revoluções tecnológicas e sociais eu sequer era um vidente e nem conhecia o tarô.
A voz do povo é a voz de Deus, diz um velho ditado popular.
E nós elegemos o Presidente.
Mas Deus devia andar cochilando por estes tempos, porque, até hoje, ninguém sabe bem o que aconteceu.
E, Deus, segundo alguns otimistas, sempre esteve ao lado dos pobres e oprimidos, nunca ao lado dos ricos ou dos que detém o poder.
Mas alguma coisa saiu errado.
Não fomos tão espertos assim quanto pensávamos, pois do outro lado nos roubaram também.
Mas já desconfiávamos disso.
Sorte demais, até o santo desconfia.
Com o plano Collor, os juros praticados no Brasil iniciavam-se espoliativos e ilegais, e as dívidas amontoavam-se impagáveis.
Quase nos ferramos.
Começamos a dever a alma para os bancos.
Putz!
E Deus não teve nada a ver com isto, graças a Deus.
Na parede lateral contígua às lojas, fizemos duas aberturas para comunicação.
A primeira, próximo a entrada, com 54 cm de largura por 90 cm de altura e a segunda, aos fundos, com 52 cm de largura e mesma altura.
Com o passar do tempo, com mais de 2000 fitas de vídeo em acervo, invadimos os espaços vazios do cantinho e colocamos prateleiras de madeira em toda a sua extensão, reorganizando as fitas que já não cabiam mais nas prateleiras da vídeo locadora.
No lado esquerdo do cantinho, em duas prateleiras maiores, colocamos um rústico fogão de duas bocas, uma cafeteira e alguns utensílios.
Na parte de baixo, um forno de microondas.
E tudo foi sendo feito aos poucos, pois pobre é assim, vai fazendo tudo aos poucos.
E, nesta época, Morgana, que morava quase em frente as lojas, passava os dias conosco.
Desocupada, sempre vinha nos visitar.
Não sei em que tempo destas mudanças Morgana sinalizou-me o destino e apresentou-me o tarô.
Sei apenas que, empolgado com minha nova paixão, decidi criar um lugar especial para eu estudar e jogar o tarô.
Nesta época, um "amigo" nosso, que morava em frente as lojas e que prestava serviços de consertos para os clientes da ferragem, se prontificou a ajudar.
Divagando sobre minhas pretensões de vidente, disponibilizou-se a fazer uma mesinha baixa para minhas consultorias.
Não sei o porquê minha ex-esposa comprou uma cadeira preguiçosa para eu jogar, talvez para nivelar-me com a mesa.
Demorei a adaptar-me com a posição, pois a mesinha era muito baixa e a cadeira preguiçosa entortava minha coluna.
Mas, após algum tempo de insistentes dores nas costas, acabei me acostumando com as adversidades e gostei do clima exotérico.
Em continuidade, com a revolução tecnológica, tivemos que substituir as fitas de vídeo por DVDs.
O mundo transformava-se rapidamente.
Com a venda de fitas ultrapassadas as prateleiras começavam a se esvaziar.
Reaproveitando os espaços vazios, amadoristicamente, comecei a colocar alguns adereços que comprava ou recebia de amigos ou familiares.
Nestes momentos, imperceptível, o destino tramava sua teia.
Morgana vendeu-me a espada mágica, que tenho até hoje.
E nas minhas visitas às lojas esotéricas em que trabalhava, eu comprava a esmo, ou por indicação, quaisquer enfeites para embelezar o meu pequeno espaço místico.
E, depois, num encantamento, comecei a comprar o que me atraía.
Ao longo do tempo, nas prateleiras vazias do cantinho, coloquei várias estatuetas de bruxas e alguns poucos magos que encontrei pelo mercado.
Lucius presenteou-me com um dos seus.
A espada mágica continua fixada até hoje na viga do meio, encostada a parede.
As espadas menores foram distribuídas ao acaso.
Tenho a cruz ansata, vários pentagramas e outros símbolos, bem como porta velas, porta incensos, e por aí afora.
E, com o tempo, ganhei muitos presentes.
Futuramente, as madeiras cruas do cantinho foram pintadas de verde.
E ele foi separado do resto da loja por uma cortina vermelha que minha ex-esposa fizera para mim e que, compassivamente, meus jovens amigos ajudaram-me a redecorar.
E é neste lugar que guardo os meus livros esotéricos, os oráculos e minhas anotações.
E é este lugar que presenciou a minha trajetória ensandecida e o meu êxtase espiritual, que dividiu o meu mundo entre o antes e o depois.
Que acompanhou a destruição de minhas torres, solidamente estabelecidas, desde aquela noite predestinada de Dezembro, e observou em detalhes o rio flamejante por onde passou a minha desesperança.
E é por ele que nutro um grande carinho, uma lembrança imortal, uma dedicação especial e uma saudade precoce de um tempo que se desvanecerá.
E era onde costumávamos nos reunir.

               *  The fears we know
                   Are not of knowing. Will nightfall bring us
                   Some awful order — Keep a hardware store
                   In a small town... Teach science for life to
                   Progressive girls — ? It is getting late.
                   Shall we ever be asked for? Are we simply
                   Not wanted at all.

                              W. H. Auden,  "The Age fo Anxiety."
       

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