terça-feira, 9 de outubro de 2012

BRINCADEIRAS SOBRENATURAIS


                                                          Parte I

Este episódio ocorreu alguns meses depois de eu conhecer os jovens do grupo.
E ainda não conhecia a todos, pois viriam mais.
Certa tarde estávamos reunidos no "cantinho", quando Tana começou a ler as cartas de Waite para o pessoal.
Lembro-me que eu saia do banheiro, quando Jorge chamou-me de canto.
Discretamente, sem alardear, apontou o dedo para ela e pediu-me silêncio.
Fazendo-me um sinal com os olhos, confidenciou:
— Escuta isso, Celso! Aprecia! Nem dá pra acreditar! Todo mundo em volta dela!... É incrível!
E Tana, no meio da algazarra, sentada em minha cadeira preguiçosa, de frente para a mesinha baixa, em êxtase, lia as cartas para o pessoal.
Eram tantos os jovens que a cercavam, que mal conseguíamos visualizá-la no exíguo espaço da loja.
Jorge estava pasmo.
— Olha só, Celso! Olha só!... Essa guria é demais...Ela tem o dom... Não é possível!...Como pode isso?...Ela não conhece nada de tarô e já consegue ler as cartas melhor do que muito adulto.
E olhou-me de soslaio, do seu jeito irônico, com um meio sorriso, esclareceu-me o comentário:
— Não é de ti que estou falando Celso, não te preocupa! Eu não estou te comparando com ela! Você, para mim, vai ser sempre o melhor. Você é o mestre!
— Tudo bem! — desconfiei, um pouco enciumado.
E aconselhou-me:
— Escuta!... Se eu fosse você, eu investia nela...Ela responde a todas as perguntas, só olhando para as figurinhas... Escuta!... Olha que coisa mais magnífica Celso! Ela olha pra cada plantinha, para cada detalhezinho da carta e tem uma resposta. E é incrível, está acertando tudo!...Há pouco, ela colocou o dedo na espada da justiça e ficou observando a figura, depois respondeu a pergunta de Samael...Não dá pra acreditar! — Maravilhado, sinalizou-a novamente com os olhos e colocando o dedo na boca pediu-me silêncio.
— Psiu...!
E ficamos ali calados, arrebatados, ouvindo-a falar.
Porém, com o tempo, tantas eram as perguntas, que Tana tonteou.
E eu, que já passara por tantas situações semelhantes a esta, quando lia minhas cartas e me concentrava por muito tempo, resolvi intervir.
Abrindo espaço entre o grupo, pedi que se dispersassem e parassem com as perguntas, enquanto Tana, enjoada e cambaleante, era levada para a rua.
Noutro dia à tarde eu estava sozinho no cantinho, quando Samara entrou séria e sentou-se ao meu lado.
— Celso, os vampiros me atacaram ontem a noite! Olha só o que fizeram comigo, me arranharam toda! — e mostrou-me os braços com vários cortes superficiais.
— Tem certeza que foram os vampiros Samara? Como te arranharam? — cismei.
— Não sei! Eu tava dormindo quando isto aconteceu!
— Você não viu ninguém entrar no quarto?
— Não, não vi! — falou bem convincente, na maior cara de pau.
— Tem certeza Samara? Você não andou se cortando, né? — fiquei atônito, preocupei-me com as consequências de seus atos.
— Não, claro que não! Foram os vampiros!
Num outro dia à tarde, Lucius, Tana e eu, estávamos reunidos no cantinho, quando Lucius, numa brincadeira de desafios mágicos provocou Tana.
Tana estava sentada na cadeira preguiçosa de frente para Lucius, e eu estava de pé encostado na viga do meio.
— Eu posso fazer crescer os meus dentes! — disse Lucius — e colocou o dedo indicador em um dos seus dentes caninos.
"O quê!!! Não acredito no que estou vendo, não pode ser verdade!" — pensei admirado.
E, Tana provocava, dava corda:
— Duvido!
— Quer ver? — blefou Lucius, inflamado.
Eletrizada, numa explosão de alegria, Tana, batendo palmas e os seus pés freneticamente, exclamou:
— Quero! Faz que eu quero ver!
— Nãooo!... Não vou fazer isso agora! — esquivou-se Lucius altivo, negociando o tempo.
Mas Tana, contagiada, inflamava o ambiente, e pagava para ver e insistia, sempre batendo palmas e os pés no chão.
— Ahhh...faz...faz...eu quero ver!
" Eu também quero ver essa!" — pensei admirado, sem acreditar.
E Lucius, que era mais esperto do que bobo, olhava-me pelo canto dos olhos desconfiado e depois para ela.
Eu me calei e esperei, enquanto ele, pressionado com a euforia de Tana, fraquejou e não soube como lidar com a enrascada que se meteu.
— Tá bem, então! Eu vou fazer, hein... mas olhe lá, hein! — e concentrou-se sob nossos olhares atentos.
Porém, agora, seu sorriso maroto já deixava transparecer um ar de constrangimento.
Nesta queda de braço, certamente ele é quem iria perder.
E eu achava maravilhoso estar com eles e presenciar tais momentos, e não via maldade alguma em suas ações infantis, e me sentia feliz.
Enquanto isso, em expectativa, Tana e eu esperávamos ansiosos o desenrolar dos acontecimentos.
Após encenar algum esforço, Lucius titubeou.
— Ah, não!... Assim não dá!... Com vocês me olhando, nãooo dá!!!... Não consigo me concentrar! — e parou.
— Você consegue mesmo fazer os seus dentes crescerem Lucius? — perguntei divertidamente, mas curioso. Vai saber?!
— Claro que sim! Mas é que agora não dá, tem toda uma preparação! Preciso me concentrar! Com vocês me olhando... não dá! — Lucius repetia-se desconfortável, balançando a cabeça.
— Não consegue não! — arremedava a capeta da Tana.
— Não consegue não... — e Tana provocava sem piedade, e batia novamente os seus pés no chão com rapidez, debochando e batendo palmas.
Enquanto eu a olhava, eu a admirava.
Mas Lucius não cedeu.
— Consigo sim!... Mas é que assim não dá!... Tem toda uma preparação!... — safou-se o espertinho.
Então, milagrosamente, a conversa parou por aí e tomou outro rumo.
Frivolamente, Tana e Lucius trocaram de assunto e continuaram com as brincadeiras.
Mas os jovens são assim mesmo, incoerentes e inconsequentes em suas ações, mas impagáveis em suas criatividades e visões.
Depois disso, minha linha de raciocínio, sempre foi voltada para assuntos práticos e filosóficos, enveredou-se pelos caminhos da bruxaria, feitiçarias, rituais e outras coisitas mais.
Confesso que, a princípio, foi difícil assimilar os conceitos que os jovens faziam do sobrenatural.
Mas, reorientando-me, fui aprendendo aos poucos, me familiarizando com suas vivências e idiossincrasias.
Sentia-me retrocedendo ao tempo supersticioso de minha infância e juventude.
A Cabala vinha como uma luz clareando a escuridão, mas os jovens a traziam-me de volta, com seus panteísmos e rituais sombrios, mas com uma beleza que jamais pensei pudesse existir.

                                                       
                                                          Parte II

Na juventude, tive experiências com o oculto extremamente marcantes e negativas.
Meu pai, que era espiritualista, contava-nos histórias tenebrosas que aconteciam nas casas de religiões que frequentava.
Certa noite chegou assustado.
Contou-nos que foram até Ipanema, um bairro da zona sul de Porto alegre, deixar uma oferenda as entidades.
Quando lançaram o despacho no rio, alguns vultos surgiram sobre as águas e vieram na direção deles.
O susto foi tão grande que todos saíram correndo, nem a mãe de santo ficou, escafedeu-se.
Nosso pai trazia-nos previsões.
As favoráveis, ele contava.
As outras, citava-nos superficialmente, num aviso velado, deixando-nos transparecer o seu medo e suas preocupações.
E assim vivíamos, entre as ameaças veladas das religiões que se cultuavam lá em casa e a inexorabilidade de suas previsões.
E seguíamos sem rumo, tementes, sem alguém de conhecimentos e de boa fé para nos orientar.
Então, com o medo, desencadeava-se a ansiedade que trás a fatalidade.
Em casa ouvíamos passos à noite, trinco de porta baixando, televisão ligando, e muito mais.
Nossa casa tornou-se um inferno, uma casa de horrores e de fantasmas.
Nossa avó trazia santinhos de pessoas falecidas, que arrecadava nas missas de réquiem matinais da igreja matriz, e acendia velas para elas em seu quarto e meu pai irritava-se com isso.
E as brigas religiosas eram intermináveis e nós, ainda crianças, sem discernimento, sofríamos muito com isso.
Minha avó, uma espanhola de temperamento forte, ex freira, católica fanática, amaldiçoava a tudo e a todos que não fossem de sua religião, e era uma briga religiosa sem fim, que trazia-nos a infelicidade sem perdão.
E era um tormento acordarmo-nos cedo e irmos a missa com ela.
E foi uma lástima termos presenciado isto, termos convivido, num momento tão importante de nossas vidas, com tantas tristezas.
E ela investia principalmente contra meu pai, que era espírita, arvorando-se em seu Deus vingador.
E nós, seus netos, ouvíamos suas pregações sem cessar.
E o céu tornou-se praticamente impossível de se alcançar, e o inferno virou o nosso destino, pois em suas máximas religiosas (Lucas 18:25) e em minhas idéias juvenis, eu não via possibilidade alguma de um camelo passar pelo buraco de uma agulha.
Condenou-nos a viver eternamente pobres para ganharmos o céu.
Talvez, engendrava minha mente infantil, se pegássemos o camelo e o picássemos em partes bem pequeninhas, poderíamos fazê-lo passar pelo buraco da agulha, assim poderíamos ficar ricos e ir para o céu.
E nossa avó, por morar conosco, trouxe uma tristeza irreparável ao nosso lar, como sogra e avó pregadora e autoritária.
Um pouco depois da morte de meu avô, um vulto, parecido com ele impregnou-se na umidade do teto do quarto de meus pais, bem acima da cama deles, e assombrou-nos, mais a eles do que a nós, é claro, até a casa ser vendida.
Despachos eram o que não faltavam no jardim em frente a nossa casa e não sabíamos para quem eram endereçados, provavelmente para o meu pai, que era advogado.
Até os 17 anos de idade eu tocava no "Beat Som", uma banda de Rock em Canoas.
Nesta época, nos fins de semana, os conjuntos musicais revezavam-se pelos clubes da capital e do estado, e nós estávamos no meio.
Um dia, preocupado, meu pai alertou-me:
— Contaram-me que vocês estão debochando dos orixás, Celso. É verdade?
Surpreendi-me com sua pergunta e, sem entender como soubera, tentei negar, mas não soube mentir.
— É verdade pai. — respondi, confiando em sua proteção.
Ele era tudo para nós — a nossa força, o amparo, o nosso cais, a nossa esperança de um futuro melhor.
 — Às vezes eles imitam as entidades e ficam dançando pai — mas eu não me meto nisso —  isto só aconteceu umas duas vezes. Por quê?
— Diz pra eles pararem Celso! As entidades não estão gostando nada disso! Disseram-me que se vocês não pararem com as brincadeiras você corre risco de vida, cuidado! Fico preocupado contigo andando de Kombi de lá para cá, de madrugada! O motorista passa a noite acordado esperando vocês e volta cansado, é muito perigoso. Tenho medo que algo ruim aconteça. Quem sabe não é hora de parar de tocar? Você precisa estudar, ser alguém na vida, isto não vai lhe levar a lugar nenhum...
Alguns meses depois de nossa conversa, as coisas aconteceram.
E as mães de santo ou os pais de santo de meu pai tinham a língua afiada, previam muito bem e acertavam tudo.
Meu Deus do céu, como pode?
Num domingo chuvoso de inverno, indo tocar em Porto Alegre, aconteceu o acidente.
A nossa kombi, carregada de equipamentos e com excesso de lotação, bateu atrás de um caminhão carregado de ferros, que entrava na BR-101.
O indeciso e controverso motorista da kombi, para não atropelar o maldito guarda de trânsito que estava no meio da pista com toda aquela chuva torrencial sinalizando a entrada do caminhão, frenou bruscamente, mas o tranco não suportou o peso da carga.
A seguir, puxou o freio de mão, que também não resistiu.
Conclusão: Para não atropelar o inepto guarda de trânsito, sem saída, numa indecisão mortal, tentou passar entre o guarda e o caminhão.
Mas, infelizmente, por poucos centímetros, acredito que também por imperícia, acabou batendo de quina no caminhão.
Mas quem sou eu para julgá-lo numa decisão tão rápida e instintiva.
Quem sou eu para julgar uma opção, que acreditava não seria a minha.
Mas, como a balança sempre pende para o lado de nossos afetos, decepcionei-me tanto com ele, que nunca mais quis vê-lo novamente.
"Baixinho", com 19 anos de idade, nosso protegido e carinhoso amigo, encarregado dos interesses comerciais da banda, com o choque, foi arremessado sem vida no asfalto.
E eu, sentado na parte de trás, sem conseguir visualizar o que estava acontecendo, aterrorizei-me com os berros alucinantes de sua enamorada.
Na época, tínhamos por consenso não levar mulheres conosco.
A lotação era exclusiva para os integrantes da banda, mas neste dia abriu-se duas exceções.
O motorista pediu-nos para levar sua noiva e uma amiga dela, que estava interessada no "Baixinho".
Um pouco a contragosto cedemos, porquanto Baixinho era um jovem afável e tímido, com sérias dificuldades de relacionamentos, um poeta solitário.
E até hoje lembro que ele levava um caderninho, onde anotava suas poesias sensíveis e sentimentais, encantadoras para a sua idade.
Erramos ao ceder por compaixão.
Então, na frente, iam quatro pessoas; o motorista, sua noiva, a amiga e ele, nesta ordem.
Coincidentemente, um pouco antes de prosseguirmos a viagem fatal, resolvemos parar no clube Canoense para pegarmos a tubadora que havíamos deixado lá no fim de semana passado.
Enquanto esperávamos, as brincadeiras recomeçaram.
Baixinho e mais algumas pessoas da banda começaram a cantar e a dançar músicas de candomblé, imitando os orixás.
Eu me preocupei com isso, mas, para não virar chacota do grupo, não comentei o aviso de meu pai com ninguém.
No acidente, escapei da pior graças a Tubadora.
Com um dos tambores preso entre minhas pernas, que acabou amenizando o meu voo e impedindo-me de ser arremessado em direção ao caminhão, sobrevivi.
E Patrick, que estava ao meu lado esquerdo, alguns minutos antes do acidente, parecendo prever alguma desgraça, antes de ultrapassarmos a ponte divisória das cidades, fez o sinal da cruz em nós dois, e uma prece rápida.
Ele estava com maus pressentimentos, e eu também.
Acabei batendo violentamente com a cabeça em uma das caixas de som que estavam à frente, e que faziam um barreira entre nós e a parte da frente.
Saí do acidente com um profundo e horrível corte na sobrancelha direita e quase a perdi.
Levei vários pontos em uma clínica de emergência em Canoas, e fiquei alguns meses encurvado com dores no tórax.
Felizmente, as dores no tórax passaram, mas a cicatriz no supercílio direito, indelével, permanece até hoje.
O acidente aconteceu rapidamente, em questão de segundos.
Antes do pânico da colisão, após o segundo grito da jovem enamorada, comecei a vivenciar a cena em câmera lenta.
Depois do acidente, minha firme concepção de tempo esvaiu-se.
Neste mundo temporal, em situações de estresse, alguns segundos arrastam-se por uma eternidade.
E eu vivenciei uma eternidade nesta colisão, em flashes aterrorizantes.
Vi a Kombi destruir-se quadro a quadro, em câmera lenta, e jamais vou esquecer esta visão.
Quando me vi arremessado em direção a uma das caixas de som,  fiz um enorme esforço para levantar minha mão direita e evitar bater com a cabeça no canto superior da caixa.
Tentei me proteger, mas minha cabeça projetou-se como um bólide.
Infelizmente, depois desta noite de Domingo, acossado pelo destino, minha noção de imortalidade, próprio da juventude, desmoronou-se.
Com o trauma, seguiu-se a tristeza e a depressão, numa imagem trágica e desesperadora que recordo até hoje.

                                                          Parte III

Depois do acidente, um forte sentimento me uniu a noiva do motorista.
Desiluda, assim com eu, com a trágica indecisão do seu noivo para evitar a colisão, começou a procurar-me em casa para se confortar.
E, nestes trágicos dias, nossa amizade cresceu, numa afinidade pueril que jamais vou esquecer e que se perpetuou.
Certo anoitecer de inverno, como sempre fazíamos nestas noites sombrias e mágicas, fui acompanhá-la até sua casa.
Tínhamos medo de andar sozinhos à noite e de ver o fantasma do baixinho nos acompanhando.
E a companhia nos unia e fortalecia.
Besteiras, traumas emocionais normais que ficaram do acidente.
Mas nesta noite, de um céu cinzento e de uma lua sentimental, nós estávamos diferentes.
Ela estava mais calada que o comum.
E olhava-me com um olhar irresistível e carinhoso, parecia pedir-me a proteção.
E eu me magnetizava, sensibilizava-me, me encantava.
E, até hoje, não entendo o porquê não parei para a abraçar.
Acreditei, talvez por medo, temendo minhas emoções, pois sabia que ela iria se casar com o motorista, ser melhor para nós dois não nos encontrarmos mais.
Quando expus minhas razões, ela tristemente concordou.
E ela era uma destas belezas dos sonhos de Deus, um presente que Ele concedeu-me para eu conhecer os dons do amor e as emoções do meu instinto.
Hoje vejo que não deveria ter me despedido assim , deveria ter deixado as coisas acontecerem naturalmente, deveria tê-la entendido.
Perdi por ser imaturo, um obscuro, um não iluminado, porque não me deram um colégio especial para gênios, nem me ensinaram o que significava o amor entre os jovens.
E despedi-me de um sentimento puro, sem palavras coerentes, de um bem estar que sentíamos um pelo outro, por estarmos juntos.
E no trajeto que fazíamos até a sua casa, eu sentia uma vontade intensa de beijá-la e acariciá-la.
E acredito que ela, em sua meiguice e fragilidade sentia a mesma vontade que eu.
E na incompreensão do que sentíamos um pelo outro, nas dúvidas do nosso ser, ficávamos numa atração quase que irresistível, que fizeram-me temer e desistir .
E íamos calados, pensativos e cismados, por um caminho distante, devagar, respirando juntos o ar daquelas noites encantadas, nos reconfortando daquelas mágoas passadas, evitando um amor que queria nascer.
Acredito que cometemos um erro, e os erros também tornam-se imortais.
São tempos de juventude que passaram e que jamais voltarão.
Nunca mais voltarão com aquela mesma pureza e com o mesmo sabor.
E como esquecer o idílio daquelas caminhadas quase que silenciosas ao entardecer daqueles dias.
Como esquecer a atração que me exercia aquela fêmea, o cheiro daquelas terras e a fortitude de um sentimento pueril que floresceu, mais do que a lembrança do seu rosto, e que ficou guardado para sempre em meu coração, imortalizado.
Depois disso, acautelei-me quanto a acidentes trágicos e, sem uma compreensão plausível, comecei a respeitar e a temer as religiões afros.
Mas, retornando ao assunto dos jovens.


                                                          Parte final

Na época em que conheci os jovens bruxos as coisas corriam bem.
Eles eram alegres e divertidos.
E eu, encantado por eles e pela cabala, em total êxtase espiritual, acabei deixando de lado meus problemas existenciais e redirecionei-me.
Tana, Samara e Dimitryus, como todos os bruxos, gostavam de beber vinho.
Seguidamente apareciam na loja com uma garrafa de vinho tinto, de baixa qualidade, que iam buscar a granel em algum bar da cidade.
Nesta época eu era abstêmio, raramente bebia.
Eu preferia as bebidas doces e nunca fui um apreciador de vinhos e de cervejas.
Falei somente para constar, para me dirimir das culpas que me inculcaram nesta época e para que não fiquem dúvidas para a posteridade.
E algum tempo depois, todos eles pararam de beber e eu me iniciei.
Os danadinhos pararam de beber e eu comecei a gostar de beber.
Um dia à tarde, acredito que conversando com Lucius e Adão, algo estranho aconteceu.
De repente, preocupante, um foco de luz branca surgiu em meu campo de visão.
O foco de luz vinha de algum ponto acima de meus olhos.
E quando eu tentava focalizá-lo, ele subia concomitante aos meus esforços.
Preocupado, levantei-me calado para não alertar ninguém e fui até ao banheiro lavar o meu rosto e os olhos.
Entrei em pânico, alarmei-me.
Fiz várias tentativas para focá-lo, cheguei a tentar a visualização pelo espelho, mas o meio mais próximo que encontrei para observá-lo, foi o de concentrar-me numa visão perpendicular, sem mover os olhos.
Lavei o rosto repetidamente para livrar-me do mal, mas o foco de luz ainda permanecia em meu campo de visão, levou alguns longos minutos para sair.
Medroso, pois nunca gostei de médicos, cheguei a pensar em magia. Mas quem faria?
No outro dia, à tardinha, Tana entrou sorridente, com um rápido aceno de mão.
— Oi! Tudo bem por aqui?
— Tudo bem! — respondi.
— Você não sentiu nada de diferente ontem, Celso?
Estranhei sua pergunta e criei coragem para lhe contar o que aconteceu, pois não gostava de falar de meus problemas de saúde, para que depois ninguém ficasse me enchendo o saco, dizendo que eu tinha que ir ao médico.
Sempre tive medo de médicos, e poucas vezes fui a um.
— Ontem me aconteceu uma coisa estranha Tana. Eu estava sentado aqui conversando com o pessoal quando, de repente, uma luz surgiu em meu campo de visão...
— É mesmo? Que horas foi isso? — perguntou-me perplexa.
— Acho que foi lá pelas 6 horas da tarde! — respondi desconfiado.
— Foi bem na hora em que eu tava fazendo o ritual Celso!... Que estranho! — comentou Tana, com seu diabólico ar inocente.
— Você estava fazendo um ritual, Tana? — perguntei abatido, incrédulo.
— Estava!
— Para quem? — perguntei eu.
— Pra ti! Queria testar os meus poderes!
"Mas que droga! Que merda!"
— É serio?... Você está brincando comigo?
— Não! É verdade! Eu fiz um ritual pra ti!
"Putz!"
— Ah... não acredito! Vê se não faz mais isso, Tana! Achei que já estava doente, com algum problema grave nos olhos, fiquei estressado, me preocupei! — respondi chateado, mas ao mesmo tempo admirado com a força dos efeitos mágicos em meu campo astral.
Tana desculpou-se com aquela cara deslavada de preocupação.
— Eu não sabia que isso ia acontecer, Celso, senão não fazia! Juro! Foi só uma brincadeira, me desculpa!
E a capetinha falou satisfeita, coçando o queixo, como se estivesse admirada.
— Queria ver se você ia sentir alguma coisa! — disse ela
"Que barbaridade, só me faltava essa, virar cobaia dessa gurizada maluca!" — pensei.
Então, misteriosa, ela olhou-me vitoriosa e exclamou triunfante:
— Bahhh...esse meu protectus é forte!
— Que protectus é esse, Tana?
— É uma entidade que estou criando. Eu dou comida pra ele, cigarro, bebida, e ele faz o que eu peço.
— Ah...que interessante. — respondi.
"Que merda!"
E na mesa baixa do cantinho, a carta da Morte, tirada numa das jogadas da tarde anterior, ao léu sobre a mesa, olhava para nós.


Nenhum comentário:

Postar um comentário