terça-feira, 9 de outubro de 2012

TANA — A ESCOLINHA DE BRUXOS


Caricatura de Tana, feito por Hoffmeister, no shopping Center
Iguatemi, Porto Alegre, com a idade de 14 anos. 
                                           

                                                      Parte I


Tana era um jovem admirável.
Quando Sara indicou-me os três jovens bruxos no mercado da esquina, próximo ao colégio onde estudava, Tana foi a jovem que me chamou a atenção.
Cabelos castanhos escuros, estatura média e olhos castanhos escuros, Tana era uma jovem muito bonita.
Nesta época, ela estava com 14 anos de idade.
Uma jovem meiga e gentil, paradoxalmente, às vezes tímida, outras vezes extrovertida.
Mas quando exaltava-se ou irritava-se com alguém, seu humor alterava-se drasticamente e ela dizia o que pensava e o que sentia.
Mas hoje vejo que isto não seria uma virtude só sua, pois como fui descobrindo com o tempo, quase todas as mulheres são assim.
Uma qualidade feminina.
E quando uma mulher levanta a sua voz e diz o que pensa, alguns homens, que não são poucos e que não são bobos, baixam suas orelhas e ensurdecem, alguns outros entortam suas guampas e emudecem.
Tana, sempre foi um centro de controvérsias no grupo.
Apesar de conviver conosco por muito tempo, nunca se interessou pela Cabala, apesar de minhas insistências.
Considerava-se bruxa, adorava Deusas pagãs e seguia a linha Wicca.
A danadinha desconsiderava-me como seu mestre e sempre preferia seguir as suas intuições.
Incomodava-me sua teimosia dogmática e sua recusa em aprender, mas para não afastá-la do grupo e do meu convívio, submeti-me a sua vontade e não insisti.
Tana sempre foi uma jovem muito especial para mim e uma grande amiga.
Apesar de meus sentimentos exaltados, ocasionados pelas fortes transformações psíquicas que passava, ela sempre me compreendeu.
Tana, com seu temperamento forte, não submetia-se a ninguém.
Se era irredutível em suas opiniões, era original e fidedigna em suas ações.
E demostrava isso com suas qualidades e seus dons, dedicando-se ao que fazia e o que acreditava ser certo, e este era o seu valor.
Tana era uma jovem carismática, mas não sabia lidar muito bem com esta sua virtude.
Lia as runas e as cartas ciganas como ninguém, de uma maneira simples e direta, bem diferente da minha lógica fria e calculista.
E nos momentos em que lia para mim eu a admirava, e admirava sua fluidez.
As runas nunca foram o meu oráculo preferido.
O pouco que sei delas li nos dois livros que comprei e que acabei descartando com o tempo.
As cartas ciganas eram-me indiferentes.
Faltava-me simpatia para estudar estes oráculos, e sem paciência para desvendar seus mistérios eu desconectava-me de suas simbologias.
Eu andava mesmo era obcecado pelo Tarô e pela Cabala, o resto não me prendia a atenção, não me interessavam.
Conheci Tana, ansioso por conhecê-la.
Certa tarde, logo depois do meio-dia, ela veio acompanhada de seus amigos e ficou esperando por Samara em frente a porta de entrada da vídeo locadora.
Encantei-me por Tana assim que a vi novamente.
E do balcão da loja admirei-a, como se admira a beleza de um por de sol, como se admira a beleza de um rio que nasce sereno entre as montanhas.
Como um encantador e revoltoso rio que força sua passagem pela vida.
Que em alguns lugares corre bravio, bramindo selvagem como sua natureza feminina.
E foi um sentimento puro e forte este o que eu senti por ela.
Tana e seu inseparável cachorro Rei.

                                                      Parte II 

Certo dia, querendo saber sua versão de como nos conhecemos, perguntei a Tana sobre a possibilidade de escrevermos nossas recordações.
Tana, assim como Samara, gostou da ideia e aprovou a minha iniciativa, e fomos até o espaço reservado da vídeo conversar.
Entretanto, enquanto nos relembrávamos do nosso primeiro encontro, algumas divergências surgiam nos fatos.
Então, cedendo um pouco de minhas lembranças, deixo a ela, à princípio, o relato de suas recordações.
Sentada entre os computadores vazios da lan, Tana relembrou:
— Dimitryus e Samara me disseram que conheciam um Mestre Cabalista Celso. Eles não queriam me dizer quem era. Então um dia, depois do meio-dia, Dimitryus tocou o interfone lá de casa perguntando por Samara. Eu disse que não sabia aonde ela estava.
Dimitryus me disse:
— Vamos Tana, eu sei onde ela está!
— Vamos aonde? — perguntei curiosa.
— Desce que eu te conto! — disse ele.
— Eu desci as escadas correndo. Foi aí que Dimitrius me contou a novidade.
— O mestre cabalista está ensinando a Samara! Vamos até lá!
— Eu achei que encontraria um mestre cabalista, Celso. Você sabe, né... num ambiente esotérico... Mas quando vi que era uma locadora de vídeo, cheguei no deboche. Você estava atrás do balcão... naaada a ver?!
— Foi tão horrível assim Tana? — perguntei desalentado, com vontade de rir.
— Não! Não é nada disso, Celso! É que eu esperava ver um bruxo, você sabe né! Não uma pessoa comum, entende? Você sabe, né? Com aquelas roupas, e tudo o mais?...Ah... você sabe o que eu quero dizer! Você me entendeu, né? — e Tana fez uma careta estranha, de meio desprezo, sei lá!
— Obrigado pela "pessoa comum" Tana. — ironizei
Ela sorriu e prosseguiu:
— Logo que eu entrei na locadora você estava atrás do balcão. Nada a ver! Mal eu cheguei você já pegou o tarô e perguntou se eu era bruxa.
Tana me olhava com uma cara de sapeca.
— Disso eu me lembro! — falei envergonhado.
— Aí eu disse que jogava cartas ciganas e runas. Aí você me perguntou se eu queria saber alguma coisa das cartas, e sem esperar minha resposta começou a jogar e a falar.
— Eu fiz isto Tana?! Que loucura! — fiquei constrangido por ela relembrar este episódio.
— Fez! Então eu me senti desafiada e corri pra casa pra pegar as cartas e as runas e voltei.
— Disso eu me lembro também! — concordei.
— Fiquei espantada com o Dimitryus me dizer que você era um mestre cabalista, Celso?! Naaada a ver! Você não era o tipo de pessoa que eu esperava ver, muito menos o ambiente que eu esperava encontrar! — Tana repetiu satisfeita.
"Que droga! Bem que Tana poderia ter evitado este comentário. Que desilusão.
Mas também as coisas nunca são como a gente espera." — pensei.

                                                      Parte III

Mas, voltando ao assunto, agora eu vou falar de como nos conhecemos e as minhas vivências...
E, para minha felicidade, Tana correu em casa para buscar os seus oráculos e voltou apressada.
Com um baralho de cartas ciganas e um jogo de runas feito de sementes, enfeitiçou-me.
Será que Tana era mesmo uma bruxa? — pensei, fisgado por sua magia.
E o meu mundo girava encantado por esta paixão de um vínculo real... que nunca...jamais, pensei existir.
Tana, ofegante, aproximou-se do balcão e começamos a conversar.
Mostrou-me as runas feitas de sementes e perguntou-me se eu as conhecia.
Disse-lhe que sim, mas que não tinha conseguido aprofundar-me em suas simbologias, nem interpretá-las muito bem.
Até comentei que havia comprado dois livros sobre o assunto, mas que por falta de interesse eu os abandonei.
E Tana não se acanhou.
Enquanto eu a admirava, meigamente ela começou a explicar-me alguns de seus significados.
Com certeza estes jovens eram bem diferentes dos jovens de minha época, eram mais sensíveis, mais carinhosos, e me tratavam como eu merecia.
E eu nem sequer sabia o que merecia.
Sei que nesta época minha sensibilidade aumentava com a velocidade da luz, e o meu coração ainda estava forte o bastante para suportar as emoções que surgiam incontidas.
A seguir, mostrou-me as Cartas ciganas.
— Você sabe jogá-las? — perguntei encantado, sem acreditar que estivéssemos conversando, que eu estivesse vivenciando aqueles momentos.
— Quer que eu jogue pra ti? — perguntou-me sorridente.
— Quero! — fiquei curioso.
Ela começou a jogar rapidamente e a falar de minha vida e de meus sentimentos desastrados e depressivos.
Admirei-me com seu modo de ler.
Sua beleza e seus encantos fizeram o tempo parar.
Tana dizia-me coisas que realmente aconteciam comigo.
De suas previsões, algumas me lembro, se concretizaram; de outras, não conseguimos recordar.
E a partir deste dia ficamos amigos para sempre, ao menos, inesquecíveis para sempre.

                                                     Parte final

Tana voltou alguns dias depois com Samara e Dimitryus.
Mal entrou eu já perguntei se ela queria aprender cabala.
Desinteressada, deu de ombros, mas mesmo assim entrou e começou a participar de nosso grupo de estudos.
Eu fiquei feliz por tê-la por perto.
Tana foi uma das sementinhas de amor que cresceu em meu coração.
E digo que, nesta época, meu coração crescia tanto, que já estava ficando maior do que eu conseguia suportar.
Realmente, as mudanças previstas aconteciam rapidamente e eu, simultaneamente ao destino, desprendia-me do meu ego e transformava-me velozmente sem o perceber.
Agora éramos em quatro pessoas: Tana, Dimitriyus, Samara, e eu.
Tana e Samara, com o passar dos anos, deram-me o privilégio de conhecer alguns de seus mistérios e um pouco de sua cultura celta e pagã, e de presenciar e participar de alguns de seus rituais wiccas.
Samara, antes de seguir seu destino, deixou-me todas as anotações de sua adolescência, que são muitas, e que ainda as guardo para um dia as ler.
E a arte de seus rituais eram fascinantes.
E nas noites em que nos reuníamos para comemorar o sabat, eu me admirava com suas ações, e compreendia a beleza que poucos viam.
Infelizmente alguns deles, por serem muito jovens, não conseguiram ver e apreciar a beleza destes rituais, mas vão se lembrar.
E a beleza nunca vem de uma razão, vem sempre de uma emoção, como uma canção que nos toca o coração.



                                      A ESCOLINHA DE BRUXOS

                                                   
                                                      Parte I


Vendo o grande interesse de Samara, Dimitryus e Tana, que procuravam-me diariamente, preocupei-me com a conveniência ou não de ensiná-los.
Afinal de contas todos eles eram adolescentes.
Então, para não me complicar, antes de prosseguir com as aulas, resolvi pedir a autorização de seus pais.
Falei com os jovens sobre minhas preocupações, e eles me entenderam.
Rapidamente se prontificaram a trazer suas mães para conversarem comigo.
Com isto, descobri que todos eles não tinham um pai presente e que viviam com sua mães.
Seria coincidência, ou apenas uma paranoia de minha parte.
Com Alice, mãe de Dimitryus, tudo bem.
Ela já nos conhecia há anos e não haveria problemas; mas, com as outras mães, eu não tinha tanta certeza.
Então, num mês que não me recordo, ao anoitecer, inesperadamente, os seis apareceram na loja.
E neste tempo eu voltava a sentir o cheiro e as nuances do tempo e o poder das estações.
E me sentia um jovem, não tão responsável assim.
Eles ficaram esperando-me no balcão da ferragem, como se esperassem um padre dar a sua benção ou rezar a sua missa, solenemente.
E vieram sem eu esperar, sem me dar tempo para respirar.
Samara foi quem me chamou.
Pegaram-me de surpresa, os inocentes diabinhos!
Confesso que quando olhei para suas mães, curiosas por me conhecer, figuei envergonhado.
Elas me olhavam como se eu fosse algum troféu, alguma coisa rara, algum alienígena sem noção da realidade ou algum médium paranormal, sei lá, pareciam que se divertiam as minhas custas —desestabilizei-me, fiquei um pouco sem graça, senti-me um idiotizado.
Inicialmente, até que aceitei ensinar Samara, mas apenas como uma possibilidade descompromissada, sem expectativas.
No outro dia, Dimytrius entrou de fininho, sentou-se num dos banquinhos do cantinho e ficou me ouvindo calado.
Alguns dias depois, Tana, que rejeitava meus conhecimentos, aproximou-se de curiosa, para xeretar, somente por isso.
Mas agora as coisas se complicavam.
Agora, o caso tomava proporções solenes, catedráticas, e eu não me sentia um ser iluminado disposto a salvar jovens rebeldes da perdição, e também nunca foi minha pretensão montar uma escolinha ocultista para adolescentes.
Eu queria apenas uma companhia para passar as minhas tardes ociosas, alguém para discutir cabala, nada mais.
"Que droga!"
Quando olhei de longe para as mães, minha timidez aflorou imediatamente e me estressei.
Se eu pudesse escapar daquela reunião, eu sairia pela porta dos fundos, que não existia, ou então mandaria dizer que fui viajar.
Dei um tempo, e fiquei me enrolando com as fitas até me acalmar.
Lidar com os jovens até que foi fácil, mas agora, lidar com suas mães, eternamente preocupadas com a educação e as companhias de seus filhos é complicado, as coisas se formalizavam, e eu nem sabia se este era o rumo certo a tomar, fiquei receoso, tudo por culpa do meu irmão.
Se não fosse por ele, eu não estaria nesta encrenca.
Mas o destino tem lá os seus planos e, com a mente zerada, fui até eles.
Expliquei a elas o que eu achava que ensinaria aos jovens.
Imaginem eu explicando para as mães de adolescentes rebeldes, que desconheciam totalmente o ocultismo, que ensinaria tarô e cabala para seus filhos.
Acredito que com as explicações que dei, nem eu, nem elas me entenderam.
Mas todas concordaram.
Eu estranhei, pois não precisei dar muitas explicações.
E aceitaram numa boa, sem colocar empecilhos.
A mãe de Dimiytyus e de Tana, que já sabiam do interesse de seus filhos pelo ocultismo, tudo bem.
Mas a mãe de Samara não participava da conversa, apenas me olhava com aquele seu sorrisinho maroto.
"O que será que este sorriso significa?!"
"O que estão pensando de mim?!"
Pelos seus olhares, deveriam estar se divertindo as minhas custas.
Deviam estar me achando um louco e, pela minha idade, decerto, suspiraram aliviadas das preocupações.
Só eu mesmo para passar por isso!" Pensei ressabiado e desconfiado da armadilha.
Mas, afinal de contas, foi o destino, "a culpa foi dele, não minha", consolei-me.
Após desta conversa esclarecedora e do sufoco que passei, fiquei mais tranquilo.
Sempre fui uma pessoa muito reservada.
No outro dia, as aulas recomeçaram.
Só, que agora oficialmente.
À princípio, programamos um horário.
As aulas começariam lá pelas duas 14 h e iriam até o final da tarde.
"Quem diria! Um curso de tarô e de cabala para bruxos iniciantes, juvenis!"
Só um idiota mesmo para pensar que isto poderia dar certo e que tudo terminaria com uma colação de grau.
Mas de uma coisa eu tenho certeza, no transcorrer destas enlouquecidas reuniões, quem mais aprendeu fui eu, pois surtei completamente com as loucuras de meus jovens amigos.

                                                     Parte final

No começo, Samara e Dimitrys, os dois anjinhos, à princípio, até que seguiram a risca os meus horários e ouviam as minhas aulas com atenção.
No primeiro dia, sem eu imaginar que haviam outros, Samara chegou sozinha, escondida dos demais.
Em uma aula apenas eu consegui explicar-lhe o tarô em linhas gerais e já entrei na Cabala.
Após minha crise existencial com a revolta de Samara, Dimitryus chegou.
Samara anotava quase tudo o que eu falava e dava suas opiniões, e Dimitrus ficava apenas nos ouvindo, calado.
Mas a paz durou pouco tempo.
A seguir, com a entrada de Tana para o grupo, os estudos dispersaram-se um pouco, para não dizer bastante.
Tana vilipendiava a Cabala e não simpatizava com o tarô de Waite, muito menos com o de Crowley, preferia jogar o tarô das bruxas, as cartas ciganas ou jogar suas runas.
Com sua rebeldia em aprender o que quer que fosse que eu ensinasse, o assunto sempre acabava em áreas perigosas e desconhecidas para mim, tipo: magia, magia negra, deusas, demônios, vampiros, rituais Wiccas, etc..
Acho que queriam me enlouquecer.
Samara chegou a trazer-me  o seu vodu: uma linda bonequinha preta toda espetada numa caixinha de papelão, que horror.
Tana, com sua originalidade nas leituras, sempre foi a preferida de Jorge, que não parava de elogiá-la em sua intuição.
Agora, ao meu ver, o círculo estava fechado: Tana, Samara, Dimitrius e eu.
E este foi o grupo original, a base que se fez realizar e onde tudo começou.
Jorge ficava à parte, ouvindo minhas aulas a distância, sem interferir.
Passávamos as tardes inteiras jogando tarô, conversando e brincando.
Nos divertíamos muito nesta época, eles mais do que eu, é claro.
Porém, imperceptivelmente, atraiamos a curiosidade de outros.
Lucius — apenas um conhecido do bar próximo a loja — começou a procurar-me.
Adão, que vim a conhecer, começou a enciumar.
Com medo de perder Samara,sua "rainha", rondava a locadora, queria participar do grupo.
Os jovens capetinhas pegaram-me de surpresa e eu tive muito o que aprender.
Eu, um leigo de suas artimanhas precoces, virei um jogo de suas maquinações, mas isto também já são outras considerações.

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