terça-feira, 9 de outubro de 2012

O QUARTO ESCURO




Imaginem um corredor comprido e ao fundo um quarto.
Pessoas entrando e saindo, algumas paradas na porta.
A sensação de Maria é a de que ele está lá, na escuridão.
Não sabem seu estado, nem o que faz.
Quem o ama não ousa entrar, apenas alguns amigos e estranhos se atrevem a ir até lá.
O segredo está oculto, mas a porta está aberta.
Ratziel visível a todos os insanos, invisível aos olhos mortais.
Familiares, preocupados, acham que ele está doente.
Seus conhecidos levantam suspeitas.
Algumas pessoas que entram em seu mundo conhecem-no, outras não.
Os que o conhecem sabem o que ele está fazendo ali; os outros, não.
Os jovens bruxos achavam que no cantinho, atrás da fitas de vídeo, existia uma passagem secreta para o sobrenatural.
Emocionei-me com Tana, quando, certa vez, disse-me faceira, relembrando o passado de seus sonhos infantis:
— Dimitrius, Samara e eu, achávamos que existia uma passagem secreta na parede, escondida atrás das fitas.
As considerações das ações de Ratziel agitavam a imaginação de todos, que levantavam teses.
Os estranhos, não conhecidos, ouvindo os estranhos conhecidos que observavam clichês, definiam situações e consideram-nas verdadeiras.
Os que o amavam irritavam-se com seu comportamento invulgar.
Mas a porta sempre esteve aberta.
Todos podiam entrar, apertar sua mão e conversar.
Poderiam falar seus problemas, chorar, desabafar, se lamentar, que ele sempre estaria ali.
Podiam sentar ao seu lado como amigos e ouvirem suas verdades e acreditar.
Ratziel recebe a todos, uma estátua de bronze imperfeita, sem expressão pessoal.
Em suas veias corria um líquido azulado compassivo.
Ganhou "nonsense", não conseguia sair.
Quem entrou viu a cor dos seus móveis, conheceu alguns de seus segredos e inferiu suas idiossincrasias.
Ratziel abstraiu-se do mundo real, perdeu o sentido, precisava retornar.
Precisava conciliar realidades.
As fadas, os duendes, as bruxas; os amigos e todo o seu mundo fantástico continuavam ali, dentro do seu coração.
Ratziel decepcionou-se ao sonhar seus sonhos, mas ganhou em sabedoria e encanto ao conhecer novos mundos.
Aqueles que acompanharam Ratziel em sua jornada não viajaram como ele viajou, e nem em sonhos conseguiriam imaginar por onde ele andou.
Andou sozinho pelos mesmos lugares com outra visão.
Conheceu pessoas diferentes, amargou descasos.
Mas, apesar de tudo, foi feliz, indescritivelmente feliz.
Ratziel ficou conhecido por muitos anos, como o príncipe do conhecimento das coisas secretas.
Os que temiam os perigos da vida imploravam-lhe os conhecimentos.
Mas Ratziel, apesar de toda sua sabedoria, precisava voltar a viver.
Uma parede separava o real do imaginário, de qualquer posição que se olhasse.
E a porta sempre esteve ali, aberta.
E no êxtase da solidão ele seguia sua estrada.
Um pequeno jardim encantado numa tarde ociosa.
Pedras que adquiriam vida ao entardecer.
Duas jovens bruxas escarnecendo aos fundos da loja de um amigo.
Duas belas jovens dançando a dança do silêncio.
Espíritos malignos seguindo-o pelas madrugadas.
A aceitação da loucura e a percepção sonhadora de tais seres neste mundo.
A coragem de viver o presente intensamente sem pensar no amanhã.
A beleza de um ritual wicca em noites propícias.
A magia envolvente de Tana e Samara fechando o círculo, dançando, fazendo oferendas as Deusas e comemorando.
O reencontro assustador de um espírito arrependido, incorporado em Evelyn.
Morgana invocando as Salamandras, fazendo-as dançar.
Uma paixão desesperadora.
Uma casa mal assombrada trazendo sensações assustadoras.
O desconhecido se realizando.
As alegrias de ver no presente as imagens do passado...do futuro...de reencontrar.
É como se estivéssemos num carro e parássemos numa rua qualquer, ou na rua encantada que ousamos sonhar, esperando o momento chegar.
E quando ela se aproxima, ela vem sorrindo, radiante em sua beleza divina e infantil.
É indescritível a felicidade de ver, de saber, de sentir estes momentos.
É maior que a felicidade de ter, de possuir.
São momentos só nossos, ninguém os pode roubar.
Ratziel amou a tudo e a todos com devoção, mas precisava voltar.
Precisava voltar a razão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário