quarta-feira, 10 de outubro de 2012
SARA
Minha filha Sara, quando criança, acreditava muito em bruxas.
No seu primeiro ano do colegial, sua mãe fantasiou-a para a festa do Halloween.
E lá se foi ela, toda pintada e feliz, comemorar com seus amiguinhos de escola o dia das bruxas.
Sara estava toda de preto.
Usava um lindo vestido, e na capa, o desenho de um rosto esculpido numa abóbora cor de laranja.
Em suas mãos carregava uma pequena vassourinha.
E, na cabeça, um enorme chapéu em forma de cone.
Às vezes, quando íamos de carro à praia, Sarinha comentava feliz:
— Pai, tem uma bruxa na lua? Olhe pai, eu estou vendo!
Eu respondia:
— Sara, bruxas não existem.
— Elas existem sim, pai! Eu estou vendo uma, olhe!
E encantada, apontava o seu lindo dedinho para o céu.
Depois, empolgada, contava-me as novidades da escola:
— Pai, eu conheço bruxas de verdade!
— Sarinha, bruxas não existem!
— Elas existem sim pai! Eu conheço elas! Vejo elas todos os dias lá no meu colégio! Todo mundo tem medo delas lá! É verdade pai! Todo mundo tem medo delas lá no meu colégio!
Era estranho, ao mesmo tempo engraçado, ver a espontaneidade e a pureza com que Sara me falava das bruxas de seu colégio, mas logicamente que eu não a levava a sério.
Num fim de semana de verão, indo à praia com minha família, Sarinha, animada, agita-se novamente:
— Pai! Eu estou vendo uma bruxa na lua!
Minha ex-esposa olhou-me e sorriu, enquanto Sara, sentada no banco de trás, selerepe, colava o seu lindo rostinho no vidro lateral direito do carro para espiar.
Dirigindo tranquilamente a uns 100 km/h, não resisti a tentação e dei uma olhadinha também.
Na noite estrelada, uma enorme lua cheia clareava os contornos da paisagem e os traços da free way.
Certo tarde, antes de deixar Sara na escola, entrei no mercado da esquina, próximo ao seu colégio.
Enquanto ela escolhia o que comprar, notei duas jovens e um rapaz dentro do estabelecimento que me olhavam.
Uma delas me chamou a atenção, os outros dois vi vagamente.
Quando saímos, Sara, excitada, me puxou pelas mãos e cochichou:
— Pai, são elas, as bruxas que te falei! Todo mundo tem medo delas lá no meu colégio.
Aquilo me espantou, fiquei curioso.
Sara não inventara nada daquilo, as bruxas existiam realmente.
Surpreendentemente, compreendi que eram jovens que estudavam no mesmo colégio que o dela, e estavam bem perto de mim.
Naquela tarde, tive a sensação de que viriam me procurar.
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