terça-feira, 9 de outubro de 2012

UMA LARVA ASTRAL



Certa noite, Peter, Vivian e eu, estávamos na loja sem ter o que fazer.
O pessoal do grupo não apareceu àquela noite e a loja, praticamente vazia, deixava-nos no marasmo.
Peter, quase na hora de fechar, sem ter o que fazer em casa, convidou-nos para ficar um pouco mais para conversar, na calmaria.
Sugeriu que aproveitássemos o tempo para colocarmos a conversa em dia, já que estávamos só nós três.
Vivian topou e convidou-me para beber uma cerveja.
Pegamos uma das mesas de ferro dobráveis e três cadeiras e as colocamos ao lado do balcão de tijolos à vista, de frente para um dos freezers de bebidas.
Deste modo eu poderia visualizar a porta de entrada da loja, controlando algum cliente que porventura entrasse àquele horário.
Enquanto eu buscava duas taças, já que Peter não bebia, Vivian pegava um latão de cerveja no freezer.
Tranquilamente acomodados, a conversa fluiu por aí.
O bar do lado trocara de dono e com o novo proprietário, o ambiente tornara-se insuportável.
O bar era frequentado quase que exclusivamente por bebuns.
A algazarra prolongava-se noite a dentro e os nossos clientes, assustados, evitavam o local.
Agora, para complicar ainda mais as coisas, apareceu um mendigo, que instalou-se no jardim em frente ao bar, com três cachorros vira latas, mas agressivos.
Com o tempo, os cachorros criavam o território e atacavam quem passasse pela frente.
Mas, como quase todos os cachorros, eles tinham lá suas preferências por determinados indivíduos, principalmente os que usavam boné, ou alguns bebuns, vai entender esses bichos.
Parece que se conheciam pelo cheiro.
Os desavisados, que passavam apressados pela calçada em frente ao jardim, eram atacados na certa.
Então, era uma zorra total.
Gente correndo pra cá, cachorro mordendo pra lá.
Aí sim, a coisa ficava feia.
Várias vezes, por displicência e arrogância do dono, temi pela morte de algum de seus cães.
Afinal de contas, o ser humano também é raivoso e tem lá os seus instintos.
Nossos clientes, receosos com os ataques dos cães e também com a clientela pouco amistosa ao lado, mudavam de direção.
Com isso, o movimento do nosso comércio caiu vertiginosamente.
Meu irmão e eu, de mãos amarradas, observávamos apreensivos e desgostosos a situação.
Como falei, as brigas e as gritarias eram constantes e incomodavam os moradores dos prédios vizinhos, que não conseguiam dormir direito.
No muquifo, era mulher batendo em homem, homem batendo em mulher e assim por diante, mas inacreditavelmente tudo terminava bem.
Fizeram várias reclamações.
Chamaram a polícia, reclamaram com a prefeitura, chamaram o órgão encarregado da proteção dos animais, etc, mas de nada adiantou.
As coisas continuavam na mesma.
E o pior de tudo era que o dono do bar bebia junto com seus clientes e, às vezes, chegava a ficar 48h aberto, sem fechar.
Inacreditável!
Mas para o nosso comércio, isto foi um pesadelo.
Comentávamos sobre este e outros assuntos, sossegadamente, quando num certo momento, enquanto Vivian bebia sua cerveja, uma surpresa.
Peter, que ouvia-nos calado, começou a olhar atentamente para a taça de Vivian.
Sem avisar, pegou a sua taça da mesa e aproximou-a dos olhos com curiosidade.
Imediatamente, Vivian e eu, também curiosos, paramos de falar.
Alguns segundos de suspense e Peter exclamou:
— Celso! Dá uma olhada aqui! — e apontou para a borda da taça.
— O que é? — perguntei.
— Olha e me diz o que você vê?
Peguei a taça e olhei para o lugar indicado, minuciosamente, até que percebi:
— Tem um bicho aqui!
Vivian, curiosa, aproximou-se para olhar.
— Que bicho é este? — peguntei a Peter.
— Não sei! Não consegui definir direito! Parece uma lacraia, uma lagosta, sei lá. — respondeu-me ele.
— Espera aí! Não mexe no copo! Vou buscar a lupa! — e saí apressado.
Com o auxílio da lente, vimos com exatidão, que o inseto formou seu desenho na borda superior da taça, à partir da espuma da cerveja que escorrera por ela.
O parasita tinha o corpo delgado, mais parecendo uma centopeia com duas grandes antenas.
Analisamos detidamente o desenho, não havia dúvidas.
Depois disso, Vivian, com nojo, parou de beber.
Cheguei a comentar com Peter o pouco que sabia sobre larvas astrais.
Contei um caso antigo de um amigo, que certa vez procurou uma casa de religião.
A mãe de santo, numa sessão, retirou as larvas astrais que estavam em seu corpo, usando uma espada mágica.
Deixamos o copo na estante, como estava, para que meu irmão, no outro dia, nos dissesse o que viu.
No outro dia à tarde, ao chegar na loja, comentei o fato com ele e mostrei-lhe o copo.
Ele olhou para o desenho, já quase apagado e, descrente, questionou:
— Não estou vendo nada!
— Olha bem! — disse eu.
— Não estou vendo nada parecido com um inseto aqui! Acho que foi impressão de vocês!
— Tem certeza? — tentei argumentar.
— Tenho! Eu não vejo nada! Só vejo algumas marcas de espuma, nada mais! Até pode ser um bicho, mas tem que ter muita imaginação. — e saiu sem dar trela.
Então peguei o copo desiludido e realmente vi que o desenho tinha se deteriorado, pouco restando do que tínhamos visto na noite anterior.
Como o meu irmão foi enfático e eu sem as provas, deixei o copo no lugar, antes de lavá-lo para outros usos. O assunto encerrou-se por ali. Quem mandou não tirar uma foto!

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