quarta-feira, 10 de outubro de 2012
AS DUAS JOVENS BRUXAS
Em segredo as bruxas preparam suas magias, fervem os caldeirões.
Enaltecem-se com o poder de suas Deusas.
Preparam suas ervas nas horas mágicas do entardecer.
Usando seus instrumentos mágicos fecham um círculo ao redor, cuidadosamente, com fervor, protegendo-se de invasões pelas quatro direções.
Em preces fervorosas, nos altares sagrados, invocam suas entidades em dias marcados, em horas especiais.
Ofertam seus presentes respeitosamente, em lugares ocultos e profanos, em mística devoção, zelando por seus segredos.
E se usam seus olhos de lince para estocarem sua presa, em seu mundo encantado, nunca esquecem a coruja que as pode observar.
E em seus medos, se alguém as olhar, quem sabe não é ele, o temível mago, quem as descobrirá.
Celso Orsini
A HISTÓRIA
Parte I
Um anoitecer de outono no Sul do País.
Passava das 18 horas.
Fui ao supermercado do Bairro fazer as compras do dia, recordo-me com exatidão.
Nesta época, como era ainda eu que controlava as despesas de casa, fui fazer as compras.
Os fatos que contarei a seguir, aconteceram na época do Plano Real, oficializado pelo governo do então Presidente Fernando H. Cardoso, que culminou com a mudança do sistema econômico e financeiro do Pais, não sei precisar exatamente o ano.
Com a conversão da moeda os preços baixaram muito e o supermercado estava superlotado de ex-pobres, agora famintos para consumir o que sempre sonharam em seus pesadelos.
Isto confirma o velho ditado: o céu foi feito para os pobres.
Mas a euforia durou pouco, porque logo a seguir os preços começaram a subir rapidinho; se ajustando, como diziam os discípulos economistas e os mestres recém eleitos.
Mas pobre é resistente, acredita em Deus e não morre nunca, parece que já estão vacinados contra todos os tipos de vírus, ou são auto imunes.
E eu, esquivando-me entre as gôndolas, da multidão, caminhava em direção ao açougue, conjugado à padaria.
Perto do local, entre a multidão, distingo o semblante sorridente de Sílvia que, ao longe, esforçando-se para eu vê-la, erguia-se na ponta dos pés.
Com um dos braços levantados, acenava-me agitada e feliz.
E como sempre acontecia assim que me via, lá vinha ela correndo ansiosa para contar-me as novidades do dia e desfiar o seu rosário de lamentações.
Seguimos conversando até ao açougue, e paramos logo a seguir, num pequeno espaço vazio, protegidos por de dois freezers verticais, no lugar mais tranquilo do recinto.
Sílvia falava-me animadamente de seu desastrado romance e vangloriava-se de suas peraltices vingativas, quando, repentinamente, olhando para a frente, além de seu rosto, algo inusitado aconteceu.
Duas jovens, que aparentavam ter entre 9 e 16 anos de idade, vinham pelo corredor em nossa direção.
Incoerente, a mais jovem pegava a esmo quaisquer mercadorias que encontrasse pelas prateleiras e as jogava no carrinho da outra.
Divertia-se muito com a brincadeira, dando risadas, vinha bem sapeca.
A outra, empobrecida, parecendo uma dama da alta sociedade, caminhava ereta, displicentemente, como não se importa-se com o fato.
Estranhei o comportamento das duas e fiquei observando-as distraidamente, enquanto esforçava-me por ouvir Sílvia, que entre um conversa e outra, no meio do burburinho, tagarelava sem parar.
Ainda mantenho vívidas estas sensações, impregnadas de pinturas do momento, e ainda permanece uma certa inadequação nas palavras que uso para definir o que aconteceu a seguir.
Lembro-me da surpresa de Alex ao receber-me no portão de sua loja naquela tarde de verão.
Naquele sábado insano, quando toquei a campainha do portão e olhei para o pequeno círculo de pedras no jardim a minha direita, minha consciência alterou-se imperceptivelmente, do mesmo modo como acontecia agora, e os sintomas ressurgiam desconcertantes e alucinantes como o foram.
E neste dia não posso culpar o cigarro, pois não é permitido fumar em ambientes fechados.
Parte II
De repente, uma gargalhada estrondosa surgiu.
Aquela criança diabólica deu uma gargalhada tão alta, que abafou os sons do ambiente e chegou até mim.
Foi uma risada sinistra, estridente, sobrenatural, que ecoou mais alta do que o burburinho e de que a voz de Sílvia e espantou-me.
Com os risos a atmosfera mudou, as cores ganharam tons mais vivos.
Uma sensação muito estranha, um aparato surrealista.
Incontinenti, apartei-me do ambiente, esquecendo-me de Sílvia.
Flexionando-me no espaço, investi-me no movimento das jovens, e, como se entrasse por um estreito corredor, transportei-me a um outro nível de percepção.
Havia alguma coisa estranha ali, havia alguma coisa muita errada acontecendo por ali.
Minha visão se focou e prendeu minha atenção.
O quadro não se encaixava bem na paisagem, atordoei-me.
E tudo aconteceu rapidamente.
Meus sentidos afloraram segundos antes delas perceberem minha presença.
E despertaram sutilmente, desconcertantes, para o meu espanto.
Assim que me viram, elas mudarão de comportamento.
E Sílvia não parava de falar.
Quase ao mesmo tempo, como num jogo combinado, espantadas, as duas pararam para me olhar
A jovem de 16 anos encarou-me com determinação, sentiu-se invadida pelo meu olhar.
Estranho!... Como se eu fosse um intruso naquele lugar.
Altiva, desafiou-me por alguns segundos; mas, encantadoramente seus olhos brilharam e seu sorriso abriu-se enigmático e um tanto sedutor.
Constatei que, apesar de mal vestida, era uma jovem muito bonita.
A outra, parou de brincar.
Entreolharam-se surpreendidas com minha intromissão.
Com os semblantes sérios e desconfiadas, pareciam incrédulas com minha percepção.
A mais velha empinou-se com desdem e, lado a lado, como se desfilassem num cerimonial, as duas partiram caladas pelas laterais das gôndolas, sem colocarem mais nada no carrinho e sem olharem para trás.
Apenas, de vez em quando, olhavam-se de canto, com uns ares discreto de deboche e diversão.
Mostravam-se surpresas por eu tê-las notado.
O encantamento findou-se por aí e voltei a mim, e o incrível é que Sílvia nem notou e tampouco parou de falar de seus problemas.
E eu, um desligado contumaz, apesar de confuso, não racionalizei o evento e descartei as jovens e continuei a conversar, ou melhor, a ouvir Sílvia, que entre uma frase e outra, falava-me o que, na verdade, alienado, nem recordo-me mais.
E como é difícil concentrar-me no que dizem.
Muitas vezes, para não me embaraçar, faço um esforço sobre-humano para escutar o que me dizem, mas não consigo me concentrar.
Talvez tenha nascido com um dom para ser psicólogo ou padre, sei lá.
Após o incidente, com pressa, despedi-me de Sílvia e fui ao setor de carnes congeladas, que ficava ao lado oposto, no canto esquerdo do super mercado
Eu olhava os produtos distraidamente, quando a jovem de 16 anos, provocativa, aproximou-se e parou ao meu lado.
Parte III
A jovem olhava as bandejas de carnes, quase encostando seu ombro esquerdo no meu.
A danadinha insinuava-se sem me olhar, com o mesmo sorriso enigmático de antes, mas agora ela surpreendeu-me novamente.
Na primeira impressão, pareceu-me ser uma pobre adolescente mal vestida.
Seu casaco de lã 3/4, cor bege, surrado, não combinava muito bem com o seu vestido longo; pareciam-me desproporcionais.
Mas agora não! Olhando melhor, eu estava ao lado de uma mulher atraente, não tão jovem quanto antes e muito bonita.
Seu casaco de lã 3/4 parecia-me novo e combinava perfeitamente com seu vestido.
Estávamos tão perto um do outro, que para não encostar em seu ombro, afastei-me ligeiramente.
Ela olhava os produtos com desinteresse, e aproximava-se vagarosamente, como se nada estivesse acontecendo, enquanto eu, distraidamente ia perdendo o foco das compras.
Insinuava-se sutilmente, demonstrando prazer em ser observada por mim.
E eu, um idiota pouco observador, achei que avaliara errado sua idade e suas roupas.
Admirei-me e não estranhei.
Nunca me senti muito a vontade paquerando mulheres assim.
Neste jogo sempre fui mais direto, e, nestes traumas educacionais, que surgem de um aprendizado comandado por mulheres frustradas e castradoras do masculino, surpreendi-me com minha insensatez!
Agora ela aparentava ter entre seus 27 e 30 anos.
Ficou alguns instantes ao meu lado e saiu sem levar nada.
Desconfiei que estivesse me seduzindo.
Que ironia!
Para tirar estas idéias da cabeça, acelerei as compras.
O super mercado estava lotado, e tornava-se cansativo para mim andar no meio de tantas pessoas e azoava-me o burburinho.
A jovem de 9 anos agora estava calada, murchou.
Mantinha-se distante, bem ao longe, e apenas olhava para a sua amiga.
A criança, coitadinha, observava solitária e desemparada, perdida no meio da multidão.
Com ares apreensivos, estava séria.
Cansado de minhas paranoias, sai do enfoque de minhas hipóteses mentais e as deletei.
Acelerei o passo e decidi encerrar minhas compras, queria sair dali o mais rápido possível..
De onde estava, fui direto pesar as frutas e os legumes que havia comprado.
A pesagem e etiquetagem dos produtos eram feitas por um funcionário aos fundos do estabelecimento, um pouco afastada da parede lateral esquerda.
Admirei-me, coisas do destino.
Com a quantidade enorme de pessoas, ela era a última da fila.
Bem, ao menos eu poderia observá-la sem me comprometer.
Parte IV
Enquanto me aproximava da jovem, pensei em verificar a sua idade real.
Quando parei na fila atrás dela, me surpreendi com o que aconteceu.
Inesperadamente ela virou-se de lado e recuou um pouquinho para trás, como se pensasse em me deixar passar na sua frente.
E ficou assim, de lado, imóvel, com um olhar incerto e distante.
Com receio de confusão e de mal entendidos, humildemente forcei-me a olhar para o chão.
Mas, não sei o por que, os seus pés chamaram-me a atenção, e vi que ela usava sandálias marrom claras com tiras, como Hugo havia descrito.
Mas quando olhei para suas mãos, me confundi.
Suas mãos não me pareciam a de uma jovem adolescente; mas, sim, de uma mulher com mais de 40 anos de idade.
Imperceptivelmente, aquela jovem que eu vira mal vestida entre as gondolas à algum tempo atrás, transformou-se diante do meu olhar, numa mulher madura, muito mais bonita do que eu pensei e elegantemente vestida.
A jovem de 9 anos, que ainda mantinha-se a distância, estava com a mesma aparência que me impressionara da primeira vez.
Mas, ela não!... Ela estava envelhecendo, desconcertantemente, a cada nova aparição!
Como todo o ocultista, eu conhecia o método de uso da visão lateral, o que em nas mulheres já é nato, um dom divino, uma espécie de lei de sobrevivência feminina e não descuidei.
Lógico que não falo aqui de leis da física, nem tampouco de cálculos matemáticos, mas sim de coisas que sinto vontade de falar, simplesmente porque gosto de falar e porque muitas delas eu constatei em minhas andanças por aí.
E, se ela estava parada desta forma, com certeza me observava.
Agora, eu já não sabia mais quem estava cuidando quem.
Mas voltando ao assunto...
Constrangido com a sua rigidez e desconfiando que me olhava com o canto dos olhos, estressei-me e descuidei, não consegui avaliar corretamente a situação.
No momento, eu percebia apenas que, ou meus sentidos me enganavam, ou que me tornara um péssimo observador, não consegui apreender a realidade.
O clima se tencionou, uma certa animosidade pairou no ar.
Inacreditavelmente, a mulher continuava imóvel e séria, numa possibilidade defensiva casual.
"Que coisinha mais estranha! Que arrogância!" - pensei.
Um suspense! O tempo parou para eu a olhar!
Ao chegar sua vez, surpreendentemente, ela recuou um passo para trás e cedeu-me o lugar.
Não entendi por que fez isto, mas não me amofinei.
Que dane-se ela com seus feitiches.
Não deixei transparecer nenhum inconveniente, simplesmente adiantei-me e pesei as mercadorias.
Averso, saí sem olhar para trás.
Acelerei os passos e dirigi-me a um dos caixas em frente a porta de saída, para liberar-me rapidamente dali.
"Decerto se achava uma mulher irresistível. Estas mulheres!" Pensei.
Mas que surpresa a minha, perto do caixa, ao olhar para trás, vi as duas me seguindo com um carrinho abarrotado de mercadorias.
Parte V
As duas ensandecidas seguiam-me até o caixa, isto já era demais.
Pararam na fila logo atrás de mim, não era uma coincidência, iriam me abordar, tive certeza.
Agora eram elas que me olhavam fixamente, enquanto eu tentava disfarçar.
Que droga, desestabilizei-me, fiquei um pouco nervoso, achei que se aproximariam, e que só esperavam uma oportunidade favorável.
Senti-me acuado, encurralado pelo ardil, em xeque-mate
Enquanto pagava minhas compras, dei uma última olhada para as duas prepotentes, que olhavam-me sérias, imóveis como duas estátuas, submetendo-me a um jogo de poder que eu não conseguia entender.
Pelo modo estranho com que me olhavam, senti-me uma presa.
Ou iriam se aproximar ou queriam me afugentar do lugar.
Envergonhado e sem um campo de visão favorável, porque agora quem estava de costas era eu, saí sem olhar para trás.
Tenho que conhecê-la, pensei. Não posso perdê-la!
Entretanto, jamais compreenderia o que estava para acontecer.
Parte VI
Coloquei minhas compras no porta malas do carro, que estava estacionado em frente a porta de entrada do Supermercado e fiquei esperando-as saírem.
Errei em não olhar para trás, pois se o tivesse feito, saberia o que aconteceu logo a seguir.
Como demoravam a sair, fui conversar com o vendedor de cachorros quentes, que tinha seu trailer encostado no terreno do estabelecimento, de frente para a calçada.
De teimoso que sou, fiquei para confirmar o que eu já pressentia.
O carrinho delas estava abarrotado de mercadorias, mas mesmo assim, não levariam tanto tempo para sair.
Alguma coisa estava errada.
Esperei 5 min..,10 min.., 1 h...
Fecharam-se as portas, as luzes internas se apagaram, mas elas, logicamente que não saíram.
Perguntei a última funcionária se ainda havia alguém dentro do estabelecimento.
Ela me disse:
— Não, todos os funcionários já saíram. Já apaguei todas as luzes e vou fechar o supermercado. Por quê? — perguntou-me desconfiada.
— É que eu estava esperando duas amigas minhas que faziam compras aqui e não as vi saírem.
A funcionária, preocupada, ainda dignou-se a abrir a porta novamente e deu uma rápida espiadinha para conferir:
— Não! É impossível ter alguém aqui dentro. Eu sempre olho bem antes de fechar o Supermercado. Sou eu quem desliga as luzes e sempre confiro bem antes de sair. Não tem ninguém lá dentro.
— Então, decerto fui eu que não as vi sair. Obrigado e boa noite.
Ela fechou a loja, olhou-me desconfiada, despediu-se e partiu rapidamente.
Aquele era o único acesso de saída. O que teria acontecido?
Elas evaporaram? O que houve?
Parte final
A última recordação que tenho, é a das duas jovens paradas lado a lado, atrás de um carrinho atulhado de compras, olhando-me fixamente na fila do caixa, logo atrás de mim.
Depois disto, sumiram.
Lembrei-me então do que Hugo dissera a Kátia:
— "Diz para o teu tio não se aproximar! Elas são bruxas, não são seres reais! Podem lhe trazer sérias consequências. Uma delas estará vestindo um casaco de lã... "
Tudo aconteceu como ele previra, inclusive a descrição de meus sentimentos confusos no exato momento em que olhava para as mãos envelhecidas da mulher.
As profecias de Hugo realizavam-se plenamente, em seus mínimos detalhes.
Este foi o sinal de suas insanas previsões e recomendações, e de que o meu mundo estava prestes a mudar.
E Hugo surpreendeu-me, levando-me a duvidar de sua existência terrena, um mago que transcendeu minha razão.
Os fatos narrados ocorreram uns oito meses após as suas previsões.
E esta foi uma das mais impressionantes profecias que já vivi, devido a riqueza de detalhes descritos e de sua surpreendente e desconcertante surrealismo.
E digo, que os insights ainda surgem em minha mente.
E, na medida em que escrevo, minha compreensão aumenta ao relembrar o que aconteceu, esclarecendo-me sobre alguns segredos da magia e da arte da ocultação.
Depois deste dia e destes fatos, minha visão de Hugo mudou radicalmente e comecei a admirá-lo como um ser iluminado e de uma genialidade sem par.
Saudades daqueles tempos em que minha vida guardava um pouco mais de espaço para sonhos e era mais povoada de mistérios.
Os bruxos viriam depois.
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