
Nunca acreditei em demônios, eis aí a questão.
Mas envelheci o bastante para desconfiar de sua existência.
Se existe o bem, inevitavelmente deverá existir o mal.
Quem será este ser informe que vibra invisível entre as forças universais, tentador?
Como se reúne esta força cega, contemplativa, que nos ameaça e corrompe?
Existe uma lei inexorável.
Existem teorias.
Alguns dizem que esta força cega vem do acaso ou da ignorância de nossos atos.
Acredito que exista uma inteligência sutil, que se utiliza dos eflúvios de nosso subconsciente alterando nossa razão.
Que provoca-nos a libido, os instintos e a paixão, trazendo-nos a loucura.
E quem nunca ouviu falar deste sussurro que nos alicia, que abraça-nos ao dormir, nos envolve e seduz?
Quem é este ser insensato que nos traz a prerrogativa insana de sermos Deus?
Que insanidade é essa que se apodera de nossos espíritos e corações, que contamina o nosso corpo.
E ainda há um mal maior a desafiar.
O mal das forças que ouso chamar magnéticas.
Forças que se conluiem e parecem conspirar além do acaso.
Parecem se alimentar de pequenos descuidos somados.
Forças que fabricam suas teias tenebrosas, organizadas, intencionadas para destruir.
Fatalidades que não sabemos como explicar.
Celso Orsini
Parte I
Certo entardecer, acredito que perto do outono, Jorge, como de hábito, veio me visitar.
Talvez um dia especial para ele, pois trouxe uma garrafa de vinho tinto suave de baixa qualidade, coisa que, sovina, nunca fez antes.
Ficamos em frente a ferragem conversando.
Neste dia o pessoal do grupo estava reunido no bar de Lucius.
E, com o som alto, a algazarra era grande.
Eu me sentia uma ovelha desgarrada.
Com certeza os sentimentos de Jorge pelos jovens, não eram os mesmos que os meus.
Os dele já estavam se azedando, e demonstrava seu desamor.
E, ultimamente, Jorge já andava muito irritado.
Qualquer coisa o incomodava.
A simples visão de Lucius ao longe o deixava irritado.
E indispunha-se com o pessoal do grupo, com o mundo, me desgostando.
Lucius, quando aparecia em frente ao bar como um gabola, logo era atingido por suas farpas venenosas.
E suas setas partiam certeiras, para magoar o meu coração.
Lá pelo entardecer, simpático, convidou-me para beber.
Ficamos sentados no murinho lateral das lojas com duas taças de vinho, até o anoitecer.
Apesar dos eventuais sarcasmos e de seu humor negro, Jorge fazia suas brincadeiras e ríamos sem parar.
Porém, aos poucos, começou a se exaltar, não parecia estar bem.
Estranhei seu comportamento.
Quanto mais bebia, mais agressivo ficava.
Com frequência aumentava o tom de sua voz e não poupava ninguém.
Desconfortei-me com suas maledicências, mas permaneci calado, sem retrucar.
Eis um grande defeito, um abominável defeito.
E os erros sempre levam a outros erros.
Ao anoitecer, para minha surpresa, Jorge, muito cortês, pediu para ficarmos na loja após o expediente.
Alegava sérios problemas pessoais e familiares e queria minha opinião, mas depois que todos fossem embora.
A princípio quis recusar contrariado, mas depois, de tanto insistir, a contragosto, aceitei.
Parte II
Estávamos no "cantinho" conversando.
Já era madrugada.
Jorge estava exaltado.
Sua companhia estava me cansando, a conversa ficando chata.
Eu já queria ir embora.
Jorge agitava-se estranhamente, enrolava a língua.
Bêbado, com palavras agressivas, sentia-se ameaçado por todos, queria se vingar.
Desconfiava, sem nenhuma razão aparente, que alguém dos jovens bruxos estivesse fazendo "trabalho" pra ele.
— Esses merdinhas que se metam comigo. Eles vão ver!...Eles que se metam comigo!... Eles não sabem com quem estão se metendo!
Dizia-me irritado que já estava cansado de passar as noites defendendo-se das entidades que o vinham atacar.
Que pegava o facão de cozinha para se defender dos ataques e que passava as noites em claro em seu quarto tentando golpeá-las, numa batalha sem fim.
Lembrei-me da Princesa de Espadas do tarô de Crowley, golpeando com sua mão direita o ar.Jorge está ficando louco, pensei.
— Podem me mandar as entidades que quiserem, que eu acabo com elas! Acabo com todas! O homem é maior do que elas!
E nem seus vizinhos suspeitos escapavam de sua língua ferina.
Caindo em terreno perigoso, receoso de o contrariar, mantive-me calado.
Esperava uma oportunidade favorável para encerrar aquele depressivo monólogo e ir para casa descansar.
Jorge não era a pessoa com quem eu gostaria de estar naquela noite.
Ouvia-o perplexo e indignado com tantas besteiras, perdia o meu tempo com suas alucinações.
Que ensandecido!
De repente, o cenário mudou.
O retângulo do cantinho se iluminou e se fechou.
Uma armadilha.
O espaço se limitou e me alertou.
O ar ficou pesado.
Luzes macabras desciam do além.
Palavras desconexas, proferidas com raiva e desdem saiam de sua boca.
Começaram os ataques.
— Esses filhos da p...! O que pensam que são! É só eu estalar os dedos que o homem acaba com eles! Acaba assim ó! — e estalava os dedos.
— Esses filhos das p!... Não sabem com quem estão se metendo! O homem é superior a eles. É maior que todos eles. É o supremo! É o chefe de todas estas merdinhas que andam por aí!... Ninguém pode com ele! Ninguém! — exaltado, enrolava a língua.
O poder fervia-lhe o sangue, aflorava-lhe a pele.
— O que esses bruxinhos e bruxinhas de m... pensam! Pensam que são alguma coisa? Pensam que são melhores do que eu! Ah... não valem nada perto "Dele"! Fazem suas magiazinhas e rituaizinhos wiccas ridículos e pensam que são melhores que os outros! Pensam que podem com os outros! Eles que se metam comigo que vão ver! Vou mostrar pra eles quem eu sou!... Ai de quem me desafiar!
E a bebedeira já pegava lascada.
"Jorge é um doente filha da p...!" Pensei preocupado.
Seus olhos giravam, chispavam de fúria e soberba, pressenti a incomodação.
Sua voz rouca agravou-se, alteravam-se-lhe as feições.
O maldito, transtornado, perdia completamente a noção.
"Agora vai sobrar para mim. O que eu fiz para merecer isso."
O transe tinha início.
Jorge, demente, inquiriu-me colérico.
Sucederam-se os ataques.
— Quem é o teu Deus? Me diz agora? Onde ele está?
Eu adiava o confronto.
"Que fria me meti!"
"O que você está querendo me dizer com isto, Jorge!
— Seu idiota, você ainda não percebeu? Não é o Jorge quem está aqui! Não me reconhece? Não sabe quem eu sou? Não entendeu ainda?
Assustado, falseei, sem saber por onde começar a me defender.
"O fdp incorporou!"
— Não, não o reconheço! Não sei quem está aí!
— Você sabe sim, seu m...! Chama teu Deus agora! Onde está a tua cabala? Onde está o teu Deus?
A seguir, constrangeu-me insano.
Queria que eu repeti-se suas palavras.
— Eu sou teu Senhor! Vamos... diga! Eu sou teu Senhor!
"Não é possível. O cara enlouqueceu! É um doido varrido! Não acredito! Que droga! Que m...!"
Parte III
A fúria apoderou-se de Jorge.
O ataque chegou.
O maníaco atirou-se impetuosamente em minha direção.
Segurando minhas mãos com força jogou todo o peso de seu corpo sobre mim.
Pressionando com a perna direita o meu quadril, prendeu-me na cadeira.
Vulnerável, eu ainda tentei me safar, mas eu estava em minha cadeira preguiçosa, numa posição inclinada.
Enfraquecido e grogue com a ingestão do vinho eu não conseguia me mover.
E nesta época, com pouca alimentação, eu estava bastante debilitado.
Fiquei em desvantagem.
E Jorge era bem mais forte do que eu, ao menos, bem mais alimentado do que eu, que nesta época, com tantas incomodações, cadavérico, mal comia.
A pressão exercida foi tão forte que paralisei.
— Onde está teu Deus agora? Chama ele agora pra te salvar!
— Oh, Jorge! Para com isso!... Te acalma!...O que está havendo?
Ele parecia estar num transe profundo.
— Eu não sou Jorge! Você não sabe ainda quem eu sou?... Vamos, seu idiota!... Diga o meu nome?
Fiz-me de desentendido.
— Seu nome é Jorge! — protelei o pior.
Um frio percorreu minha espinha.
Um onda de pavor.
Como se tivesse sido atingido por um raio, temi quando ele falou:
— Eu sou Lúcifer!!!
Instantaneamente gargalhou! O verme estrebuchava.
Parte IV
Estarrecido, mal acreditei no que vi.
Jorge estava possuído pelo demônio.
Totalmente imobilizado, entrei em pânico.
O fdp premeditou o momento de seu júbilo.
Só pode ter sido isto o que aconteceu, pensei.
Sem eu esperar, armou a cilada.
Diante do ardil psicótico de um esquizofrênico, fiquei de sobreaviso.
Estávamos sozinhos, eu não tinha a quem recorrer.
A violência física era iminente.
Esperei o pior!
A espada mágica e as adagas estavam nas prateleiras a minha direita, a poucos centímetros de minha cabeça, bem perto.
Se Jorge se descuidasse, ele levaria a pior.
Eu teria que me defender.
A adaga seria o primeiro objeto que eu iria pegar.
Eu a cravaria nele por puro instinto de sobrevivência.
Eu só esperava uma oportunidade favorável.
Meus componentes psíquicos reagiam com a mesma intensidade de ódio do meu oponente.
Eu precisava me controlar, pensar rápido!
Eu continuava preso na cadeira por sua força descomunal.
Se havia uma saída, com certeza a encontraria.
Totalmente sob tensão, minha mente trabalhava rápido.
Isto não sairia barato para nenhum de nós, ele que esperasse.
Neste momento, se ele afrouxa-se minhas mãos, por um segundo sequer, elas iriam direto para uma das adagas da prateleira que eu já escolhera.
A decisão já estava tomada.
Entre ele e eu, teria que ser eu.
Enquanto isso, Lúcifer reinava imponente.
Na noite, ouviam-se os ecos do inferno!
Parte V
Entre minhas escolhas e decisões, passou-se um tempo arrastado.
Felizmente, uma luz brilhou em minha pensamentos.
O louco forçava a sua passagem, identificando-se com ele num transe alucinado.E estes processos ocorrem em um determinado período de tempo.
Enfim, descobrira a palavra chave — tempo.
Eu precisava ganhar tempo, dominar a situação.
Teria que evitar a violência, eis a verdade, pois, no fundo, não conseguiria agredi-lo.
Minha razão voltava lentamente.
Comecei a perceber o ridículo da situação e as consequências futuras de seus atos.
Mais calmo, negociei com o demônio.
E concordei:
— Você é Lúcifer! É meu Senhor!
"Ninguém merece isto!"
Virando sua cabeça de um lado para o outro, o demônio olhou-me desconfiado, e depois exultou.
— Entrega tua alma pra mim, seu idiota!
— Entrego minha alma pra ti! Teu poder é maior do que o meu! — respondi.
— Maior que o teu Deus? — ficou desconfiado quando eu concordei, vacilou.
— Maior! Entrego minha alma para ti, meu Senhor!
"Seu idiota! Muquirana...!" — os adjetivos somavam-se em minha mente.
Na sordidez de Jorge, minha alma quebrou-se outra vez.
Meu coração se entristeceu na avaliação incorreta de tantas amizades que fiz ao longo do tempo e no desperdício de felicidades que me neguei ao ouvir tantas pessoas que não mereciam minha atenção, e me cansei.
Parte final
Enfim, eu solucionara o problema.
Para sobreviver eu vendia minha alma ao diabo.
Jorge venceu!
Este é o Celso que eu sempre conheci, o que sempre conciliou.
O outro, impassível, apenas olhou para adaga com prazer.
Meu anjo negro, diferente do de Jorge, me atiçava, me envenenava, conspirava, tentava me seduzir.
Queria dizer:
Chega! Me cansei de tanta idiotice, leve este demônio junto com você para o inferno de onde vocês vieram, mas controlei-me.
No mesmo instante em que concordei, Lúcifer parou de falar e começou a fraquejar.
Foi perdendo suas forças e afrouxando as amarras.
Aproveitei a oportunidade e o surpreendi.
Arremessei-o com os pés de encontro a mesa pequena, que estava às suas costas.
Jorge levou consigo seu asqueroso demônio.
Caíram estatelados.
E com a queda ele foi quebrando tudo o que encontrava pela frente.
Caindo sentado no chão, ainda tonto, começou a recuperar a consciência.
Levantei-me rapidamente e pensei em agredi-lo, caso reagisse.
No princípio atônito, depois abatido, Jorge olhou para a mesinha quebrada, a garrafa de vinho e os dois copos estilhaçados, e o pouco do vinho esparramado pelo chão.
Quando deu por si, perguntou assustado:
— O que aconteceu aqui? O que foi que eu fiz? — e colocou as duas mãos na cabeça em sinal de espanto e desespero.
É desnecessário dizer o que eu lhe disse aos berros.
Enquanto o xingava com palavrões, abri a porta decidido a pedir ajuda.
Passavam das 5 horas da manhã e a rua estava deserta.
Jorge não parava de se desculpar e queria negociar.
— Espera aí, Celso!... Vamos conversar!... Me desculpa!... Me conta o que aconteceu?!
— Você não sabe o que aconteceu aqui seu fdp? — perguntei enfurecido.
— Eu não sei o que aconteceu! O que houve? O que eu fiz?
Eu não estava mais disposto a negociar com Jorge.
Meus limites tinham sido transpostos.
Com a porta da loja aberta, numa raiva incontrolável eu que não parava de xingá-lo.
Ameacei chamar a polícia.
Sorte dele que nenhuma viatura passou.
— Espera ai, Celso! Dá um tempo! Vamos conversar! — implorava ele.
— Vou chamar a policia e dizer que o demônio me agrediu, seu filha da p...! Você vai dizer para eles que não foi você quem me agrediu, mas que foi o seu demônio, seu filha da p...! Vou mandar prender esse demônio de m... — e enlouqueci.
Jorge estava apavorado.
E, ainda atordoado pelo efeito do álcool, pedia-me desculpas sem parar.
Implorava-me para que eu guardasse segredo dos acontecimentos daquela noite.
Estava com medo das consequências.
— Pelo amor de Deus Celso! O que a minha família vai pensar de mim! O que os meus filhos vão dizer! Não faz isso comigo!..
Que situação esdrúxula!
Com um amargo desprezo, disse-lhe que pensaria no assunto.
Nossa amizade, infelizmente acabou ali.
Não tínhamos mais nada em comum.
Cambaleante, Jorge desapareceu na noite escura, envergonhado e arrependido por seus atos.
Pagara caro por eles!
Inocência, ainda no inicio de nosso relacionamento, e que seguidamente passava as noites comigo na loja, neste dia não apareceu!
Meu celular não tocou!
Os amigos, que sempre estavam comigo, também não vieram esta noite.
Ninguém se lembrou que eu existia.
Alguma coisa de muito errado havia acontecido esta noite.
Este, definitivamente, não era o caminho que eu desejava seguir.
No outro dia contei a história para Inocência, que desabafou:
— Que pena Celso! Eu passei pela frente da loja de madrugada. Eu vi a luz acesa, mas não quis entrar. Eu estava com pressa. Que azar!
Azar o meu Inocência, que com tantos amigos e mesmo com a sua companhia esporádica, sentia a solidão aumentar violentamente.
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