Girando e girando no giro que se amplia
O falcão não pode ouvir o falcoeiro;
As coisas se esboroam; o centro não se aguenta;
A mera anarquia está solta no mundo,
A maré escura de sangue está solta, e em toda a parte
A cerimônia da inocência se afogou;
Aos melhores falta convicção, ao passo que aos piores
Estão cheios de apaixonada intensidade. *
W. B. Yeats
A ESTRELA ÀS DE COPAS
Esta tiragem de cartas ocorreu um pouco antes de eu conhecer Inocência, num tempo em que ela ainda passava rapidamente pelas calçadas em frente as lojas.
Registro estas cartas como uma experiência aos interessados em conhecer seus mistérios.
Cartas que, por sinal, custei a entender, mas não totalmente, talvez porque nossas histórias ainda não tiveram o seu fim.
Parte I
Conheci Inocência aos 17 anos de idade.
Com 1,73 m de altura, cabelos loiros, lisos e compridos e lindos olhos azuis, Inocência era uma jovem muito bonita e atraente, uma ninfeta.
Chamo-a de ninfeta por falta de uma palavra melhor, talvez por apreciar sua beleza que parecia-me infantil.
Contudo, a encantadora Inocência já estava prestes a completar os seus 18 anos de idade, e já tinha a consciência da sedução e das volúpias que enfraqueciam os homens.
Com a graça de seus encantos de menina seduzia-os, e aproveitando-se de suas paixões, manipulava-os ao bel seu prazer.
Encantei-me com Inocência assim que a vi.
Mudando-se para o bairro, ela morava com seu companheiro recente num dos prédios em frente ao colégio, numa das ruas laterais próximo a loja.
Todavia, se a minha graciosa Inocência pintasse os cabelos, colocasse lentes de contacto e se transformasse numa bela morena sensual, de longos cabelos escuros e cacheados e grandes olhos da mesma cor, não me fariam a menor diferença, pois como fui descobrindo com o tempo, tudo o que vinha dela era obscuro e inconfiável, para minha desolação.
E se o sonho que Vivian contou-me num certo entardecer em frente a ferragem se confirmou, ele se confirmou apenas por que eu o deixei, apenas por isto.
E se lembrei-me dele quando a conheci, não o valorizei e nem me importei.
Apesar de saber que Inocência se parecia muito com aquela jovem enganadora que Vivian descreveu-me de seu sonho, eu a aceitei.
E como poderia não aceitá-la.
Como poderia negar e rejeitar aquela visão angelical, o ensejo de nosso primeiro encontro, os anseios do meu coração, a minha paixão.
Como poderia desprezar o que jamais esqueci.
E, analisando simbolicamente o sonho de Vivian, bem que ela me alertou, Inocência realmente usava os seus grandes óculos escuros.
E, apesar de seus insistentes avisos, Vivian, ainda imatura, esqueceu-se de comentar um detalhe muito importante para qualquer homem.
Aliou-se uma insensatez — Inocência era uma mulher irresistivelmente bela.
Tão bela que apaixonei-me perdidamente por ela.
Como a nossa rua é pouco movimentada, quase todos os dias à tarde eu a via passar.
E ela passava rápido com algumas compras do Supermercado local, e jogava os seus braços com uma pequena sacolinha na mão.
"Decerto vai tomar o seu café", pensava eu, encantado.
Aos poucos, esta jovem foi chamando-me a atenção.
Às vezes, curioso, enquanto ela passava pela calçada do outro lado da rua, eu perguntava ao pessoal do grupo se a conheciam.
Os safadinhos, desligados, alguns gesticulando as mãos e os ombros, diziam-me que não.
E olhando-na ao longe passar, pouco se importavam comigo e, displicentemente, continuavam com suas conversas.
Contudo, com o tempo, todos a iriam conhecer.
Parte II
Tudo começou numa tarde inesquecível de verão.
Eu estava sentado numa banqueta alta atrás do balcão da ferragem, tomando tranquilamente meu cafezinho, quando Inocência despontou.
A rua fica distante da calçada das lojas, separadas por um extenso jardim.
Como a visão é panorâmica, numa posição privilegiada, fiquei admirando-a passar.
E como das vezes que passou nunca me olhou, não me preocupei.
E se eu estivesse apreciando uma cena interessante de um filme, só me faltariam as pipocas para saborear.
Mas nesta tarde tudo mudou, meu mundo se contorceu.
Minha vida se transformava definitivamente.
Acontecia o inusitado.
Vindo pela calçada de cá, quando chegou na entrada de carros dos prédios, que passa pela lateral da ferragem, Inocência muda de direção.
Cruzando em diagonal pela entrada, ousada, ultrapassou o murinho divisório do gramado, e vem em linha reta pela lateral do jardim em minha direção.
Vinha com a cabeça erguida, encarando-me séria, com determinação.
Alertei-me, um suspense!
"Pronto, ai vem confusão!" Pensei.
E não é que a atrevida aproxima-se rapidamente de mim.
Desafiava-me com o olhar.
Preocupei-me com o desfecho, mas hipnotizado com sua beleza, não consegui desviar o meu olhar também.
Paralisei.
Mas que disparate, que presunção, que maravilha!
Quando chegou bem perto, a pouco mais de um metro de distância de mim, girou o seu corpo e seguiu em direção ao bar do lado.
Quando deu seu quarto de volta, manteve-se séria, não esboçou qualquer sinal.
"Que esquisito", que estranho!"
Fez-me para provocar, a danadinha.
De tão nervoso que fiquei, tremi e derramei todo o café em minha roupa.
Mas meu coração não quis nem saber, disparou sensível.
"Meu Deus do céu, que coisinha mais linda."
Não sei por que, ainda tentei livrar-me das manchas de café que salpicaram por toda a minha roupa.
Atrapalhado, tive que parar com a limpeza senão a perderia de vista.
Respirei fundo antes de sair para espiá-la novamente.
Fui com receio, desestabilizei-me com sua ousadia, fui um pouco sem jeito, um estressado emocional.
Agitado, fiquei na porta da ferragem esperando-a sair do bar.
Acreditei que viesse me conhecer, ou então, quem sabe viesse me atropelar, não sei, mera presunção.
Alguns minutos depois, estranhamente, ela sai do bar serelepe, graciosa, faceira, dando saltinhos nas poças d'água da chuva que caíra anteriormente.
Mas, para meu desgosto, Inocência seguiu em direção oposta a mim sem olhar para trás, mas certamente sabia que eu a olhava.
E este encontro gravou-se para sempre em minha memória e em meu coração.
Encantei-me com seu beleza juvenil, com seu corpo magro e formoso, e me apaixonei.
Irremediavelmente, meu coração se oprimiu e a desejei.
Posteriormente, veio a tristeza e a desolação, Inocência nunca confirmou estes fatos para alguém.
Quando eu comentava com o pessoal e brincava, dizendo-lhes que foi ela que me atacou e conquistou; ela, fazendo pouco caso de mim, debochava e menosprezava-me.
Dizia a todos que eu inventava a história.
Inocência desmereceu o meu passado, tentou apagar as minhas mais caras lembranças, as minhas mais belas ilusões, desacreditou-me sem piedade, sem respeitar os meus mais puros sentimentos.
Fez-me passar por mentiroso.
Parte III
E depois deste breve encontro, Inocência sumiu.
E todas às tardes eu olhava para as calçadas distantes na esperança de vê-la passar.
Talvez tivesse mudado o trajeto para não me ver, ou então, quem sabe, mudado de bairro, pensava eu chateado, desiludido.
Mas felizmente, enganei-me, um dia ela voltou.
O destino não a deixaria escapar de minhas mãos.
E para minha felicidade, depois de quase um mês sumida, Inocência, esguia, retorna formosa.
E ela surgia quase sempre à tarde, e passava rapidamente com suas compras do super mercado local.
Mas que desencanto, passava sem me olhar, como se nada tivesse acontecido, com se eu não existisse mais.
Um dia, após o meio-dia, eu a vi novamente e foi uma emoção.
Inocência vinha com alguns de seus amigos pela calçada de cá e pararam ao lado do orelhão em frente as lojas.
Ficaram conversando por algum tempo, e quando foram embora, ela, sempre de costas, entretida, nem me reparou.
Depois deste dia, desiludido com sua indiferença, perdi toda a esperança de conhecê-la.
Mas certa noite, coincidência ou não, depois de fechar as lojas, para minha surpresa, encontrei-a pela caminho.
Eu indo para a casa, e ela vindo não sei da onde, talvez do céu.
Quando cruzamos, nossos olhares encontraram-se.
Eu continuei meu caminho e atravessei a rua, mas na calçada oposta não resisti a tentação e parei para admirá-la seguir.
Eu já estava atraído, aluado.
Parei somente por parar, queria saber se ela iria me olhar ou não.
E não é que ela olhou.
Quando viu que eu estava parado, quase se perdeu.
E eu quase nem acreditei no que vi, delirei e me empolguei.
"Arrá, te peguei!"
O anjo andou mais um pouquinho e voltou a me olhar.
"Ah!... E agora?!..." — pensei ensandecido.
E estaqueei ali, abobalhado, com um paladar de felino, espreitando minha presa...saboreando o meu jantar.
Eu me divertia com a situação e com a aventura, mas o sangue fervia.
E Inocência, para o meu entusiasmo, feliz, não se conteve, deu mais alguns passinhos e, na indecisão, atrapalhada, não resistiu, voltou a olhar para trás.
Mas, agora, pelo jeito com que me olhava, ressabiei.
"Vai dar confusão! Azar!" Pensei.
Mas que nada!
Com um trejeito de cabeça, sorriu com ares de deboche.
Fez menção de seguir, mas vendo que eu não arredava o pé, fraquejou de vez e parou.
"Putz!...E agora?..."
Sentia-me um idiota, um suspense, cheguei a pensar que levaria bronca.
O tempo reduziu a velocidade e o meu coração quase parou.
Sem saída, pressionei-me.
Além de cômica, a situação estava ficando perigosa, ridícula para mim.
Cumprimentei-a com um leve aceno de cabeça, e, sem mover-me um milímetro sequer, apreciei.
Inocência, gesticulando suas mãos, afrontou-me com um ar irônico, como se me perguntasse: "O que você quer parado aí? Qual é que é?"
Mas continuou esperando.
"Putz!... E agora?...Vai lá Celso!...Seja homem!"
E eu fui.
Com receio, mas fui.
"Acho que ganhei a gatinha! Pensei.
Aproximei-me eufórico, um pouco desconfortável.
E não nego, cheguei um pouco tenso, desajeitado por sinal.
Eu não sabia o que esperar nem o que falar, me deu um branco total.
Enquanto eu me aproximava, ela se aproximava também.
Mas, o pior, é que quando chegou bem perto de mim, pelo jeito com que se postou; de cabeça erguida, como se me avisasse para não ultrapassar o sinal; em todo o seu orgulho, pareceu-me mais alta do que eu.
Contudo, para meu alívio, foi o desnível da calçada que ocasionou a impressão, pois quando me aproximei constatei que ela não era tão alta assim, pois olhávamos nos olhos, sem inclinação.
E para meu alívio, foi ela que tomou a iniciativa.
Com seu lindo sorriso, quebrou o gelo e fui bem recebido:
— Tá!... E daí!... Qual é que é?... O que você queria parado ali? Qual é que é? — inquiriu-me esquisita.
Não me pareceu zangada, apesar de dar dois passinhos para trás, quem sabe tentando equilibrar-se.
"E eu sei lá o que eu estava fazendo parado ali.
Eu não estava fazendo nada, só queria apreciá-la, nada mais."
E sua abordagem incisiva pegou-me de jeito, e eu gostei.
Eu até podia estar de bobeira, sem noção alguma do ridículo, mas o certo é que eu já sabia o que queria.
E o que eu queria estava ali, bem perto de mim, bem ao alcance de minhas mãos.
E o meu desejo era o de avançar o sinal, atacar seu corpo e desbravar o seu mundo, sem eu acreditar.
Sempre fui impulsivo.
Lembro-me que idiotizado dei de ombros, e com uma expressão estabanada, tasquei:
— Oi! Você gosta de jogar cartas?
— Gosto!... Porquê?
E nos secávamos.
Agora, ela gesticulou suas mãos e arqueou as sobrancelhas umas três vezes, parecendo-me dizer: "Como assim? Não estou te entendendo!"
"Nem eu", pensei.
E enfeitiçado, falei como um tolo:
— Eu jogo tarô! Se você quiser eu jogo pra você.
Viajei no brilho dos seus olhos e na beleza de seu rosto.
"Que idiotice, meu Deus do céu!"
— Ah, tá!... E daí? — exclamou ela, movimentando suas mãos e estalando os seus beiços, fazendo uma careta de deboche.
Quem sabe não estivesse pensando lá com seus botões: "Só me faltava essa! Mais um velho louco e tarado em minha vida!."
E Inocência hipnotizava-me com o olhar.
Extasiei-me no azul de seus olhos e perdi o ritmo do tempo.
Mentalmente estressado, sem condições de pensar, cativado e apalermado, engasguei.
Sempre tive dificuldades para sentir o que quer que fosse e pensar ao mesmo tempo.
E, agora, o que eu menos queria era pensar, mas não havia outro jeito, tive que me esforçar.
"Pra que tanta conversa? Que papo furado! Pra que deixar pra amanhã o que pode ser feito hoje? Te acalma, Celso!... Relaxa!...Te acalma!...Ela é só uma mulher!... Ela não é perigosa!...Te concentra, pensa antes de falar besteiras!"
E antes mesmo que eu parasse de falar e de pensar besteiras, Inocência não resistiu.
Na dúvida entre achar-me um louco e ir embora de uma vez, optou por me conhecer.
"Ninguém resisti a um louco." — pensei neurótico, vitorioso.
E para não errar, fiquei quieto, à mercê, e esperei.
E como ninguém perde nada por conhecer alguém; sem disfarçar sua curiosidade, ela deu-me um olhar crítico daqueles.
Avaliou-me dos pés a cabeça antes de responder:
— Quero! — agora pareceu-me um pouco esquisita, pois franziu o nariz.
E interiormente eu vibrava de felicidade: "Uru!"
Por um momento, desconfiei que minha conversa não estivesse tomando o rumo certo, mas agora o importante era eu ir segurando-a por ali, e continuei falando.
Entretanto, depois de algum instantes, com a faísca atrasada como sempre, desconfiei de sua atitude que parecia não reconhecer-me, e reclamei:
— Você não está lembrada de mim?
— Não!...
— Não me reconhece? Não se lembra de mim? Não sabe quem eu sou? — perguntei desenxabido.
— Não!... Por quê?... Deveria?
"Só me faltava essa! Mas que droga, que mer..."
Bem, aí eu tive que explicar-lhe que tinha uma loja ali — apontei-a com o dedo — e que quase todos os dias eu a via passar... que eu era o cara que ela olhou (...)
— Não se lembra? — perguntei desacorçoado.
— Não, não me lembro! — respondeu-me na maior cara de pau. — Tem certeza que era eu? — fingiu-se surpresa, com um ar de inocente.
Inocência pegou-me de jeito.
Depois desta tirada maquiavélica, eu não soube mais o que fazer e dizer.
Meus sonhos se destruíam.
Com o meu enredo cortado, bem que ainda tentei ficar conversando fiado por mais algum tempo, mas como eu não conseguia pensar em mais nada de interessante para lhe dizer, tive que parar por aí.
Não querendo perdê-la para o azar de minhas besteiras, tive que adiar a vitória, arrisquei e convidei-a para visitar-me na loja no outro dia.
— Se você quiser aparecer na loja amanhã eu te mostro o tarô. E jogo pra você, está bem?. Você vai?
— Vou!
"Não acredito."
— À que horas?
— De tarde.
"De tarde! Não acredito. É demais."
Na expectativa dei uma forçada.
Despedi-me otimista e apressado, com um:
—Te espero amanhã, então! Tá bom?
— Tá!
— Tchau, então! — acelerei-me por dentro, e o sangue ferveu.
Despedi-me nervoso, bateu a euforia:
— Tá! Tchau, então! — despedi-me tranquilamente.
E lá se foi ela sem olhar para trás.
"Bem que poderíamos ter passado a noite juntos." Pensei.
Quando ela partiu, eu ainda dei uma secadinha, mas ela ia rápido, mal deu tempo para apreciar.
"Que desperdício de tempo e de vida meu Deus."
E nos vôos dispersos de minha alma e nos anseios de meu coração fui para casa feliz, um pouco abatido pelas minhas prementes expectativas, mas abençoado por Deus.
Parte IV
No outro dia à tarde, Inocência apareceu na loja sorridente, que felicidade.
Depois daquele encontro voluptuoso e nebuloso, mal acreditei quando a vi.
Nervoso, mostrei-lhe o "cantinho" e as cartas de tarô que dissera-lhe que jogava.
Inocência entrou séria e olhava a tudo com atenção, e deixou-me a vontade com sua presença, ouvia-me como se já fossemos amigos.
Ficou um pouquinho e pouco falou.
Logo depois desculpou-se e saiu apressada, não sem antes dizer:
— Eu tenho que ir, Mas eu volto mais tarde, tá. Lá pelas nove horas. Tá bom?
"Bom demais! Não acredito! Não pode ser verdade!"
— Tá! — respondi
E ela fez uma carinha de santa.
E estas suas palavras soaram-me perfeitas, celestiais.
"Que coisa mais linda meu Deus do céu! Deus existe! Deus me ama!" — encantei-me.
Passei o dia estressado, ansioso por vê-la.
E quando chegou à noite, como o combinado, Inocência chegou um pouco antes da loja fechar.
Então, com a loja fechada, na paz de Deus, conversávamos tranquilamente.
Eu admirado com sua beleza, e, ela, não sei com o quê.
Coloquei a cama de armar na locadora e ficamos deitados conversando.
Custei a acreditar que estivesse ali comigo, e antes que fosse tarde demais, me precavi.
Entre uma conversa e outra, já preocupado com um porvir complicado e com medo de perdê-la para os outros, ainda procurando uma maneira convincente de contar-lhe os meus receios, meio sem jeito, tive que confessar:
— Inocência, eu conheço muita gente aqui no bairro. Tenho muitos amigos que me procuram. Eles se reúnem na loja para conversar e jogar tarô e eu não gostaria que você se envolvesse com eles. Assim eu evito as incomodações, tá bom? — falei enrolado, tumultuado, e nem sei se ela me entendeu.
E para não estender-me demais, joguei todos os problemas para o ar, pois eu não conseguia pensar em mais nada. Eu só queria ouvi-la falar, alisar seu corpo, apreciar sua beleza... e tentar.
E agora minhas preocupações eram outras.
Os problemas eu os resolveria depois, do jeito que desse e viessem.
— Tá bom! — disse-me ela.
Depois disso, fiquei no céu.
Inocência comunicativa, parecia feliz.
E eu nem sei o que parecia.
Meu único esforço era o de ficar admirando-a, alisando-a... ouvindo-a falar.
Faltava-me apenas um dos cinco sentidos.
E embasbacado, dediquei-me a minha caça com atenção.
E, Inocência percebeu em meu estado o seu poder.
Decerto já imaginou que seria o meu presentinho.
E, na minha insegura ansiedade, totalmente estressado, com receio de ser rejeitado, talvez eu até tivesse alguma dificuldade para desembrulhá-la, mas acredito que já estava conseguindo fazer.
Mas, de repente, uma batida suave na porta de ferro venho nos interromper.
Uma batida tão pequena que custei a acreditar que estivesse acontecendo.
Primeiro, na locadora, depois, na ferragem.
Passava da meia-noite.
Inocência olhou-me assustada.
Eu fiquei tenso.
Parte V
Quando a porta de ferro bateu novamente, agora com mais força, e uma vozinha feminina me chamou:
— Oi, Celso! É a Samara! Abre aí!
Estressei-me: "Ah, não! Logo agora!"
Desiludido, previ o desastre.
Prendi a respiração.
Tentei avaliaar qualquer ruído que porventura pudesse nos denunciar.
Estupidez a minha!
Inocência ficou preocupada quando ouviu aquela voz, e seus olhos arregalaram.
E num sussurro, perguntou-me assustada:
— Quem é?
— É a Samara, uma das amigas que te falei!
— Ah... — e relaxou.
"Que droga!", pensei. "Só me faltava essa."
E, agora, mais três batidas fortes na porta, e a voz de Samara soou mais alta.
— Celso!... Abre aí!
"E agora, meu Deus... o que eu faço?...Aonde vou me esconder... As luzes estão acesas... Ela já sabe que estou aqui. Que azar"
Pronto, lá vinham minhas arraigadas indecisões, que se nutriam de um incoerente respeito pelas pessoas que me procuravam, agravadas pela rígida educação familiar que me acompanhavam desde infância, aliadas a uma total incapacidade de dizer não a Samara, que voltavam novamente.
E digo tudo isto apenas para complicar.
E depois, como iria dizer-lhe que havia ficado surdo, que desmaiara, que infartara, que havia morrido?...
Então, decidi.
— Me espera um pouco aí, Inocência, eu já volto. Eu vou falar com ela e já volto, tá!
Inocência sentou-se na cama, intrigada.
— Tá!
Mal levantei meia porta da ferragem, quando Samara já entrou agachada, como um furação.
Ela era muito curiosa.
E mal fechei a porta, quando ela, com seu sorriso maroto, já farejava novidades e corria para espiar.
Só tive o tempo de dizer:
— Samara, espera um pouco!... Samara!... Espera!...Espera!...
Pronto, neste ínterim, meu castelo de sonhos ruiu.
Meu mundo de faz de conta, que poderia ser, se eu... se elas...
Só me deixaram o privilégio de as apresentar:
"Inocência, esta é Samara!... Samara, esta é a Inocência!"
O estragado estava feito.
Samara inquieta, pressentindo a sacanagem, nos olhava febrilmente.
Inocência sorria como uma felina.
E entre elas, eu observava amuado.
Bastaram apenas alguns minutos para as duas se identificarem e tornarem-se velhas amigas.
Eu acabei ficando de lado, esquecido.
Não muito tempo depois, surpreendentemente, entre risadas, as duas loucas se esqueceram que eu existia e combinaram sair para aproveitar a noite.
Eu não acreditei.
Inocência levanta-se rapidinho e se recompõe.
Depois deste acerto diabólico, as duas mal se despedindo, saem apressadas noite a dentro.
"Como pôde acontecer isto comigo?! Que azar!" Pensei.
Mal abri a porta da ferragem e elas já saíram em disparada pela madrugada, faceiras, sem culpas, e eu me tranquei na loja, remoendo minha solidão.
Depois desta noite eu comecei a compreender algumas facetas interessantes dos jovens.
Comecei a compreender que entre eles e eu havia um abismo de incompreensões e de imperfeições.
Na verdade não jogávamos no mesmo time, ou então, decerto achavam que o dono do clube era eu, pois, para me agradarem, sempre me escalavam para a reserva.
Mas Inocência não era tão inocente assim como eles pensavam.
Inocência conhecia os homens e os homens mais velhos também, e era uma bela mulher.
E insensível com o meu querer, aproveitou-se de sua experiência para me conduzir, e esta foi minha primeira desilusão.
E nesta noite, pressenti o que seria meu destino e os meus desatinos.
E trancado na loja, o inverno que caia em minha alma, parecia-me um dos mais frios do ano.
Minha mente totalmente esgotada, travava.
Debilitado, com tantos problemas emocionais para resolver e desencantos para aceitar, sentindo-me totalmente abandonado, e sem vontade até para comer, eu já não encontrava mais lugares para tantas decepções em meu coração, e deixei para pensar depois.
Mas ao entardecer daquele mesmo dia, Inocência, para acabar com os meus ressentimentos e deixar-me feliz, retornou como se nada tivesse acontecido.
E a partir daí então, o meu castelo de ilusões reergueu-se majestoso em meu coração.
E o que era para ser um simples encontro, um aventura fugaz, transformou-se num relacionamento obsessivo e enlouquecido, com sentimentos fortes e turbulentos, que obsediaram-me por mais de cinco anos.
E este rio turvo, que nasceu límpido a algum tempo atrás, seguia o seu curso, e nada e ninguém o faria estancar...
Parte VI
Inocência sempre foi uma jovem muito simpática.
Espontaneamente alegre, agradável, uma pessoa meiga e gentil.
De uma conversação fluente e inteligente, Inocência parecia-me frágil e dependente, uma jovem de rara beleza.
Recordo-me de vários momentos em que passamos felizes juntos.
Em uns deles, nas noites frias de inverno, sentada em minha cadeira preguiçosa ela lia partes do antigo testamento para mim, depois tentávamos interpretar a confusão.
Outras vezes, estirados na cama, ela lia alguns diálogos de Romeu eu Julieta sem parar.
Eu tentava escapar de suas brincadeiras, mas ela insistia com suas chatices e fazia-me interpretar as falas com ela, era muito engraçado.
Uma vez, perto do meio-dia, quando entrei na loja ela já estava me esperando.
Encontrei-a no cantinho, em minha cadeira preguiçosa, escrevendo em um caderno escolar algumas anotações sobre a carta da morte.
Quando li o que o escreveu, surpreendi-me com sua clareza de interpretação e fiquei emocionado por vê-la me esperando sem avisar.
No começo, com o pessoal do grupo disperso e com outros interesses, passávamos as manhãs e as tardes sozinhos, tranquilos.
Entretanto, preocupado com a interferência dos jovens e a intromissão de minha família em meus sentimentos e em meu relacionamento com ela, com medo de perdê-la para todos, fui apresentando-a aos poucos, na medida em que vinham me ver.
Até aí, tudo bem.
Os jovens ficavam curiosos com a minha nova amiguinha, e dispersos, iam embora cedo, sem muitas questões.
E, para minha felicidade, ficávamos a sós.
E nestes tempos eu a tive só para mim.
Samara, distanciada, pouco aparecia e, Inocência, ainda comedida, ambientava-se.
Inocência, quando conseguia escapar de seu companheiro, que às vezes trabalhava à noite, vinha me ver.
Assim, passávamos os dias e as madrugadas juntos.
E eu encantado por ela, nestas horas que passavam rapidamente, apesar de estranhar o seu comportamento, não me importava com as consequências de seus atos e com mais ninguém, ficava feliz com sua presença.
E estes foram, depois de muito tempo, os dias e as noites mais felizes que passei.
Comecei a acreditar que Inocência estivesse gostando realmente de mim, e todos os dias ansioso a esperava chegar.
A afinidade que eu sentia por ela era tão grande, que parecia-me que sempre a conheci e a esperei.
Por mim, ela ficaria comigo para sempre.
E nos seus olhos eu via o reflexo do meu amor e o brilho especial de nosso reencontro.
E quando eu estava com ela, minha vida parava no presente eterno, e minha respiração era a dela, minha vida vibrava com a dela, e os ventos sopravam quentes em meu rosto e em meu coração.
E se a minha casa caísse, se o meu mundo desmoronasse, eu não me importaria com nada e seguiria em frente ao seu lado.
Se poucos souberam me amar e respeitar, seu eu ainda os amava e respeitava, agora eu reivindicava os meus direitos de viver e ser feliz.
E inconscientemente, é uma lei da vida, os desafetos constroem desafetos.
E se minha família me tratava assim, eles preenchiam com desafeto o meu coração.
Quando eu comentava com Inocência que seu companheiro se enfureceria quando soubesse que vinha me ver, ela dava de ombros.
— Não se preocupa Celso, de minha parte ele nunca vai saber!
"De minha parte também não!" Pensava eu, ensandecido, numa resposta mental imediata, enfeitiçado, endiabrado, apaixonado.
E ela desabafava os seus dissabores:
— Você acha mesmo que ele gosta de mim, que se importa comigo? Você acha que ele se preocupa comigo? Ele sai e nem diz pra onde vai!... E eu é que fico lá com cara de boba, esperando ele chegar!
E os seus lamentos não paravam por aí.
Reclamava-me que passava as tardes sozinha, sem ter o que fazer ou com quem conversar.
Fazia carinha de triste quando falava dele, que condoía-me.
Certo dia, envergonhada, talvez querendo justificar-se por suas escapadelas, contou-me que Mauro tinha uma noiva no interior.
Eu me espantei.
— Como assim Inocência? Ele tem uma noiva? Não te entendi!
— Pois é — disse-me aliviada. — O safado tem uma noiva no interior, o cretino! — e de pé, encarando-me um pouco de lado, com um ar sério e preparado, estudava minha reação.
— Mas como você pôde ir morar com um cara que tem uma noiva, Inocência? — fiquei perplexo e desiludido também.
"Que piada, que sacanagem."
— Ele me mentiu! O safado me mentiu. Se eu soubesse que ele era noivo eu não ficava com ele!
E eu sentado tranquilamente, de costas para a minha pequena cozinha do cantinho, fumando e bebendo meu cafezinho, perguntei:
— Onde você o conheceu?
Ela me firmou o olhar, e com aquela sua carinha deslavada, justificou-se:
— Eu conheci o Mauro numa festa aqui do bairro. Ele só me contou que era noivo depois que eu já tava morando com ele. O que eu posso fazer?
E falou-me esperançosa:
— Mas ele me prometeu que ia terminar com ela assim que desse, e eu tô esperando!
"Decerto a puti... já foi morar com ele no mesmo dia em que o conheceu", pensei.
E amargurado, perguntei:
— Mas se ela descobrir que você está morando com ele? O que você vai fazer? — preocupei-me.
— Ela nunca vai saber onde ele mora. Ninguém sabe onde ele mora, nem os seus pais, só se eu contar! — disse-me Inocência sapeca.
— Os pais dele não sabem onde ele mora?
— Não!
"Mas que merda!"
E aticei emputecido:
— Mas se um dia desses ela descobrir onde ele mora e vier fazer uma visitinha de surpresa. O que você vai dizer? Vai dizer que é amiga dele?... Ela vai armar o maior barraco!
— Pois então...ela que venha! — falou-me irritada, empinando-se.
— E por que você aceita isso, Inocência? Qual é o problema? — questionei-a, divertindo-me com a situação.
— Eu aceitei isso porque quando o safado me disse que era noivo eu já tava apaixonada por ele. Mas agora já tô cansada disso! Já dei o ultimato pra ele! Se não largar dela até o final do mês, vou me embora!
— Ah!...Entendi!... E por que ele não acaba logo com ela?
— Porque ele me disse que se conhecem desde criança, e ele não quer terminar com ela assim de repente.
E me explicou:
— Celso, a cidade deles é pequena. Não é que nem aqui. Lá, todo mundo se conhece. A família dele e a dela são amigas há anos. Ele me disse que o culpado de tudo foi ele. Que ele não devia ter se apaixonado por mim, e que tem pena de magoá-la. Vai me pedindo um tempo para ir preparando o pessoal e vai me enrolando. Todos os fins de semana ele vai pra casa dos pais dele e me deixa aqui, sozinha. Vê se pode!
— Enquanto você está aqui comigo, ele pode estar transando com ela. Você já pensou nisso? — Fui maldoso.
— Claro que sim...Ele me disse que não... mas eu não sei... eu acredito que sim.
E ficamos em silêncio.
Pobre de Inocência, por gostar e confiar.
Parte VII
No outro dia à noite, Inocência trouxe a foto da rival para confirmar.
Indignada, colocou-a numa das prateleiras do cantinho, bem acima da mesa, e perguntou-me enojada:
— Você conhece esta pessoa?
— Não!... Que foto é essa? — perguntei desligado, totalmente esquecido da noite anterior.
— Adivinha de quem é? Vê se você consegue adivinhar de quem é?
— Nem imagino... Não conheço...Não sei de quem é. — e olhando para a foto por alguns momentos, dei de ombros, rebuscando minhas memórias.
Inocência cansou de esperar.
— Esta é ela, Celso, aquela que te falei ontem. — disse-me debochando.
E olhando para mim e depois para a foto, erguendo suas sobrancelhas, fazia-me sinais, querendo saber o que achei.
— Ah!...Ela?... Quem?
E Inocência, irritou-se.
— A megera!... A noiva do Mauro, seu burro!... Aquela que te falei ontem!
— Hum...
"Vai sobrar pra mim."
— Olha só Celso!..Olha que mulher mais feia!... Viu o que te falei!...Olha só que estrupício!...Que mau gosto ele tem!... Nem acredito!... Me dá nojo até de olhar!...Olha só!... — e apontava o seu dedo para o retrato seguidamente, e, num escárnio irritante, alternava os humores.
E eu para provocá-la ainda mais, talvez já enciumado, revidava.
— Vai me desculpar Inocência, mas ela não é tão feia assim. Acho que é antipatia de tua parte. Eu não concordo contigo. Você está sendo muito injusta com ela... hum...e acho que ele até tem bom gosto... Olha só que... — e ironicamente, ia provocando.
Na verdade, eu achei aquela mulher da foto um pouco esquisita.
Ela não era o meu tipo, mas também não era tão feia assim quanto Inocência pregava.
E afinal de contas, como toda a mulher jovem, ela tinha lá os seus encantos, os seus dons.
E na verdade, pensando como homem, é lógico, ela tinha o poder de sua espécie.
E isto não incluía necessariamente dons intelectuais ou filosóficos, muito menos proféticos.
E Inocência continuava com a ladainha:
— A horrível da noivinha... Ela é bonita?... Tu achou ela bonita?... E ele ainda a chama de santa! Vê se uma guria direita há de tirar uma foto assim, abrindo a calça com essa cara de pau!
E quis saber minha opinião:
— Olha aqui, Celso! Tu acha que ela parece santa com essa cara? E uma guria direita vai tirar uma foto assim? — e magoou-se e entristeceu
Eu concordei, apesar de achar interessante o fecho da calça aberta.
— Pior, acho que não.
— Ah! Para de gozação, Celso!... Fala sério!... — explodiu Inocência. — Eu não me trocaria por ela de jeito nenhum.
Pronto! Aí...eu bebendo minha caipirinha entre as nuvens, na paz de Deus, sem conseguir me controlar, exaltei-me de vez.
— Nem eu!... O Mauro é um louco!...Este cara é um louco!...Eu não a trocaria por nada neste mundo. De jeito nenhum!...Este cara é louco!... Você é a mulher mais bonita que eu já conheci em toda a minha vida!... Sou muito mais você!...É isso aí!... O Mauro é um louco!...Este cara é um louco!
Saiu espontâneo.
E estas minhas explosões temperamentais, vinham sempre acompanhadas com as sinceridades do meu coração.
E dê-lhe caipirinha nas alturas, com as emoções de um coração exultante, concordante.
Mas a seguir, me espantei.
"Pronto", "só me faltava essa!"
Inocência, vaidosa com meus elogios, se enterneceu, piscou seus lindos olhinhos azuis e olhando-me derretida, concordou.
— Também acho!
Se esta história da noiva foi verdade ou não, até hoje não sei.
Mas que Inocência enlouqueceu Mauro, isto sim ela fez.
Eu até imaginava que pudesse sobrar para mim, caso ele descobrisse que enquanto ia trabalhar ela passava as horas comigo.
Talvez, quando soubesse que ela estava comigo, perdesse o rumo e o prumo e viesse me tirar satisfações, como o fez algum tempo depois.
Esta história eu não a contarei neste livro, talvez em outra oportunidade, ou então as guardarei para sempre em minhas recordações.
Até cheguei a preocupar-me com a fatalidade de alguns ciumentos, mas não muito.
O importante era eu estar com ela e o resto não me importava, que se danem!
O que uma paixão faz com um homem!
A paixão destrói o homem.
Somos capazes de enfrentar o mundo, de nos expor a humilhação, de matar, de sofrer, de morrer, de enlouquecer.
Depois disso, a noite transcorreu feliz.
Inocência ligou o som de nosso rádio velho, o único que tínhamos na loja e, incansável, não parou de dançar e de falar até o dia clarear.
Riamos de nossas brincadeiras e nos divertíamos também.
E nesse pequeno espaço de tempo habitavam os meus sonhos, e nestes tempos difíceis, quando estávamos a sós, seu ser brilhava de felicidade.
E eu já caminhava embriagado pelo paraíso, já estava apaixonado, e já me preparava para morder esta maça, desde que não estivesse envenenada é claro.
E o meu signo nunca foi o de virgem, sempre fui um capricorniano sensível e possessivo, com uma natureza amorosa e explosiva dentro de si.
E esta maça gostava de dançar, e não parava nunca de dançar.
E enfeitiçado, cativado e apalermado, sentado enlouquecido entre uma multidão de anjinhos demoníacos e uma legião de demônios demoníacos, eu não me cansava de a olhar dançar e de a ouvir falar e sorrir, até o dia clarear.
E, com o alvorecer chegando, insaciado, íamos caminhando até bem perto da casa de sua mãe, bem distante dali.
Outras vezes, quando ia dormir com seu companheiro, ia sozinha, e desaparecia rapidamente, com receio de que a vissem comigo.
Parte VIII
Nesta época de grande mudanças espirituais e de uma grande confiança em minhas forças, esperançoso com o futuro, apesar das tormentas que assolavam minha alma e de uma pobreza solitária e desleixada que me cercavam, questionando-me entre o frenesi de minha conquista e das possibilidades de tê-la comigo, ainda explorando o seu triste mundo, eu não sentia ciúmes.
Dirigido por fortes tempestades psíquicas e emocionais que desabavam sobre minha cabeça desde o despertar, eu esperava ansioso a confirmação de algumas previsões de Hugo não descritas neste livro, e que se encachavam perfeitamente com o perfil de Inocência.
Se não fosse com ela, com quem seria?
E nestes tempos encantados e tão difíceis de entender, de uma iluminação ardente e de uma loucura apaixonante, eu a amava.
E eu a amava quando me deixou, desesperadamente.
E se um dia desses Inocência voltasse para me ver, que viesse diferente, mais madura, mais amiga, mais sincera.
E se voltasse para dizer-me que também me amou, que nunca me esqueceu, que sentiu minha falta quando me deixou, ela traria-me de volta os sonhos que pensei perder.
E ela viria para resgatar-me de um passado de sofrimentos, e o amor deste tempo ficaria guardado para sempre em minhas recordações reais.
Ficaria para lembrar-me de um dos sentimentos mais lindos que vivi.
E eu o eternizaria pelo tempo que viver, num quadro magnífico, verdadeiro, numa pintura real.
E o guardaria em meu coração, encaixado num moldura especial , onde pudesse acariciar suas pinturas quando me relembrasse do que vivi, sabendo que não me enganei.
E se aquele idílio foi falso Inocência, nem sua magnífica moldura conseguiria realçar a beleza imortal que vi em você, e nossos momentos não teriam o encanto que pensei e perderiam o seu valor.
E se todos estes sonhos e nuances fossem enganos, como eu os poderia contar esta história para alguém ao envelhecer e dizer que um dia você me amou.
Como eu os poderia contar realmente.
Nosso passado perderia o valor, e este quadro seria uma simples decoração, uma pintura desbotada na parede de minha vida, incompleto e vulgar, sem muitas razões para existir.
E minhas memórias se tornariam tão solitárias e enganosas como sempre o foram.
E minhas alegrias e desesperanças seriam só minhas, não teria com quem as compartilhar.
Parte IX
No início, Inocência mostrava-se meiga, reservada, mais parecia um anjo caído do céu.
Ela gostava de conversar com meu irmão e demonstrava conosco um carinho especial.
Como nesta época apenas Jorge vinha me fazer companhia, tudo corria bem.
O resto do pessoal, divididos, pouco apareciam.
E até meu irmão, que sempre foi um rabugento, se alegrou com sua presença.
Às vezes, quando eu chegava na loja, eu os encontrava jogando xadrez, damas, ludo...
Seria quase que desnecessário dizer que Inocência interessou-se rapidamente pelo tarô e pela cabala.
E como poderia não se interessar, se era praticamente isto o que ocupava-me a vida.
Passávamos horas inteiras jogando e lendo as cartas, conversando sobre tudo.
Apaixonado, passei a viver e a respirar em sua órbita.
Como nossos problemas eram muitos, compartilhávamos a nossa solidão, e éramos felizes ao nosso modo, tenho certeza disso.
Como eu poderia me enganar ou iludir-me a tal ponto.
Algumas semanas depois de conhecer, Inocência, para minha surpresa, pois achei que fosse mais velha, ela completa 18 anos de idade.
Neste dia à tarde, Jorge e eu estávamos no cantinho jogando conversa fora, quando ela entrou de surpresa, trazendo-me um pedaço de bolo para comemorar.
Eu mal acreditei, mas Jorge não perdeu a oportunidade de se intrometer, um estraga prazeres.
Encantou-se por Inocência assim que a viu.
Elogiava-a tanto que, constrangido com a situação, quase culpei-me por comer aquele pedaço de bolo.
E a vida coletiva que eu levava oprimia-me, ia-me roubando a liberdade de viver os meus sonhos e os encantamentos que explodiam em meu ser, e privavam-me destes momentos especiais que jamais voltarão.
E eu a queria só para mim, somente para mim.
Jorge nesse meio tempo, insensato, repetia suas vulgaridades, e apoiado num sorriso meigo e gentil, indesejado, aplicava-me os seus conceitos:
— Onde é que você vai arrumar uma mulher como essa Celso, que se preocupa tanto contigo? — e derretia-se para Inocência.
"Tudo isso por causa de um pedaço de bolo! Que cara mais chato!" Pensava eu, cedendo calado aos seus ataques e atenções.
Totalmente sem noção, ele fincou o pé e não o arredou, até ela ir embora.
E nesta época, sem eu saber, Jorge mal continha os seus ciúmes.
Alimentando suas mágoas, num crescente de desconfianças entre o seu e o meu meio, elevava a um ponto crítico e desleal o seu nível de irritação.
Ocultava a preparação de um ardil insano, uma tática covarde.
Afinal de contas o mestre era eu.
Seu grande poder mágico, sempre insinuados mas nunca revelados não eram levados a sério pelo pessoal, e talvez por isso, sentindo-se menosprezado pelo grupo e acreditando-se inferiorizado por mim, sua paciência, sem que eu esperasse, iria terminar.
O enigma que propunha-me constantemente, quase que simplório — "estou calmo como um furacão" —
estava prestes a se fazer conhecer.
Certa tarde, alguns dias depois do aniversário de Inocência, Jorge apareceu na loja, arrogante.
Eu estava sozinho no cantinho quando ele entrou.
Trazia em sua mão direita um pequeno pedaço de papel, escrito com a mesma frase que tanto me repetiu: "Estou calmo como um furacão."
Entrou e pregou-a no cantinho, numa das prateleiras de madeira, bem acima do lugar onde eu costumava sentar.
Bem acima de minha cadeira preguiçosa.
E apontou para o papel com um sorriso sarcástico:
— Quando você decifrar este enigma Celso, você vai saber o que eu quero te dizer.
Que tristeza sinto ao relembrar suas falsidades.
Que incomensurável decepção passei.
Algumas semanas depois, como eu já estava praticamente morando na loja, Inocência, para me agradar, começa a cozinhar algumas coisas para mim.
Coisas simples, como pastéis que fez uma noite.
E Jorge, que sempre estava presente, foi convidado para a ceia, não havia saída, foi uma gentileza.
Mas, em vez de comer os seus pastéis e picar a mula, ficou enrolando a ladainha.
Para agradar Inocência, o insensível não parava de repetir o quanto eu deveria agradecer os seus cuidados.
Comportamento estranho o de Jorge, quase paranoico, que incomodava-me.
Como se alguns agrados de Inocência fossem me comprar.
Como se estas pequenas coisas que Inocência fazia para mim fossem mudar o meu comportamento.
E foi um amor a primeira vista, uma paixão.
Mas tudo o que acontece em nossas vidas sempre tem uma razão, e Jorge tinha as suas razões, ele tinha a sua possessão.
Eu descobriria, num futuro próximo, com um imensurável dissabor, que Jorge era um esquizofrênico.
E sua entidade, o tal "homem", por tanto tempo contida, sorrateira, estava prestes a eclodir.
Deus deverá perdoá-lo por suas crenças demoníacas e as perfídias que cometeu.
Parte X
Nesta época, sem eu perceber, o demônio, que antes pairando espreitando, agora morava ao meu lado.
Com as portas abertas das lojas o mal intrometeu-se de vez, e o meu círculo de proteção abriu-se para uma legião insana de entes sem coração.
Antes de Inocência, as agressões que sofria do meio eram minoradas pelo amor que eu sentia pelos jovens do grupo.
A minha amizade por eles era tão grande que transferi meu afeto para eles.
Com a nossa convivência diária, eles faziam de minha ilha um porto seguro.
Mas agora, com a chegada de Inocência, o céu se aproximava do inferno e as coisas saiam de controle.
Enfraquecido em meus sentimentos e incapaz de lutar, desconhecendo meus direitos, eu perdia o rumo.
Jamais aceitaram o meu amor por Inocência.
Inocência jamais assumiu este amor.
Jamais creditaram valor a este amor.
E a não ser pela compreensão e a amizade de Tiago, que ouvia-me pacientemente, nunca mais consegui desabar este amor com alguém sem ser ofendido.
E foi um amor puro.
Apesar de nossa diferença de idade, foi um amor de um homem por uma mulher.
Um amor sem posses, diferente do amor que eu já tivera antes por alguém.
Nesta época, meus amigos e familiares visitavam-me na loja.
Meus velhos amigos, sem acreditar, não confiavam no que viam, aconselhavam-me a deixá-la.
Diziam-me que Inocência só traria-me problemas.
Avaliavam a nossa grande diferença de idade e o seu comportamento desleal e, ouvindo os meus desabafos, aconselhavam-me a ter cuidado, pois provavelmente ela estaria comigo só pelo dinheiro e por não ter onde ficar.
Muitas vezes, André, nos ensaios da banda em Canoas, tentava amenizar a minha tensão e depressão.
Para chamar-me a razão, dizia-me brincando:
— O que uma guria vai querer com um velho que nem tu. Tu tá te achando o máximo né, gurizão.. E dava risadas.
Outras vezes, preocupado comigo, me aconselhava, tentando guiar-me para a luz:
— Ela vai te fazer sofrer muito Celso. Isso não vale a pena. Não vai te levar a lugar nenhum. Manda ela embora. O que uma guria vai querer contigo Celso, pensa bem? A diferença de idade entre vocês é muito grande. Daqui há alguns anos ela vai querer um homem mais novo para casar e vai te deixar sozinho. Inocência não tem a mesma educação que a nossa, ela não tem princípios, não tem paradeiro. Ela é muito jovem, pode ter o homem que quiser Celso, é melhor ter cuidado. Estes jovens não pensam igual nós, têm outros interesses, outros valores, tu não vais suportar viver assim. Se ela realmente gostasse de ti ela estaria contigo, não te deixaria sozinho. Isto não vai dar certo. Já parastes para pensar que enquanto estás aqui ensaiando, ela está saindo com outros homens, se divertindo? Você vai aceitar isso até quando. Ela não é fiel. É muita incomodação. Olha só o estado em que te encontras. Reage! Saia da loja. Largue todo mundo! Procure uma companheira boa para ti e vá viver a tua vida. Aquilo lá já não é mais futuro pra ti...
E André estava com a razão, mas quando eu lhe dizia que já estava perdidamente apaixonado por ela, que não conseguia mais me libertar dela, ele me entendia.
Com tristeza, ele parava de falar e respeitava os meus sentimentos.
E eles sempre a respeitaram por mim.
Como eu já estava praticamente morando na loja, sem dinheiro para quase nada, sem um lugar para morar, eu não tinha como refugiar-me com Inocência, e, a não ser pelas madrugadas, as portas estavam sempre abertas, e fiquei a mercê.
As esposas, quando vinham com seus maridos, ou as mais novas com seus namorados, Inocência, quando não se trancava no quarto, sempre estava por perto.
Muitas vezes, para ficar conversando com meus amigos, eu a deixava sozinha atendendo os clientes, não havia como escapar.
Com isso, virei o bode expiatório dos possíveis desejos ocultos de seus companheiros e coloquei-me na vitrine e expus-me inferiorizado aos demônios do exterior.
E Inocência pouco se lixava para isso, não dava a mínima importância para o que falavam de nós, não fazia nada para mudar o seu comportamento e me defender, representava o seu papel.
E eu sentia-me desmerecido por isso, sem valor.
"Será que todos eles eram melhores do que eu?"
Será que com tantos sentimentos idealizados, eu não via o que todos viam?
Será que, extasiado, tentando compreender a minha visionária vida que fluía alucinante, eu tornava-me um cego, esquecendo-me de conceitos de um mundo que deixara para trás?
Estas, e muitas outras dúvidas atormentavam o meu coração.
Percebi que minhas amigas viam nos seus companheiros instintos reprimidos, e nas jovens a minha volta, uma oferta visível de mercadoria.
E estas simples constatações, aviltavam-me, tiravam-me todo o sentido das amizades que tanto valorizei e preservei.
E todos jogavam o jogo da vida que, sonhando, esqueci.
Parte XI
E estas mulheres ciumentas diziam-se feministas, de direitos iguais.
Mas os direitos de nossa espécie nunca foram iguais.
E quando o fiel desta balança tenta equilibrar-se de alguma maneira, mesmo que seja a força de leis, ele nunca para no meio, sempre pende para um lado.
E esta justiça que segrega, não vinha de um Deus, mas sim de uma Deusa com pendores masculinos.
E também acho que minhas amigas não rezavam tanto assim para suas Deusas, pois se conheciam o seu poder, não o aceitavam sem concorrer, sem se impor, sem trazer-nos a guerra e a maldição, sem invejar.
E na insensatez, algumas delas achavam que o demônio fosse eu.
Mas tenho que desabafar.
O demônio foram elas.
E se algum dia lerem o que escrevi, vão entender o que passei e sofri.
E digo com veemência:
"O demônio foram vocês, seus anjos de Lúcifer, que desceram facilmente sobre uma terra arrasada que não era de vocês.
Que vieram de seus infernos maliciosos para me caluniarem e ofenderem."
E quem cultua a beleza física perde todo o seu valor, perde a graça natural e a pureza angelical.
Tornam-se feias interiormente, parceiras destes vampiros sedutores que nunca envelhecem, e que repetem seus arquétipos por toda uma eternidade.
E para mim, vocês nunca fornam um exemplo de caridade e de amor, posso até estar sendo injusto e insensível, mas nesta época, foi assim que eu pensei.
E no meu meio eu via somente mulheres ciumentas por todos os lados, todas com medo de perderem os seus homens para outra, gananciosas, sem confiança em si.
Se as mulheres compreendessem o poder que têm, agiriam com mais sensatez e viriam para nos trazer a paz e o amor.
Digo menos do que quero falar, mas a cabala um dia me fará compreender o universo das relações.
E isto é apenas uma outra maneira de dizer, que já não sei mais o que dizer.
Mulheres jovens no meio de homens mais velhos, é problema na certa.
Mas se Inocência é quem estava comigo, e eu estava divorciado, e por parte dela nós éramos só amigos, então, qual era o problema? Preconceito?
E as esposas de meus amigos, minhas amigas também, não se preocupavam comigo, não se interessavam por meus sentimentos, nem com o amor que eu sentia por Inocência, preocupavam-se consigo mesmas.
E hoje, ao relembrar o passado, vejo que presenciei muitas cenas de ciúmes em minha vida, e, infelizmente, em quase todas elas, nunca aprendi o amor.
Vi somente desamor por todos os lados, uma raiva contida, muitas vezes incontida.
Senti que poucos amam realmente os seus companheiros(as) e os seus semelhantes, senão teriam me compreendido.
E quase todos falam de um amor que os faça felizes, mas quando os encontram por aí, já não os compreendem ou já não os sentem mais, pois se esqueceram de como foi, ou nunca tiveram um amor assim.
E tem mulheres que dizem amar seus maridos, mas pobres deles se as deixarem ou as traírem, vão amaldiçoá-los até morrer, vão persegui-los até o inferno e se vingarão.
E sei que tem homens piores do que estas pobre mulheres apaixonadas, mas só exponho a posição dos meus sentimentos na época.
Sem entenderem o meu relacionamento com os jovens, as ciumentas desacreditavam-me, desmereciam-me, ousavam-me afrontar a dignidade, chegando quase a culpar-me pelas supostas traições de seus maridos.
E olhe que entre os seus maridos não havia ninguém com menos idade do que eu.
E muitos deles eram meus amigos de infância.
E se me fizeram desconfiar de todos, isto soou-me como uma afronta, uma piada de mal gosto, uma ofensa, um desrespeito insensível a minha moral, porque eu jamais admitiria qualquer envolvimento de algum deles com o meu meio.
Meus velhos amigos sabiam disso.
Sabiam dos meus sentimentos pelos jovens e respeitavam-me, e nunca os ouvi falar mal de alguém do grupo para mim.
Todas as insinuações e afirmações que recebi, muitas vezes calado, magoaram-me muito.
Mas as piores, foram as que não ouvi.
A calúnia é um pecado mortal, uma covardia imperdoável e irreparável, que deveria ser banida dos dicionários e das almas humanas, pois tira-nos completamente a possibilidade de defesa.
Certo dia, meu irmão, penalizado, convivendo comigo estas confusões, comentou:
O importante não é ser, é aparentar ser.
Frase perfeita, que achava cretina, de duplo sentido, mas que, além dele, outros me diziam, para minorar a minha revolta e a minha solidão.
Por saber de minhas verdades, comecei a desconfiar de todos os que desconfiavam de mim e comecei a refletir os seus pensamentos.
A vida sempre foi assim, uma via de mão dupla.
O que pensam de nós, inconscientemente, começamos a pensar deles.
E a estrada se tornava estreita e perigosa para minha sanidade.
E hoje vejo que nestes tempos eu estava enlouquecendo sem perceber, e não enlouquecia somente por amor ou por uma iluminação.
Parte XlI
Meu círculo de proteção destroçou-se.
A circunferência que tracei para o meu mundo rompeu-se, não fora forte o suficiente para me proteger.
E os jovens também estavam crescendo, perdendo os encantamentos de uma época que passou, e aos poucos alteravam seus conceitos em relação a vida e a mim.
E eu começava a sentir-me como nunca me sentira antes, um velho falando coisas de velho entre deles, pois já sentia que me tratavam assim.
E na verdade, quando comecei a ensinar cabala para Samara, jamais pensei em ser um líder experiente, nem um psicólogo mundano, tampouco ambicionava montar uma escolinha para jovens bruxos.
Tudo aconteceu porque ela me procurou, senão jamais eu os teria conhecido.
Até então, nunca tive interesse em me relacionar com jovens, muito menos de me apaixonar por uma.
Mas o destino trouxe-me seus arquétipos e direcionou-os com perfeição, e todos nós colaboramos, cada um ao seu modo, para que isto acontecesse comigo.
E não posso culpar a ninguém, nem tampouco culpar-me por isso.
Se o caos irrompeu por um lado, por outro, despreparado, a vida colocou-me a beleza de uma rosa, mas trouxe-a com os espinhos que iriam me ferir.
E a história aconteceu assim, escrito pelas linhas do destino, sem eu querer e imaginar.
Querendo libertar-me das prisões de um casamento fracassado, com novos conhecimentos e mais experiência, eu queria viver.
Desejava aventurar-me pelo mundo mágico que conheci, e voltava a me apaixonar pela vida e pelas pessoas novamente.
Um novo homem, com novas fronteiras a descobrir, com outras terras para explorar, ansioso por conhecer estas belezas e os tesouros escondidos neste solo e os encantamentos que andavam por aí.
E o que perdi, eu não os poderia perder, e o destino trouxe-os de volta para me resgatar.
Mas o tempo não poderia voltar, nada o faria voltar.
E neste tempo imortal que vivi, eles esperavam-me para me conhecer, em ciclos defasados, voltavam para me ver.
A disputa pela supremacia ocorria entre os jovens, a margem de meus interesses e entendimento .
Como poucos deles se interessavam pelo tarô e pela cabala, acabei abandonando uma liderança fictícia e deixei o barco à deriva.
Os caminhos se bifurcavam, e desviavam-me de meus sonhos.
Agora eles perseguiam os seus.
Queriam estudar, trabalhar, casar, ter filhos.
Mas eu não estava ali para realidades, eu estava ali para sonhar.
Os jovens cresciam e eu perdia o meu rumo.
Com a independência do grupo, os conhecimentos que eu tanto amava desmereciam-se, e o círculo fatalmente se rompeu.
Nesta época, quase todos abandonavam o ocultismo e eliminavam-no de suas conversas e de seus interesses.
E hoje vejo que nunca sentiram o que eu senti.
Não sentiram o prazer indelével de ver o invisível no visível e se extasiar.
Alguns começaram a ter medo, outros, a ver nas cartas um idílio fantasioso.
Muito jovens ainda, não estavam preparados para perceber o contraste dos mundos.
E eu, para não entristecer-me ainda mais, deveria ter parado por ai e seguido o meu caminho sozinho.
A partir de então, eu não teria mais o que compartilhar, nem o que aprender com eles.
Se eu tivesse saído na hora certa, eu teria me evitado muitos sofrimentos e decepções.
Outros tempos, outros momentos, outros sentimentos, outro nascer do sol em outros planetas.
E estes planetas do meu sistema solar giravam enlouquecidos dentro de mim.
E envolver-se com jovens da maneira como o fiz, sem estar emocionalmente preparado para discriminá-los e aceitar os seus preconceitos, tornou-se desastroso, como o comprovei.
O mestre tem que ser intocável e respeitado, é isto o que esperam de nós.
Colocam-nos num pedestal.
Escravizam-nos numa redoma inquebrantável e nos cobram funções.
Nos usam e não nos tratam com iguais.
Não temos os mesmos direitos.
Só fui entender isso muito tempo depois.
Jamais eu deveria ter me envolvido com alguém do meu meio, muito menos ter apresentado a eles alguém com quem me envolvia.
E desde o início Inocência alertou-me sobre isso.
E Inocência conhecia o mundo e o seu poder, e era muito mais esperta do que eu, deveria tê-la ouvido melhor.
Mas eu, um simples mortal, não tinha forças para libertar-me de minhas excentricidades, não representava o papel que me pediam.
E eu não sabia bem o que me pediam.
E pediam-me demais, cobravam-me de mais.
Então, provavelmente, eu tenha sido o primeiro a romper o meu círculo de proteção e ultrapassado os meus limites, mas foi sem querer.
Ainda tentei fazer-me respeitar, pedindo a Inocência que não se envolvesse com o grupo.
Mas ao abrir a porta para Samara, foi fulminante.
Na noite em que abri a porta da ferragem para ela entrar, Samara, uma adolescente curiosa e vivaz, prevendo sacanagens, encantou-se por Inocência assim que a viu, e rapidamente adotou-a como amiga.
E acredito que Inocência já esperava por isso.
A partir daí, então, quando recordo, desprotegido, tornei-me mais vulnerável do que já estava, para minha desesperança.
Sabendo de meus sentimentos por Samara, Inocência aproveitou-se disso e a usou como escudo para permanecer em paz.
Aproveitou-se da inexperiência, da curiosidade e da vivacidade de uma jovem frente ao mundo que se descortinava, e a cativou para se proteger.
Mostrou-lhe um mundo melhor do que o meu.
Um mundo da sua idade, com mais novidades, que a seduziu e a encantou.
E Inocência, por ser jovem, queria aproveitá-lo também.
E todas as idades têm os seus atrativos, e ninguém é maior do que elas, por mais que queiramos ser.
E quando a macieira começa a germinar os seus frutos, quem sou eu para negar a sua beleza, é irresistível.
A segunda jovem a romper o círculo foi Vivian, quando por engano abriu-se com Abel, um jovem judeu. História que contarei depois.
Parte XIII
Quando perguntei a Elias ( um outro jovem do grupo, do qual não falei ), qual a melhor palavra que definiria Inocência, ele me disse sem pestanejar:
— Aventureira, Celso! Esta é a palavra chave! Inocência é uma aventureira! Não importa em que sentido, se pro bem ou pro mal, tanto faz.
Sem argumentos, concordei com Elias, pois isto eu vivenciei.
Mas Elias também foi um outro aventureiro ao acobertar Inocência em sua casa por alguns dias sem me contar.
Isto aconteceu há alguns anos atrás, assunto que ele sempre evitou comentar.
Não sei com que objetivos fez isto, nem com que sentimentos se apropriou de meu bem, mas chego a ter uma ideia.
E falo "se apropriou", porque acho que esta seria a conjugação certa para o seu caso.
Decerto achou que se ela dormia comigo, dormiria com ele também, e resolveu aproveitar-se, mas se deu mal.
E é isto o que penso, mas a certeza de seus atos, só eles têm.
E estes rapazes de atualmente me entristeciam, não tinham a mesma cumplicidade de meus amigos de então, agora agiam como rapinas e não falavam nada para ninguém.
Um tempo depois, Elias, indignado, trouxe-me de volta as roupas de Inocência, azar o seu, quem mandou ser esfomeado.
E foi aí que eu descobri a verdade.
E algumas semanas depois do acontecido, aquele antigo Celso, despreparado para aceitar a vida e as pessoas como ela são, e para lidar com seus sentimentos traídos, como sempre, com a faísca atrasada, descontrolou-se em suas explosões temperamentais e Elias teve que me ouvir
O espertinho só queria o bem bom, porque se fosse para fazer a caridade, ele teria me contado.
Acredito que quando viu que teria que descascar o abacaxi sozinho e sustentá-la, devolveu-a para mim.
Mas alguns jovens são assim mesmo, não conseguem se controlar, e quando a caça ronda o seu quintal, seus instintos se atiçam e eles ficam espertos.
Fazem o que quase todos os homens jovens fazem; pegam a caça, a colocam debaixo do braço e correm para a casa da mamãe comer o manjar.
E eu, escandalizando os ignaros, gostaria de informa-lhes que alguns homens mais velhos também gostariam de fazer o mesmo, mas suas experiências de vida e os preconceitos que andam por aí os impedem de o fazer, acautelando-os em seus instintos, e também por que suas mães já envelheceram ou já não existem mais.
Gato escaldado tem medo de água fria e, algumas refeições, com as pressões da idade e as instabilidades emocionais que andam por aí, dependendo do lugar onde acontecem, podem custar caro.
Mas neste tempo eles já não eram tão jovens assim para ainda suporem que os mais velhos deveriam andar pelos hospitais da vida e deixarem suas fortunas para eles, que insensatos.
E eu também não era um senil, andava apenas um pouco enferrujado, com outros interesses e preocupações, e com outros sentimentos.
Eu queria apenas alguém para amar, despreparado para o jogo, porém, agora, valorizando e saboreando melhor o meu jantar.
Então as críticas de Elias e suas opiniões negativas a respeito de Inocência já não me valiam tanto assim.
Um dia, Elias, no cantinho, relembrando suas conquistas passadas, comentou com Peter que ele sempre foi uma pessoa fria e racional.
Quando eu me intrometi na conversa desavisadamente, e num pequeno impulso temperamental o contrariei, tentando ajudá-lo a se conhecer, dizendo-lhe que sempre o achei um cara muito emocional, ele ouviu-me calado, mas soube depois que irritou-se comigo e não gostou do que eu falei.
E Elias era um jovem brabo, temperamental, irritava-se facilmente e, ofendido com minha singela opinião, resolveu não me procurar mais e, contrariado, deletou-me de seu site da internet.
Esses meu amiguinhos!
E ele era um valentão, gabava-se de brigão, mas acredito que muito de suas fúrias hormonais eram encenações para atrair e conquistar as desemparadas e deslumbradas donzelas.
As minhas maiores frustrações na vida sempre surgiram das fatalidades, de minha incapacidade de defender meus direitos, dos medos que me fizeram me calar, e não reagir.
E se eu aceitava o seu comportamento e o respeitava, era porque eu ainda o considerava um jovem imaturo.
Mas eles já não eram tão jovens assim, e eu entrei em conflito comigo.
Minha criança interior andava calada, há algum tempo que ela não me chamava para brincar e dizia que me amava.
No meu tempo, um jovem de sua idade já séria considerado um homem.
E apesar de ter me defendido algumas vezes, algumas de suas atitudes nunca foram corretas.
E o pior, ou o melhor, é que ele conseguia atraí-las assim, porque uma de suas conquistas eu a vi pessoalmente.
Os dois estavam sentados na frente da ferragem e eu estava atrás do balcão.
E eu a vi com os meus próprios olhos e a ouvi com estes ouvidos que Deus me deu, e juro que nem acreditei que ele conseguiu seduzi-la com tantas idiotices.
Quando ele relembrava esta conquista idiota e sem nexo, nós começávamos a rir.
Mas jovens são jovens, e mulheres são mulheres, o que se há de fazer.
E homens espertos que conhecem as mulheres, se acautelam com as armadilhas, planejam cada detalhe.
Mas Inocência era muito mais esperta do que nós.
Inocência conhecia os homens e era mulher.
E uma mulher inteligente, com outros interesses, que logicamente não eram os mesmos que os dele e os meus, que confusão.
E este tipo de homem, convenhamos, também não é tão difícil de se conhecer.
Então vamos dizer que Elias era um jovem mentalmente emocional, ou então quem sabe um carente emocional friamente racional, sei lá, vai entender estes conceitos que estes jovens fazem de si.
Mas, particularmente, acho que Carol, uma outra jovem do grupo da qual ainda não falei, foi o estopim de todas as nossas frustrações, pois com esta, se dependesse de mim, eu não o deixaria tocar de jeito nenhum.
E ele sabia disto tanto quanto eu, tanto que acredito ter sido este o motivo que o fez afastar-se de mim.
Deveria ser particularmente humilhante para um jovem de sua idade competir com um homem mais velho como eu, ainda mais com os preconceitos, os dentes afiados e a fome que têm.
Deveriam sair enojados, com seus orgulhos feridos, com suas autoestimas destruídas, mas eles estão aprendendo a nunca mais se esquecerem que o sol brilha para todos, felizmente.
E as mulheres, instintivamente, apesar de nos usarem no vício, aceitam melhor os homens de qualquer idade, pois conhecem a raça e aprendem antes de nós.
E felizmente aceitam estas diferenças com mais compreensão.
Mas de uma coisa ele estava certo, Inocência não tinha paradeiro.
Acredito que se ela dormisse na rua ou em qualquer lugar que a recebesse, não se importaria.
Sem endereço fixo, deixou de ser confiável.
Muito inteligente e sagaz, aprendeu rapidamente a psicologia do ambiente e o meu relacionamento com o grupo e manipulou a todos.
No começo, amiga de Samara, tive que apresentá-la ao grupo.
Com seu carisma, não foi difícil cativá-los.
Fez o mesmo com Vivian e Tana, porém não teve a mesma sorte, pois com suas sacanagens Tana foi a primeira a se desentender com ela, bem feito para elas que não me respeitaram e entenderam.
E num breve período inicial o jogo mudou a seu favor, e ela fez amizade com todos, e sutilmente parou de tratar-me com exclusividade.
E quando eu os ouvia conversar parecia-me que já se conheciam há anos, e de que ela sempre participou do nosso grupo.
Até Dimitryus lembrou-se de que jogaram vídeo game juntos quando criança.
E para meu espanto, descobri que sua falecida avó, que eu conhecera há anos, havia morado em um dos apartamentos próximo a loja.
Inocência chegou a trazer-me uma foto para confirmar.
Que ironia, com o elo feito, todos nós já eram amigos.
Parte XIV
Mas apesar de tudo eu tinha o meu quinhão.
E nas noites solitárias de meus desencantos e desalentos ela fazia-me companhia e demonstrava o seu carinho por mim.
E preenchia minhas horas amargas e inseguras com seu enlevo, suas brincadeiras e preocupações.
E fazia-me esquecer do mundo, fazia-me esquecer de tudo e de todos, e fazia-me feliz com sua entrega e aceitação do meu amor.
Haviam dias em que ela chegava meiga, mais parecendo uma criança desamparada, e estes foram os meus melhores momentos, pois faziam-me esquecer de mim.
Nestes momentos ela pouco falava.
E quando ficávamos a sós, deitava-se na cama e olhava-me com aqueles seus lindos olhinhos infantis, que acalmavam-me e transportavam-me para além da turbulenta realidade em que eu vivia.
E eu viajava naquele céu azul de seus olhos e mergulhava em seu amor.
Viajava em seu sorriso sereno e sedutor, e acreditava que me amasse também.
E eu refugiava-me naquele pequeno espaço do quarto, num tempo mágico que desejava nunca mais ter fim.
E submetido aos seus encantos, envolvia-me em minhas obsessões e em seus agrados, até o dia clarear.
E estes foram os melhores momentos de minha vida, e acredito que alguns momentos do passado poderiam ter sido melhores do que estes, se eu, ainda jovem, os soubesse apreciar.
Mas cada tempo tem o seu valor, tem a sua fantasia, o seu mistério.
E amores são amores, não se comparam, amores são o que são.
E o meu amor de agora, lutava e vibrava enlouquecido e extenuado, e investia-se contra todas as tempestades para não a perder.
Parte XV
Provavelmente, Inocência refletiu-se em minha mente como um dos paradigmas de meu inconsciente feminino.
O reflexo de minha alma na beleza de uma fêmea.
E sua imagem gravou-se insistentemente, por um tempo que pareceu-me infinito, até que finalmente foi perdendo a sua força e apagando-se, para me aliviar a dor.
E muitas lições se podem tirar daí.
Conhecendo-a melhor, fui descobrindo com o tempo algumas de suas facetas, que soavam-me paradoxais, e acabei debatendo-me entre as visões de meus sonhos e a realidade.
A beleza é eterna, mas as pessoas não o são.
E quando olhamos para estas belezas do mundo sem as dissociar do eterno e do humano, somos lançados hipnotizados para um tempo que não avança e não se distingue.
E sem conseguir separar uma Deusa de uma simples mortal, confuso, sofri a imensurável solidão de minhas obsessões e incompreensões e fui morar no inferno.
Assim que aprendeu a jogar tarô, Inocência começou a se insinuar.
Eis a questão, com sua sagacidade criou o caos em minhas leituras.
Aos poucos foi me usando e manipulando as cartas a seu favor.
Quando aconteciam explosões temperamentais do grupo contra suas mentiras, que partiam principalmente de Lucius, ela, fazendo pressão, desmentia-os e desmerecia-os, irada.
Com o tempo, sua candura foi cedendo lugar a alguns aspectos negativos.
Às vezes seus encantos esvaiam-se com sua agressividade.
Pouco tempo depois que a conheci, Inocência começou a fazer exercícios de musculação e gostava de vangloriar-se de seus golpes marciais e de sua agilidade física e de que evitava brigar para não machucar ninguém.
À princípio eu estranhava o seu comportamento, mas, com o tempo, comecei a preocupar-me com suas bravatas e a temer suas iras.
Com seus exercícios físicos ela ganhava massa muscular, e seu corpo feminino e frágil, que tanto me encantou, se fortalecia.
E se ela estivesse falando a serio, eu não deveria facilitar.
E se por acaso um dia desses eu a agarra-se de mal jeito, num momento em que estivesse atravessada, de mau humor, talvez eu pudesse me ferrar.
A partir de então, gostava de rir alto e de ser o centro das atenções.
Ó Inocência, seus encantos perderam-se com suas vaidades, quando mostrou ao grupo seus conhecimentos mundanos.
Hoje, percebo que muito das perguntas que fazia ao tarô e que pedia-me para ler, não eram as perguntas reais.
Inocência manipulava-me, e minha intuição confundia-se com suas falsidades, e quem perdia com isto era eu.
Para não duvidar do meu amor, duvidei das cartas.
E minha busca espiritual virava um contra senso, e eu questionava os meus conhecimentos.
E nestas minhas incertezas teóricas, vinha-me uma saudade de uma outra época.
De uma época em que eu experimentava as cartas para aonde quer que eu fosse, e onde qualquer situação era um pretexto para eu jogar uma carta e testar os seus resultados.
Onde qualquer momento era um momento para me extasiar.
Sentia saudades daqueles tempos de êxtases reais e enlouquecidos, onde o frenesi da descoberta alimentavam minha alma e deixavam-me feliz.
Tempos em que agradecia a Deus o privilégio de conhecer os seus mistérios.
E foram épocas que as comparei com o tempo de minha infância, uma das mais felizes de minha vida.
Tempos em que, apesar de todos os sofrimentos e infortúnios que passava, eu estava em paz comigo mesmo, em uníssono perfeito com o meu "eu" interior.
Tempos em que nada mais me importava, a não ser a vontade de aventurar-me por este mundo novo, sem fronteiras definidas.
Tempos em que meus antigos sonhos voltavam a fervilhar, como nunca me lembrei antes.
Mas agora, para ler as cartas, eu tinha que confiar na honestidade ou na capacidade de compreensão dos que me procuravam ajuda, não havia saída.
Uma lei sem retorno e benefícios, um tiro no escuro.
Praticamente um sacrilégio.
Eu jamais deveria ter revelado os meus segredos assim.
A questão é tão grave, que nem sei como explicar.
Em todas as áreas, se não temos o retorno do fazemos, pelo menos a confiança tem que ser irrestrita, senão fazemos uma desonra ao nosso "Eu Espiritual", igual a todos, maior do que nós.
Várias vezes, quando eu jogava as cartas para Inocência, saia um quantidade incomum de figuras em sequência.
Quando eu argumentava minha estranheza com as cartas, ela ironizava.
Dizia-me com imperdoável arrogância e insensatez, que eu jamais conseguiria lê-las para ela.
Que saíam figuras porque ela tinha o corpo fechado.
Que sua família era de religião, e que suas entidades não me deixariam ler, e menosprezava-me.
E eu, carente, para não perdê-la, aceitava os seus argumentos, não querendo contrariá-la, pois irritava-se facilmente.
E quando isto acontecia, Inocência mostrava-se indiferente para comigo, não querendo mais conversar, ou então simplesmente ia embora arrogante, deixando-me sozinho e infeliz.
Isso serviu-me de lição.
Uma paixão não supri a nossa imortalidade, talvez até justifique os nossos erros.
Amando-a, deixei de me amar.
E sempre foi assim em minha vida.
Parte XVI
Mas agora, de vez em quando, uma criança irrequieta e adorável vinha me visitar.
E este anjo infantil, persistente e encantador, vinha socorrer-me nas horas extremas de tristeza e solidão.
E vinha falar-me ao coração, chamar-me para brincar.
E era aquela mesma criança travessa, inconsequente e gentil, que conheci naquela noite inesquecível de Dezembro em que despertei e que nunca mais me deixou.
E esta criança vinha alegrar-me, reconfortar-me, acariciar-me novamente, sussurrar-me:
— Você é os meus lábios de mel...Você é a pessoa que eu queria encontrar...
E este amor intenso, acalentava-me, incentivava-me, convidava-me:
— Vamos brincar Celso...está dando tudo certo até aqui....Nós já sabíamos o que ia acontecer...vamos continuar...vamos brincar...
E de tão preocupada que ficava, avaliando-me o coração, sorria amorosamente.
E todas as tristezas se evadiam num instante, e invadia-me uma felicidade tamanha que eu até sentia vontade de chorar, e muitas vezes eu chorava.
E depois disso eu sentia-me bem, e no meu mundo tudo estava bem, pois quem mais me amava estava dentro de mim, como nunca alguém me amou antes.
E eu amava a tudo e a todos e compreendia, e era livre.
Eu amava o sol, o mar, o vento, o relento das madrugadas e o luar.
Amava a chuva, as nuvens, e as estrelas que faziam-me sonhar, e gostava de voltar para casa reviver minha rotina.
E apesar de viajar sozinho por este mundo, de seguir estradas tortuosas e de quase enlouquecer, o silêncio guiava-me para este rio sereno e azul de minha alma, coberto por um manto prateado de estrelas, e banhado pelo luar do meu coração,
E apesar de todas as dificuldades que enfrentei, escalando alturas estranhíssimas, eu tinha destes dias uma outra visão, uma nova esperança para viver, uma outra história para contar e aprender.
E se advinha um novo caminho, uma nova oportunidade surgia.
No horizonte, um arco-íris circundava uma parte dos céus para trazer-me as mensagens do além.
E se eu queria aprender os sinais destes dias e saborear os meus conhecimentos, eu também queria viver esta nova vida intensamente.
Mas agora, as coisas andavam difíceis por aqui, me confundiam.
As cartas que eu tirava para Inocência às escondidas raramente eram boas e contradiziam o seu comportamento alegre.
Muitas vezes, sem ela o saber, com suas piores cartas marcadas na mesa, ela entrava na loja sorridente e feliz.
Infelizmente para ela, que fez o que não precisaria ter feito, pois ainda jovem, não descobrira a felicidade de ser verdadeira.
E eram cartas tão confusas, que nem Peter, que vivenciou comigo esta faceta de Inocência, conseguiu interpretá-las muito bem.
E ele, assim como eu, perdemos-nos nas dúvidas e nas aparências de Inocência.
E as mentiras, entristecidamente só trazem mentiras...mais mentiras.
Parte XVII
À princípio, Inocência vinha de manhã e ia embora à tardinha, e isto durou por algum tempo.
Depois ficávamos juntos quase todas as noites, depois as madrugadas, exceto quando desaparecia.
E isto foi acontecendo rapidamente.
Virei seu porto seguro, e alguns anos depois ela praticamente venho morar comigo.
No início de nosso relacionamento, quando saíamos de carro para passear, ao findar da noite, eu a deixava na casa de um amigo.
Ela dizia-me que Cesar era um amigo da família, um chaveiro, um quarentão.
Cesar morava perto de sua própria loja, num pequeno prédio de três andares, num apartamento de cobertura, que dava para a lateral de um dos prédios vizinhos, próximo do cruzamento de uma esquina muito movimentada.
Eu não sabia quem ele era, muito menos ele também, pois nunca chegamos a conversar.
Pelo menos eu sabia onde ele trabalhava.
Um desses dias Cesar me ligou para transmitir um recado de Inocência.
Ligou para dizer-me que Inocência não poderia vir para a loja naquele dia, porque estava comemorando o aniversário de sua filha na casa de seus pais.
Eu alegrei-me por saber que Inocência estava com sua família e que Cesar era apenas um de seus amigos, como falou.
Mas os pormenores e as explicações de quem éramos, sempre corriam por conta dela.
Quando eu a deixava na casa de Cesar, eu e ele nos olhávamos de longe, mas acredito que pressentíamos a mesma coisa e evitávamos conversar, cordialmente.
Mauro, o infeliz companheiro de Inocência, nunca soube de sua existência.
E sem me comprometer, eu não ligava para isso e nem a questionava, seguia a minha vida.
As estórias corriam por conta de Inocência e, a princípio, não me interessavam nem um pouco.
Ao meu modo, eu era feliz.
Minha índole sempre foi a de confiar nas pessoas e não me intrometer na vida de ninguém e, nesta época, a vida íntima de Inocência não me importava nem um pouco.
Fui educado numa família conservadora, de valores morais, onde mentir era errado e passível de punição.
E até a bem pouco tempo atrás, totalmente despreparado para a vida, eu ainda acreditava em quase tudo o que me diziam.
E acreditava principalmente em Inocência, num amor puro.
Entretanto, não a posso desmerecê-la tanto assim, pois, para continuar a viver comigo, muitas verdades ela teve que me contar e, Cesar, este homem quarentão, foi uma delas.
E afinal de contas, Inocência sabia o que estava fazendo, e com sua sagacidade e experiência de vida, captou-me rápido e manipulou-me, e acabei sendo "um" de seus portos seguros.
Então, ela ficava comigo por um dia, alguns dias, uma semana e desaparecia, muitas vezes sem se despedir, mas acabava sempre voltando.
E não adiantava ligar para o seu celular, pois era só ela virar a esquina, que o desligava.
E no desespero eu ficava ligando para ela até a bateria acabar.
Muitas vezes, quando saia para comprar alguma coisa para comermos, ela sumia.
E é claro que junto com o meu dinheiro.
E eu enlouquecia abandonado, e a dor que sentia era intensa e nem sei como suportei.
Logo de início, Inocência desabafava comigo suas desilusões com o companheiro.
Dizia-me que ele trabalhava a noite e que, ciumento, a deixava trancada no apartamento.
Contava-me que ele não se importava com ela...que ele tinha uma noiva noutra cidade que se compadecia de abandonar...que a deixava passando fome...
Contava-me, sem conter suas risadas, que às vezes ela tinha que pular a janela do seu quarto, que ficava no segundo andar, para poder sair.
E eu, encantado por ela e penalizado com suas estórias, acreditava em tudo o que me contava, ou em quase tudo.
No princípio, minhas desconfianças iam sempre para o quarentão.
Ele nunca se encaixava em suas estórias.
Nós éramos os fantasmas de sua vida, e eu começava a achar que tínhamos algumas similaridades.
Que droga!
Às vezes eu tinha quase certeza que navegávamos na mesma canoa.
Certa vez, logo de início, Vivian chegou ao escurecer, bem na hora em que Inocência se preparava para ir buscar uma galinha assada para o nosso jantar.
À convite de Inocência, sem ter o que fazer de sua vida, Vivian acompanhou-a até a uma churrascaria próxima da loja.
Esta foi a deixa para um golpe mortal!
Eu fiquei esperando-as trazerem o jantar até hoje, as duas sumiram.
No outro dia, perguntei a Vivian, fingindo-me surpreso e preocupado:
Por que vocês não voltaram ontem, Vivian? Aconteceu alguma coisa? Fiquei preocupado!
Vivian foi pueril.
— Não aconteceu nada, Celso! É que Inocência me convidou para ir jantar com eles, e eu fui! Por quê?
— Por nada! É que eu pedi para Inocência comprar uma galinha assada para "nós" e ela sumiu, fiquei preocupado! Achei que tivesse acontecido alguma coisa, só isso! — falei desiludido, entristecido, falei só por falar, para me magoar.
— Ué! Mas ela disse que o Mauro é quem tinha dado o dinheiro pra ela comprar a galinha. Me disse que já estava tarde e que não ia dar tempo para voltar aqui para se despedir de ti. Disse que ele tava esperando. Até me convidou para ir jantar com eles, e eu fui! Não sabia que a galinha assada era para ti Celso, senão não ia! Que sacanagem!
— E quem estava na casa de Mauro, Vivian?
— Tava eu, o Mauro, a Inocência e um amigo dele. Por quê?
— Por nada! Só queria saber quem comeu a galinha com o meu dinheiro. — falei chateado.
Acredito que Vivian não acreditou muito nestes meus resmungos idiotas, decerto achou que eu estava blefando.
Pela cara que fez, até desconfiou que eu estivesse falando por ciúmes talvez, sei lá!
Inocência, como o seu próprio nome diz, era muito convincente.
Inocência nunca deveria ter feito isso comigo, foi desumano.
A tristeza que senti foi indescritível e inconsolável.
Se naquela época estes jovens compreendessem o que eu sentia por ela, o mínimo que fosse, se envergonhariam do que fizeram para mim.
Pequenas enganações, transformavam-se em meu coração em destruições catastróficas.
"Mas o ser humano sempre foi assim, uns vivem as custas dos outros." — pensava eu em meu caos emocional.
Se eu procurava desculpá-los por suas idades, não percebia que ao desculpá-los, o que doía dentro de mim, se somatizava e agonizava.
Hoje, pensaria em desculpar quem quer que fosse, e quem sabe jamais os desculparia, apenas me libertaria desta juvenil incompreensão dos pobres de espírito e de coração.
E estas mágoas aos poucos destruíam minha pureza e minha confiança irrestrita em pessoas que considerava como se fossem de minha família e que defenderia sem pestanejar.
Parte XVIII
Certa noite Inocência trouxe seu aparelho de som e ficamos no cantinho conversando.
— Por que você trouxe o aparelho de som, Inocência?
— É que o Mauro foi trabalhar. Ele disse que ia me ligar de madrugada pra saber se estou em casa. Ele ficou desconfiado.
— Tá! E daí? — perguntei.
— Ele disse que ia querer uma prova de que eu estava em casa. — disse-me pensativa.
— Tá! E daí? — insisti.
— Aí eu desconfiei... e resolvi trazer o "CD". Se ele acha que é esperto, eu sou mais esperta que ele. — disse-me Inocência com um sorriso maroto.
— Ainda não entendi? — falei.
— O Mauro disse que ia me ligar, Celso. Ele acha que eu sou boba. Ele vai pedir uma prova de que estou em casa. Acho que ele vai pedir pra tocar a música que ele tanto gosta de ouvir quando ficamos agarradinhos lá no sofá de casa, tenho certeza disso.
— Vocês ficam agarradinhos no sofá de casa ouvindo essa música Inocência? Por quê?
— Porque foi a música que tocou no dia em que nos conhecemos, e ele gosta de ficar ouvindo agarradinho em mim.
— Ah...entendi!
"Que droga, mas que droga!"
— Então, se ele me ligar e pedir pra tocar a música, eu toco! E tu fica aí, quietinho, tá! Não faz barulho, hein! — e colocou o dedo na boca em sinal de silêncio.
— Oh!... Mas vê bem Inocência... vê bem o que você vai fazer! Não vai me meter em fria, hein! — respondi inquieto.
E ela nem me respondeu, me olhou enviesada, com aquele seu ar de desprezo que me atiçava os sentidos.
E eu estava no céu quando ela apagou as luzes e eu acendi a vela.
E ficamos conversando, encerrados e protegidos pela claridade da vela, das agressões do mundo lá fora.
Algum tempo depois ele ligou.
Lá pelas duas horas da madrugada o celular tocou.
Eu mal respirava, tencionei-me.
Inocência, com toda a sua calma parou de dançar, desligou o velho rádio e colocou o seu dedo na boca em sinal de silêncio.
— Psiuuu! Fica quieto aí!
E antes de atender o celular, em cautela, apontou o seu dedo indicador para mim.
Mostrando-se indignada com a desconfiança de Mauro, Inocência agredia-o constantemente, enquanto ele desculpava-se apaixonado.
Depois de algumas cenas de ciúmes e de um blablablá melodramático, ela colocou a música deles no aparelho de som e tudo terminou bem.
E eu tive que ver isso.
Fiquei pensando se algumas vezes em minha vida eu já não teria passado por algo semelhante sem saber.
"Acho que não", me consolei.
"Ele é apaixonado, mas não é bobo." — pensava eu.
Quando a música terminou, Inocência, para safar-se na boa da ciumeira, fingiu-se de braba, e ainda xingou-o mais uma vez antes de se despedir com um "tchau" seco e desligar o celular.
"Acho que nunca passei por isso antes", pensei.
"Na minha época não existiam celulares."
Duvidei e repassei o meu passado rapidamente.
Olhando-me faceira, vibrou.
— Consegui!
E eu suspirei aliviado.
Depois disso, a paz retornou, e Inocência voltou a dançar à luz da vela.
E ela enfeitiçava-me, enlouquecia-me, prendia-me a respiração por um tempo que eu não via passar — e sem tirar os seus lindos olhos dos meus, elétrica, dançava e ria sem parar.
Parte XIX
No começo de sua relação com o grupo, Inocência até que enfrentava as acusações inimigas, como fez com Lucius, intimidando-o.
Mas, com o tempo, os seus argumentos já não enganavam a mais ninguém.
Então, quando as criticas aumentavam, ela fazia-se de surda, ou então debochava sarcástica, dando de ombros.
Eram rixas pequenas e de curta duração, mas que a incomodavam bastante.
E tudo voltava ao normal rapidamente.
Certa noite, ela e Lucius se desentenderam para valer.
Eles chegaram a sair da loja para discutir.
E eu que observava a tudo o que acontecia com Inocência, sem entender estas desfeitas de Lucius comigo, encasulava-me e ensurdecia para não mais sentir o dissabor.
Com o tempo, Inocência escondia-se de tudo e de todos e refugiava-se em nosso quarto, muitas vezes até o dia passar.
Eu entristecia-me muito com o seu comportamento, mas entendia os seus sofrimentos; o abandono de sua filha, os problemas graves de saúde e financeiros, e a sua total solidão.
Eu sabia que o lugar onde vivíamos não era o lugar ideal e que era difícil para ela ficar ali.
Quando eu tentava forçá-la a sair do quarto, ela não reagia.
Muitas vezes nem se dignava a me olhar e responder.
Eu me entristecia por vê-la em depressão, e sempre quando dava um tempo, corria para ficar com ela.
À noite, as jovens insistentemente vinham convidá-la para sair.
E Inocência, a bem da verdade, era um jovem muito faceira, e alegrava o ambiente, e também gostava de sair para as festas, principalmente com Samara, com quem se divertia muito.
Acredito que para a farra não poderia haver melhor companhia.
Olhando-a por este ângulo, eu até que a admirava, pois apesar de todas as tristezas e sofrimentos por que passou na vida, a palavra depressão, diferente de mim, raramente era incluída em seu vocabulário.
Quando o mundo desabava ao seu redor, ela sempre dava um jeito de sorrir, de brincar e de se divertir.
E eu me preocupava com ela e vigiava-a de perto, inquieto, pois se o seu mundo desabasse, o meu desabaria também.
Lógico que Inocência mostrava-se relutante em sair.
— Ah, não...logo agora...logo hoje que eu queria ficar aqui contigo elas vem me convidar para sair. Eu não vou!
Logo em seguida ela voltava para o quarto.
— Elas estão insistindo, Celso. O que eu faço?
— Diz pra elas que você não vai e fica comigo.
— Mas fica chato eu dizer isso pra elas, né! Elas estão me esperando!... O que você acha? Eu Tenho que ir.
E eu ficava calado e esmorecia.
— Eu vou! Mas volto logo, tá... Não fica chateado, tá!...
E olhava-me amorosa.
— Eu volto de manhã cedo... me espera, hein? Te ligo antes de chegar. Eu volto hein...eu volto.
— Eu te espero Inocência.
E não adiantava bronquear nem insistir, que ela não cedia, arrumava-se rapidinho.
E eu, desamparado e desarmado com sua sedução, com aquela tristeza que não me abandonava mais, ficava olhando-a sair.
Mas o que ela poderia fazer! Tinha que encenar para não me magoar.
E eu suportava estas loucuras e aceitava suas incoerências para não perdê-la e, submisso, deixava o circo funcionar, pois sem Inocência minha vida desesperançava-me insuportável e eu perderia o ânimo de viver.
Ao final, cedendo as "insistências" de suas amigas, que acredito tramavam também, ela saia faceira, não sem antes levar-me para um canto da loja, muitas vezes puxando-me pelo braço, para pedir-me cochichando um dinheiro e desaparecer por alguns dias.
E as portas da loja sempre estiveram abertas para todos os que quiseram entrar, evitando-lhes o incômodo de me pedirem permissão e me respeitar.
Parte XX
Inocência estava cercada.
Sua mãe e irmãs, sabendo que ela estava comigo, começaram a procurá-la na loja.
Inocência tinha uma filha de dois anos de idade, e estas suas fugas homéricas enlouqueciam sua família, que tinha que cuidar da criança.
Segundo Inocência, Mauro, o seu ex-companheiro, alegava não ter condições de as sustentar.
Então, sem ter o que fazer, ela deixava sua filha com sua mãe ou com a avó paterna, que revezavam-se nos cuidados.
O pai da menina, quando soube que Inocência estava grávida, não quis assumir a criança, e antes mesmo dela nascer, se separou.
E Inocência tinha apenas dezesseis anos de idade quando isto aconteceu, era apenas uma criança.
O imaturo rapaz, despreparado para esta união, não a aceitou como devia.
Então, Inocência, sem condições de se sustentar, revezava a guarda de sua filha com sua mãe e sua ex-sogra.
As cobranças vieram fatalmente e ela não teve como se defender.
Sua família obrigavam-na a cuidar de sua filha e assumir os seus compromissos de mãe, mas não lhe davam as mínimas condições financeiras para isso.
Então, com sua família vindo na loja para a responsabilizar e brigar, muitas vezes com sua filha de arrasto, sua paz acabou e a sua vida tornou-se um inferno.
Pressionada, ela fugiu novamente.
E elas vieram para tirá-la de mim.
Insensíveis, vieram para jogá-la nos braços de qualquer um.
Eu nunca simpatizei muito com sua mãe, pois achava-a um mulher insensível, neurótica e barraqueira, e muito menos suportava suas brigas com Inocência, apesar de achar que ela tivesse lá suas razões.
Hoje eu não pensaria mais assim e lhe tiraria toda a razão.
Mas eu também já andava com tantos problemas pessoais para resolver, que ouvir as baixarias e a pobreza dos outros me incomodava.
E a quebradeira em seu meio era geral, chegava até a dar medo.
Mas a pobreza nunca foi uma desonra, como pensam alguns.
E a pobreza não está somente nos corações daqueles que são pobres e passam necessidades e não se conformam, que pervertem suas vidas e a vida dos outros.
A pobreza também está nos corações daqueles que amam o dinheiro e lutam por ele até morrer, e continuam pobres, eternamente pobres.
Mas cada um tem os seus problemas e os seus valores, e o que merece.
E segundo uma amiga me disse: Deus é justo, apesar de conviver no meio de tantas injustiças.
E as coisas não se resolvem com brigas, não é mesmo?
Na verdade, sua mãe queria que ela se ajeitasse na vida e que arrumasse um companheiro que a sustentasse, enquanto fosse jovem e bonita.
E talvez a megera estivesse com a razão.
"Talvez um homem de meia idade como eu, um otário!" — pensava eu, desconfiado e irritado com sua invasão em meu ambiente.
E a intrometida, sem comiseração, menosprezando-me, sondava-me os sentimentos, pedindo confirmação:
— Você não acha Celso? Você não acha que estou com a razão? — e perguntava-me com aquela sua maldosa inteligência sutil, aprendida na escola de sua vida.
E acredito que fazia isso para me magoar, ou talvez porque nunca amou alguém.
E eu sentia-me um derrotado, e a matrona, satisfeita por falar com sabedoria, vitoriosa.
E se eu tivesse uma alguma pequena poupança em algum grande banco deste País, decerto que não a deixaria com ela.
E, a contragosto, eu confirmava evasivamente:
— Uh-huh!
Nesta época, o amor que eu tanto sentia e valorizava, escondia-se em algum lugar.
E pouco o via entre as pessoas que convivam comigo, e por mais que eu o procurasse por aqui ou por ali, eu não o encontrava em quase ninguém.
Meu mundo estava virando um baile da máscaras, onde cada uma delas que caía de seus rostos, eu não reconhecia as pessoas que pensei.
Será que o destino de algumas mães eram serem empresarias de suas filhas?
Será que o destino de algumas filhas era o de resgatarem o carma de suas mães.
Mas mãe é mãe, mãe é uma santa, um assunto inviolável.
Mãe tem propriedade, tem os seus direitos.
E eu indignava-me com estes pensamentos filosóficos tão "incomuns" em nosso meio social, mas, também, sem condições financeiras para a sustentar, infelizmente, eu não sabia como lidar com a situação, nem como a ajudar, senão eu a pegaria para mim.
Mas homens são homens, e alguns têm essas manias possessivas enraizadas, resquícios de um passado irracional, e acham que perderam os seus amores porque não os puderam comprar.
E muitos outros se sentem realizados porque os puderam pagar.
E estas coisas não se aprendem nas escolas, aprendem-se na família, na sociedade, na vida real.
Parte XXI
O máximo que Inocência ficava comigo era uma semana.
Raramente ficava mais do que isso.
Depois desaparecia da face da Terra..
Às vezes ela comunicava-se comigo pela internet.
Sem eu esperar o acesso, eu surpreendia-me vendo-a pela webcam de algum computador, feliz da vida.
E nestes momentos, minha tristeza e minha saudade pesava-me imensurável e só restava-me suportar e chorar.
E nas minhas desesperadas carências afetivas eu a aceitava em minhas fragilidades.
E sempre agi assim com inocência: fingi e suportei.
Os que diziam que eu era um falso, talvez até estivessem com a razão, mas todos aqueles que me apontaram o dedo para me acusar, foram mais falsos do que eu.
E se fui um falso ao dar minha confiança e o meu amor para pessoas que fingiam gostar de mim, foi porque me desmereci e me iludi.
E estas falsidades vinham menos da incompreensão do que da aceitação.
Minha fraqueza, para não sofrer mais, era a de suportar e esperar até a dor passar.
Quando queria voltar, Inocência ligava para dizer-me que estava morando com um parente, ou então com uma amiga, e que logo logo viria me ver... que morria de saudade...que sentia a minha falta... mas nunca me dizia onde encontrá-la, nem o que estava fazendo.
Acredito que quando as coisas apertavam para o seu lado, ela se lembrava de mim.
Quando eu lhe perguntava ansioso quando ia aparecer, ela, evasiva, respondia-me que assim que desse um tempo ela viria.
Eu nunca sabia que tempo era esse, e esperava impaciente por estes momentos que muitas vezes custavam a chegar.
E para enganar as minhas dores e parar de sofrer, eu não queria saber mais do que já sabia, pois Inocência praticamente nunca trabalhou, a não ser de bico, e Porto Alegre não é uma cidade tão grande assim.
Quando queria voltar para a loja, pedia-me para ir buscá-la em algum lugar combinado, nunca em sua residência.
Quando eu a encontrava, eu perguntava louco de saudade:
— Onde você esteve Inocência? Por que me deixou? Eu te liguei várias vezes.
Ela me enrolava e dizia que estava na casa de uma amiga, de um parente, que estava trabalhando....
— Mas por que você fugiu? Por que você não me disse para onde ia? Por que você não quis ficar aqui comigo?
— O que é? Qual é que é? E eu tenho que te dar satisfações agora?! Já vai começar com ciúmes? Não acredito! La, la, la, la.. — e começava a cantarolar com seus trejeitos, me provocando com seu sorriso travesso.
E como eu poderia resistir!
Depois que tirava-me da tristeza e percebia que eu estava feliz porque voltou, ela olhava-me carinhosamente, não havia como argumentar, ela era a minha inspiração, a minha necessidade, o meu amor.
E eu, para continuar ao seu lado, calava-me.
Parte XXII
Certa vez, Inocência sumiu por meses.
Descobri por intermédio de Peter, que chateado, até pensou em esconder-me os fatos, mas decidiu contar-me a verdade:
Inocência estava fora do estado morando com um homem e dizendo-se casada num site da internet.
E eu, para poupar-me de mais desilusões, até que tentei deletar esta informação de minha mente.
Mas apesar de não suportar mais conviver com suas traições, eu tinha que saber a verdade.
Depois de alguns dias, criei coragem e fui olhar para o meu desgosto e para o meu desamor.
Eu tinha que enfrentar a realidade.
E à noite, acovardado, pedi a Peter que abrisse o site da internet para eu ver.
E no balcão de atendimento, com as lojas fechadas, assim que Peter saiu e foi para cantinho conversar com Rodrigo, eu fiquei sozinho olhando para a tela fria do computador.
Quando vi as fotos de Inocência sorridente com seu companheiro, minha vida de sonhos já não existiam mais.
E apesar de ter me preparado para este momento, meu coração entristeceu-se com uma desilusão inconsolável.
Porém, quando olhei para o foto do jovem sorridente ao seu lado, totalmente apaixonado, entristeci-me mais ainda por ele e senti dó daquele ser, porque ao final da aventura eu sabia que ela voltaria para mim.
Pobre rapaz!
Somente os seres humanos são capazes de tais maldades, é muito injusto.
Se me servisse de consolo, neste instante desesperançoso, eu ainda tinha a vantagem de saber da existência de seus amantes, porque eles não sabiam da minha.
Ridículo!
Produtos de marcas desconhecidas não deveriam ser comprados assim, deveríamos exigir o certificado de garantia, pesquisar a sua procedência antes de nos comprometer.
Os de marcas conhecidas são mais vantajosos, apesar dos problemas que trazem, sempre podemos saber onde esta o defeito e por que ele não nos serviu.
De pretexto, quando as coisas complicavam para o seu lado e ela precisava de mim, eu virava o seu tio.
Sem querer me deixar, Inocência forçava as situações, usando a minha submissão amorosa, mentia para eles e para mim.
Com a vantagem de ser bem mais velho do que eles, se isto realmente é uma vantagem, eu conseguia passar desapercebido pelos jovens apaixonados.
E se Inocência via assim, é por que devia ser assim.
E realmente foi assim!
Nesta época eu sobrevivia e me contentava com tão pouco que, ainda hoje, enquanto escrevo estas histórias, me vem uma grande tristeza pelas tristezas que passei.
E abismava-me tantas mentiras!
Como eles podiam acreditar em Inocência?!
Era um absurdo tão grande que, por me calar, mancomunei-me com ela, e não estava gostando nada disso.
Conhecendo minha índole, se continuasse assim, um dia eu explodiria e contaria a verdade para todos.
Comecei a perceber em Inocência uma falta de caráter tão grande, que jamais supunha existir.
Como constatei, os "maridos" geralmente moravam com suas mães, ou suas mães eram o elo forte da família e satisfaziam os desejos de seus filhos.
Aí a vida ficava fácil, era só encontrar a cara metade e a levar para casa.
Novos tempos, outros problemas.
Minha mente insana, divagava rancorosa.
Imaginava um objeto cobiçado à venda numa loja.
Era só comprá-lo, embrulhá-lho para presente e levá-lo para casa para se fartar.
Mas bem feito para eles, a compra era feita sem as garantias.
Melhor seria se comprassem uma boneca inflável.
Não havia reembolso.
E, depois, quando as reclamações aconteciam e os tormentos surgiam com tantos defeitos de fabricação, não adiantava chorar.
O objeto pensava, tinha um livre arbítrio infernal e duas perninhas que pareciam rodas, e fugia.
Era uma paixão a primeira vista.
Sequer davam-se ao trabalho de conhecê-la melhor.
Sobrevivente de um mundo atroz, Inocência vagava a esmo.
Na sua bagagem de conhecimentos mundanos, trazia o dom de cativar homens carentes.
Mas ela cativava as mães deles também, que vendo seus filhos apaixonados, precisando de uma companheira, faziam de tudo para mantê-la por perto.
E mãe sempre é mãe, quer o melhor para os seus filhos, quem as pode culpar.
A história repetia-se.
Uma moça tão prendada e bonita, tão injustiçada pelos homens.
Uma jovem meiga, de princípios, tão além dos merecimentos de seus filhos, uma sorte grande.
Inocência tinha muitas facetas.
E eu que vivenciava a tudo, delirava amargurado em meus subterfúgios filosóficos sem reclamar, e voltava a ao mundo de minha insignificância sem conseguir reunir forças para desembainhar minha espada e me libertar.
Fecharam-se as portas de meu valor.
Sem defender os meus domínios, meu coração enfraqueceu e se submeteu.
Quando estamos nos afogando neste mar azul de sentimentos, precisamos de alguma mão amiga que nos traga à tona para respirar e ajude a nos amar.
Poucas vezes respeitei minha vontade de viver, sempre coloquei em segundo plano os meus interesses para não prejudicar ninguém.
Sempre fui um fraco, mas agora brincavam com os meus sentimentos sem dó.
E alguns outros acusavam-me de tudo o que lhes acontecia de mal, se baseavam em minhas fraquezas para se manterem.
E se eu vivia alguns momentos de felicidade com Inocência, eu agarrava-me a quem não iria me salvar, e o meu amor próprio destruía-se progressivamente.
Parte XXIII
Mas, o "marido" do outro estado, do site que comentei, outro apressado e apaixonado, sem saber das facetas de Inocência, transtornado com sua fuga, ameaçou se matar.
Um adendo:
Ela desaparecia, mas deixava o número do seu celular.
Isto quer dizer que você podia ligar para ela quando quisesse, mas geralmente ela o desligava e só atendia quando queria, e você jamais saberia aonde ela estava ou com quem estava, não adiantava insistir.
E isto era um tormento.
Imagine você falando com a pessoa que ama, sem saber aonde ela está ou com quem está.
E de manhã, quando ele ligou, ela estava comigo no quarto, e isto me fez mal.
O pobre do rapaz nem sequer em seus piores pesadelos, poderia imaginar a verdade.
Inocência feliz em nossa cama, contando-me as novidades e as aventuras de sua viagem.
Estávamos debaixo das cobertas, sentados um de frente para o outro, cada um em sua cabeceira, encostados na parede.
Inocência estava com suas pernas em meu colo.
Eu até que bronqueei chateado:
— Por que você fez isso com ele Inocência? Coitado do rapaz!
Inocência, que desligara o celular, justificou-se:
— Eu não queria mais ficar lá Celso! Quem mandou ele se apaixonar! A culpa foi dele, não foi minha! Ele é quem insistiu pra eu ir morar com ele, eu não queria!
E rapidamente, sem parar de fitar-me por um segundo sequer, insinuou-se com seu meigo sorriso.
— Eu estava com saudades de ti, Celso!
— Eu também Inocência!
Eu não conseguia resistir a sua beleza e ao seu olhar que provocava-me a paixão, era impossível resistir, e eu aceitava a tudo somente para tê-la por perto e para poder tocar em seu corpo.
Jamais eu conseguiria viver sem ela, era um sentimento obsessivo e avassalador.
Eu amava um demônio vestido de luz.
Aí, ela ligou o celular e continuou a contar-me a sua história, quando, nesse meio tempo, ele totalmente desesperado, ligou novamente.
Isto foi de manhã cedo, logo após Inocência chegar de viagem.
Inocência me fez um sinal de silêncio e atendeu a chamada.
Estressada, intermitentemente narrava-me a conversa, ao mesmo tempo em que abafava o som do celular com a mão.
— Ele está me perguntando onde eu estou, Celso!... Agora tá me dizendo que quase se matou!... Disse que ontem à noite, quando soube que eu fui embora... quase se atirou da ponte... Ele tá me dizendo que se eu não voltar, vai se matar!... Diz que não consegue viver sem mim... Não para de insistir... O que eu faço?
— Fala a verdade pra ele!
— Não posso! Aí mesmo é que ele vai se matar!
— Então acalma ele! Diz que você vai voltar! — falei indignado e tenso, preocupado com ele.
"Só me faltava essa! Ainda ter que me preocupar com o rival! Inocência me pedia demais."
— Você acha mesmo? — disse-me Inocência pensativa, com cara de santa.
E sem parar de acariciar os seus pés e suas pernas por um minuto sequer:
— Claro! Se você não voltar ele se mata! Não acho justo o que você esta fazendo com ele Inocência! Por mim, você deveria era voltar e ficar com ele para sempre.
— Você acha?
— Bom, pelo menos até ele melhorar... quem sabe...não sei. E, se ele se matar? — falei magoado e rancoroso com ela, p... da cara.
— É, você tem razão! — provocou-me sem saída, com aquela cara deslavada, com aquela sua expressão condoída, maquiavélica.
Então, após alguns segundos me olhando, com uma voz melosa, para livrar-se do problema e acalmar-me o coração, apaziguou a situação e o fogo suicida de seu "companheiro", dizendo-lhe:
— Tá bem então...Te cuida hein...Eu volto tá!...Prometo...Te cuida!...Eu volto logo...tá... assim que der...eu te prometo...Também tô com saudades...Também te amo...muito... — e a paz retornou.
Inocência era uma artista.
E eu, muito aborrecido e preocupado com o rapaz, passei-lhe um sermão daqueles, mas não adiantou muito, pois ela não tinha jeito mesmo, divertia-se com a situação.
Enquanto eu continuava exaltado, queimando no fogo dos infernos de minha indignação, sem conseguir parar de falar, ela admirava-me calada.
Olhando-me fixamente, deixava transparecer em seu rosto uma certa ironia.
Então, de repente, com eu não conseguisse mais me controlar e parar de bronquear, totalmente incendiado com minha verbosidade, para apagar a chama Inocência intrometeu-se para me acalmar:
— Psiu...te calma...tá...te acalma...Psiu! Não vai parar mais de falar!... — e insinuava-se num tom decrescente, suave, enquanto olhava-me com aqueles seus lindos olhinhos azuis que me fascinavam e me enlouqueciam, quase fechando-os e bocejando de sono.
E eu me deitei ao seu lado.
E para me seduzir, um meigo sorriso nos seus lábios para me acalmar e fazer-me esquecer o mundo e suas injustiças, e apaziguou-me de vez:
— Eu estava com saudades de ti Celso! — sussurrou sapeca e suspirou displicentemente e fitou-me feliz, com aquele seu jeito infantil que tanto me acalmava o coração.
— Eu também Inocência! — e me submetia.
E não resistia afagá-la, era impossível resistir, e o meu tempo com ela era precioso demais.
E neste tempo eu a queria para mim, somente para mim.
Depois disso, cansada de sua longa viagem, estirou-se na cama e jogou todo o peso de suas pernas sobre mim, depois virou-se de lado e dormiu profundamente.
E eu fissurado com a volta de minha pose, sentindo o calor do seu corpo, fiquei ainda por um longo tempo acordado, divagando nas nuvens escuras, olhando para o teto branco do quarto, cheio de estrelas.
E admirando-a, alisava o seu corpo macio, seu lindo rosto e seus lindos cabelos loiros que escorriam por sua face...
Depois disso adormeci também.
É desnecessário dizer que Inocência voltou a morar comigo.
Não sei o que aconteceu com aquele jovem do outro estado, pois nunca mais falamos sobre ele, pobre rapaz.
Parte XXIV
Da penúltima vez que Inocência sumiu, ela apareceu comprometida com um jovem de Porto Alegre, um outro apressado e apaixonado por seus encantos.
Antes disso acontecer, ela até que tentou esconder-me o romance, mas eu o descobri por sua filha, que contou-me a verdade inocentemente.
Certa noite fui buscar Inocência na casa de sua tia, num bairro bem distante do meu.
Voltávamos de carro pela madrugada, passeando pela cidade, quando Adana, sua filha, contou-me a novidade, feliz.
Inocência, apressou-se para cortar o assunto.
Desajeitada, interferiu rapidamente na conversa e tentou desacreditá-la perante a mim:
— O que é isso minha filha, você esta ficando louca. Cala a boca! Fica quieta! Não vê que eu conversando com o Celso.
Mas sua filha, feliz por estar comigo e com sua mãe, ansiosa para contar-me a novidade, insistiu:
— Mas mãe! Eu vi você beijando ele na boca.
— Cala a boca!
— Mas mãe...
— Psiu...Cala a boca!
E eu, passeando por lugares errados, andando com pessoas que gostavam pouco de mim, submetido aos enganos do meu coração e cego, me intrometi na conversa da duas:
— É verdade que sua mãe está namorando um outro homem Adana?
— É verdade sim Celso. Ontem, eles ficaram a noite toda no sofá. Depois eu vi a mãe beijando ele na boca. Agh... que nojo.
E Inocência não cedeu.
Mesmo sabendo que nós sabíamos que ela mentia, ela inventou uma estória para mim.
Eu fingi que aceitei suas explicações e me entristeci, e sua filha se calou, e a noite perdeu o seu sabor.
As crianças são assim mesmas, puras de coração, não sabem mentir, e este é um grande dom divino.
E depois disso, para continuar com o seu romance sem o risco de minha interferência, ela teve que desaparecer por algum tempo.
Eu estranhava ver tantos homens jovens e carentes, apaixonados em pleno tempo de liberação sexual feminina.
Os homens, agora que a vida estava mais fácil e a oferta do produto maior, em vez de se livrarem dos problemas conjugais e irem aproveitar as suas vidas, apaixonavam-se e procuravam sarna para se coçar.
Só faltava agora eles se conservarem virgens para poderem se casar com mulheres mais experientes, aí seria demais.
E nesta época de igualdades sexuais, existiam mulheres jovens com mais quilômetros rodados que muitos homens mais velhos por aí.
E o poder estava sendo usado a torto e a direito, como se quisessem resgatar séculos e séculos de submissão.
E às vezes eu ficava tão indignado e desiludido com a concorrência desleal, que chegava a pensar que faltavam mulheres no mundo.
Os tempos estavam mudando, ou eu estava enxergando com a idade o que eu não via antes, ou Inocência tinha muita sorte.
Este jovem de Porto Alegre, eu acabei conhecendo-o pessoalmente, e apesar de todas as indiretas que lhe dei, não adiantou, acabei passando desapercebido.
Uma tarde eu fui visitá-la no apartamento onde moravam.
Eu, Inocência e sua mãe estávamos conversando na sala, quando seu companheiro chegou.
Quando peguei o violão, a pedido de Inocência, e toquei uma música romântica de minha autoria, somente ele é quem não percebeu.
Inocência ficou de pé atrás do sofá, enquanto ele me ouvia tocar sentado no sofá.
Quando a coisa esquentou, Inocência inventou uma desculpa e correu para o quarto para disfarçar o meu olhar e o meu amor, enquanto sua mãe ficava com um sorriso travado, deslavado.
A minha idade tornava-me um fantasma aos olhos juvenis e isto me impressionava e desagradava.
Se estes jovens viessem me procurar, se me indagassem sobre Inocência, saberiam a verdade, e seria bem mais fácil para nós e uma ajuda libertadora para mim.
Mas estes jovens, ou eram uns idiotas ou mais fracos do que eu, pois escondiam-se em seus desejos.
As mulheres, neste ponto, são mais inteligentes do que os homens, enxergam mais longe, e ainda possuem uma visão lateral sobressalente, que usam em situações de emergência, e que chamam de intuição.
Mas também pudera! Assim fica fácil. O bolo sempre é cobiçado, não é mesmo.
E se isto não é uma vantagem, só pode ser um poder.
Em contrapartida, os homens, às vezes não conseguem enxergar nem o que está a sua frente.
E quando enxergam alguma coisa, geralmente enxergam errado, ou então não acreditam no que veem, e acreditam que suas mulheres são vítimas.
Ridículo!
Mas este "casamento" também durou por pouco tempo, e Inocência voltou a morar comigo.
Parte XXV
.
E na verdade, eu era o seu porto seguro.
Comigo, ela sentia-se mais tranquila.
Eu era um dos poucos que conhecia algumas de suas facetas, pois todas ninguém as conhecia, e sempre havia uma via de escape, que só ela sabia.
Com o tempo, fui conhecendo sua família, que às vezes vinham procurá-la na loja.
Neste ponto ela confiou em mim.
E sempre simpatizei com suas irmãs, apesar das neuroses que tinham e de conhecê-las tão pouco.
E no meu quarto ela escondia-se de todos, e de suas trapalhadas também.
Às vezes chegava tão exausta de suas andanças, que dormia o dia inteiro, só acordando para dizer-me que estava com fome.
E lá ia eu comprar alguma coisa para ela comer.
Como se recusava a levantar, eu levava a comida até o quarto e ela comia na cama.
Enquanto isso, conversávamos um pouco, e depois ela voltava a dormir.
Parecia que não dormia há dias.
Às vezes o seu cansaço era tanto, que dormia com um chicle na boca.
Quando eu a avisava de que estava com um chicle na boca, ela nem me olhava, e tirava-o displicentemente e colava-o na parede ao lado da cama, ou então simplesmente o jogava no chão.
Quando eu reclamava:
— Mas o que é isso Inocência!...Que barbaridade!...Que guriazinha mais porca! — ela repuxava o canto da boca e depois dormia de barriga para cima, colocando os seus pés em meu colo, não sem antes olhar-me com desdem.
E isto excitava-me.
Inocência não era uma adepta da limpeza e nosso pequeno quarto mais parecia uma peça de entulhos, mas os seus pés era maravilhosos e faziam parte do meu paraíso e do meu prazer, e eram meus.
Parte XXVI
Somente com o tempo é que fui descobrir as maldades e a total insensibilidade de Inocência.
E sem perder a oportunidade de a associar com o mito, e para inclui-lo em minhas histórias sobrenaturais, digo que Inocência era uma vampira, e que suas armas eram o envolvimento e a sedução.
Quando a conheci, ela era uma jovem esbelta e sedutora, porém com o tempo e a quantidade de sangue disponível, acabou insatisfeita.
Infelizmente, com seus maus hábitos alimentares e com sérios problemas de saúde, que surgiram um pouco por descaso com o seu corpo, somados a uma forte depressão, fizeram-na engordar e perder um pouco de sua beleza inicial.
E, afinal de contas, todos nos envelhecemos, e o brilho de nossa juventude se perde nas chatices da vida adulta, e para uma fêmea, isto é mortal.
Ficamos juntos por vários anos, mas a situação foi ficando insuportável, mais para ela do que para mim, suponho, que queria mais era ver o circo pegar fogo e estava para o que desse e viesse e não queria perdê-la de jeito nenhum.
Em nossa primeira noite pedi a Inocência que não se envolvesse com o pessoal do grupo, pura ingenuidade a minha, pois Inocência rapidamente conquistou a todos, principalmente a Samara.
Depois disso, tentei compreendê-la e ajudá-la em suas dificuldades, mas enredei-me em suas mentiras e ambições.
Inocência tinha a credibilidade das jovens amigas como escudo para os seus subterfúgios.
Eu bem que tentava argumentar com elas sobre a duplicidade de comportamento de Inocência, mas de nada adiantava.
Para as jovens estava tudo bem, desde que saíssem juntas para as festas, estava bom assim.
Certa tarde decidi conversar com Vivian a este repeito.
Foi a melhor opção que encontrei para resgatar minha dignidade e privacidade com Inocência e fazê-la entender.
Quando eu lhe expus minhas contrariedades e pedi-lhe que se afastassem de Inocência, dizendo-lhe que ela era uma mulher e que eu a sustentava enquanto estava comigo...que ela não era minha amiga como eles eram...que ela não era nada daquilo que eles pensavam,,, que ela dormia comigo...
Apesar de falar o óbvio, Vivian não ouviu os meus lamentos e, indignada, chamou-me de otário, que eu estava inventando estórias e respondeu-me irritada:
— Vocês são uns trouxas! Velho tem é que pagar mesmo!
E estas palavras, ditas por uma jovem que eu amava e que considerava como igual, doeu-me muito.
E naquele comentário de Vivian, a época da inocência encerrou-se definitivamente para mim.
E este conceito, dito de uma maneira tão vulgar, quase que raivoso, para um idiota insensível ouvir e entender, afetou-me profundamente, e definitivamente este veneno alojou-se em meu amor que considerava puro e sincero.
Um simples entendimento de uma jovem, confundiu-me na qualidade real de meus sentimentos por Inocência e intrometeu-se como um vírus letal, uma doença degenerativa.
E ramificou-se em meus pensamentos como um câncer, trazendo-me a luz uma verdade cruel para os meus sentimentos e desejos, inseminando a dúvida e a desconfiança em meu coração.
Parte XXVII
E depois daquele dia eu nunca mais os vi com iguais.
Depois daquela tarde de um início de outono, a pureza morreu dentro de mim.
Alguma coisa de muito grave aconteceu naquela instante em que Vivian me fez ver o que eu não queria ver.
E depois daquela tarde tristonha e fatídica, comecei a compreender como eles me viam.
Eu não era igual a eles, eu era um homem de um outro tempo, de um outro mundo.
E agora o que eu sentia e vivia nestes tempos de iluminação e de grandes mudanças pessoais, tornavam-se tão marcantes e especiais para mim, que eu não deveria tê-las compartilhado com ninguém.
Se eu não era igual a eles, com certeza eles não eram iguais a mim.
Se eles não eram os mesmos adolescente dos tempos dos Beatles e dos Rolling Stones, o que me importava isso.
O que eu poderia fazer se as músicas que ouvi pertenciam ao passado, e se agora eu era um novo homem nascendo para um novo mundo, ouvindo uma nova melodia, sentindo a criatividade de novas canções.
E, apesar de me padronizarem pela idade, eu sentia-me uma criança renascendo, crescendo, precisando de cuidados também.
Deus, perdoai-os pelo que dizem e pelo que pensam.
E este despertar interior vinha acompanhado de uma alegria extasiante, uma compreensão atemporal, uma visão espiritual extraordinária que se perdia à medida em que eles cresciam, e assumiam os mesmos padrões psicológicos, sociais e culturais de suas idades, e começavam a citar e a debater antigas questões e a viver aqueles repetitivos e conhecidos problemas da idade adulta.
E todas as teorias espíritas, que renascemos para evoluir e aprender, se perdiam nas provas do meio e se desvaneciam em mundo real.
E falo estas verdades, não para criticar o espiritismo, mas apenas para o questionar em alguns de seus conceitos bem formulados, mas bem pouco fundamentados.
E Allan Kardec, pesquisando sua ciência espiritual, decerto já imaginou que acabariam transformado sua procura da verdade em religião.
E trocando as idades, eu me reencarnava em vida e trocava de pele.
E os meus sonhos se iniciavam em outros níveis, bem diferentes dos deles, com mais experiência, sem as mesmas razões ancestrais de seus preconceitos imortais.
E sem eu perceber os novos tempos chegavam sem piedade, e todos envelheciam rapidamente, sem eu o querer.
E as aventuras de um louco se perdiam nas teorias e confusões, e confissões.
Os jovens queriam coisas reais, queriam conselhos existenciais.
Queriam realizações profissionais, dinheiro, status, uma família, filhos.
Surgiam os interesses da idade, e já desacreditavam em contos de fadas, se esqueciam da tradição da lua e da simples felicidade de brincar, acreditar e se perder.
Debatiam antigas questões como se fossem novas, atiraram-se na luz ofuscante do mundo, debandando-se para aqueles mesmos tipos de anseios e para aqueles mesmos jogos de amor, e esqueciam de amar pelo simples prazer de amar.
Apaixonavam-se com frequência, e o cupido sempre jogava suas setas pelo ar.
E os sofrimentos por amor eram intensos, sufocantes e me faziam sofrer também.
E sem querer julgar o interior e os sentimentos de cada um, todos nós lutamos as nossas batalhas neste mundo inóspito e selvagem, e perseguimos os nossos sonhos até vencer, perder e aprender.
Se vencemos seremos vitoriosos.
Se perdemos, teremos que sacudir a poeira de nossa roupa, limpar os nossos pés e seguir.
E a compreensão racional e argumentativa e os anseios desta multidão me desiludia.
E como o ser humano gosta de discutir e provar suas razões.
Se eu estava sendo usado, eles também estavam sendo usados e, neste ponto, todos compartilhavam o mesmo tempo que eu.
Parte XXVIII
A bem da verdade, Inocência era um ótima estrategista e identificou-se facilmente com o grupo.
Quem daria créditos a um homem de meia idade como eu, ninguém.
Afinal de contas, os preconceitos e os clichês explodem por todos os lados.
O velho quando olha para um jovem, vê o futuro.
Um jovem quando olha para um velho, vê o passado.
Há uma defasagem de 180 graus nesta criação, não há como conciliar.
Mas eu não via isto nela e não via neles também, e quando eu estava com eles eu estava com minha turma. Em minha consciência e em meu coração, eu os tratava como iguais.
Mas estas gerações não conseguem andar juntas mesmas, e nunca se tratam como iguais, a não ser quanto existe o amor ou a iluminação divina, mas mesmo assim tem que haver muita compreensão, que alguns têm, não nego.
E Inocência, com uma inteligência acima da média, tinha um pouco desta compreensão.
E se eu quisesse reiniciar minha vida com ela, eu teria que transcender o tempo, tentar puxá-la para o meu lado.
Inocência, apesar da pouca idade, já tinha a sabedoria suficiente para saber que a idade não desmerece ninguém, e a usava e a jogava a seu favor, transformando-me a vontade ante os olhares incrédulos dos jovens, em qualquer pessoa que ela quisesse, e eu ficava perplexo com sua visão do mundo.
E passamos por tantas situações constrangedoras, que tínhamos que rir.
Um dia fui almoçar com Inocência num restaurante do bairro.
Uma jovem conhecida trabalhava ali.
Enquanto nos servíamos no buffet, a garçonete comentou:
— Celso, como sua filha cresceu! Como ela está parecida com você! Como ela ficou bonita....Meus parabéns.
— Obrigado, ela é a minha cara. — olhei para Inocência e sorri.
E Inocência olhou-me de canto de olho.
Depois que nos servimos escolhemos uma mesa em frente ao buffet.
Um grupo de jovens, numa mesa pouco distante da nossa, não paravam de admirá-la, e, entre olhares idiotas, como se me pedissem permissão para conquistá-la, olhavam para nós com uns sorrisos simpáticos.
Inocência com certeza ficou tensa e envergonhada, talvez preocupada com alguma abordagem indiscreta, ou com minhas explosões temperamentais.
E olhe, que hoje em dia, a terceira idade é chamada a "melhor" idade.
Mas eu nem sequer estava na terceira idade!
E se por acaso estivesse, eu diria a todos estes jovens ineptos da alma e do coração, aos quais ainda tinham muito o que aprender:
— Que se danem vocês, seus cegos! Chega de ouvir besteiras e preconceitos de vocês! Eu quero mais é viver minha vida preciosa e fugaz e desfrutar as minhas experiências.
Mas Inocência era ladina o suficiente para entender a retidão e manipular a situação a seu favor.
Na realidade, as opiniões deles não a interessavam.
Nunca, em todos esses anos em que estivemos juntos, ela tocou neste assunto.
E quando eu tentava argumentar com ela sobre nossa diferença de idade e a visão que os jovens e os mais velhos tinham de nós, ela chamava-me de louco, não me ouvia, mostrava-se indignada.
Chamava-me de paranoico, exaltava-se, tapava os ouvidos para não me ouvir, para logo em seguida trocar de assunto e recomeçar com suas brincadeiras.
Parte XXIX
Não havia como falar a sério com Inocência, mas este era o seu lado bom, pois nunca nos enredávamos em depressões.
Quando eu ficava brabo e argumentava, ela simplesmente ignorava-me.
Quando eu insistia nas brigas, ela ficava furiosa.
Inocência não era muito pacienciosa com minhas explosões temperamentais.
Se acaso eu não parasse de brigar, talvez ela até usasse isso como pretexto, pois arrumava-se rapidinho e ia embora, não importava em que horário, que geralmente eram a noite, quando estávamos sozinhos.
E eu ficava que nem um bezerro desmamado, desamparado, enlouquecido.
E para não implorar e me humilhar, eu ficava indignado e depois ficava sem saber o que fazer e nem para onde ir, e minha solidão erguia-se para desabar.
Mas Inocência era assim, e este foi o meu aprendizado.
O mundo poderia desmoronar ao seu redor que ela não o demostrava, parecia estar tudo bem.
Era do seu jeito, uma mulher forte e corajosa.
Como falei no início, eu não era o único homem mais velho a acolhe-lá.
Os jovens, com certeza, sem embasamento suficiente para compreender o que estava se passando conosco, facilitavam-lhe o caminho.
Assim, ela conseguiu manter-se em um bom nível de relacionamento comigo e com o grupo.
E agora, afinal de contas, todos nós já éramos amigos.
Infelizmente eles custaram a ver (acredito que alguns nunca viram), o que há muito tempo eu já via e aprendia.
Inocência era uma vampira.
Mas sem saída, sem dinheiro e sem ânimo para negociar uma condição melhor, solitário, enfrentei as consequências até onde pude, cedendo aos seus encantos.
Quando se perde tudo, o pouco que se tem torna-se muito, e a companhia de Inocência tornara-se imprescindível para mim.
Como as agressões de meus familiares e a hipocrisias aumentavam, eu já nem me dava ao trabalho de me defender.
Foi um inferno.
Mas, por outro lado, Inocência tinha o seu lado favorável.
Nas noites solitárias fazíamos companhia um ao outro e nos divertíamos muito.
Longe dos olhares, no nosso pequeno espaço do quarto, vivíamos estes momentos de descanso e de paz.
E a nossa pequena cama nos esquentava do frio.
Às vezes o frio era tão intenso lá fora, que o nosso reduto nos aquecia e nos dava prazer, no calor de estarmos juntos.
E neste mundo encantado, com algumas estrelas e desenhos fluorescentes que Inocência colou no teto de nosso quarto, ela era a mulher de meus sonhos, toda a minha riqueza, o meu lugar paradisíaco.
Ela era a minha companheira carinhosa e compreensiva, com quem eu desabafava os meus problemas e as minhas desilusões.
E Inocência ouvia-me e aconselhava-me.
Depois disso, gostava de contar-me suas experiências, que eram muitas.
E neste ínterim, o meu amor próprio quedava-se adiado nos recantos do meu coração, esquecido nos carinhos e na beleza de Inocência e na incredulidade dos acontecimentos, até adormecer.
Quantas vezes eu desejei que estas noites não terminassem, e que ficássemos ali, encostados um no outro, adiando o despertar.
Quantas vezes, com tristeza, vi o dia clarear e chegar o horário de abrir as lojas.
Mas nada dura para sempre e, infelizmente, estes tempos teriam que terminar.
Como as pressões de sua família aumentavam e as mentiras eram muitas, o cerco apertou e Inocência teve que optar, entre enfrentar a verdade comigo ou fugir.
O nosso refúgio começou a ser invadido.
Muita gente já sabia que ela estava comigo e, com suas vidas paralelas, o risco ficou iminente, e Inocência não me assumiu, decidiu fugir e me deixar para trás.
Parte XXX
Inocência era uma andarilha.
Por todos os lugares onde passava ela contava estórias diferentes.
Muitas pessoas que ela conhecia, não me conheciam.
E as poucas amizades do lado de lá, que sabiam que eu existia, conheciam-me através de suas versões.
Isso expunha-me ao perigo do conluio, e atingiam os meus princípios.
E, afinal de contas, eu tinha um comércio estabelecido e conhecido no bairro, tinha que me preservar.
Às vezes, ela obrigava-me a mentir.
Isto não poderia durar eternamente.
Quando o cerco apertava com as seguidas intromissões de sua mãe em nosso meio, ela sumia e ia para um outro lugar.
Quando sua mãe chegava, eu me desesperava, pois sabia que ela ia fugir.
E agora, Inocência trancava-se seguidamente no quarto para esconder-se de todos, e isto me entristecia.
Que Inocência pegava o dinheiro das lojas, isto eu já sabia.
Mas agora, uma coisa de mais grave acontecia, a desesperança chegava-me irreversível.
Numa tarde, totalmente desesperado com sua ausência, liguei para ela.
Nesta época ela morava com seu companheiro de Porto Alegre.
Ela atendeu-me feliz e disse que assim que pudesse viria me ver.
E o nosso quarto permanecia vazio a sua espera.
Neste dia, invadiu-me uma total desilusão e tive a compreensão da minha realidade.
Inocência jamais ficaria comigo, não adiantava mais insistir.
Ela não gostava de mim como eu imaginara que gostasse na minha louca e cega paixão.
E sem uma outra opção de cura, para libertar-me da dor, eu comecei a trabalhar o desapego em meus artifícios mentais.
Num processo de transferência, muitas vezes, para parar de sofrer, eu comparava esta dor a uma dor de dentes.
Para me consolar e tentar esquecê-la, nos momentos em que a dor de sua ausência era quase impossível de se suportar e controlar, eu dizia para mim mesmo: "Daqui a pouco tudo isto vai passar Celso. Aguenta mais um pouco. Daqui a pouco a dor de dente vai passar."
E não adiantava chorar, eu tinha que esperar a dor passar ou aliviar.
As mentiras e o seu comportamento desleal, acabaram tirando-lhe todo o encanto, e me envergonhavam e expuseram-na ao ridículo.
Mas os vampiros são assim mesmo, seres solitários, insensíveis.
Não revelam suas identidades, vivem o estigma da mentira.
Quando são descobertos em seu reduto, se obrigam a fugir.
Primeiro trocam de bairro, depois de cidade, fatalmente de Estado e, às vezes, são forçados a deixar o País.
Apesar de seus encantos e aparente candura, vendem ilusões e não são confiáveis.
A impossibilidade de se estabilizarem e ter amigos leais, causam a perda de identidade e a solidão.
Se as mentiras atingem o seu núcleo familiar, os problemas agravam-se e correm o risco da auto destruição.
Filosofando, posso enganar-me.
Filosofias que trazem mágoas, que podem serem superficiais ou inúteis, contudo falo de coisas que vivenciei.
Entretanto, acredito que Inocência viveu comigo alguns momentos de paz, e teve amizades de valor.
Talvez tenha sido este o motivo que a fez ficar o tempo que ficou.
Mas, com as pressões externas aumentando em meu meio e tirando-nos a privacidade, minha tolerância esgotou-se.
Eu já não aceitava mais compactuar com Inocência, e desgostava de seu comportamento agressivo.
E agora, sentindo falta de minha paz e do conforto do meu lar, injustiçado e desvalorizado por sua ingratidão, também tirava-lhe o pote de ouro de perto de suas mãos.
Com tantas pressões de seus familiares e a minha rejeição com suas atitudes, mais a indisponibilidade do dinheiro, ela teve que partir.
Nesta época as coisas andavam pretas para o meu lado, e uma legião de demônios perseguia-me sem eu saber.
Na verdade, com minha passividade, eu era o grande culpado por tudo isso e desta vida, mas não conseguia buscar forças para libertar-me.
Inocência até que tentou persuadir-me a fugir com ela, e fazia planos para morarmos em outro estado, em alguma cidade pequena.
Mas, infelizmente, seus encantos perderam-se para mim, e eu não confiava mais nela também.
E, por outro lado, eu ficaria desempregado e não teria como me sustentar.
E arriscar-me a viver com Inocência, jogando tarô e ensinando Cabala, era realmente assustador.
E em meu coração, todos os seus atributos desapareciam como uma nuvem soprada pelo vento.
A lembrança daquela jovem que passava pela calçada em frente as lojas e que me encantara os olhos e o coração, não mais se ajustava com aquela mulher que estava ao meu lado.
Quem sabe eu não me enganara?
Quem sabe Inocência não fosse aquela mesma jovem que eu via passar?
Quem sabe ela estivesse com a razão ao dizer-me que não me conhecia?
Quem sabe não era ela aquela mesma jovem que tanto me encantou?
Quem sabe eu não teria me confundido e a perdi?
Gostaria de acreditar que fosse verdade.
Gostaria de acreditar que me enganei, pois sempre fui um sonhador.
Parte final
Ao entardecer, antes de viajar para um outro estado e desaparecer definitivamente de minha vida, Inocência foi com Adana ao supermercado do bairro comprar um bolo de despedida para nós.
Serviu-me "no cantinho", e enquanto conversava, pegou alguns pedaços de bolo com as mãos e colocou-os carinhosamente em minha boca.
Antes de sair da loja beijou-me na boca..
A seguir, ouvindo-a falar banalidades, levei-as até o ponto de táxi da esquina.
Ficamos alguns momentos sentados no banquinho do ponto, esperando a despedida fatal.
Adana era a quem mais conversava, e manisfestava sua grande ansiedade de viajar com sua mãe.
Inocência ainda prometeu-me que voltaria à noite, antes de viajar, e, quando o táxi chegou, despediu-se com um abraço e partiu sem me olhar.
Apesar de entristecido, eu já me preparara para este momento desesperador e desolador.
Eu já me preparara para este desamor tão grande e insensível como o mundo que ficou para trás.
E para não enlouquecer de tanta dor, nem os céus acreditaram no que eu vi e nem meu coração se preparou para sentir, e me libertei.
E o nosso quarto voltou a ser o que era antes, um depósito de entulhos da loja, e poucas vezes eu entro lá.
Contei apenas um pouco do que aconteceu conosco, mas, sem inferir nada, juro por Deus, no momento em que comíamos aquele bolo, o nome de Judas apareceu em meus pensamentos.
Inocência deixou muitas histórias e, é claro, que não contei-as todas aqui.
Histórias que por si só dariam para escrever um livro.
Quem sabe algum dia desses eu as conte em uma outra oportunidade.
Mas, se Inocência era uma vampira, uma coisa eu digo com certeza:
"O demônio não gostava da Cabala."
E o demônio tinha um nome, Jorge.
*Turning and turnig in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.
W. B. Yeats - The second Coming.


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