terça-feira, 9 de outubro de 2012

UMA TRISTE HISTÓRIA


Eu sempre fiz do amor a minha fé e a minha religião.
Acreditando nele, tenho a certeza do eterno.
Nas incertezas de meu saber,
para não confundir-me com os demônios de minhas limitações mentais,
minha alma anseia por voar, por compreender, por aprender.

Celso Orsini


Numa época não muito distante, naqueles tempos de minha louca paixão pela Cabala, conheci um desses jovens crentes, de uma dessas religiões evangélicas que se disseminam pelo país.
Infelizmente ficamos amigos, mais pelo parentesco do que por uma afinidade.
Eu vivia em meu mundo encantado estudando Cabala e ele, no seu, pregando Jesus.
Dois caminhos dissociados, não comparativos, que jamais poderiam chocar-se.
A Cabala, um sistema místico filosófico.
A religião, um caminho de fé.
Mas, nesta época de trevas, os demônios conviviam comigo e eram manhosos, tinham que exultar-se.
Numa certa noite eu estava na casa de minha mãe, num lugar inominável, com este "amigo" convidado, quando as sombras incontroláveis de seus fantasmas caíram sobre mim.
E eu estava de férias num paraíso à beira-mar, curtindo minhas agradáveis madrugadas insones, estudando Cabala e conversando com meu sobrinho Marco, quando Isaías aparece na sala.
Decerto, esperou sua companheira dormir para me afrontar.
Quantas noites mal dormidas ele teve que passar, quantas raivas incontidas teve que suportar.
Era perto das três horas da manhã, quando Isaías entrou na sala e sentou-se à minha frente.
Eu perguntei amistoso:
— O que você está fazendo acordado a estas horas da noite, Isaías?
— Eu vim conversar contigo, Celso!
— Comigo? Sobre o quê?
— Sobre isto que você está estudando!
— Como assim? — perguntei.
— Eu queria saber se este é o teu Deus? — debochado, mostrou os dentes e bateu com as costas da mão direita num dos desenhos da árvore da vida que estavam do meu lado esquerdo, dentro de minha pasta de cabala.
— Como assim, Isaías? Isto é apenas um organograma de meditação. Tenho vários aí! — falei chateado, antecipando-me a pregação.
"Se eu tivesse uma companheira estaria com ela na cama." — pensei incomodado.
A seguir, olhou para as cartas de tarô e bateu numa que estava virada sobre a mesa.
— Este é teu Deus?... É isto que você adora?
E Isaías tinha a virtude de sua ignorância.
"Que bronca meu! Que cara mais chato."
Fiquei estarrecido com sua ousadia e sua estupidez e ironizei.
— Você está vendo esta carta, Isaías! Todos os dias eu olho para ela e digo: — Você é meu Deus e rezo.
Todos os dias eu olho para este organograma aqui, e digo:
— Você é meu Deus, e me ajoelho e rezo.
Mas ele não desistiu com meu sarcasmo.
Cumprindo sua missão divina, veio para me transmitir a ira dos céus.
Irritado com meus argumentos, raivoso, encarou-me indignado e me ofendeu:
— É por isso que você tem essa vida tão cheia de vícios, tão atrapalhada! Por isso! Por que você acredita nestas coisas. Não acredita em Deus, acredita nessa Cabala.
"Pronto, Isaías estava apelando para a ignorância, tocou nos meus defeitos prazerosos — que mal há em fumar um cigarrinho e beber uma caipirinha de vez em quando."
Pelo visto o demônio estava de férias também.
E ele era apenas mais um destes milhares de jovens de seus vinte e poucos anos de idade que, dominado, começando sua vida fanatizado por suas propensões religiosas e grandes ambições, esqueceu-se de venerar os mais velhos e jogou na lata de lixo o maldito respeito.
Com certeza, Deus deu nozes para quem não tem dentes e a calma para os ateus.
E a esperteza, ele deu pra quem?
Aí, eu tive que explicar, com aquela calma que sempre antecedeu-me as explosões temperamentais:
— Isaías, te acalma! Isto é só um organograma de meditação. Não tem nada a ver com religião — as cartas são só arquétipos, só isso, não tem nada a ver.
"E eu sei lá se ele sabia o que são arquétipos!"
E o meu sangue já começava a ferver.
Mas Deus estava com ele e era o seu patrimônio.
— Você está me mentindo! Você é um ateu! Você acredita nestas baboseiras e ofende a Jesus. — replicou-me, sentado do lado oposto da mesa, de frente para mim, apontando-me o dedo.
E eu pensava em minhas distrações, qual seria o melhor: Ser um ateu à toa ou um à toa crente.
Sempre fui um pouco disperso em meus pensamentos e conversações.
Sempre gostei de filosofar e as coisas práticas da vida me forçavam a atenção.
— Você está me ofendendo Isaías, me respeite! — falei indignado.
— Você é um pecador! Você vai para o inferno! Você não ama Jesus! Você ama esta Cabala, que é do demônio! Você fala de Jesus e nunca leu a Bíblia...
Putz! Agora as coisas se complicaram.
O que Jesus tinha a ver com isto?!
E como ninguém segura um leão bravio pela coleira, e nem se tenta roubar o Deus de outro com mansidões. me exaltei.
Num bate boca feroz, meu sobrinho, sentado à cabeceira da mesa, interferiu e pediu à Isaías que me respeitasse e se calasse, senão as coisas iriam se complicar.
Mas Isaías não lhe deu ouvidos, saboreando sua doce parceria com Jesus, não parava de ofender-me.
Até ameacei chamar minha mãe, caso não parasse de me incomodar.
Quem sabe Isaías não se prevalecia de sua altura e de seu porte físico para nós intimidar e fazer-me aceitar o amor de Jesus?
Como eu não era burro, e sabia que sua religião não cultuava Nossa Senhora, apelei para a ignorância e provoquei:
— A mãe é católica Isaías! Se esqueceu? Quem sabe eu não chamo ela aqui e você diz pra ela que vocês não cultuam Nossa Senhora? Quem sabe ela já não aproveita a oportunidade e o manda embora de uma vez? Quem sabe se, em vez de ficar me enchendo o saco, você não vai para a televisão propagar para os milhões de católicos que adoram Nossa Senhora, que ela não é uma santa?
E apelei:
— Me larga de mão "meu"! Vai dormir, sua mulher tá esperando!
Isaías calou-se com minha fúria, e eu continuei incendiado, queimando nos infernos.
— Minha avó foi ex-freira e fui educado na religião católica, se quer saber! E há mais pessoas no mundo que amam Nossa Senhora do que evangélicos irritantes como você! E, na verdade, eu sou católico, esta é a minha religião, por opção, apesar de não praticar, está satisfeito? — e de-lhe bronca.
Então Marco enfezou-se e tomou as minhas dores.
 — Você respeite o meu tio, senão você vai se ver comigo!
E Marcos era baixinho, quase um anão perto de Isaías.
Eis um amigo que jamais vou esquecer.
E, para minha sorte, alguns anjinhos estavam de férias também.
No final das contas, Isaías, atropelado pela contramão, ficou nos ouvindo na bronca até o dia amanhecer, e acabou pedindo-me desculpas pelos "mal entendidos".
E eu chateei-me mais comigo, por estes descontroles e irritações que custavam a passar, do que com sua provocação, e fui dormir com o dia claro, abatido.
E eu, que sonhava apenas com um amor para compartilhar a minha vida e os meus sentimentos e não gostava de brigar, acabava sempre me envolvendo em confusões.
Eu ainda tinha muito o que aprender com minhas explosões temperamentais, que apesar de todos os meus esforços e dos meus estudos cabalísticos e filosóficos, não conseguia dominar.
Mas diga-se de passagem, suas desculpas não foram de coração, pois, algum tempo depois, incomodei-me novamente com ele nos dias das mães.
E ele não foi nem um pouco gentil e respeitador.
E nem era para ele estar ali.
E o desafetos que ele me causou, até hoje não consigo mensurá-los corretamente, pois afetaram, não só os meus sentimentos, bem como minha relação com quase toda a minha família e o meu amor próprio e, também, porque todos as pessoas que eu amava se calaram.
Mas todos nós somos assim, sempre nós ensinaram a calar e a temer.
E quando as pessoas que amamos se calam e temem, alguma parte sensível de nós se vai e paramos de amar.
E o amor puro que sentimos, sempre deveria gritar mais alto do que estes desafetos de nossos amores, sei por experiência.
Em menos de um ano, infelizmente para ele e seus familiares, o destino encerrou tragicamente o seu destino.
E que você esteja em paz e feliz aonde estiver Isaías, apesar de eu ainda remoer os meus ressentimentos.
E acredito que o inferno está aqui, imaginado neste paraíso criado por Deus.

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