quarta-feira, 10 de outubro de 2012
JORGE
"Os anjos descem sobre a Terra,
E a luz divina brilha em seus olhares.
E, alguns deles, são demônios."
Celso Orsini
Jorge tinha a mesma idade que eu.
Estatura média, cabelos grisalhos, e compleição um pouco forte.
Nos conhecíamos pela vizinhança e também por ser cliente da locadora de vídeo.
Nesta época, ainda não éramos amigos e conversávamos muito pouco, basicamente assuntos de filmes ou trivialidades.
Certo dia eu jogava tarot no balcão, quando Jorge apareceu.
Ficou algum tempo olhando as fitas de vídeo, e depois dirigiu-se a mim com certa animosidade:
— Você joga tarot?
— Jogo! — respondi.
— Acha que umas "cartinhas" vão te dar poder? Acham que é só comprar umas "cartinhas" na loja e sair lendo?! Vocês não sabem com o que estão se metendo!
O fdp... falava nós, mas na realidade era eu, e aquilo me deixou indignado; mas, tudo bem, afinal de contas, ele era meu cliente.
Alugou um filme e saiu.
No dia da devolução do filme perguntou-me com desdém se eu conhecia São Cipriano.
Disse-lhe que sim, e que inclusive tinha um livro dele.
Estranhei sua pergunta.
Quando soube que eu tinha um livro de São Cipriano, ficou irascível:
— Vocês não sabem com quem estão se metendo! — repetiu — Este livro não é para leigos! Onde você o conseguiu?
— Numa livraria. — respondi divertido.
— Este livro não pode ser vendido assim?! É só para iniciados?! — falou zangado. — O tarot tem que ser consagrado. Não sei o que vocês pensam (lá vinha ele de novo), se metendo com coisas que não conhecem!
Pronto! Este foi o estopim para eu ficar enfurecido com ele.
— Eu não preciso consagrar o tarot pra ninguém! Leio quando quiser! E ninguém tem nada a ver com isso!
Ele entregou-me o filme e saiu quieto.
Voltou alguns dias depois e ficou olhando os filmes das prateleiras centrais, irrequieto.
Depois de algum tempo, perguntou-me se eu era de religião, eu disse que não.
"Mais um louco andando por aí", pensei.
Ele argumentou no genérico, dizendo que "esse pessoal" de religião achavam que eram os maiorais, que tinham poder:
— Eles que se metam comigo! — exclamou irado.
Então, aproximando-se, perguntou o que eu estudava.
Eu respondi que era Cabala.
Ficou curioso e quis saber o que era; aí, eu falei de meus estudos para ele, que ouviu calado.
Depois de saber que eu estudava essa tal de Cabala há anos, e era inofensivo, tornou-se mais simpático e interessado, perdeu sua carranca.
Finalizados os maus entendidos, iniciamos uma amizade de afinidades e começamos a conversar quase que diariamente sobre tarot e Cabala.
Foi um grande aprendizado para nós.
Ele, às vezes, me parecia um neurótico de guerra, sempre dizendo que estava calmo como um furacão.
Citava frequentemente o nome do "Homem" — como chamava a tal entidade — em qualquer situação em que se sentisse ameaçado ou quisesse demonstrar seu poder.
O "Homem", era um entidade superior a todas.
Ele referia-se a ela com soberba e respeito.
E eu achava engraçado ver o medo que tinha de pronunciar o tal nome; e jamais o revelou a ninguém.
Aos poucos, fui me acostumando com seu modo de ser, e a não dar importância a suas neuroses e manias.
Vivenciou comigo a chegado dos bruxos e participou de minhas polêmicas vivências, por muitos anos.
Sabia de coisas que me foram previstas por Hugo e ajudava-me a analisá-las.
Teve muito mais antipatias pelas pessoas do grupo que chegavam com o tempo, do que simpatias, e, até um determinado e fatídico dia, sempre me respeitou.
O seu comportamento arrogante, às vezes, não condiziam com sua necessidade de amizade.
Hoje sei que muitos de seus erros passados devem tê-lo marcado profundamente.
Mas a vida é assim, todos nós pagamos nossos carmas.
E hoje, Jorge continua tão solitário quanto ao dia em que chegou aqui.
Infelizmente, nossa amizade terminou de um modo inesperado, mas as recordações ficaram.
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