terça-feira, 9 de outubro de 2012

UM LUGAR TÉTRICO


     


Final do mês de maio de 2004.
Certa noite, lá pelas 4 h da madrugada, resolvi acompanhar Lucius até a sua casa.
Íamos bem devagar, aproveitando o tempo para conversarmos mais um pouco sobre o pessoal do grupo e tarô.
As cartas que debatíamos em mais uma destas noites mágicas e inesquecíveis, eram a TORRE com o OITO DE ESPADAS.
Cartas que, por sinal, tiramos para uma pessoa do grupo, um pouco antes de sairmos da loja.
Enquanto eu conversava com ele e com os anjos, repentinamente ele parou em frente a um prédio de três andares, um pouco antes da esquina e me disse:
— Espera aí meu!... Olha o prédio!... Tem alguma coisa estranha lá!... Acho que vi um vulto na cobertura! — e curioso, olhava para cima assustado.
Enquanto eu, sem foco, saboreando minhas doces questões filosóficas, parei calmamente e olhei para o terraço do tal prédio.
Lucius desviara-me a atenção e levei alguns segundos para aterrizar.
Mas, quando me concentrei para olhar, uma sensação negativa apoderou-se de mim e comecei a me arrepiar.
— O que é aquilo? — perguntou-me atucanado, olhando fixamente para o alto do prédio.
— Aquilo o quê? Não estou vendo nada!
— Eu vi um vulto lá em cima Celso! Tem um vulto lá em cima! — agitou-se ele.
E preocupado, não tirava os seus olhos de lá.
O pânico circulou rapidamente, e acima, em meu campo de visão, uma atmosfera sombria e pesada surgiu.
Lembro-me até hoje daquela tétrica visão.
— Aconteceu alguma coisa lá em cima Lucius! Tenho certeza disso! Acho que alguém morreu!
Uma grande opressão invadiu-me.
Veio-me uma absoluta certeza de que uma desgraça aconteceu, ou que aconteceria naquele lugar.
Arrepiei-me dos pés a cabeça e, com uma sensação fúnebre e maligna, polemizei:
 — Oh, meu! Acho que você viu a morte!
Eu sempre com esta mania de afirmar as coisas quando me arrepiava.
 Eu acreditava que estes arrepios me sintonizavam com o espiritual e confirmavam minhas intuições.
— Bah, meu! Tem certeza? — rebateu Lucius. — Será que não é alguém observando a gente?...
E com seus olhos questionadores, acredito que duvidando até de suas próprias explicações, polemizou:
— As cores que vejo são púrpuras e azuladas Celso! Não existe "morte" com estas cores!  — olhou-me desconfiado, como se me pedisse confirmação.
— Pois é, como posso saber? Eu nunca vi a morte antes... como vou saber? — respondi.
Depois de alguns minutos de inconsistentes e preocupantes divagações, como a negatividade aumentou, e como a sensação de medo e os arrepio não passavam, sugeri:
— É melhor a gente ir embora daqui Lucius! Pode sobrar pra nós! Vamos embora!
Dobramos rapidamente a esquina e descemos por uma rua toda arborizada e cheia de casas.
Durante o trajeto, sem ter muito o que fazer de nossas vidas, especulávamos sobre o que teria acontecido naquele lugar.
— Acho que vi a morte! —  insisti.
E expliquei:
— Uma vez eu tive uma sensação semelhante. Achei que uma pessoa ia morrer e depois de algum tempo ela morreu.
Incrédulo, Lucius ainda rebatia minhas afirmações:
— Mas será que era a morte mesmo, Celso? Quem sabe não era um espírito? Quem sabe não era alguém pedindo ajuda no astral?...
E renitente, afirmava:
— Acho que vi um vulto. Talvez a caracterização dos sentimentos ou o lado psíquico de alguém, que talvez estivesse mal ou a beira da morte, no último sopro de vida...
Um pouco antes do final da rua, à esquerda de quem vai, tem o centro de Umbanda Sol e Lua.
E seguíamos divagando sobre os possíveis desastres acontecidos com o pessoal daquela cobertura.
Queríamos comprovações, queríamos saber se nossas intuições estavam certas.
Lucius chegou a propor-me irmos até lá para conversarmos com os moradores da cobertura.
Queria confirmar se nossas intuições estavam certas, ou então avisá-los do perigo que corriam.
Lucius estava curioso, e eu também.
Ele atiçou-me e inflamou-me o ego e até pensei em ir, mas seria desnecessário dizer que àquela hora da madrugada, isto seria uma loucura.
Quando chegamos em frente ao centro de umbanda, eu parei e disse:
— Olha Lucius! Aqui tem um centro de umbanda!
— Bah, meu!...Só agora é que você viu! Você não sabia que tinha um centro de umbanda aqui?
— Não, nunca notei esta casa.
— Bah!..
Já perto de casa, Lucius, no mesmo instante em que eu parava para olhar um passarinho pulando no meio da rua, com medo, se desestabilizou novamente.
Quando o passarinho chegou perto de nós, ele sussurrou:
— Será que não é alguém!?
— Não, meu! Isto é só um passarinho! — respondi.
— Mas você não acha isso estranho Celso, um passarinho pulando no meio da rua a estas horas da noite!?
— É mesmo, nem tinha me dado conta disso. — disse eu.
— É muito estranho! Acho melhor a gente ir embora! — disse Lucius assustado.
— Tem razão, mas antes de irmos vê se você consegue enxergar a aura em torno dele, vê se tem alguma energia, alguma coisa viva, sei lá!!! — insisti eu.
Então, Lucius explicou-me:
— Eu sempre consigo ver a aura das coisas, mas não o espírito. Só que agora eu não estou vendo nada. Não tem nenhuma energia diferente ao redor dele. E eu não sei, eu nunca vi a aura de um passarinho antes. Acho melhor a gente ir embora!!! — disse-me medroso.
E o passarinho caminhando e pulando pelo calçamento de pedras, parecia não ter medo de nós.
Aí, eu falei tenso:
— E eu, que tenho que voltar para casa sozinho Lucius! Acho melhor eu ir indo embora daqui!
Lucius chispou e eu refiz o trajeto.
Passei rapidamente pelo centro de umbanda e pelo prédio mal assombrado sem sequer olhar para eles.
Ao cruzar a pracinha, perto do quartel da brigada, ao longe, uma tênue claridade anunciava o amanhecer e, num alívio, os fantasmas da madrugada eram deixados para trás.
Alguns anos depois, Lucius relembrando esta louca história, contou-me a impressão que lhe causei:
— Eu achei Celso, que você achou que eu estivesse viajando por achar que tinha uma pessoa lá na cobertura.

Nenhum comentário:

Postar um comentário