terça-feira, 9 de outubro de 2012

PETER, RODRIGO E SAMAEL


                                                  Parte I

Os três jovens apareceram numa época em que o pessoal do grupo retornava.
Peter, apesar do estrese que me causou, veio para se desculpar.
Veio para se dirimir de culpas e das traquinagens silenciosas de seu amigo Ivan, se justificar pela intolerante carta que me entregou dias atrás.
Numa certa tarde ensolarada de domingo, Jorge e eu estávamos conversando na porta da ferragem quando ele chegou.
Peter estava com cara de vítima, dizendo-me que não sabia o que estava escrito naquela famigerada carta de Ivan.
Desculpou-se inocente:
— Fiz o que Ivan me pediu para fazer, eu não sabia o que estava escrito na carta.
— Você não sabia o que estava escrito naquela carta?
— Não... só fiz o que ele me mandou.
— Você não a leu?
— Não!
"Putz! Vai entender essa gurizada!"
Mas neste dia, ao contrário dos outros dias, eu sentia-me triste e não me irritei, decepcionei-me comigo.
Neste dia, eu estava cansado de tantas incomodações e incompreensões.
E, afinal de contas, as rixas aconteciam por conta deles e não me diziam respeito, e não me acrescentavam em nada.
E estes jovens, apesar do carinho que eu sentia por eles, infelizmente, não faziam parte do meu amadurecimento.
Disse isto a Peter, quase que num desabafo pessoal, que nem Jorge entendeu.
Pedi a ele que não me procurasse mais, que procurasse amigos de sua idade e esquecesse que eu existia.
E nesta tarde ensolarada de um domingo entediante, nem a companhia de Jorge me reconfortou, e nem o clima agradável do final de verão me alegrou.
Neste dia eu sentia a falta de outros dias, e instituía-me um desistente solitário, um desesperançado, um fracassado depressivo de uma dor contumaz.
Sentia-me afastado dos meus velhos amigos e do meio social em que vivi.
E, com certeza, eu já estava compreendendo que o tempo estava passando rápido demais e que a loja tornava- uma prisão sem grades.
E percebia que minha afinidade com Jorge diminuía passo a passo, e que, às vezes, nem o considerava um amigo legal.
Sentia meu mundo desmoronar-se irremediavelmente e sentia falta de amigos e de pessoas de minha idade e de uma companheira para passear, conversar e brincar; e estes jovens já não preenchiam mais minhas carências emocionais; não agora, não neste dia em especial.
E eu não entendia o porquê me procuravam, às vezes sentia-me infantilizado, um idiota.
Mas como eu poderia culpar alguém?
Os culpados não eram eles, nem eu.
O culpado era este tempo implacável que passou e que eu não soube medir e viver.
Meus velhos amigos já estavam casados, e os casados já não tão livres assim, passam a ser dois; e a não ser pelas reuniões na casa de Beto, já não nos encontrávamos mais.
E meu velho amigo árabe nunca vinha para conversar, vinha apenas para cantar, ensaiar e se distrair.
E Peter, indiscutivelmente, não seria a pessoa certa para compreender minhas melancolias e desilusões.
Então, depois do sermão que lhe passei pelas brigas em que fui envolvido, e pela famigerada carta que me entregou de Ivan, ele não se intimidou e voltou.
Voltou, apesar de explicar-lhe minha recusa em recebê-lo na loja.
Esta gurizada é demais.
Depois de alguns dias, ele entrou de "fininho" e ficou.
E eu que sentia um grande carinho por todos estes jovens que me procuravam, nem me importei.

                                                   Parte II

Rodrigo e Samael, de tão ridículo que foi, nem me lembro de como os conheci.
Um dia estávamos reunidos no "cantinho" conversando, quando percebi a presença silenciosa dos dois.
Sentados lado a lado em duas caixas de som pequenas e surradas, que usávamos como banquetas, ouviam discretamente as nossas conversas e as brincadeiras do grupo.
Ou eu andava muito desligado ou eles entravam como fantasmas.
Mas era tanta gente que me procurava nestes tempos, que quando os vi sentados, até quis reclamar com o pessoal, mas não adiantou.
Desconsolei-me, a algazarra era tanta, era tanta gente reunida naquele pequeno espaço do cantinho, que ninguém me daria atenção.
E eu amava estes jovens de tal maneira que em vez de ficar bravo, sorri.
Eu achava isto tudo muito engraçado.
Às vezes, em meu silêncio interior, sentado em minha cadeira preguiçosa, eu ficava observando-os conversar e brincar, admirando-os, pensativo:
Então estes eram os bruxos que Hugo dissera que viriam me procurar?
Estas eram as pessoas que mudariam o meu mundo?
Eram eles? Estes jovens aprendizes de feiticeiros, que me cutucavam com suas magias e bruxarias?
Inacreditável, eles eram apenas adolescentes, jovens inexperientes, e eram muitos.
Mas olhando-os com os olhos do espírito eu entendia, pela felicidade que via em seus olhares, que viemos nos reencontrar neste lugar.
E que me procuravam, porque a data já estava marcada para acontecer e porque eu era o imã, o elo forte desta união, e que já estava preparado para os receber, e meu coração transbordava de emoção.
Num mundo mágico, alguns loucos tentaram me roubar a magia e a felicidade, sem compreenderem que o espírito não é deste mundo e que seus princípios já não me pertenciam mais.

                                                   Parte III

E o grupo tornava-se independente, e a cada dia que passava, cada um, ao seu modo, progressivamente, ia tomando o pulso e ditando suas regras.
A cabala já não fazia mais parte de seus estudos.
Cada um filosofava a sua maneira, e seguidamente os arquétipos do tarô viravam motivos para brincadeiras.
Dentre os jovens, Tana era a que mais brincava com os desenhos das cartas.
Por cultuar a natureza e adorar Deusas pagãs, era radicalmente contra os Deuses das religiões tradicionais.
Só para constar:
O arcano do tarô de Marselha — O Papa — com toda a sua pompa eclesiástica e seus dois neófitos fervorosos, acabava virando um pedófilo.
E suas piadas maliciosas e irônicas em torno do assunto, eram impagáveis e hilariantes.
Samara, com outros objetivos, perdeu o interesse pelo ocultismo e não jogava mais, só queria namorar e se divertir.
Mas sei que nesta época ela já estava com outros objetivos de vida, e que, apesar dos caminhos tortuosos que trilhou, persegue-os até hoje e segue o seu destino.
Samara, quando tinha alguma dúvida, pedia para mim ou para alguém do grupo jogar e, às vezes, para ter certeza, gostava de confrontar nossas opiniões adivinhatórias.
Vivian raramente jogava o tarô e pouco opinava sobre os arquétipos, andava mais reservada, enigmática.
Dimitryus, meu grande amigo, hoje um filósofo questionador e um confuso pragmático, talvez um poeta, continuava quase como chegou, calado — dificilmente expunha seus comentários.
Adão, apesar de ser um jovem inteligente, um filósofo da espiritualidade, alimentava suas paranoias egocêntricas de liderança e não se envolvia com as brincadeiras do grupo.
Com suas maneiras aristocráticas e polidez, olhava-me seguidamente com o cantos dos olhos, ironizando as infantis brincadeiras de seus amigos.
Adão seguia uma linha de estudos independente das minhas e, infelizmente, quando vinha visitar-me, já trazia suas ideias preconcebidas.
Com isso, perdíamos os dois, pois sem a confrontação de ideias e o debate esclarecedor não chegávamos a lugar nenhum.
Jorge, por ser da mesma idade que eu, era com quem eu mais conversava.
Mas ele pouco se interessou pela cabala e nunca chegou a compreendê-la, gostava apenas de se infiltrar superficialmente nos significados das cartas que lhe interessavam.
E usava as cartas para compreender os seus erros passados e suas estórias de indecisões, já que um futuro desesperançado não lhe comovia mais.
E muitas vezes o ouvi se lamentar e se justificar.
E lamentava-se pela mulher de sua vida, por seu amor imortal.
Mas Jorge não era como eu, havia envelhecido, estava amargurado, havia desistido de viver.
Lucius, meu jovem amigo do bar, próximo a loja, desde o princípio foi o mais apaixonado pelo místico e o mais interessado em saber.
Passávamos madrugadas inteiras conversando e filosofando, sofrendo nossos amores e dissabores até o dia clarear.
E com o dia claro, incansável, muitas vezes eu o acompanhava até uma boa parte do caminho.
Passamos alguns anos trilhando este apaixonante e envolvente caminho da iluminação e do êxtase espiritual, quase ao ponto da exaustão física e mental; porém, um tempo depois, com o término do namoro com Samara, desiludido, afastou-se do grupo definitivamente.
Peter, apesar de ser o mensageiro daquela ridícula carta de Ivan, e de estar presente na confusão hormonal entre Ivan e Samara, acabou ficando e tornando-se meu grande amigo.
Ao final, foi o mais obstinado em aprender.
Até os dias de hoje, é uma das poucas pessoas com quem ainda posso comentar alguns assuntos esotéricos e filosofar.
E acredito que Peter se tornará um grande mestre e atingirá a iluminação, digo isto sem medo de errar.

                                                    Parte IV

Rodrigo, tinha 16 anos de idade quando o conheci.
Era é um jovem de compleição forte, olhos e cabelos castanhos escuros e 1,78 m de altura.
Um jovem estranho, com isto não quero dizer que fosse esquisito.
Quando dei-me por conta, ele já estava sentado ao lado de Samael, numa das duas pequenas caixas de som colocadas em frente a mesa e encostadas nas laterais de duas estantes de metal da ferragem.
O espertinho pouco se mexia e respirava, mas olhava a tudo com curiosidade.
No momento me irritei, pois entraram sem a minha permissão e também porque achei que viessem pelas gurias, mas enganei-me um pouquinho, porquanto todos foram embora, ele foi um dos que ficou.
Hoje, temos uma grande amizade.
Rodrigo nunca foi de muita conversa.
Com seu jeito introspectivo, num semblante fechado, ficava ouvindo nossas conversas calado e nunca opinava sobre as cartas.
Era um jovem muito tímido e inseguro, mas acredito que um ótimo observador.
Apesar de, na época, aparentemente não demonstrar um grande interesse pelo tarô, hoje sei que adquiriu um bom conhecimento das cartas apenas nos ouvindo.
Mas atualmente, como o últimos serão os primeiros, de vez em quando, quando estamos em paz no ambiente da loja, jogamos algumas cartas e trocamos algumas idéias.
Acho Rodrigo muito criativo em suas explanações filosóficas e aprendi a reordenar alguns conceitos antigos através de suas exposições míticas e comparações com seus estudos comportamentais do reino animal.
Sempre gostou de desenhar, e quando pedi a ele que me fizesse alguns desenhos da cabala, não recusou.
Entre os desenhos que fez, estão a "Árvore da vida" e o "Rosto humano", que publicarei nos capítulos seguintes.

                                                     Parte V
                                                   
Samael, tinha a mesma idade de Rodrigo e era o mais franzino de todos.
Samael tinha uma grande sensibilidade.
Cabelos e olhos castanhos claros, cerca de 1,73 m de altura, era um jovem muito discreto e reservado.
Era bem mais participativo que Rodrigo e gostava de conversar com o pessoal e de expor suas opiniões.
No começo, chegou a ter um relacionamento rápido com Vivian, coisa de dias, que acabou não dando em nada.
Foi engraçado presenciar este romance, que me sensibilizou naquele entardecer.
Romance que começou com um beijo tímido, meio insosso, rápido e sem graça, numa tarde de verão em frente a ferragem, mas eu torcia por eles.
Samael, sempre foi um jovem muito formal e detalhista em suas explanações, o que, no meio do alarido, requeria uma atenção especial.
E se não parassem para ouvi-lo, ele irritava-se fracamente, fazia gestos de indignação e desistia vencido, amuado.
Infelizmente, magoou-se com algumas pessoas do grupo e resolveu afastar-se.
Um dia, muito triste, venho visitar-me num horário em que eu estava sozinho.
Sentou-se a minha frente, no cantinho, contou-me que tinha sido agredido na rua por um dos amigos do pessoal, e que ninguém fez nada para defendê-lo:
— Eu vou deixar o grupo Celso, e não vou voltar mais aqui! Mas não te preocupa, sempre que der um tempinho eu passo aqui para te ver.
Eu me entristeci com sua partida e vou guardar para sempre os momentos em que nos reuníamos felizes com o grupo.
Mas concordei com Samael.
Sou radicalmente contra as brigas e, afinal de contas, amizade é para todas as situações e para todos os momentos e para toda uma vida.
E Samael cumpriu o que me prometeu, e de tempos em tempos vem me visitar e conversamos um pouco.
Ele sempre tem algumas perguntas para fazer ao tarô.
Então, jogamos algumas cartas e trocamos opiniões, reencontra seus amigos que estão no momento e vai embora.
Hoje está formado e trabalhando e, apesar de suas crônicas carências afetivas e de sua grande sensibilidade, ou talvez por causa delas, continua solteiro.
Talvez um azarado, um incompreendido sonhador, pois sempre o achei um jovem muito bem apessoado e educado, um intelectual de um caráter exemplar.

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