terça-feira, 9 de outubro de 2012

ENVELHECENDO RAPIDAMENTE




                                              Parte I

Numa certa noite de primavera eu estava trancado na loja sem ter o que fazer.
Era quase meia-noite, quando alguém bateu à porta.
Através da cortina de ferro da ferragem, perguntei antes de abrir:
— Quem é?
Baixinho, uma voz feminina respondeu-me:
— Oi, Celso! É a Samara! Posso entrar? Tem alguém aí contigo?
— Não! Estou sozinho! — falei ansioso por vê-la, enquanto levantava a cortina com algum esforço.
Samara, assim que abri, espiando para dentro da loja, certificou-se antes de perguntar:
— Oi!... O que você está fazendo aí, sozinho?
— Pensando na vida! — respondi desanimado, dando de ombros.
Samara me surpreendia com sua visita e fiquei feliz.
Eu tornava-me um solitário e sua presença era um presente para mim.
Com as brigas lá em casa, mais a rejeição que sofria de meus familiares e de pessoas mais próximas, afastei-me do convívio de todos, e vivia praticamente para os meus amiguinhos, que aos poucos retornavam, e para os meus estudos esotéricos.
A impressão que tinha, era a de que minha vida e minha família eram eles, tanto a afeição que me dedicavam e o desafeto que recebia de meus familiares.
A música não realizava-me mais, e aos poucos eu ia perdendo a ânimo de tocar.
Continuava mais por insistência de Beto, que sempre sonhou em ter uma banda de rock, que por vontade própria.
Mas, apesar de tudo, eu gostava de tocar.
O meu contrabaixo, as luzes do palco, os músicos e as pessoas que frequentavam os lugares em que íamos tocar, traziam-me saudosas recordações de um tempo que se foi.
E quando eu tocava, eu esquecia-me dos dissabores da vida.
E eu gostava de ir até a casa de Beto ensaiar.
Lá era onde eu guardava parte de minhas recordações infantis e da adolescência.
Beto, para nossa felicidade, ainda morava na mesma casa onde nasceu.
Revendo uma foto antiga, mostrada por minha mãe há alguns anos atrás, soube que Beto e eu já éramos amigos desde criança, uma amizade rara de se ter e de se manter.
Estudamos no colégio La Salle em Canoas, e seguimos juntos por quase todas as séries do colegial.
Morávamos bem perto um do outro.
E a casa dos pais de Beto ficava ao lado da igreja central.
Era de construção antiga, não remodelada, que fazia-me retroceder aos tempos dourados de minha juventude, e traziam-me à tona saudades de pessoas e de momentos que desapareceram como que por encanto, como fumaça pelo vento, como a chuva de um verão tropical, numa rapidez que jamais pensei existir.
A mãe de Beto havia falecido e o seu pai morava em outro lugar.
O tempo, o bem mais precioso de nossas vidas escorreu-me das mãos como um manancial, sem eu o perceber.
Inexoravelmente, transformei-me num observador estupefato das mudanças da vida.
E eu, que desde sempre era o último a chegar, sentia uma felicidade tamanha ao reencontrar os meus velhos amigos esperando-me com suas brincadeiras, que nem sei como explicar.
Num destes sábado, quando cheguei na casa de Beto, vi pelo pequeno portão do estreito corredor lateral, o único acessa da casa, que somente a luz da cozinha, aos fundos, estava acesa.
O silêncio e a escuridão eram totais, como se eu fosse o primeiro a chegar.
"Aí tem coisa", pensei, e tive que sorrir, pois antes de sair da loja eu jogara as cartas para saber quem estaria ali e como seria o ensaio.
Pela quantidade de figuras que saiu, eu já imaginava quem seriam eles.
E não eram poucos.
Bati palmas em frente ao portão e chamei por Beto.
Ele chegou displicentemente, com vagar, e abriu-me o portão com um semblante sério, meio cansado, meio calado, e fomos até a cozinha, como sempre fazíamos, conversar.
Percorremos o pequeno corredor de ligação entre a sala e a cozinha, quando Beto, fazendo as gentilezas da casa, ficou para trás.
Quando passei pela porta entreaberta da cozinha e vi o pessoal, a gritaria foi geral e as brincadeiras começaram.
No meio da algazarra, André me provocou:
— Você achou que tivesse sido o primeiro a chegar, né tartaruga!
E a risada foi geral.
Mas eu, o estraga prazeres aqui, não se aguentou:
— Nãoooo!...Vocês é que pensam!...Eu joguei as cartas antes de sair da loja, e já sabia que vocês estariam aqui! — ironizei, sempre fui um mal perdedor.
— Ah, tá! E tem mais essa ainda, tartaruga! Só nos faltava essa, a gente tem que ouvir isso! — respondeu-me André, divertido.
E no burburinho do ambiente, entre risadas, a confraternização foi geral.
Logo em seguida as brincadeiras cessaram, e nem sei se acreditaram em mim.
E até hoje, lembro-me de todos os que estavam ali para me receber.
Tempos que indubitavelmente jamais voltarão.
E na mesa grande da cozinha daquela antiga casa que já não existe mais, mal cabiam tantas pessoas.
Meus amigos traziam suas esposas, e algumas delas, para minha surpresa, inacreditavelmente, eram as mesmas jovens que eu conheci em minha adolescência.
Então o reencontro ficava ainda melhor.
E as amizades antigas que se reencontram são imortais, são dádivas de felicidade, de fidelidade e de amor, de pureza de um tempo que guardamos em nossos corações,
Muitos deles, relembrando seus tempos de músicos em conjuntos musicais em Canoas, que na época eram muitos, vinham matar a saudade e tocar conosco algumas músicas que fizeram sucesso nas décadas de 60 e 70.
Outros, não tão músicos assim, também vinham saudosos nos reencontrar e participar de nossos encontros de fins de semana.
Nestes anos de paz e de amor quase todos os nossos amigos sabiam tocar alguma coisa, nem que fosse apenas batucar numa lata velha.
E nestes encontros de fim de semana, eles sempre se cotizavam para um churrasco e muita cerveja.
As festas geralmente aconteciam de dia, e eu por chegar à noite, jantava o que guardavam para mim.
A maioria deles eu já não via há anos, desde quando saí de Canoas com 19 anos de idade para vir morar em Porto Alegre.
E para mim era um sonho revê-los depois de tanto tempo, um agrado de Deus.
E acredito que sentiam o mesmo que eu.
E a magia daqueles encontros e daquelas noites faziam o tempo parar.
Faziam os rótulos sociais e a cor de nossos cabelos esbranquiçados pelo tempo deixarem de existir, e nos tornávamos o que sempre fomos, nós mesmos, os mesmos jovens adolescentes de então.


                                              Parte II

— Samara, acho que hoje não vai aparecer ninguém! — falei desiludido, pois achei que não fosse ficar.
Mas enganei-me, mal acreditei quando falou:
— Não importa Celso, assim é melhor. Era contigo mesmo que eu queria falar.
— É mesmo, Samara? — estranhei sua resposta e me alegrei.
— É!
Samara estava esquisita, irriquieta, com um sorriso maroto, alguma coisa queria aprontar.
— Celso! Eu estava em casa pensando... nós nunca mais tivemos tempo pra conversar sobre ocultismo, sempre tem gente aqui... Quem sabe agora que estamos sozinhos, não aproveitamos o tempo para fazermos alguma coisa diferente?
— O quê, por exemplo?
— Sei lá, meditar, talvez! Ninguém mais vem aqui conversar contigo sobre cabala, que é o que você mais gosta, só viemos falar de nossos problemas.
— É mesmo, Samara! Você tem razão!
— É!... Mas hoje eu vim pra te fazer companhia! — disse Samara, emocionando-me.
— E o que você quer fazer? Tem alguma ideia? — perguntei eu.
— Tenho! Deixa comigo!
"E agora, o que será que esta guria vai querer me aprontar?!" — fiquei de sobreaviso.
Mas Samara não me decepcionou e não titubeou.
Dirigindo-se rapidamente ao "cantinho", me orientou:
— Celso! Eu vou apagar todas as luzes da loja e vou acender uma vela. Vamos ficar em silêncio e meditar. Qualquer visão ou impressão que tivermos discutiremos depois, está bem?
— Está bem! Mas qual o objetivo?
— Sei lá! Vamos ver!
Estranhei sua proposta inconsistente,  mas também ela nem precisava ser convincente, pois quando eu estava com ela, eu estava bem.
Samara tinha o meu amor e a minha amizade e o encanto de uma jovem mulher.
Depois de apagar todas as luzes, ela sentou-se a minha frente.
Lentamente, ritualisticamente, pegou um dos castiçais da estante e uma das velas que estavam soltas sobre
a mesa e acendeu-a.
Eu fiquei admirando-a, sereno, encantado, calado.
O débil clarão da luz avolumou-se e espargiu sobre nós, irradiando um ar fantasmagórico ao ambiente.
As dezenas de bruxas e bruxos, que colecionei ao longo dos anos me olhavam das prateleiras, e lançavam suas sombras engrandecidas e tenebrosas pelas parede; e, ao longe, nada, apenas a escuridão.

                                               Parte III

Samara iniciou o ritual com alguns encantamentos.
Seus preparativos foram tão incomuns e perfeitos que sai do ar e fui navegar pelo espaço.
Trouxe algumas ervas para queimar e o seu cheiro inundou o lugar.
Quando terminamos, ela comandou:
 — Celso, olhe pra cá! — Apontou com o dedo indicador para um ponto acima entre suas sobrancelhas. — Olhe fixamente para minha testa! Concentre-se! Não fale! Depois nós conversamos, tá bom?
— Tá! — respondi intrigado.
Cheguei a tontear com o sabor da forte poção.
Num silêncio quase que total, pois ainda ouvíamos o sinistro e irritante "tic-tac" do relógio da parede, iniciamos a sessão.
Eu estava na cadeira preguiçosa, e ela sentada do outro lado da mesa, de frente para mim.
Na paz do silêncio e na penumbra que invadia a escuridão, na sua presença, minha mente parou e minha alma se libertou dos cansaços e das ansiedades daquele dia, e voou.
Entreguei-me a persuasão alucinógena, foi fácil me concentrar.
Samara trouxera consigo algum poder que eu desconhecia e, sem qualquer movimento, olhava-me fixamente, como o combinado.
Rapidamente as visões começaram a surgir.
Num instante, o tremeluzir da vela branca e o seu olhar fixo acima dos meus, fizeram-me ascender.
A magia do momento, a empatia de Samara e a claridade inebriante da luz espalhando-se pelo seu rosto, fizeram-me ver.
A principio, um triângulo branco, cintilante, surgiu em sua testa.
Depois, em hologramas, vários segmentos de retas multicoloridas partiam de um vértice comum atrás de sua cabeça, e como flechas iridescentes transpassavam sua cabeça em minha direção.
Por longos segundos, suponho, extasiei-me com a visão, para logo em seguida, inacreditavelmente, sucederem-se as outras visões.
Perplexo eu via Samara em uma outra posição.
Agora, em um mundo mágico, ela estava sentada de lado, ereta e imóvel, e quando virava o seu rosto para me olhar, surgiam outras mulheres em seu lugar.
Assustei-me com as metamorfoses e me extasiei.
Ante a luz bruxuleante da vela, alteravam-se-lhe as feições.
Em sequências rápidas, no movimento de virar sua cabeça, seu rosto transformava-se maravilhosamente em várias faces femininas.
Em flashes de curta duração, ao virar de rosto de Samara, fantasmas desconhecidos de mulheres de várias gerações vinham me visitar.
E foram muitas.
Como um apaixonado que não consegue desprender o olhar de sua amada, encantado com as visões surreais, sem controlar minhas emoções, me enlevei.
Junto com as visões, um mundo colorido surgiu, magnífico; insurgiu num ambiente fracamente iluminado pela luz da vela, ofuscado por trêmulas sombras de silhuetas.
Fiz um grande esforço para controlar-me e não interromper o processo, pensei que Samara estivesse me enganando, feito alguma feitiçaria.
Lembrei-me que, afinal de contas, ela fazia os seus sortilégios, e que apesar de todas as minhas racionalidades e contradições, ela era uma bruxa!
Impressionado e hipnotizado com as visões, apesar do susto e do medo de perder minha razão, o encantamento foi maior.
Com o olhar fixo em Samara, admirado, esforcei-me para sussurrar no amortecimento, debilmente:
— Samara!... Eu não estou vendo você... Onde você esta?...Estou vendo outras pessoas em seu lugar... Sei que você esta aí... mas... não consigo te ver... só vejo elas!
E a minha língua enrolava no ansioso esforço de falar.
Mas Samara não me respondia,"porque Samara não me respondia?!"
Então, de repente, os rostos femininos sumiram e o rosto de Samara reapareceu, e o triângulo luminoso em sua testa ressurgiu emitindo intensos clarões de luz.
Eram feixes de luz tão branca que quase cegavam-me, e faziam quase que desaparecer suas feições.
Fiquei feliz por vê-la novamente.
Exclamei, entre atordoado e alucinado:
— Samara!... Estou vendo de novo o triângulo em você.
— Psiu Celso...não fale, concentre-se.
— Mas...
— Psiu...
E o triângulo com seus lados duplos brilhou intensamente por mais alguns segundos.
De repente, uma visão alucinante, eletrizante, ensandecedora!
Seu rosto jovem envelhecia rapidamente.
Como um filme rodando em alta velocidade; Samara, de jovem tornou-se mulher; de mulher uma anciã.
Seus cabelos embranqueciam velozmente e suas feições enrugavam com o tempo.
Vi Samara idosa, numa idade bem avançada.
Vi como ela, presumo, estará em sua velhice.
E, acredito que presenciei todos os "processos genéticos" de seu envelhecimento.
E uma coisa era certa; em todos eles, ela estava bem!

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