Os sonhos vivem no inconsciente.
Se recebo de lá suas verdades, no campo de suas emanações, analiso-as por aqui.
E quase sempre as mensagens não me vêm claras; chegam difusas, confusas, atordoantes.
Se pesquiso filosoficamente, tenho que admitir que viajo num outro mundo e recebo de lá as visões e os sinais de uma outra dimensão.
E muitos loucos sequer acreditam nestes sinais.
Desnorteados, não acreditam nos sinais do seu amigo eu, que implora, suplica por sua atenção.
E nenhum louco poderia se acreditar tão louco para se dissociar assim.
Celso Orsini
Parte I
Conheci Alex um pouco antes das profecias de Hugo.
E, nesta época, eu sequer imaginava que os sinais andavam pelo meu mundo.
E nestes dias passados, a ansiedade e a curiosidade eram grandes.
Meu irmão e eu seguíamos eufóricos tentando elucidar os enigmas do tarô e da cabala.
O raiar de um novo tempo chegava.
Digo isto por mim, por mais ninguém.
E este jovem foi um dos que vieram para me ensinar a humildade, me fazer distinguir da arrogância sem sentido a verdadeira misericórdia.
Veio para dizer que eu não era melhor que ninguém, que minha altivez me afastaria de Deus.
Ensinou-me a grandeza de um pensamento sem concorrência, sem preconceitos e sem limites, alçando voos pela eternidade.
Sinalizava, com o seu desprezo, a minha crucificação, e o quanto eu iria amar e sofrer.
Mostrou-me com sua ganância e desconfiança insensível, a simplicidade que eu iria viver sem aparentar.
Alex era um terapeuta e deveria ter seus 27 anos de idade.
Cabelos pretos e curtos, aproximadamente 1,80 m de altura, compleição forte, bem acima do peso, era uma pessoa simpática e carismática.
Conheci Alex numa de minhas visitas a Morgana.
Nesta época ela iniciava sua trajetória mística à convite de Joana, proprietária de uma loja de artigos esotéricos.
Ali ela jogava suas cartas e conquistava uma clientela razoável.
Eu costumava visitá-la regularmente.
Com esperança de conhecer pessoas do meio cabalista, eu me aproximava de seus contatos.
Nunca gostei de ler as cartas profissionalmente, apesar da insistência de alguns, porém gostava de testar meus conhecimentos.
Meu ego andava inflado com tantas descobertas e informações.
Então, numa destas minhas visitas à Morgana ela me apresentou para Alex.
Alex era um dos profissionais da casa e namorado de Joana.
Por falta de espaço próprio, ele fazia seus atendimentos no local.
Sempre duvidei de seus sentimentos por Joana, pois sempre o achei mais preocupado com seus interesses profissionais do que com sua amante, mas acredito que ela sinceramente gostava dele.
Depois de nosso primeiro encontro, com a propaganda que Morgana fez de mim, ele se interessou e quis me conhecer melhor.
Ficamos amigos.
Querendo saber mais sobre meus conhecimentos, começou a procurar-me na loja.
Nós simpatizamos com ele.
Alex nos impressionava com seus poderes.
Tinha o dom de ver a aura e, consoante nos disse, diagnosticar e tratar problemas emocionais e de saúde.
Mas hoje, enquanto escrevo minhas memórias, algumas dúvidas ficaram.
Nesta época eu me iniciava no ocultismo e, praticamente um leigo, não soube avaliar os seus interesses.
Sei que trabalhava com limpeza de aura e realinhamento de chacras, como comprovamos em suas demonstrações.
Lidava com espíritos, elementais e animais de poder, talvez adepto do xamanismo.
Sem conhecimentos de quaisquer destes assunto, eu não tinha muito o que perguntar.
E eu, sempre um desligado, com grandes dificuldades de atenção, não conseguia ser um bom ouvinte.
Eu o achava um pouco esquisito.
À princípio, em algumas visitas que nos fez, avaliou os nossos conhecimentos, depois desconversou e parou de trocar idéias.
O ser humano sempre um eterno competidor, como se passar alguns de seus conhecimentos fossem acirrar a competição, e a falta de alguns deles os fossem desmerecer.
E Alex era uma pessoa vaidosa e orgulhosa.
Para não expor suas fraquezas, caiu na esperteza mundana, inferindo sem valor.
Certo dia procurou-me na loja para me consultar.
Mal chegou, afobado, buscou o tarô de Waite no "cantinho" e, numa rápida jogada em frente ao balcão da ferragem, tirou um arcano menor.
Querendo montar seu próprio negócio, perguntou se os seus ideais se concretizariam.
Lembro que saiu um Ás de Ouros.Carta bem positiva para a sua questão.
Confirmei que seus ideais poderiam se realizar.
Então, na sequência, otimista com minhas previsões, ele monta sua própria loja na garagem de seus pais.
A convite, comecei a visitá-lo regularmente.
A loja era espaçosa e bem organizada, e não lembrava em nada a antiga garagem.
Na entrada um alto portão de ferro, quase sempre fechado, ladeado com grades de ferro que cercavam o pequeno jardim.
Indo pela lateral esquerda, um estreito caminho lajeado levava à porta de entrada da loja, rente ao muro divisório das casas.
Na fachada direita, a baixa altura, uma média janela basculante redonda de vidros coloridos.
E no jardim, ao centro, um pequeno circulo de pedras.
Apesar da pouca largura do terreno, a profundidade do espaço interior era suficiente para receber seus clientes.
Internamente, colocada de frente para a janela redonda, a pouca distância, uma escrivaninha para receber seus clientes.
Na parede esquerda, duas estantes de metal, com livros novos e usados que comercializava, de vários assuntos esotéricos.
E ao centro, rente a parede direita, uma estreita escadaria de madeira levava ao andar superior.
Aos fundos, separado com divisórias, um espaço médio, reservado para suas sessões terapêuticas.
Parte II
Enganei-me na avaliação de Alex, porquanto o considerei uma pessoa sincera, de valor, um amigo.
Ingênuo, eu gostava de ir até a sua loja comentar algumas previsões e filosofar.
Ali, entretinha-me pesquisando em seu pequeno acervo de livros.
Através de suas indicações, encontrei alguns exemplares raros e interessantes.
Alex convidava-me insistentemente para uma sessão terapêutica.
Querendo mostrar os seus procedimentos, interessava-se por minhas opiniões.
Eu adiava o convite, um pouco por vergonha, outro, por não querer abusar de sua boa vontade.
Mas um dia ele tanto insistiu que, constrangido, aceitei o convite e marcamos um horário para sábado à tarde.
Sem saber com que linha trabalhava e que procedimentos usaria, deitei-me na maca de barriga para cima, um pouco tenso.
No início da sessão, a pequenos intervalos, ele me pedia para manter os olhos fechados e relaxar, liberando a mente de todas as preocupações.
Enquanto isso, num crescente, mantras suaves e guturais impregnavam o ambiente, ao mesmo tempo em que algumas pedras eram colocadas em meu corpo.
Rapidamente, coisa que eu não acreditava ser possível, devido ao meu autocontrole, fui induzido a um profundo estado de meditação.
Recordo-me que antes de perder a consciência, envolvi-me numa intensa luz branca.
De dentro desta luz ofuscante ouvi o chamado de minha avó paterna.
Ela e meu pai, falecidos há muitos anos, vieram me visitar.
Senti, mais do que vi, minha avó cumprimentar-me feliz:
— Oi, meu filho...
Vieram saudosos e felizes com o reencontro.
Quando estendi minhas mãos para abraçá-la, entrei na luz e apaguei.
Para minha surpresa, acordei com Alex eufórico, sorridente.
Comentou-me da visão e da intensa luz branca que se aproximou de mim e de meus entes queridos que vieram me visitar.
— Como você sabe disso, Alex?
— Eu os vi Celso! Vi quando chegaram!... Você sabe quem eram eles?
— Sim! Eram meu pai e minha avó. Mas como você os viu? Achei que tivesse sonhado.
— Não, eles estiveram aqui! Vi quando se aproximaram. Vieram te visitar! — falou emocionado.
— Mas por que eu não os vi?
— Você não os viu por que eles vieram de um plano espiritual muito elevado; e, na verdade, não foram eles que vieram até aqui, foi você que foi até eles! Seu corpo astral elevou-se a quase meio metro de altura.
E radiante, sinalizou-me com as mãos a altura de meu deslocamento astral.
Comentei:
— Eu ouvi o chamado de minha avó e apaguei, Alex! Foi tudo muito rápido!
E ele, sorridente, corrigiu-me diante de meu olhar estupefato:
— Não foi tão rápido assim, Celso! Você ficou desacordado por quase uma hora!
Depois disso, voltei para a loja com uma sensação de bem estar, feliz com o reencontro.
Parte III
No outro sábado à tarde, faceiro, fui visitá-lo.
Para agradá-lo, aproveitaria a oportunidade para comprar alguns livros que me interessavam.
Com isto esperava estar retribuindo de alguma forma a sua amizade.
Estacionei meu carro em frente a sua loja.
Como o portão estava fechado, dei um tempo e fiquei no carro.
Acendi um cigarro e fiquei meditando sobre as cartas de tarô que jogara antes de sair da loja, sem pressa.
E esclareço a todos os viciados em inferir razões que justifiquem nossas visões, que este era apenas um cigarro comum, de fabricação nacional, daqueles que só tem nicotina, alcatrão e milhares de substâncias tóxicas nocivas ao organismo.
Enquanto meditava, ou melhor, relaxava, eu olhava para a entrada da loja curtindo a vida e estava em paz.
Mas havia alguma coisa estranha acontecendo por lá.
Algumas loucuras aconteciam por aqui.
Antes mesmo que eu percebesse, minha consciência alterava-se sutilmente.
Quando cheguei no portão e toquei a campainha, um mundo encantado surgiu.
No pequeno jardim a minha frente, um delírio.
A grama verde e o pequeno círculo de pedras, um pouco a direita, ganharam vida.
Surtei, senti que seres da natureza habitavam ali.
Extasiado, eu olhava atentamente para o jardim, procurando encontrar os seres que por ali se escondiam, quando Alex apareceu.
Ele abriu o portão intrigado.
Ficamos nos olhando por alguns segundos.
Com o nível de consciência alterado, ora eu olhava para ele, ora para o jardim, antes dele perguntar:
— Você os viu?
— Vi! — e fixei-me no círculo de pedras, alucinado.
— O que você viu?
— As pedras!... Estão diferentes!
— As pedras sempre foram assim, Celso! Agora é que você as está vendo como realmente são!... O que mais você viu? — insistiu, olhando-me surpreso e desconfiado.
— Os gnomos... Onde estão? — perguntei descartando minha razão, febrilmente atento a sua reação.
— Eles estão por aí... Você não os viu? — Alex forçou-me o olhar e depois olhou para o jardim.
A seguir, sem piscar os seus olhos e sem os desviar um milímetro sequer dos meus, perscrutou-me com um sorriso malicioso.
— Não, não os vi!
— Então é por que eles não quiseram se mostrar para ti. — respondeu-me mordaz.
Parte IV
Alex sempre teve esse olhar fixo e penetrante, um olhar de bruxo.
Parecíamos dois loucos falando loucuras, se testando.
Acredito que atordoou-se com minha visão, pois sem intenção convidou-me para entrar, para logo em seguida arrepender-se.
Assim que adiantei meus passos em direção a porta, me surpreendi com a visão.
Pela porta aberta espargia uma luz branca que se lançava um pouco afora, como se fosse fumaça de gelo saindo de um imenso corredor luminoso.
"Mas esta loja não tem corredor de entrada?!" Pensei.
E de dentro vinham risadas femininas estridentes.
Aproximei-me para espiar.
Aos fundos da loja, num ambiente enuviado, dois vultos femininos dançavam uma música sem som.
Uma de frente para a outra, gingavam os seus corpos e agitavam os seus braços sem saírem do lugar.
Mal conseguia distingui-las na neblina, e a sensação era de que a loja aumentara em profundidade.
Enquanto eu acostumava minha visão ao ambiente, as duas viraram seus rostos ao mesmo tempo para me olhar.
Olhavam-me e gargalhavam sem pararem com seus movimentos rápidos e desconexos.
Dançavam ao ritmo do mundo.
"Será que elas estão se divertindo às minhas custas?" Pensei.
Neste ponto, Alex acordou de seu marasmo e barrou-me o caminho.
Sorridente, olhou para elas e depois para mim, e disse:
— São bruxas, Celso!
Consecutivamente à sua intromissão, a minha curiosidade aumentou.
As duas bruxas, a um sinal de Alex pararam de dançar e se posicionaram lado a lado, de frente para nós.
Sem moverem-se, olhavam-me com languidez, silenciosas.
Agora eu as via claramente.
Constatei que aparentavam ter mais de trinta anos de idade e que tinham a beleza de suas naturezas reais e o deleite de nossos sonhos irreais.
A seguir, incoerentemente, voltaram as suas antigas posições e ficaram frente a frente, olhando-se.
Com gestos ensaiados, numa coreografia surreal, retornaram a dançar a música sem som, com movimentos acelerados e desconexos, e suas risadas aumentavam em escárnio.
Agora, sério, Alex foi imperativo:
— Desculpa Celso, mas não vou poder te atender, tenho muito trabalho a fazer.
Ao despedir-me, a última visão que tive ao espiar, foi a das jovens bruxas dançando frente a frente, e olhando-me de lado no meio da fumaça.
Bem que gostaria de ter ficado por ali.
Sem saber o que dizer, despedi-me de Alex com um aperto de mão.
Hoje sei por que o olhar de uma delas me perseguiu por tanto tempo.
— Pode deixar o portão encostado Celso, que depois eu fecho. — recomendou-me Alex, enquanto fechava às pressas a porta de entrada da loja.
Sem explicações e sem motivos aparentes, depois deste dia, Alex mudou radicalmente o seu comportamento e começou a tratar-me com frieza.
Parte final
Na semana seguinte fui visitá-lo.
Queria saber sua opinião a respeito de algumas cartas de tarô que jogara, e debater alguns aspectos filosóficos da cabala.
Mas Alex não foi o mesmo, recebeu-me formalmente e tratou-me com frieza, como se eu fosse um cliente.
Desculpando-se com coisas para fazer, pediu-me para aguardar.
E disse-me:
— Fica olhando os livros enquanto me espera Celso. Fica a vontade, já vou te atender.
Com falta de gentileza, não me disse o tempo que demoraria, e tirou-me a opção de ir embora.
Acabei recebendo um "chá de banco".
Sentindo-me desconfortável e incomodado com a espera, fui ocupar o meu tempo folheando alguns livros da estante.
Muito tempo depois, quando Alex finalmente se liberou de seus afazeres eu já não estava mais me sentindo a vontade.
— E aí Celso? O que te traz aqui? — perguntou-me polidamente, sem perder sua altivez.
Tentando não deixar transparecer meu desgosto, respondi amistosamente:
— Vim para discutir algumas coisas contigo, Alex.
Pronto! Aí começou a bronca!
Estranhamente, sem eu esperar, Alex retrucou rispidamente:
— Como assim? Eu não estou aqui para discutir com ninguém! Estou aqui para orientar! Se você venho para brigar, é melhor ir embora!
Estranhei sua reação.
Perplexo com sua resposta, não soube como agir.
Desconfortável, tive que lhe explicar:
— Discutir, que eu quis dizer Alex, é debater, trocar ideias, não brigar...
Neste ponto (mais um outro grande defeito meu), ao invés de ir embora, contemporizei.
— Você me entendeu mal Alex! Não foi isto o que quis dizer. — falei desiludido.
Vendo que eu não reagia à sua colocação, num semblante de dúvida, parece que desconfiou de seus conceitos e se apaziguou.
Aquela antiga recepção calorosa já não existia mais.
— Tudo bem, então! Pode ter sido um mal-entendido. — e encaminhou-se em direção a uma das prateleiras de livros.
Deu uma olhadela rápida e pegou um deles para mim.
— Eu separei este livro para ti Celso. Espero que goste.
Quando peguei o livro, desconsertei-me:
"Que cara de pau."
— Mas este livro é para iniciantes Alex?!! — exclamei surpreso.
— Eu sei Celso! É por isto mesmo que eu o separei para ti. Acho que você vai gostar. — e pegou o livro de minhas mãos.
Enquanto folheava as páginas do livro que achava interessantes ele falava:
— Aqui tem todos os fundamentos da cabala. Tem explicações sobre as sephiroth, os caminhos, a relação com o corpo humano. Tem tudo aí, tudo bem didático.
E quando me mostrou a página do corpo humano relacionado as sephiroth ele se admirou.
Talvez interessantes para ele, pensei.
— Espero que você goste! — insistiu.
— Obrigado Alex, mas esta parte da cabala eu já conheço. Mas, obrigado pela atenção. Eu tenho que ir agora, já está no meu horário. — e ansioso para sair dali, despedi-me como fui recebido, friamente.
Quando cheguei na loja comentei o assunto com meu irmão, que também se decepcionou.
Quanto a palavra discutir, ainda aceitaria razoável a sua compreensão limitada do termo.
Mas quanto a tentar vender-me um livro para iniciantes de cabala como orientação para meus estudos, realmente foi um deboche.
Depois desta estupidez, que não se justificariam por ignorância, pois éramos amigos, nunca mais o visitei, e felizmente perdemos o contato.
Nenhum comentário:
Postar um comentário