terça-feira, 9 de outubro de 2012

UM DEVANEIO COM LOUREIN



Lourein era uma mulher apaixonante, nascida com os mesmos direitos dos homens.
Quem poderia resistir a esta paixão.
A expectativa deixou-me ansioso pela visão de sua beleza.
Olhando pelas esquinas, pelas sombras da noite, pelos jardins das casas, pelas árvores da ruas e das praças, entre os carros estacionados pelo caminho, nunca imaginei que atrás de um símbolo luxurioso de uma fêmea pudesse existir um demônio que vampiriza-se o meu coração.

Celso Orsini



Nossas reuniões, que no princípio eram realizadas à tarde, prolongavam-se noite a dentro.
Lucius e eu sempre éramos os últimos a sair.
Muitas vezes, depois que o pessoal do grupo ia embora, ainda ficávamos no cantinho por um bom tempo conversando, falando de nossos amores, jogando tarô e filosofando.
Numa destas madrugadas, lá pelas 5 horas da manhã, sem ter o que fazer da vida, resolvi acompanhá-lo até sua casa.
E era uma noite clara de inverno.
Uma noite tranquila, sem ventos e poucas nuvens no céu.
Parecia ser lua cheia.
Uma temperatura amena vinha nos acalentar.
Eufóricos, não parávamos de falar.
Nossos sentimentos e percepções de um mundo mágico e real avolumavam-se em nossas consciências e em nossos corações, deixando-nos no frenesi da descoberta.
Mas alguma coisa estranha acontecia agora.
De repente, no meio do caminho, Lucius alterou o seu comportamento.
Desconfiado com alguma coisa, não parava de olhar para os lados.
Continuávamos conversando, mas, aos poucos, sua distração e receio tornavam-se aparentes.
Ele olhava para os lados, eu olhava também.
Ele se assustava, eu me assustava também.
Acelerando o passo, pedia para eu andar mais depressa, alguém nos seguia.
Sem eu saber, seu medo de antigos demônios ressurgiam em sua mente.
Na noite silenciosa, temeroso, acelerei o passo também.
Eu precavi-me, e olhava para todos os lados, e desconfiado não via ninguém.
Confesso que fiquei confuso com a situação, e, induzido por Lucius, comecei a preocupar-me.
E se fosse alguém querendo nos assaltar?
Mas que droga, não havia uma viva alma pelas ruas onde andávamos.
Assustei-me:
— O que foi Lucius? O que está acontecendo?
— Continue andando Celso! Não pare! Vamos!... Não pare!... Vamos!... Depressa!
Pronto, isto foi o suficiente para eu realmente me assustar! Ele não me dizia quem nos seguia, pedia-me simplesmente para acelerar o passo... cada vez mais.
Meus instintos alertaram-se.
Seguimos tensos e calados.
Chegando a uns dois quarteirões de sua casa, ele começou a diminuir o ritmo.
O silêncio era total, o único som que ouvíamos eram o de nossos próprios passos no passeio.
— Pronto, ela foi embora! Não estou vendo-a mais! — falou-me e se acalmou.
— Ela quem?
— Lourein! Ela estava nos seguindo!
— Lourein? Quem é Lourein? Você está brincando comigo? Aonde ela está? — perguntei, sem conseguir acreditar no que ele me dizia.
E estas oportunidades não aparecem todos os dias.
Estes sonhos que brotam do nosso inconsciente, nos atraem, nos emocionam, acalantam o nosso coração e são raros de se viver.
— Fala baixo Celso! Ela pode nos ouvir!
— Mas por que ela não aparece?
— Não sei, tem alguma coisa errada! Não era para ela estar aqui! — falou assustado, olhando para os lados.
— O que está errado?
— Não sei. Ela pode estar nos espionando! Pode estar querendo te conhecer pessoalmente, não sei!
— Ela me conhece? — perguntei curioso.
— Claro que sim! Ela sabe que somos amigos. Pode estar te testando! Quer saber quem você é! Só pode ser isso! — sussurrou com medo.
Dito isto, prosseguimos em silêncio.
Quando chegamos ao portão de sua casa, Lucius exaltou-se novamente.
— É ela Celso! Está logo atrás de ti! Cuidado! — falou baixinho.
"Putz!"
Eu virei-me rapidamente, mas não vi ninguém.
À minha frente. somente a pracinha mal iluminada e as grandes árvores à frente e ao largo.
— Aonde ela está? — perguntei ansioso.
— Não olhe agora Celso! Ela está bem ali!
— Aonde?
— Ali, bem perto da árvore! — e parado ao meu lado, um pouco para trás, apontou-a com os olhos.
— Não estou vendo!.
— Acho que ela não quer que você a veja. Cuidado! Ela é muito perigosa. Você vai se apaixonar Celso. Estou te avisando, você não vai resistir.
Então, virei-me para ele:
— Me diz como ela é?
— Ela é muito bonita Celso. Ela vai te enfeitiçar. Ela se transforma em qualquer mulher que você queira. Ela pode ler os teus pensamentos... Cuidado! Ali!... Ela está ali!... Não olhe agora!...Está  logo atrás de ti! — e apontou-a com os olhos novamente, visivelmente transtornado.
Eu virei-me ansioso e ficamos assim, agora, lado a lado, alguns minutos em silêncio, olhando atentamente para a rua deserta e para as duas grandes árvores a nossa frente.
Eu irônico, tentava recordar-me de todas as mulheres que desejei e sonhei, e ele preocupado.
De repente, um farfalhar de galhos na grande árvore a nossa esquerda, quem sabe uma agitação de passarinhos.
Surpreendentemente, num voou rasante, alguma coisa escura e imensa projetou-se em nossa direção, quase tocando-nos a cabeça.
O susto foi instantâneo, foi petrificante.
Um grande morcego negro, descrevendo um arco entre as arvores, passou acima de nossas cabeças, rente a nós.
Eu me assustei com o inesperado e arrepiei-me dos pés a cabeça, e Lucius atirou-se para trás.
Numa meia volta rápida, chispou para o portão de ferro gradeado, e, em vez de abri-lo com a chave, tamanho o susto que levou, começou a escalá-lo.
Agarrado as grades, parecendo um macaco, olhou para mim, mas vendo que eu continuava impassível, resolveu descer e enfrentar Lourein.
Aproximou-se amuado e eu perguntei:
— Como ela é Lucius? É muito bonita? — perguntei-lhe saudoso, entristecido com todos estes meus amores fracassados do passado.
E estes sentimentos chegaram de uma vez.
Ele concordou com a cabeça.
— Então chame-a! Quero conhecê-la! A estas horas da noite, sem ter o que fazer de minha vida e sem ninguém pra me fazer companhia, o único risco que corro é o de me apaixonar!
— É! — disse-me desacorçoado. — Que besteira a minha.
Depois destes meus devaneios, decidi ir embora:
— Bom, Lucius, tenho que ir. Amanhã nos vemos novamente. Já está começando a clarear o dia, tenho que ir dormir. Amanhã a gente conversa.
E este amanhã, seria neste mesmo dia à noite.
Estranhas coincidências acontecem em nossas vidas.
O mundo é realmente muito estranho.
Despedimos-nos, e voltei para casa me sentindo um pouco só, mas plenamente realizado em meu mundo mágico e irreal.
Meus sentimentos de solidão afloravam novamente, mas as explosões destes dias me encantavam e fascinavam com uma força maior.

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