terça-feira, 9 de outubro de 2012

PAME



                                              Parte I

No ano seguinte ao quinto festival de rock da prefeitura de Porto Alegre, o grupo se dissolve.
Lucius recebe o bar de sua mãe e leva Samara consigo.
Apaixonado, separa-se do grupo.
Foi uma época muito difícil para mim.
Com o afastamento de Samara do meu convívio, somado ao litígio do meu desquite e às críticas agressivas que sofria de meus familiares, inclusive de minha mãe, e aos ciúmes de esposas de antigos amigos que me hostilizavam no meio, eu andava muito deprimido.
Tana, para meu desespero e total desolação, estava decepcionada comigo e não aparecia mais.
E sem a presença das duas, apesar da grande quantidade de pessoas ao meu redor, eu andava muito entristecido e solitário.
Elas eram os meus amores.
Quem sabe um dia desses, quando lerem o que escrevi, entenderão melhor os meus sentimentos e a falta que me fizeram nestes memoráveis e tristes tempos e o que aconteceu comigo para eu agir e ser assim.
Quando as conheci, decerto Deus plantou duas sementinhas em o meu jardim.
E elas cresceram juntas, tornaram-se flores esplêndidas; e seus perfumes exalaram-se pelo ar e penetraram em meu coração para eu regá-las com afeto, e aceitar e compreender que existiam amores assim.
E nesta década de desesperanças, meus sentimentos não foram iguais aos comuns.
Acredito que foram mais ternos, intensos, explosivos e, apaziguando os meu delírios, muito diferente de todos aqueles que senti.
E deixo estas histórias impressas para que, num futuro, todos os jovens do grupo se recordem destes tempos.
Samara, enquanto seguia sua vida com Lucius, nunca deixou de me visitar.
E  Tana, muito tempo depois, graças a ajuda de Elias, retornou.
E com a presença das duas, que voltavam a me ver seguidamente, voltei a ficar um pouco mais feliz e a me apaziguar.
E depois destes conflitos, o pessoal do grupo começou a retornar.


                                               Parte II
                                                   
Tarô de CrowleyNesta época de uma depressão contida ao extremo, Jorge era o único que fazia-me companhia.
Com ele eu passava minhas horas cinzentas e ociosas, e podia desabafar meus sentimentos e trocar alguns conhecimentos de tarô.
Hoje, enquanto escrevo minhas memórias, percebo que nesta época o anjo negro, o maldito Lúcifer, trilhava os seus últimos passos em minha
direção.
E por coincidência, quem sabe atraído pela luz, esta criatura medonha, repugnante, já estava bem próxima de mim, bem mais próxima do que eu poderia imaginar.
E sua sombra ganhava proporções doentias e vingativas, e bastaria que eu olhasse para o meu lado esquerdo para o ver.
Se eu pudesse voltar ao passado decerto teria refeito minha história e reencaminhado estes demônios que me assediaram para os lugares de onde saíram.
As difamações que sofri, por prepotência, raiva ou falta de compreensão, e as falsas amizades foram tantas, que tiraram-me o valor.
E planejaram meu sacrifício em bandejas de prata e investiram-se contra mim com estacas afiadas.
Mas, apesar de todos os meus estresses, dissabores e fortes depressões, eu sempre fui uma pessoa muito resistente, e tinha minhas proteções.
Quando quase todos nos abandonam, sempre há aqueles que ficam conosco, que nos amam por amar, e que não sabíamos que podíamos contar.
E os meus filhos, à parte de tudo o que escrevo, apesar de os jogarem contra mim, sempre foram um exemplo disso, e sempre foram e serão os meus maiores amores.
Quando nos colocam no exílio, sempre há os que ficam ao nosso lado para nos aliviar a dor e confraternizar uma amizade e um amor que não tem preço.
Dois vultos, um em cada lado, distinguiam-se em altura e em idade na neblina de meus sonhos.
Um deles afigurava-se-me um anjo esplendoroso, amoroso; mas ele não erguia sua cabeça, não ajudava a reerguer-me, não reagia as agressões que eu sofria e, cabisbaixo, parecia-me triste.
O outro — e é incrível dizer isto — era uma criança pura e irrequieta, que acenava-me eufórica, chamando-me para brincar.


                                               Parte III

Nesta época de interesses contraditórios, brigas familiares, avaliações incorretas da cabala e do tarô, e de incompreensões de minha amizade com os jovens bruxos, aliados a soberba e a falta de piedade de alguns em julgar meus sentimentos, fechavam um círculo ao meu redor.
E construíam-no com bases sólidas, e ergueram suas paredes num mundo fugaz, sem entender que suas bases seriam destruídas com o tempo e que deixariam marcas pelo tempo que eu viver.
O que fizemos aos outros, fizemos a nós mesmos, e nada permanece como antes.
Os tempos de uniões e de engajamentos solidários escorreram de minhas mãos e de meu coração, esvaíram-se pela incompreensão que tiveram de meus sentimentos e de meus direitos, assim como o sangue que deixei escorrer de meus pulsos feridos me enfraqueceu.
E muitas pessoas pensam e avaliam tudo pelo enfoque pessoal e material e jogos sexuais, sem nos respeitar e compreender outros valores morais.
Só tenho a lamentar, pois a maioria delas sequer seguiam uma religião ou eram adeptas da castidade, simplesmente usavam o seu poder e se aviltavam mais do que eu.
E nada contra os pensamentos e as teorias de Sigmund Freud, pois ninguém consegue ser o que não é.
E podemos fugir sempre...fingir...negar...nos enganar até morrer.
Podemos optar pelo martírio insano da ignorância; furar nossos olhos, tapar os ouvidos, calar nossa boca e vivermos felizes como um vegetal.
Mas como conviveremos com este pecado mortal?
Como nos julgaremos na hora de partir?
Deus, quando nos pôs no mundo, disse: Meus filhos, eu os enviei a este mundo para serem felizes, amarem a todos e sonhar.
E este Deus liberal, filósofo e sonhador sempre esteve dentro de mim.
E além do mais, os inimigos já estavam bem perto; bem mais perto do que eu poderia imaginar.
Meu ego, cansado de representar antigos papéis, desgastado por lutas infiéis, aniquilou-se pelo bombardeio constante de agressões.
Cansado de lutar por um nada, travei.
Cansado de buscar desejos nunca satisfeitos, de correr atrás de bens materiais e de contas a pagar que jamais iriam ter fim, desisti.
O dinheiro tem seu preço, mas a este preço, a um preço da escravidão, eu não o queria mais para mim.
A vida era o meu bem mais precioso, a meta que eu devia buscar, o bem que eu deveria comprar e sustentar,  — a minha alegria, o meu querer.

                                           
                                               Parte IV

Nestes tempos de renascimentos, de tantos problemas pessoais e existenciais para resolver, minha fragilidade era a sobrevivência.
Estas foram as grandes contradições.
De um lado o êxtase da iluminação.
De outro, a rejeição assoberbada de meu mundo, apartado de meu ambiente familiar.
Infelizmente, colhemos o que plantamos.
E no caos existencial que vivia, isto foi uma punição que Deus me deu para compreender, e digo isto com pesar.
Com tantas dificuldades internas e externas para superar e vencer, eu preocupava-me apenas onde dormir e com o que comer, e com um mínimo de dinheiro para sustentar o meu vício, que era fumar, nada mais.
E mesmo querendo tão pouco, cobravam-me deveres e ganhavam direitos.
E para esquecer este mundo insano e me acalmar, eu estava aprendendo a gostar de beber.
E este Deus, que me aprisionava para me libertar, que me cegava para me fazer ver, que me testava, que gritava aos meus ouvidos e me amava, bem que poderia ter me aliviado as dores e desilusões.
Segundo Peter, o número 7 (sete) é o número da imortalidade.
E eu estava girando em meus planetas, recolocando-os em outras posições, alterando suas órbitas — eu estava renascendo, me transformando.
E segundo Felipe me disse, num certo entardecer — quando o encontrei pelo caminho das lojas — rememorando o meu passado distante:
— Foi nesta época que você andava mais enlouquecido com essa estória de cabala, Celso.
E eu não me chateei com ele por isso.
Ao contrário, concordei com ele, pois estava com a razão.
Nestes tempos eu vivia enlouquecido, em êxtase contínuo.
Vivia enredado em minhas ansiosas buscas de um saber metafísico, e queimava meus neurônios na ardência de minha alma, perturbado com a gerência de tantas informações.
Passava às 24 h do dia pensando e procurando os significados ocultos da cabala e do tarô.
Com isto eu diminuía minha necessidade de sono e de alimentação, que já eram quase escassas, ao mesmo tempo em que me alienava do mundo "real".
Eu estava tão encantado com as novas possibilidades de saber, que desvinculei-me por completo de minha antiga vida.
Desinteressei-me pelo dinheiro.
E neste mundo novo, a felicidade de voltar a ser livre, de reencontrar-me, de libertar-me de prisões que me deleguei, voltavam a florescer.
Meu antigo mundo desmoronava-se velozmente ante as novas descobertas, sem eu conseguir conciliar a transição.
Como seria daqui pra frente?
Como aproveitaria meus dons?
Como seguiria minha vida, se poderia ter os conhecimentos de antemão?
Com o despertar surgiam indagações.
Como desviar o rumo de um carro?
Existia o livre arbítrio?
Eu poderia alterar o destino?
Sem respostas a estas e a muitas perguntas, e ainda colocando em dúvida meu saber, resolvi adiar a transição.
Vivendo o conflito de dois mundos, resolvi, por conseguinte, refutar na prática os meus conhecimentos espirituais e deixar a vida fluir.
Com medo de romper arraigados paradigmas existenciais e enlouquecer, vivi a incoerência de meus atos.
E se os conhecimentos são adquiridos para serem usados, eu, como um idiota, os reneguei.
Os anjos alegraram-se por eu saber, mas Deus, desiludido, chorou por eu não compreender.
Amei pessoas, que sabia jamais iriam me amar.
Expectei acontecimentos que jamais iriam acontecer.
E não pensem que saber demais sempre é bom, muitas vezes o saber nos traz a compreensão do que vamos perder.
E, nestes turbulentos anos, as mudanças psicológicas aconteciam rapidamente, sem eu ter tempo de assimilá-las.
Tempos loucos de uma realidade encantadora, assustadora, desesperadora.


                                              Parte V
                                   
Pame aproximou-se no tempo em que Samara, Tana e Dimitryus passavam os dias no bar do Lucius.
Lucius, quando os tirou de meu convívio, com certeza não imaginou o amor que eu sentia por eles, senão, acredito, jamais o teria feito.
Pame era uma jovem muito bonita, de temperamento forte.
Estatura média, de uma plácida e sedutora tez branca, cabelos e olhos castanhos escuros e compleição média.
Pame morava com sua mãe e sua irmã menor, num dos prédios de um grande condomínio, quase em frente ao bar de Lucius.
Às vezes vinha até a nossa loja locar alguns filmes ou comprar guloseimas.
Conhecia-a desde criança, mas foi apenas com seus 19 anos de idade que começou nossa amizade.
Certa tarde Jorge e eu estávamos em frente as lojas conversando, quando ela, sei lá o porquê, talvez por não ter o que fazer de sua vida, parou em frente ao bar de Lucius para conversar com o pessoal.
Estranhei seu comportamento, pois enquanto conversava com eles, às vezes, de longe, com os braços cruzados, olhava-me intrigada.
Jorge, assim que percebeu que ela me olhava, enfezou-se.
E como sempre fazia com as pessoas de quem não gostava, agredindo, disparou setas envenenadas contra ela também.
Jorge com certeza não gostava de Pame.
E eu, sem entender seus motivos, apesar de contrariado com suas iras, calei-me.
Afinal de contas Pame era mais uma destas jovens que vimos crescer pelo bairro.
E ele, com a idade que tinha, deveria, isto sim, é envergonhar-se de suas críticas mordazes.
Ele estava sendo muito injusto e cruel.
Num outro dia à tardinha estávamos em frente à loja, quando Pame veio em minha direção.
Parecendo ler meus pensamentos chegou para deixar sua indignação.
Parou com os braços na cintura, e desabafou:
— Oi! Te deixaram aqui, sozinho?... Estes são os teus amigos?... Que estranho!... Eles que estavam sempre aqui contigo, agora se mudaram para o bar do Lucius! Não entendi?!
— Nem eu! — e dei de ombros desiludido.
E surpreso com seu juízo de valor resolvi me calar, parar por aí.
Pame devia ter visto minha tristeza.
Porém, com o tempo, conhecendo-a melhor, soube que Pame era assim.
Falava o que pensava e o que sentia.
E por ter esta franqueza incomum e genial que, depois deste dia, ganhou minha simpatia e me cativou.
Muitas vezes, em nosso convívio, sabendo dos meus problemas e vendo meus sofrimentos, ela chamava-me a atenção com seus conselhos e críticas acres, que traziam-me à tona um pouco de realidade.
Às vezes dava-me um "show" de moral.
E ela sempre esteve com a razão.
Devo muito à Pame por isto.
E se todas as pessoas fossem tão francas assim, o mundo seria melhor, mais interativo e prazeroso.
Pame sempre tentou tirar-me do fundo do poço, buscar-me do mundo ilusório em que eu vivia e que enfraquecia-me o corpo, a alma e o coração.
Ela aproximou-se um pouco depois do quinto festival de rock da prefeitura, e como não trabalhava, vinha passar as tardes comigo.
Aprendeu a jogar tarô, e passávamos as tardes inteiras jogando e conversando; ora ela, com seus problemas, ora eu, com os meus.
Foram tempos em que a sensatez e a jovial maturidade de Pame me trouxeram alguma felicidade e um pouco de paz, apaziguando alguns centésimos minhas loucuras.
Infelizmente, tenho que dizer isto Pame.
Não foi culpa sua.
E você, com certeza, foi mais uma estrelinha que entrou em meu mundo, uma luz sem igual que brilhou em minhas noites de escuridão.


                                              Parte VI

Pame gostava de cantar e brincar, de sair para passear e se divertir.
E foram épocas que, apesar de todas as tristezas, foram bem divertidas e diminuíram bastante a minha solidão.
Consigo, vieram algumas amigas e Pedro, um amigo de Lucius, que conheci no bar.
Pedro era um jovem falante, e minha amizade com ele aumentou gradativamente.
Com a entrada de Pame em cena, ele se aproximou e ficou definitivamente.
Das amigas de Pame, que tornaram-se minhas amigas também, guardo boas recordações.
Não falarei sobre elas aqui, a fim de não estender-me demais e, também, porque, afora algumas exceções, não foram amizades tão duradouras assim.
Mas, Pedro, este sim veio para ficar e tornou-se um grande amigo.
Com eles eu passava minhas madrugadas insones, alienado do mundo lá fora, conversando, brincando e filosofando.
Há pouco tempo, Pame, lendo minhas memórias, reclamou:
— Eu esperava que você fosse escrever mais coisas sobre nós Celso! Como os nossos ensaios. As noites de vinho e de violão! As loucuras que fazíamos naquelas madrugadas! E o Louco, o Rei de copas e o Rei de ouros, Lembra? Hoje sei quem são! — reclamou chateada por um site da internet.
E Pame estava certa, nos divertíamos muito naqueles tempos e nossas noites eram memoráveis, e peço desculpas a ela por não escrever o que vivemos juntos.
Infelizmente Pame, os dissabores foram maiores do que as alegrias, e as histórias que tentei relembrar ficaram cortadas em pedaços de filmes, incompletas.
Minha mente esgotou-se com tantos problemas e sentimentos explosivos e deu-me um branco total.
E hoje eu precisaria de sua ajuda para relembrar alguns fatos.
Espero que um dia, quando minhas memórias voltarem, eu abra um novo espaço para contar nossas histórias.
"Mas, Pame! Até hoje eu me lembro daquele "Louco".
Encasquetei com ele por muito tempo.
Ele tornou-se inesquecível para mim.
Agora sabemos quem ele é, não é mesmo?"


                                              Parte VI



Certa noite, Pame quis saber se o homem de sua vida ia aparecer.
Estávamos no cantinho conversando quando me pediu para jogar.
As cartas que tirei foram o "Louco" e o "4 de espadas".
Combinamos antes, não repetir a jogada..
Decidimos marcar estas cartas pela eternidade e não jogar mais.
Recordo-me de uma noite de verão em que estávamos sentados na entrada da portaria dos prédios das lojas, perto da calçada.
Momentos inesquecíveis em que me sentia flutuar.
O mundo cor de rosa, a lua cristalina, a noite explosiva, e as estrelas no céu.um desafio divino.
Momentos em que a companhia de Pame me fazia bem.
Passava da meia noite e trocávamos algumas idéias sobre as cartas que joguei.
Pame, impaciente, pede-me novamente a opinião.
Ansiosa por desvendar os mistérios do destino, queria saber se o seu príncipe encantado iria aparecer.
Eu, após exaustivas análises filosóficas, resolvi apostar no destino e dizer-lhe que sim, que ele ia aparecer.
— Então vamos esperar a confirmação. — disse-me Pame mais feliz.
"Do Rei de copas e do Rei de ouros, não me recordo Pame."
Pame tinha um grande amor por sua avó.
Um amor encantador.
Conheci poucos amores assim.
Emocionava-se quando ela vinha lhe ver.
Certo dia, faceira, disse-me que ela queria ler as cartas comigo, e que me pagaria bem pelas leituras.
Com minha aceitação, um pouco acanhado por cobrar, mas que Pame insistia para que eu aceitasse, marcamos a data da consulta.
E Pame, feliz, não resistiu.
— Deixa eu ler as cartas pra ela Celso!
Querendo agradar sua avó e testar os seus conhecimentos, pediu para fazer as leituras em meu lugar.
— Está bem Pame, eu deixo! Se você errar em alguma interpretação eu te ajudo.
— Tá bom!
No dia marcado as coisas corriam bem e Pame estava feliz.
Sua avó, muito simpática e jovial, também estava feliz por rever sua neta.
E se eu cheguei a perceber este querer, com certeza, esta senhora sabia bem melhor do que eu, do amor que Pame sentia por ela.
E a felicidade do encontro brilhavam em seus olhos.
E ela, igual a Pame, com seu temperamento forte e sincero, ia direto ao assunto.
Um dom hereditário.
Se haviam contradições nas leituras de Pame, ela argumentava, ajudando-a na interpretação.
Nesta época, sua avó estava namorando um senhor de sua idade, mas, apesar de seu otimismo, o romance não estava indo bem, eles brigavam muito.
Chegaram a quebrar o pau num bar depois de uma discussão — contou-me divertida.
Mas disse que gostava dele mesmo assim e não queria perdê-lo.
Fiquei incrédulo, mas Pame me confirmou depois.
Disse que sua avó era da pá virada, muito braba, e que apesar da idade, ela brigava de verdade, partia pra cima.
Coitado do velhinho, pensava eu.
Mas quem sabe era disso mesmo que ele gostava e precisava, vai entender estes homens.
Mas, agora, a sua maior preocupação era com a saúde, e este foi um dos principais motivos que a levaram a me procurar para jogar.
Pame, muito alegre, começou com as perguntas amenas.
E sua avó, quando a via insegura, incentivava-a na leitura.
Pame tinha uma boa percepção dos arquétipos do tarô e não me envolvi em suas leituras.
Mas no final, veio a pergunta preocupante.
Ela queria saber da saúde e se com o tratamento médico tudo correria bem.
Como nesta época, às vezes, eu jogava apenas com um Arcano Menor para cada questão, pedi à Pame que fizesse o mesmo.
Concentrada, Pame embaralhou as cartas e jogou uma sobre a mesa.
A decepção que se seguiu quebrou todo o encanto, destoou da alegria e chateou-me também.
A carta jogada sobre a mesa era o "três de espadas".
Pame olhou-me sem saber o que dizer, não acreditou.
Fez-me um sinal de desentendida.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, sem sabermos por onde começar.
O desenho desta carta era evidente demais.
Pame receou, e pressionando os lábios, com um sinal de cabeça, deixou-me as explicações.
Esta carta me surpreendeu.
Já sabia que ia sobrar pra mim.
Com a indecisão de Pame, minha mente trabalhou rápido na interpretação.
Mas, como nunca fui muito bom em pensar e decidir sob pressão, enrolei.
Pame olhava-me com uma expectativa temerosa, enquanto eu tentava amenizar.
Acabei falando o superficial, segui o manual, mas, hoje vejo que foi o justo.
Disse que a carta significava falta de clareza, dúvidas, etc... o que ela confirmou, dizendo-nos que fazia um tratamento de saúde, e que eles ainda estavam estudando o seu caso, não sabiam bem o que tinha.
A avó de Pame era muito inteligente e prática, e, pelo pouco que a conheci, uma pessoa otimista e jovial.
E, não querendo aprofundar mais a questão, talvez com um receio evidente do que eu fosse falar, ou para não me pressionar e acabar como a alegria do encontro com sua neta, sentindo a minha embromação, não quis me incomodar mais e mudamos de assunto.
Após este episódio, Pame ficou tão decepcionada com o tarô que acabou rejeitando-o por completo, e, com o tempo, a simples menção do fato deixava-a muito irritada.
Às vezes eu sentia que me culpava.
Decerto achava que me vangloriava com as leituras, o que não era bem verdade.
Contudo, à partir deste dia, meus conhecimentos, que no começo eram apenas "científicos" e os resultados predestinados e uma vitória pessoal, começaram a mudar.
Comecei a entender a gravidade e a responsabilidade de minhas previsões e a inexorabilidade de suas leituras, e mudei meu modo de agir, e inclui em minhas leituras o livre arbítrio, o respeito a vida e às pessoas.
Alguns anos depois, passeando por um shopping do bairro encontrei Pame e Felipe.
Pame deu-me a notícia gravemente e eu me calei.
Sua avó havia falecido.
Ela percebeu que eu voltava ao tempo, e não quis que eu comentasse o assunto.
Nós dois aprendemos muito com isso.
Esta episódio jamais vou esquecer.

                                               Parte final
 
Depois do V festival de rock de Porto Alegre, Felipe vinha até a loja para conversar.
Fizemos uma boa amizade.
E interiorizei uma dívida de gratidão com ele, pois sei como são os jovens.
Apesar de nossa grande diferença de idade, ele nunca me discriminou.
Tocou minha música com interesse.
E acredito que se divertiu também.
Felipe acolheu-me como amigo.
Sabia de meus conhecimentos musicais e cooperava e me respeitava.
E nunca, como é comum entre os músicos, sentiu-se superior a mim.
Tinha uma grande sensibilidade e criatividade também.
Um jovem muito educado e atencioso.
Sua participação no V festival nos gerou uma afinidade.
Ficou amigo de Beto.
Meus agradecimentos Felipe, por suportar dois velhos paranoicos em sua vida.
Dois homens que não viram o tempo passar.
Talvez alvo de alguns poucos catadores de preconceitos e de jovens defeituosos, e de pessoas de um outro mundo.
Eu e Beto sempre tivemos pouco a reclamar da vida, sempre fomos bem recebidos onde fomos tocar.
Num certo entardecer, numa de suas visitas a loja, Felipe propõem continuarmos os ensaios.
Agradeci sua oferta e a aceitei, pois já pensava em gravar outras composições.
Até aí tudo bem, mas agora vem uma história de amor.
Pame, em nossos encontros estava sempre presente.
Nesta época, eu e ela éramos inseparáveis.
Pame era a minha confidente.
Participávamos juntos dos enredos do dia a dia e de nossas preocupações.
Pame afiançava-me a segurança de sua lucidez e o apaziguante elixir de sua amizade e a sensatez para amainar minhas loucuras e compreender.
Ela acompanhava-me aos ensaios na casa de Felipe.
Estávamos sempre juntos quando Felipe vinha me visitar.
Eles já se conheciam do bairro.
Não percebi de imediato o que acontecia entre eles, mas hoje tenho a certeza que se enamoraram, quando, pelo destino, eu os aproximei.
E desconfio que o bobo da côrte fui eu.
E sempre tem um bobo em qualquer história, tanto faz se feliz ou infeliz.
Felipe era noivo, e a despeito de meus avisos para que Pame não se envolvesse com ele, a atração foi maior.
Com os ensaios na casa de Felipe fiquei amigo de sua mãe.
E, num destes sábados de ensaios à tarde, conheci sua noiva.
Estas reuniões eram amigáveis e pacíficas, sempre me receberam bem.
Depois, à revelia, a coisa pegou fogo.
O triângulo amoroso começou a ficar evidente.
A mãe de Felipe, atucanada, se indispôs comigo.
Entrei na confusão.
E eu que só queria ser amigos de todos, realizar meus sonhos, ter paz e viver com amor, fui envolvido sem querer.
Ela decerto achou que eu estava favorecendo a união dos dois, com segundas intenções.
Se eu tive alguma culpa, peço desculpas a ela, a ex-noiva de Felipe e a Deus, pois não sei como, nem quando se iniciou esse romance e nem como aconteceu.
Quando me dei por conta, os dois já estavam apaixonados.
Jamais olhei para além do meu nariz, e nunca me preocupei com os problemas dos outros, a não ser se me pedissem conselhos ou me envolvessem, e olhe lá.
E se conselhos fossem bons...
Assuntos pessoais não eram de minha conta, e eu fugia deles como o diabo foge da cruz.
E essa máxima eu levava para a vida.
Hoje orgulho-me de dizer que, apesar dos enredos, a verdade prevaleceu.
Apesar de todos os empecilhos, os dois acabaram se casando.
A ex-noiva de Felipe, para meu desconforto, começou a procurar-me na loja e ficou minha "amiga".
Cada entardecer no trabalho era um martírio.
Ela ficava sentada atrás do balcão da ferragem me esperando, ou melhor, esperando Felipe, porque depois disso ele nunca mais apareceu para me visitar.
Quando eu chegava, meu irmão me olhava com cara de mártir.
Nesta época eu chegava mais tarde na loja para fugir de suas choradeiras e não me incomodar.
Felipe e Pame, sensatos, sabendo que ela estava comigo, desapareciam.
Ela não aceitava a separação e sentia um ciúmes mortal de Pame.
Achei que fosse enlouquecer e que coisas mais graves pudessem acontecer.
Temi ser testemunha ocular de alguma desgraça.
Fiquei com pena dela, tenho que admitir, mas o que eu poderia fazer.
A mãe de Felipe gostava da ex-nora e não aceitava Pame de jeito nenhum.
Incluíram-me na enrascada, como se eu pudesse resolver a situação.
Foi uma grande confusão.
Elas estavam enlouquecidas.
No meio do tiroteio das loucuras apaixonadas, sobrou faíscas até para mim.
A mãe de Felipe e a ex-noiva, amarguradas, armaram a maior peleia.
A mãe dele ia na loja esbravejar contra Pame e me fazer sentir culpado pela separação dos dois.
Achava que eu favorecia esta união "indecente", como dizia.
Foi uma lástima presenciar cenas tão despropositadas e incoerentes como estas de sua mãe, sem nenhuma visão de futuro.
Mas bem que eu a avisei que um dia ela poderia se arrepender de seus atos.
Cheguei a insinuar que eles, se por acaso casassem e tivessem filhos, por sua intolerância, poderia perder os seus netos.
Mas, como nada dura para sempre, a verdade teve que ser aceita.
Felizmente, depois de alguns anos, Pame, para não conflitar mais com sua sogra e não afastá-la de seu filho e de seu neto, decidiu perdoá-la, e a paz foi estabelecida e a vida seguiu seu curso.
Depois de todas estas atribulações, com a volta do pessoal do grupo, os dois afastam-se definitivamente do meu convívio.
Atualmente moram juntos e tem um filho.
Moram em uma cidade vizinha a Porto Alegre e vão vivendo seus dias felizes.
Hoje em dia, Pame raríssimas vezes vem me visitar.
Acredito que com o passar do tempo não a verei mais, deixará de me procurar.
E viriam outros...

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