terça-feira, 9 de outubro de 2012
LUCIUS
Parte I
Lucius era um jovem agradável e extrovertido.
Cativava a todos com seu desembaraço e seu grande poder de comunicação e carisma.
Trabalhava no mercado de sua mãe e de seu padrasto, numa das lojas próxima a nossa, no mesmo centro comercial.
Cabelos e olhos castanhos escuros, estatura média e compleição forte, Lucius tinha na época seus 19 anos de idade.
Seguidamente íamos ao seu bar comprar alguma coisa e vice-versa.
Com o passar do tempo tornamo-nos amigos, na realidade, grandes amigos.
Não sei como, nem quando começou nossa amizade.
Sei que, com o passar do tempo, nas vezes em que ia ao seu bar comprar, comecei a falar de tarô.
Acredito que nesta época ele já namorava Karla e mantinha um certo interesse pelo ocultismo.
Sabendo que eu jogava cartas e já conhecendo Morgana, que também era cliente do seu bar, ouvia com interesse minhas rápidas conversas filosóficas.
E eu, totalmente apaixonado pelo tarô e pela cabala, gostava de conversar com ele sobre estes assuntos.
Não sei se Morgana chegou a ensinar-lhe alguma coisa, mas também nunca lhe perguntei.
Sei que, na época, totalmente fascinado pelo ocultismo, eu falava pelos cotovelos, como se o mundo inteiro estivesse me entendendo, e pronto!
Hoje, penso que me tornava um chato com tanta euforia, mas Lucius nunca me reclamou, muito antes pelo contrário, incentivava-me com suas colocações aleatórias e tocava lenha na fogueira.
Lucius gostava de cantar e de tocar violão e tinha uma voz potente e um sorriso alto e fácil, numa alegria espontânea e contagiante.
Acredito que quando pegava o seu violão toda a rua o ouvia cantar.
Dentre os jovens, foi um líder, e ofuscou-me o reinado.
Conhecedor de mitos e lendas satânicas, identificou-se facilmente com os necessidades do grupo e prendeu-lhes a atenção.
Seus conhecimentos ocultistas eram mais atraentes e sedutores, do que a minha abordagem insípida e filosófica das cartas.
Lucius, apesar de querer atualmente contra-argumentar minha opinião, apaixonou-se por Samara no instante em que a viu e foi retribuído de igual maneira.
E os olhos dela brilhavam assim que o via, e ela mal conseguia disfarçar sua ansiedade, tanta a atração que sentia por ele.
E eu me preocupava com os riscos desta união, pois achava Samara ainda muito jovem para namorar, mas sem poder evitar, fiquei à mercê dos acontecimentos e um atônito espectador.
E nunca pensei que o desenrolar de minha amizade com Lucius, fosse dar nas histórias que deu.
Parte final
Certo dia, à tarde, estávamos reunidos no cantinho, quando Lucius apareceu na loja para conversar.
Assim que chegou, pediu a meu irmão que me chamasse.
Eu já o tinha visto e escutado lá de trás, e retornei o convite, dizendo-lhe que assim que pudesse eu o procuraria no bar.
Mas Lucius insistiu, dizendo que era um assunto urgente.
Desconfiei de sua presença, e desconcertei-me com seu pretexto.
Ele quer mesmo é conhecer as jovens, pensei desconfiado.
Entrei em dúvida se recebia-o ou não, enquanto ele, irredutível, esperava-me no balcão da ferragem.
Ainda indeciso, enquanto conversava com os jovens, eu observava-o de longe.
E Lucius e eu, até hoje nos questionamos sobre este fato.
Não sei se deveria tê-lo deixado entrar.
Mas as coisas são assim mesmo, acontecem sem sabermos o por quê.
E afinal de contas, as profecias já estavam escritas, teriam que acontecer.
E vamos convir, do jeito que sou, dificilmente lhe negaria a entrada.
Será?
E, então, na dúvida persistente, que sempre foi o meu lado forte, acho que este dia correu a nosso favor, pois felizmente levantei-me e fui até ele.
Impotente ante aos seus chamado e a sua espera, convidei-o para entrar e apresentei-lhe os meus amigos; e ele, interessado ficou.
E o assunto, de tão urgente que foi, sequer foi cogitado, e ficou para o esquecimento da eternidade.
Dali em diante, Lucius começou a fazer parte de nosso grupo de estudos, e retornava diariamente para participar de nossas reuniões.
Agora, já éramos em cinco:
Tana, Samara, Dimitryus, Lucius e eu.
E as coisas começavam a sair do controle.
Samara, deslumbrada com Lucius, mal prestava atenção ao que eu falava.
Tana, que nunca se interessou pela cabala, dava suas tiradas engraçadas e entretinha-se com a brincadeiras de Lucius.
Dymitrys, retraído, dava suas curtas gargalhadas e, de vez em quando, trocava algumas palavras com Lucius.
E eu, o velho líder alquebrado, perdido numa liderança a contragosto, sem voz ativa, entrava nas brincadeiras do grupo.
Jorge, uma raposa velha, xereta, comparecia às nossas reuniões, mas não participava do grupo, mantinha-se a distância, ouvindo.
Vinha apenas para passar o tempo ou conversar comigo sobre tarô, ou então, dar suas opiniões neuróticas, principalmente aos jovens, sobre magia, magia negra e hierarquias de poder, coisas que pela sua idade e soberba, eu não apreciava que comentasse com o grupo.
Lucius, como soube depois, era iniciado e praticante da magia dos vampiros, e Karla também.
Mas vejam só, com o passar do tempo, juntando fragmentos de estórias aqui e ali, descobri que Lucius em sua adolescência conheceu um homem misterioso chamado Douglas Leffender, e uma não menos misteriosa e ciumenta súcubos chamada Lorraine, pessoas impressionantes e intrigantes, das quais falarei adiante.
E eu, apenas por existir e respirar e reunir um grupo de jovens no cantinho da ferragem, chamava a atenção e a curiosidade de todos.
E os adultos maldosos e ciumentos falavam de mim, sem saber que os jovens eram bruxos iniciantes do ocultismo, e que éramos amigos, e que todos os dias nos reuníamos no cantinho para estudar, brincar e conversar, e viver nossas doces e reais ilusões, nada mais do que isto.
Se eu era o Mestre, eu também era o dono das lojas, e eles precisavam de minha anuência para entrar.
Então, sem eu saber, Adão, que já rondava a locadora atrás de Samara, mirava o alvo em mim.
Certo dia eu o vi entrar na locadora, mas preocupado com tantos jovens me procurando, não o convidei para entrar.
Adão acompanhava Samara até a entrada da loja, e depois ia embora.
Até que um dia à tarde, ele ficou, e Samara inevitavelmente nos apresentou.
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