terça-feira, 9 de outubro de 2012

VIVIAN


Vivian morava em frente a loja.
Estudava no mesmo colégio de Tana, Samara e Dimitryus.
Os três estavam na mesma série do colegial e eram amigos.
Não sei precisar exatamente como nos conhecemos.
Sei que por ser natural em sua idade, Vivian gostava de estar com seus amigos e participar dos seus interesses.
Então, como todos me procuravam, resolveu se aproximar.
Desde sempre, Vivian foi a única adolescente do grupo que nunca se interessou pelo ocultismo e até hoje, não compreendo bem o por quê.
Cabelos e olhos castanhos claros, estatura média, Vivian era uma jovem muito bonita, de temperamento forte e reservado, e também uma capricorniana como eu.
Conheci-a com 14 anos de idade.
Ainda apaixonada por seu ex-namorado, que à trocara por Tana, um dia, muito triste e abatida, apareceu na loja atrás de seus amigos.
Entrou chorando e obriguei-me a confortá-la.
Lembro-me de seu sofrimento e desilusão.
Vivian acabou ficando e participando do grupo e de nossos encontros diários.
Aprendeu tarô por aprender, sem muito interesse pelas cartas.
Chegou a compreender os arquétipos das cartas, mas raramente jogava, sempre pedia para que alguém o fizesse por ela.
Quando eu pedia ela jogava para mim.
Nossa amizade cresceu com o tempo e prolonga-se até hoje.
Quando criança, em torno de 4 a 5 anos de idade, Vivian começou a ver uma assombração.
Uma enigmática figura masculina aparecia-lhe invariavelmente na hora em que se deitava para dormir.
Vestindo um longo sobretudo preto com a gola levantada, ele ficava parado na porta do quarto observando-a dormir.
Uma visão assustadora para uma criança de sua idade.
O fantasma calçava sapatos pretos e usava um chapéu fino e pontudo, com abas curtas, que tapavam-lhe rosto.
A entidade assombrou-a até os seus 10 anos de idade e gravou-se em suas memórias infantis.
Vivian seguidamente falava-me dele, mas falava-me com um receio e uma incompreensão, que às vezes até sentia medo de que pudesse estar nos ouvindo.
Certa vez, num ritual wicca na casa de Tana, as duas invocaram a deusa Morrigan.
Desastrada, na hora do ritual, a mãe de Tana invade o circulo mágico e liberta a deusa.
No mesmo instante, coincidência ou não, toca o interfone e a mãe de Tana foi atender.
Como ninguém respondia, a mãe, curiosa, foi pra janela espiar.
Foi quando viu um homem vestindo um longo sobretudo preto e um chapéu fino e pontudo, parado lá embaixo, na portaria do prédio.
Comentou o fato com as duas, e Vivian abalada com suas memórias, assustou-se.
Alguns dias depois do incidente e da estranha visão da mãe de Tana, alguns bichos de estimação de Tana começaram a morrer, obrigando Tana a fazer um ritual de limpeza em sua casa.
Vivian, ao seu tempo, voltou a rever com mais frequência a entidade que atemorizou sua infância.
Numa de nossas conversas, comentei:
— Por que você não tenta falar com ele, Vivian? Crie coragem e pergunta o nome dele?
Vivian medrosa, recusava minhas insistências, até que um dia ela o fez.
Mas o fantasma não revelou-lhe a identidade.
Ele simplesmente dizia que ela já sabia quem ele era, o que, em sua visão, era incompreensível.
Muitas vezes, Vivian chegou a pensar que fosse alguém de uma de suas vidas passadas que voltava para atormentá-la nesta encarnação.
Depois da noite em que Vivian perguntou-lhe o nome, ele nunca mais apareceu.
Vivian era uma jovem premunitiva, e muitas de suas previsões vinham através de sonhos, e todos os sonhos premunitivos que me contou e dos quais eu participei, se realizaram.
Nós guardamos alguns segredos e divertidas recordações desta época.
Certa tarde, Vivian apareceu na loja ansiosa, sonhara comigo outra vez:
— Eu vi uma mulher vindo em tua direção, Celso. Ela era morena, de cabelos pretos e encaracolados. Estava usando um óculos escuros muito grande, não consegui ver direito o seu rosto.
Ela vinha sorrindo em tua direção! Cuidado! Minha intuição diz que ela vai trazer discórdia e inimizade para o grupo! Acho que vai acabar separando o pessoal.
— Mas como é o seu rosto?  — interessei-me pelo sonho.
— Não sei, não deu pra ver direito, os óculos escondiam parte dele. Eu sei que ela tinha cabelos pretos e compridos. É melhor ter cuidado! — reiterou Vivian.
E foi um conselho que infelizmente não segui, talvez por não levar tão a sério o que me dissesse, ou então por não relacionar no futuro a pessoa que conheci, com os sonhos de Vivian.
Então, alguns meses depois, aparece Inocência.
E Inocência foi um sol que me cegou.
Uma luz que transtornaria a minha vida para sempre, como somente uma outra vez senti acontecer.
Mas isto também já é um outra história...
Mas, como disse-me certa vez Eliete, uma velha amiga e pessoa simples do litoral Catarinense onde veraneamos :
"Aonde tem um bobo Celso, ali o ladino vive".
Sábias palavras!
Serviu-me a carapuça.
No outro dia, pedi que ela me repetisse a frase, para eu decorá-la.
Eliete repetiu-a com um sorriso carinhoso, senti um certo ar de tristeza em seu olhar.
Elite sabia de alguma de minhas histórias com Inocência e do impacto que este amor ocasionou em minha vida.
E eu nunca soube quem de minha família lhe contou minha triste história.

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