quarta-feira, 10 de outubro de 2012

MEU CAMINHO


Nascemos para atingirmos o êxtase, a felicidade suprema, é nosso direito de nascença.
Mas as pessoas são tão tolas que nem mesmo exigem seus direitos de nascença.
Ficam mais preocupadas com aquilo que os outros possuem e começam a correr atrás dessas coisas.
Nunca olham para dentro, nunca procuram em suas próprias casas.
Uma pessoa inteligente irá começar sua busca a partir de seu ser interior.
Este será o ponto de partida de sua exploração, porque a menos que eu saiba o que está dentro de mim, como poderei sair procurando mundo afora?
O mundo é tão vasto.
E aqueles que olharam para dentro, encontraram imediatamente aquilo que buscavam.
Não é uma questão de progresso gradual, é um fenômeno súbito, uma iluminação repentina.

*Osho

                                                                 
                                                     Parte I

Alguns meses depois... e Morgana partiu.
Eu continuei meus estudos, o que faço até hoje.
Com os conhecimentos adquiridos no livro de Robert Wang, comprei o tarô de Crowley e o de Waite.
O tarô da Golden Dawn eu o comprei alguns anos depois e deixo-o guardado até hoje sem usar.
A cabala revelou-se aos poucos, através de Aleister Crowley.
Uma visão mágica de compreensão interior difícil de descrever.
Apaixonei-me pela Cabala e pelas cartas de Waite e de Crowley, assim que as vi, e passei a dedicar grande parte do meu tempo a desvendar seus mistérios.
Confirmei e assimilei grande parte de meus conhecimentos empiricamente.
Eu levava minhas cartas para onde quer que fosse, e sozinho, apaixonado e alucinado por elas, eu as jogava em qualquer lugar em que me encontrasse, e qualquer situação era um pretexto para tirar uma carta e testar os seus resultados.
Com isto, eu estava descobrindo, na prática, uma conexão real entre os mundos físico e espiritual.
As cartas tinham ciência, eram visíveis os seus prognósticos.
Eu não estava me iludindo.
E sem prever as consequências psíquicas deste autoconhecimento, eu seguia extasiado e sensível às mudanças de rumo em minha vida, mas insensível ao transtornos que isto causava em meu meio e as reações que a isto se seguiam.
O universo segue suas leis matemáticas perfeitas.
Calculamos o infinito daqui.
A magia não.
A magia tem outras definições, segue outras equações, e tem seus sinais.
E minha transformação espiritual acelerou.
Vivi nestas cartas a revolução de minha vida.
E nos desafios mundanos que eu enfrentava, eu me encantava.
Em cada porta que eu abria nesta árvore, um velho mundo desmoronava ao meu redor.
E Deus conversava comigo, estava ao meu lado e mostrava-me o Seu poder.
Eu o sentia mais próximo de mim.
[Princesa de Paus[2].jpg]Os segredos que chegavam-me às mãos eram indescritíveis, verdadeiros e alucinantes, como só eu sei, e levavam-me para além daquelas fronteiras que eu imaginava reais; e eram um poder.
E semelhante a princesa de paus desta carta de Crowley, eu seguia enlouquecido com esta chama ardente dentro de mim, numa pressão interior avassaladora e transmutadora, numa torrente de energia inesgotável, de um amor indescritível, diferente de tudo o que eu já havia sentido antes.
Quando eu jogava as cartas do tarô, eu sabia o que ia acontecer, e isto era uma sensação de euforia.
Por um processo misterioso, mesmo que mudando a linha original de meus pensamentos, no aprofundamento dos arquétipos, os resultados confirmavam as teorias, o que, interiormente, eu já sabia!
Eu costumava brincar e dizer que era um vidente que já sabia o que ia acontecer, depois que os fatos aconteciam.
Sem dúvida, argumento incompreensível para alguns e, muitas vezes, até para mim, mas que para minha "lógica fria e calculista", era bem plausível.
Mas os loucos têm lá suas razões.
E eu estava com as minhas.
Como um matemático da metafísica eu calculava as incógnitas de minhas inequações, e buscava zerar os seus resultados.
Meu irmão, meu único companheiro de estudos, acabou desistindo por medo; as respostas das cartas tornavam-se assustadoras para ele.
Certo dia, enfatizou:
— Celso, eu vou parar de estudar tarô! De que adianta saber o futuro? Se vai acontecer mesmo, pra que saber antes?
Desamparei-me com sua desistência, mas o compreendi, pois fundo do meu coração, pensei em parar também.
Mas aquela maldita curiosidade, aquela ânsia infinita de saber, me fizeram seguir e enfrentar os meus medos; e eu continuei, queria saber mais, muito mais...
Então, decidi seguir o caminho sozinho.
Se houve tempos que pensei enlouquecer, agora, compreendo melhor o que passei.
O impacto sobre minha consciência fora forte demais; e eu, despreparado, sem um mestre, não soube avaliar os possíveis danos psicológicos da transição.
Sem eu perceber, os conhecimentos alteravam-me drasticamente os conceitos, os valores e a realidade da vida.
Às vezes, meus prognósticos saiam tão exatos, que sensibilizavam-me a ponto de chorar.
E eu chorava sem parar.
Comparo esta sensibilidade à uma paixão.
Meu mundo coloriu-se de outros matizes e, obcecado, tornei-me um amante feliz.
E eu estava apaixonado e não estava acostumado a me apaixonar, não sabia como lidar com tantas emoções, e delirava no céu.
Se Deus dava-me a possibilidade de conhecer alguns de seus mistérios, dava-me também a oportunidade de compreender e sentir as diferenças do amor em seus arquétipos universais.
Achei-me um escolhido, um iluminado, um Avatar.
Todavia, hoje, apesar de ainda temer meus sentimentos em ebulição e o descontrole de minhas paixões, o caminho abrandou-se em sabedoria, e o amor me fez compreender.
E nunca amei e sofri tanto como nesta época, com estas paixões temperamentais que ardiam dentro de mim.
E amei a cada um, ao meu modo, de uma maneira diferente.
Nunca tive como os comparar.
E a partir deste tempo, um Deus imanente passou a ser uma presença real em meus pensamentos e sentimentos.
Então, compreendi que quando princípios novos surgem no horizonte, eles trazem consigo as mudanças que não esperamos.
No ar, trazem os aromas imperceptíveis que respiramos.
No sol, vem o calor que se insinua e excita nossos desejos e nos deixa felizes, ou transforma-nos em animais incontidos.
Muitas vezes, estes princípios nos conduzem à loucura de nossos atos ou à vergonha da submissão e da não realização.
Outras vezes, nos mostram o caminho do êxtase e da iluminação, e, com eles, a sabedoria da aceitação e da transcendência de nossas paixões.
E das águas que irrompem de nossos diques, jorram os sentimentos que irrigam nossas terras maravilhosas.
Muitas vezes, trazendo-nos a infelicidade das perdas ou a dor da rejeição e da incompreensão.
Outras vezes, banhando-nos com a gratidão e a felicidade de amar, simplesmente por amar, por compreender e aceitar.
E estes novos princípios, quando surgem nos céus, vêm para nos extasiar e afetar todos aqueles que vivem à nossa volta, neste pequenino mundo grandioso.

                                                      Parte II

Muitos anos depois...
Beto e eu fomos tocar num bar de Osório, cidade perto do litoral gaúcho.
Seguíamos de carro pela freeway, quando avistamos os enormes cata-ventos de Osório.
Comentei por comentar:
— Acho que as pessoas estão se conscientizando de que esse tipo de energia não agride a natureza.
Mas Beto, totalmente às avessas, retrucou:
— Aí é que você se engana, Celso! Nada é gratuito. As hélices movem-se com a energia do vento e isso pode alterar todo o clima do mundo. O ar encontra resistência nas hélices e isso pode ocasionar ciclones e furacões noutro lugar. A natureza é perfeita, tudo está interligado. O que fizermos com ela hoje, amanhã teremos consequências, só não sabemos ainda quais...
Retrucou-me com a teoria do caos, em que o simples bater de asas de uma borboleta poderia influenciar o curso natural dos ventos e alterar o clima em outras partes do mundo.
E o que era para ser um simples comentário, complicou-se em divagações.
Depois disso, seguimos viagem calados, pensativos.
E eu, em minhas tempestades emocionais, pensava em minha família, nos jovens do grupo e obsessivamente em Inocência; e ele, não sei em quê.
Sem um dom e um mestre, desbravar o espiritual como o fiz, é correr o risco de enlouquecer.
O dom, talvez eu até tivesse, pois descobri sozinho alguns de seus segredos, mas o mestre me faltou.
E as mudanças que vivi nesta época foram tão radicais, que afetei o "status quo" e acabei numa aventura quase que trágica e solitária.
Meus amigos, que sempre estiveram comigo, ajudaram-me a minorar a solidão espiritual que passei e a minha transição psíquica, mas a marcha era outra e todos tinham os seus interesses.
E eles, ainda jovens, sem maturidade para me compreender, não tinham muito como me ajudar.
E eu, em minha jornada alucinatória, seguia com Deus e o amor explodia em meu coração.
Mas, se meus conhecimentos inadequaram-me ao meio, por outro lado, trouxeram-me a indescritível felicidade de saber e sentir.
E se ver e sentir isolou-me de quase todos que eu amava, incompatibilizando-me com suas verdades, acarretou-me, sem eu esperar, infelizmente, a tristeza da discórdia e da incompreensão.
E com a discórdia e a incompreensão, preparou-se um terreno fértil para a intolerância crescer e fatalmente surgiram as agressões.
No meu meio, infelizmente, as coisas começavam a acontecer sem eu esperar.
Com os amigos infiltraram-se os inimigos, os não tão amigos assim, os aproveitadores e a soberba.
Opiniões divergentes beiravam ao absurdo de suas exposições ridículas e ao fanatismo.
E as pessoas que eu amava desconfiavam de mim,  me tratavam com um desamor que eu não compreendia, me traiam com suas falsidades e interpretavam errado meus sentimentos, difamavam-me.
Atacavam minha conduta pessoal em prol de suas razões e preconceitos.
Querendo impor seus modelos de vida, não me deixavam descansar por um minuto sequer.
Julgavam-me.
E pensando bem, nunca os julguei e os ataquei em suas razões, sempre os respeitei e me defendi.
Se lutamos por nossos ideais ou por nossa fé em um Deus amoroso, e mesmo assim sentimos uma fera rugir em nosso interior, nossas crenças se contradizem.
E o amor, quando conduz à fé, ela vem do sentir, e não depende de nossas razões para crer e existir.
Ela simplesmente é o que é.
E o amor que conduz à fé, se impõe mais alto que a voz destes leões fervorosos, porque ele é manso e puro como um cordeiro.
E a beleza sempre esteve ao nosso redor, um presente de Deus para quem souber olhar para este mundo magnífico e apreciar.
E a beleza, sem a tentar definir, é sobremaneira divina e universal, e poucos a conseguem ver e sentir, porque poucos a conseguem compreender.
E esta beleza jamais poderia ser comparada a uma besta.
Às vezes cheguei a temer agressões físicas, tamanha a fúria religiosa instalada em meu meio.
Lembro-me que da última vez em que fui agredido verbalmente com violência, eu estava com minha mãe comemorando o seu dia.
Nós ficamos nervosos, mas ela resolveu conciliar para não se incomodar, talvez com sensatez, não sei avaliar.
E eu calei-me por respeito a ela, e também por ele, o agressor, ser um jovem bem mais forte do que eu, senão, não me calaria.
E afinal de contas, ele também era um parente, apesar de ser um parente emprestado.
Mas os parentes, às vezes, são como serpentes.
E antes de sair da casa de minha mãe, aquele Celso explosivo não resistiu, e tasquei-lhe um pouco de meu veneno.
Minha família achava que eu estava passando por uma crise existencial ou uma crise da meia idade, a crise dos cinquenta anos, como me disse uma psicóloga.
No fundo, todos tinham razão.
Mas havia alguma coisa a mais, uma razão a mais.
Havia um elo invisível, um enigma existencial, um conhecimento intrínseco e sutil, responsável por todas as mudanças de minha vida, que eu não sabia como explicar para alguém.
Havia uma visão ampliada que surgia, que jamais supunha existir.
Uma visão que explodia as paredes e os alicerces de meu mundo, que transformava o meu ser.
Havia um segredo em minha alma que eu não conseguia compartilhar.
Nascia um arco-íris encantado, que aparecia-me num céu verdadeiro e mostrava-me as visões do além, que sempre imaginei serem irreais.
Havia uma magia divina que eu adivinhava sem compreender.
Acenda uma vela sempre no mesmo lugar e veja o que acontecerá.
Há um mundo a nossa frente que o excesso de luz não nos deixa ver.
Há uma escuridão que nos faz perceber o infinito.
Feche os olhos.
Aprecie a luz iluminando o desconhecido e prepare-se para a viagem.
Do meu lado direito, meu anjo da guarda sorria feliz com minhas descobertas.
Mas do meu lado esquerdo, trazendo-me a dor da incompreensão e as trevas infinitas de uma maldade sem fim, um anjo negro, zombeteiro, roçava suas asas sobre mim.
Sei que a luz deste sol me cegou, que levou-me por caminhos que minha mente não se posicionou para ver.
Caminhos que não pude evitar, pois não vislumbrei um outro querer.
Caminhos que se apresentaram sem via de escape, guiando-me os passos, destinando-se por toda uma vida, por todo o meu ser.
E para não enlouquecer, equilibrei-me entre o fogo de meus anseios e as águas bravias de meus sentimentos e suportei a ebulição de minha alma até resfriar.
E agarrei-me à temperança e esperei; e este foi o único caminho que encontrei, para suportar as dores, as desesperanças, e as euforias que passei.
E espero que, de todo o meu coração, Morgana, você esteja feliz, aonde estiver.

Nenhum comentário:

Postar um comentário