Quando Deus se manifesta... muitas vezes ele vem sem alarde...simplesmente nos mostra o caminho e sussurra...
— Você quer isto para você?
E nossa mente pode até duvidar, questionar...mas o nosso coração enlouquece de amor.
Celso Orsini
Era uma tarde tranquila de um final de verão.
Minha esposa e eu estávamos na vídeo locadora sem ter o que fazer.
Morgana entrou empolgada, fazendo cara de mística.
Vinha empinada, trazendo novidades, com aquele seu jeito amoroso que tanto nos cativou.
Em suas mãos um livro e um maço de cartas.
Sentou atrás do balção e calmamente me explicou:
— Celso, eu vou ler as cartas pra ti!
Eu desconfiei de Morgana.
— Umm...não sei não Morgana! O que é isso?
— Isto é um tarô! Vou te ler o futuro. Está bem? Espero que goste!
Fiquei curioso:
— Tá bom! Pode ler!
Mas logo em seguida, pensando melhor, me precavi:
— E se aparecer alguma coisa ruim? O que eu faço?
— Se aparecer alguma coisa ruim eu não te falo, tá! Não precisa ter medo. — e sorriu amavelmente, como uma profissional.
E, sem rodeios, com ares de vidente, me acalmou num suspense.
Mas eu me assustei.
— Ah, não!...Espera aí Morgana! Assim não dá! Não sei não! — tasquei receoso.
Morgana olhou-me desprezando e, intrigada, avaliou-me.
Até quis se azedar, mas como viu que eu titubeava com sua oferta, sem saída, teve que negociar.
Morgana me conhecia muito bem.
Então, com meiguice, adoçou sua voz e insistiu:
— Ah, Celso!... Deixa de ser bobo! Deixa de ser medroso! Deixa eu testar as cartas contigo?... Deixa de ser bobo, guri!
Pronto, Morgana me convenceu.
— Tá bem, então! Mas olhe lá, hein! Olhe lá o que você vai me dizer?
— Está bem! Não te preocupa. — disse ela.
Pomposamente, colocou as cartas encima do banquinho que busquei para facilitar e começou a jogar concentrada.
Dava gosto de ver.
Morgana parecia realizada.
Eu fiquei de pé atemorizado.
Mas que surpresa!
Enquanto lia o meu destino, de vez em quando, ela pegava o livro do colo para consultar.
Lia-o de esguelha, não querendo que eu o bisbilhotasse.
A princípio, temi pelas suas adivinhações temerárias, mas aos poucos, no transcorrer da leituras, perdi o medo e me empolguei.
Fui pegando o gosto.
As cartas de tarô, até este dia, nunca tinham me chamado a atenção, e eram totalmente indiferentes para mim, sequer sabia que havia literatura a respeito.
Então, a partir daí, esperto, desconfiei das atitudes secretas de Morgana, e a curiosidade bateu forte.
No término das leituras, a seu contragosto, pedi que me mostrasse o livro.
Ela até que quis relutar, mas eu o tirei de suas mãos rapidamente, folheei algumas de suas páginas e memorizei o seu nome.
Interessante, em cada página, um breve resumo de cada carta e palavras-chaves para a sua interpretação; era só jogar e ler.
Minha mente, ávida por conhecimentos, interessou-se.
"E se houver alguma ciência nelas?" Pensei excitado.
Quando comentei o assunto com meu irmão, ele também se interessou.
Depois deste dia, numa atração irresistível, decidi comprar o tarô de Marselha e o seu livro.
Na verdade, no transcorrer do tempo, acabei comprando muitos outros tipos de tarô e outros livros também.
No início, o Tarô Mitológico foi o meu preferido.
Eu gostava de seus desenhos auto-explicativos, que achava bem mais fáceis de interpretar.
E a mitologia grego-romana era um conhecimento que eu trazia da adolescência.
Então, sempre quando ia escolher alguns livros, eu comprava a esmo os mais didáticos e baratos.
Isto durou algum tempo, pois cansei-me de suas repetições, sem nenhum conteúdo.
Então, decidi investir numa literatura mais pesada e comprei o livro "O Tarô Cabalístico", de Robert Wang.
Quando começamos a ler este livro, conhecemos a Cabala.
Meu irmão e eu, ainda leigos, explorando inocentemente os arquétipos do tarô, demoramos a perceber que o organograma ilustrado na capa e base de exposição dos estudos filosóficos sobre tarô, era um símbolo de meditação tão fascinante e intrigante como o foi.
Um desafio transcendental, sedutor e enebriante, como jamais havíamos visto ou imaginado.
Quando descobrimos o poder desta árvore, abrimos as portas para um mundo encantado e, extasiados, aventuramo-nos por seus caminhos.
Enquanto isso, Morgana, sem comentar os seus planos e sem saber dos meus avanços pela cabala, seguiu o seu destino.
Com o passar do tempo, tornou-se uma taróloga conhecida em seu meio, iniciando-se na bruxaria em alguns lugares por aí.Costumava jogar em feiras esotéricas na capital e em cidades vizinhas.
Passou o resto de sua vida lendo cartas em lojas esotéricas e iniciando os seus discípulos na arte da magia e da bruxaria.
Teve admiradores e seguidores fiéis, era uma pessoa muito carismática.
Nossa amizade era antiga, e até o dia em que me apresentou o tarô, nunca havíamos comentado assuntos deste contexto.
Conversávamos superficialmente sobre espiritismo e religiões, principalmente as afro, as quais ela frequentava, nada mais.
Morgana nunca me contou como conheceu o Tarô, e eu, de tão empolgado que fiquei, acabei esquecendo de perguntar.
Com o tempo, fomos perdendo o contato diário.E hoje, pelo que sei, e pelas vezes que a vi jogar nos lugares que a visitei, ela continuou com os arcanos maiores de Marselha, que eram o suficiente para ela.
Morgana foi um marco em minha vida, um elo decisivo nas mudanças de meu mundo.
Jamais a esquecerei.
Levou consigo, fases importantes de minha história.
E hoje, por todos os tempos, quando tento entender o que aconteceu, extrapolo, questionando-me acordado em meus devaneios, se acaso houve alguma intercessão divina de Mestres, Anjos ou Guardiões, ou seja lá o que for, nas mudanças de rumo de nossas vidas.
Um anjo escolheu-me para um julgamento divino?
Com certeza, um bendito raio celeste atingiu minhas torres para tirar-me da escuridão.
Do resto, não sei explicar por que aconteceu.
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