quarta-feira, 10 de outubro de 2012

OFERENDA DE AGRADECIMENTO





O princípio espiritual, para não fenecer, necessita manifestar-se em suas bases reais.
Como uma Imperatriz, teremos que satisfazer-lhe os desejos mundanos, se quisermos deixar o legado de sua existência e os ditames em sua vida terrena."

Celso Orsini.




Alguns dias depois das previsões de Hugo, Kátia ligou-me apreensiva.
E antes de dizer-me o assunto, já foi pressionando:
— Tio, o Hugo te pediu um favor! Eu sei que você não gosta de fazer estas coisas, mas vai ter que fazer! Ele me disse que é muito importante! Você vai ter que fazer! — exclamou enfática.
"Pronto, aí vem bomba." Pensei.
Perguntei preocupado:
— Que favor Kátia?
— Ele quer que você agradeça a entidade dele pelas previsões que ela te fez.
Pensei: "Ela fez por que quis, eu não pedi nada!"
— E o que ele quer que eu faça, Kátia?
— Ele pediu pra você levar uma garrafa de champanhe e uma taça, depois da meia noite, e colocá-las numa esquina qualquer. As entidades são assim, tio! Você tem que agradecer, senão as coisas não acontecem!
"Que saco!"
Tentei safar-me.
— Mas Kátia, aonde eu vou achar uma esquina deserta por aqui, o bairro é muito movimentado.
— Te vira tio! Pede pra alguém te ajudar! Acho que vale a pena, depois de tudo que ela te falou, né! Ah... e tem mais! Ele mandou dizer pra você não falar o nome dela, pra ninguém, viu? Ela não gosta!
"Mais essa ainda!"
Incomodei-me com o pedido de Hugo, pois nunca gostei de envolver-me com religiões, muito menos com entidades, e coagi-me com suas recomendações.
Fiquei receoso.
Eu ainda guardava algumas lembranças negativas do passado; mas, para não contraria-la, aceitei a tarefa.
Afinal de contas, como ela mesmo disse, era um preço pequeno à pagar pelas coisas que ele me previu.
Então, sem a quem recorrer, resolvi a contragosto, pedir auxílio a meu filho.
Não queria envolvê-lo em meus assuntos pessoais, com receio de que não gostasse ou me achasse supersticioso, mas sem outra alternativa, resolvi lhe pedir.
Mas para meu espanto, Daniel aceitou a tarefa sem questionar.
Saímos de casa depois da meia-noite, procurando um lugar para despacharmos a oferenda.
Por enquanto, o melhor lugar que encontramos estava situado a umas duas quadras dali.
Apesar de se localizar em frente a um grande shopping, o local estava deserto.
O bar da esquina estava fechado e passavam poucos carros pela via principal naquele horário, com a vantagem da rua lateral ser pouco iluminada.
Nos dirigimos ao local pela calçada oposta.
Enquanto estávamos indo, um grupo de jovens apareceu repentinamente na esquina.
Vieram da rua escura e pararam justamente em frente ao bar.
Daniel, desanimado, falou:
— Que azar pai! Pararam logo ali! Agora vamos ver se a entidade dele é forte mesmo. Se for, eles vão embora.
Esperamos por quase um minuto, mas como eles não faziam a menor menção de saírem dali, decidimos desistir e deixar a tarefa para um outro dia.
Ficamos sem graça.
Realmente era constrangedor ver duas pessoas paradas na calçada com uma sacolinha na mão aquela hora da madrugada.
Quando retornávamos para casa, desiludidos, Daniel olhou para trás e surpreendeu-se.
— Pai, eles estão indo embora! Não dá para acreditar!
Aproveitamos a chance e, antes que aparecesse alguém novamente, retornamos rapidamente ao local;  mas, agora, com uma estranha sensação.
Uma sensação de que a entidade de Hugo estivesse nos dando uma mãozinha.
A esquina ficou deserta para sempre.
Deixamos a garrafa e a taça de champanhe encima do muro baixo, acimentado, frente ao bar, e nos retiramos furtivamente.
No outro dia o inusitado, o sinal.
Sempre fui um bom ouvinte, mas um péssimo guardador de segredos, eis aí um grande defeito.
No outro dia eu comentava o fato com meu irmão.
Coincidentemente, no exato momento em que citava o nome da entidade de Hugo, um cliente deixava sua sacola de compras em cima do balcão.
Ouvimos um barulho de vidro quebrando e, boquiabertos, vimos um risco transversal rachando o balcão de vidro em toda sua extensão.
O cliente, pasmo, retirou lentamente sua sacola de cima do balcão de vidro, e falou o óbvio:
— Ué! O vidro rachou?!
Ele ficou com uma cara de réu.
Ora olhava para a sacola, ora para o vidro, tentando achar uma explicação plausível que o livrasse da culpa.
"Quem mandou ser pobre." Pensei.
— O que tem aí dentro da sacola? — perguntei.
— É um frango assado, que comprei na churrascaria aqui perto.
E amuado, entregou-se:
— De certo o vidro rachou com o calor?!
Meu irmão e eu nos olhamos incrédulos.
Estranhas coincidências.
Algum tempo depois, as previsões de Hugo se iniciaram.
E o vidro continua quebrado até hoje.

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