terça-feira, 9 de outubro de 2012

ADÃO


Um dia à tarde, sem avisar, Samara chegou acompanhada de Adão.
Assim que chegaram em frente a ferragem, se separaram.
Adão foi para a locadora e Samara entrou na ferragem.
Já estávamos reunidos no cantinho quando ela chegou.
Acho que combinaram uma estratégia, pois Adão ficou esperando-a na locadora.
De onde estava eu os vi chegar.
Sentado na minha cadeira preguiçosa, por entre as estantes, eu conseguia ver quem se aproximava da loja, e ter uma pequena visão da locadora pela porta dos fundos.
Eu, que o observava nos espionar pela porta dos fundos, resolvi não me precipitar.
Após algum tempo de estudos com o grupo, entre uma conversa e outra, Samara, ansiosa, avisou-me um pouco sem graça:
— Celso! Tem uma pessoa aí na locadora querendo te conhecer.
— É!...Quem é? — fiz-me de desentendido.
— É Adão! Aquele meu amigo que te falei! — falou desajeitada.
— Ah, sei!
Antes de ir conhecê-lo dei um tempo estratégico para pensar em como agir com mais este jovem que me procurava.
A seguir fomos até ele, pois se parar para pensar me adiantasse de alguma coisa, eu já estaria com a vida ganha — logo eu, um desligado e indeciso total.
Geralmente, eu só firmava minhas posições quando o meu lado temperamental explodia, e, mesmo assim, os capetinhas, que já me conheciam, não me levavam muito a sério.
Desculpem-me as mulheres, mas às vezes eu sentia que me aflorava um lado feminino neurótico, tal o meu descontrole.
Samara apresentou-nos constrangida, pois sabia que eu não queria mais participantes no grupo, e até imaginei que estivesse sendo pressionada por ele.
Mas Adão foi educado e gentil, e acabamos amigos.
No outro dia, ele entrou para participar do grupo.
Eu já ouvira comentários a seu respeito e sabia de sua fama de bruxo e de que praticava rituais Wicca com Samara.
Adão, nesta época, estava com 17 anos de idade, e depois de Lucius, que já o conhecia do bar, era o mais velho do grupo até então.
Cabelos castanhos escuros, lisos e compridos, olhos castanhos escuros, estatura média e magro, Adão era um cavalheiro.
Com sua pose altiva e polidez formal, às vezes um pouco tímido e desajeitado, um pouco inseguro, não falava além do necessário e mantinha-se na defensiva.
Observador, desconfiado ao meu ver, receava não ser bem recebido no meio.
Mas apesar de uma educação esmerada, recebida de uma família bem estruturada, ele não passava de mais um mentiroso.
Segundo comentários que ouvi de seus amigos, todas as refeições em sua casa eram feitas com a família reunida, e rezavam antes de comer.
Entretanto, sempre existem os loucos soltos por aí, e as paranoias começaram.
Adão, como vim a saber, era discípulo de Lilith, nome muito sugestivo para uma mortal.
Ele nunca contou-me como a conheceu, tampouco lhe perguntei, graças a Deus.
Nestes tempos, o que eu menos precisava era saber disso.
Por tantos problemas que passava, o que menos me interessava era conhecer Lilith.
Nós éramos sábios.
Para que me contar a verdade, não é mesmo?
Minha mente não iria suportar.
Alguns esclarecimentos, que obtive a posteriori, vieram de Peter e principalmente de Samara, com quem ele teve um breve romance.
Eis um superficial esboço de Lilith.
Lilith era uma sucubus, talvez uma vampira, não consegui avaliar bem esta estória.
Iniciada na alta magia, ela tinha um pacto com o demônio.
Nem sei como se conheceram, nem como se tornaram amigos, mas sei que ela transferiu alguns de seus poderes a Adão.
Nunca fui informado de suas características físicas.
Lilith viajava frequentemente à Europa a negócios, e sua casa em Porto Alegre era um de seus redutos.
Quando fora do Brasil, comunicava-se com ele pela internet.
Através destes contatos sigilosos Adão era informado dos acontecimentos e de como proceder com as pessoas a sua volta.
Ele intitulava-se a reencarnação do herói nórdico Siegfried e, é lógico, jamais disse isso para mim.
Dedicava-se aos estudos de Thelema, admirava Crowley e tinha um grande interesse pela Cabala.
Certo dia, pedindo segredo a Samara, contou-lhe uma novidade impressionante, um fenômeno transcendental e sobrenatural.
Disse que estavam crescendo asas em seu corpo, e que podia acelerar o processo, mas o ato, para ele, ainda era muito doloroso de fazer.
Contou que seu guardião estava ficando cada vez mais forte e difícil de controlar e que, agora, a qualquer momento, desceria a Terra para reivindicar o seu poder.
Disse a Samara — encarnação de Morrigan:
— Com o tempo, vai acontecer o mesmo com você. Morrigan está vindo!
Certa tarde estávamos reunidos no "cantinho", quando Adão entrou de supetão e me intimidou:
— Eu sei o que vocês falaram de mim a noite passada! Eu sei de tudo!
Fiquei tenso com sua investida.
— Por que acha que nós falamos de ti? Quem te falou? — perguntei acuado.
— Foi Lilith! Foi ela quem me falou! — olhava-me sério.
— Como assim, Lilith? — Fiquei com cara de réu sustentando o seu olhar, já desconfiado que alguém do grupo tivesse dado com a língua nos dentes, pois ele estava certo.
À noite passada havíamos citado várias vezes o seu nome e o de Lilith, comentado suas paranoias, e feito algumas fofocas sobre ele.
Adão pressionou-me.
— Lilith esteve aqui ontem à noite e contou-me tudo! Inclusive de ti Celso! Sei que falaram de mim! — e continuou pressionando-me com o olhar.
À principio irritei-me com sua entrada brusca e sua arrogância, mas tenho que confessar, o espertinho pegou-me de jeito e quase entreguei o jogo.
Mas entrei em dúvida com sua estória e, confuso, decidi me acautelar e esperar.
"Mas que droga de Lilith é essa?!" — pensei atordoado.
"E se ela existisse mesmo? Se fosse alguma entidade que eu desconhecesse?"
E se por acaso ela tivesse os poderes que Adão falava, eu estava frito?
"E se foi alguém do grupo que nos delatou?"
Adão, foi muito convincente.
Dei um tempo, sempre é bom dar um tempo.
Calei-me, pois se ele continuasse a insistir com a estória e me dissesse o que conversamos à noite passada, para não ser pego de calças curtas, pois não gostava de mentir, eu teria que abrir o jogo com ele.
Mas, felizmente, meu silêncio desarmou sua astúcia.
O grupo, que conhecia suas estórias, entrou na defensiva atacando-o; e, na controvérsia, acabaram mudando de assunto.
Agora, mais aliviado, por sorte, por questão de segundos, safei-me da armadilha.
Adão obrigou-se a recuar e se encolheu, porque afinal de contas eu era bem mais velho do que ele, e o respeito sempre foi uma sabedoria, e o território era meu, este sempre foi o meu trunfo.
Hoje compreendo o ciúmes que sentiu vendo Samara com os jovens, descontraída e feliz.
E, como tarólogo, já devia saber jogando suas cartas, que Lucius e Samara se atraiam.
Adão não participava regularmente de nossos estudos; mas, também, não era convidado a participar.
Sempre manteve posições egocêntricas e auto suficientes.
Era um líder, jamais aceitou perder seu status perante seus amigos que agora me procuravam.
Às vezes condoía-me dele, ainda mais sabendo do interesse de Samara por Lucius.
Adão estava fadado ao fracasso, apesar de ser bem apessoado, sua aparente sensibilidade, seus modos requintados e erudição.
Então, quando vinha, era apenas para conversar com o pessoal do grupo superficialidades, ou filosofar comigo alguns assuntos de tarô e cabala.
De sua parte, o assunto Lilith encerrou-se por ali.
Estas árvores demoníacas não dariam mais frutos em meu meio.
Com o passar do tempo afastou-se, um pouco por ciúmes e algumas desavenças com Lucius, que já estava apaixonado por Samara e era retribuído; outro, por ser recebido friamente por seus antigos amigos, e também pelo desprezo da própria Samara, que começava a compreender o quanto tinha sido manipulada por ele.
De minha parte, sempre o considerei um jovem inteligente e capaz.
Adão tinha uma mente sagaz e uma grande capacidade de apreciação dos mistérios ocultistas.
Tinha uma mãe super protetora, que não participava de nada.
Uma mulher austera, preocupada com o futuro de seu filho, que via perigo onde não existia.
Preocupava-se com suas amizades, com o uso de drogas, com o que ele poderia estar fazendo de errado, e vigiava seus passos, e nunca sabia de nada.
Nesta época, vindo de um meio bem diferente do deles, de uma outra geração, sem embasamento para os avaliar, eu não tinha uma compreensão real da situação e achava que tudo não passava de brincadeiras inocentes.
Eu gostava de todos, e sei lá o por quê, não os levava tão a sério.
O que estou escrevendo agora fui compreendendo aos poucos, através da interação com o grupo.
Nestes tempos o céu era o meu limite, e o êxtase minha companhia diária, e o que me apaixonava era discutir cabala e os arquétipos do tarô.
Eu gostava de filosofar e andava fascinado com minhas descobertas, e queria saber mais, muito mais.
Somente depois é que  fui entender que, para os jovens, o sobrenatural representava poder, um meio de autoafirmação e de obterem vantagens pessoais, principalmente com o sexo oposto.
Lutavam por aquela antiga e tão atual supremacia primitiva, em que os mais fortes e capazes se destacam do grupo e assumem a liderança.
Os danos psicológicos desencadeados por tais ilusões, como constatei, podem ser difíceis de reverter.
Brincar com o sobrenatural pode se tornar catastrófico.
Alguns, levam anos tentando livrar-se de seus malefícios, outros não o conseguem nunca, e acabam levando suas fantasias pelo resto de suas vidas.
Bem..., mas isto também já é uma outra história.
Agora, já éramos em seis:
Tana, Dimitryus, Lucius, Jorge, Adão e eu.
Mas viriam mais, muitos mais...
E Vivian chegou...

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