terça-feira, 9 de outubro de 2012

UM DIA DE CHUVA


Chovia torrencialmente aquela noite.
Pequenas poças d'água na calçada prendiam minha atenção e faziam-me ziguezaguear.
Encolhido em minha capa de chuva de gabardine azul, eu admirava os contornos multicoloridos da avenida.
Entre os meios-fios brancos das calçadas, uma via de pedras quadriculadas e regulares alargavam a rua.
A chuva caindo pesada e constante.
Os pingos d'água que caiam espaçados e fortes, direcionados pela ação dos ventos, numa posição obliqua, molhavam os meus pés.
Com as mãos nos bolsos e a cabeça enterrada no capuz de minha gabardine azul, fascinado com a natureza e com a vida, eu voltava para a casa feliz.
O cheiro da terra, da grama molhada, da chuva, que apesar de forte, não obscurecia totalmente a noite, davam-me a sensação de bem estar.
À rua deserta, não avistava nenhum transeunte, até os animais se colocaram ao abrigo.
Os seis postes de luz, que em espaços regulares iluminavam o quarteirão, eram de ferro, estilo colonial, com seis vidros facetados cada um; colocados um em cada esquina e outro no meio de cada passeio.
Seis hexágonos transparentes transmitiam debilmente suas luzes pela avenida, e traziam um brilho prateado às gotas de chuva que caiam como dardos e que saltitavam fortes pelo chão, e às poças d'água na calçada.
Abri o portão de casa, que ficava ao lado direito da rua, a pouco mais de meia quadra de quem vai, mas mesmo assim, ainda um pouco distante da esquina.
Uma casa com cerca de madeira baixa, com tábuas espaçadas e envelhecidas pelo tempo.
No pátio gramado, as tulipas e os crisântemos cresciam desordenadamente pelas laterais.
A pequena estrada estreita de pedras coloridas, dividindo a grama aparada, levava-me aos três degraus de madeira do hall.
Este era o meu mundo passivo, repleto de recordações.
Entrei satisfeito com o aconchego do lar.
Deixei o casaco no cabideiro lateral à porta e joguei meus sapatos pretos molhados ao chão.
Após o banho, coloquei meu roupão de algodão, de um veludo vermelho; calcei meu chinelos de pelúcia, de um jasmim clarinho, e sentei-me no sofá da sala para ler o jornal.
Um jornal desatualizado e jogado meio aberto, que coloquei-o esquecido em alguma manhã depois do café.
Esta casa, era a casa de meus sonhos.
A casa onde eu queria viver.
E ao meu lado direito, eu avistava a porta de entrada do hall.
Uma porta verde, maior que as comuns, ladeada por uma grande janela quadriculada, de um vidro puro e cristalino, que se erguia a um metro do chão até quase o teto da parede; larga, vislumbrando desde o jardim e a cerca baixa, até as árvores copadas deste e do outro lado da rua e, próximo ao lado esquerdo da janela, as luzes imanentes do poste central da outra rua.
Do meu lado esquerdo, uma janela basculante menor, ao lado da outra porta verde que dava para o quintal dos fundos da casa.
Todas as aberturas eram pintadas de um amarelo claro, e as paredes de um azul clarinho.
E a chuva que batia forte nas vidraças, fazia o seu barulho característico.
O corredor largo à frente, um pouco a direita, com meias paredes pintadas; abaixo de um tom rosa claro; e acima, de um azul clarinho, que, sem portas, levava ao interior da casa.
No sofá de espuma grossa onde sentei, reconfortava-me o silêncio do lugar.
Recoberto de uma fazenda azul celeste, ele tinha desenhos de rosas iguais, pintadas em vermelho e azuis mais claros, e alguns botões de um azul mais forte que o tecido, encravados na estofaria.
O Louco no Tarot de Nicolas Conver (1760)E junto ao jornal ao meu lado , em cima da pequena escrivaninha à Luís 15, os meus pertences rotineiros.
Um antigo Tarot Francês e o meu velho cachimbo de madeira.
A mesa, um pouco atrás, era grande, de madeira de lei, com duas grandes banquetas paralelas, uma em cada lado, percorrendo toda a sua extensão.
A mesa envernizada de um marrom escuro, composta por cinco tábuas inteiriças e nodulares, jazia sozinha, sem nenhum ornamento a decorá-la.
Na parede a minha frente, um grande quadro de Mona Lisa e ao seu lado esquerdo, a pequena distância, um quadro ainda maior, de um velho fumando o seu cachimbo, de G. Madonini.
A casa de dois andares era rústica, de madeira descuidada e desgastada pelo tempo, mas mesmo assim guardando a beleza e imponência de seu tempo.
A chuva continuava caindo forte e constante, e os relâmpagos, esparsos, calculando o seu tempo, clareavam a escuridão.

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