terça-feira, 9 de outubro de 2012
BEATRIZ
Aproximadamente um ano depois do rompimento de Samara com Adão, Adão começa a namorar Beatriz.
Beatriz era uma jovem muito bonita e tímida.
Tinha estatura baixa, olhos castanhos escuros, um sorriso meigo e uma delicada tez branca, que contrastava com seus longos cabelos pretos.
Nesta época, ela deveria ter seus 15 anos de idade, não mais do que isso.
Certo entardecer eu estava sozinho na loja atendendo os clientes, quando os dois entraram.
Adão, com seu longo sobretudo preto preferido e seu jeito aristocrático, cumprimentou-me com um leve aceno de cabeça.
Beatriz, enlaçada em seu braço, apenas me olhou.
Apesar da roupas dark de Isabel, eles formavam um belo casal, e até pareciam normais.
Ficaram de lado no balcão, um pouco afastados.
Achei que Adão viesse me ver, como às vezes fazia, para debater alguns conceitos de Cabala — mas enganei-me, o que realmente aconteceu foi totalmente inusitado e tétrico.
Quando o último cliente saiu, numa conspiração diabólica, Beatriz aproximou-se e segredou-me:
— Quero lhe mostrar umas coisas Celso.
Enquanto isso, atrapalhada, forçava o fecho de sua bolsa preta carregada de bugigangas, e eu me assustei.
O drama aconteceu silenciosamente; e ela, sem melindres, dispensou os cumprimentos formais e deixou-me em suspense.
A criança diabólica, realizada com suas façanhas, ansiosa para mostrar-me seus pertences, com um ar de quem fez diabruras, abriu sua bolsa.
Eu, já conhecendo as figurinhas, receei, e já me preparei psicologicamente para o pior, para alguma visão infernal.
Então, surpreendentemente, Beatriz tirou orgulhosamente de sua estufada bolsa preta um enorme crucifixo negro, com a imagem de um Cristo esculpido em metal prateado.
A imagem deveria ter seus 20 cm de altura por 18 cm de largura e uns 3 cm de espessura.
Então, veio a pergunta temida:
— Olha o que eu consegui Celso! O que você achou? — perguntou-me satisfeita.
Eu peguei o crucifixo, dei uma olhadinha rápida e o devolvi.
"Não acredito, não pode ser verdade!" — pensei.
Mas ao invés disso, respondi tranquilamente, como se fosse a coisa mais natural do mundo:
— Que legal! Onde você o conseguiu?
"Que pergunta mais idiota."
— No cemitério! — disse a perturbada criança. — E tenho mais coisas pra lhe mostrar! — e remexia rapidamente na bolsa.
"Que droga".
No momento em que ela vasculhava suas fúnebres quinquilharias, Adão, zeloso, observava o movimento da loja.
Enquanto isso, prazeirosamente, Isabel retirava um segundo crucifixo; este menor, de uns 10 cm de altura e totalmente prateado.
De repente, Adão, vigilante, cutucou-a pelo braço; um outro cliente entrava na loja.
Milagrosamente, graças a Deus, os dois crucifixos sumiram na bolsa.
Adão, esperto, notando o meu constrangimento, atento as minhas reações, entre os cuidados com sua fêmea, não tirava os seus olhos de mim.
"Quem mandou namorar uma guriazinha". Mas que ela é uma gatinha, isto sim, ela é!" — pensei, divertido, encantado com sua beleza juvenil.
E esta era a fraquezas do homem, a beleza e o poder da mulher.
E neste nosso mundo masculino à mulher tudo era perdoado.
Percebendo minha contrariedade, Adão arqueou suas sobrancelhas num ar impotente — não sei se envergonhado por Beatriz, ou por estar namorando ela.
Enquanto isso, orgulhosa, Beatriz, olhando-me faceira, afastou-se para o lado, deixando passagem para o cliente; mas continuou esperando-me no balcão, queria ouvir meus comentários, receber minha aprovação.
Depois que o cliente saiu, Adão, percebendo meu desconforto e minhas respostas evasivas as perguntas de Isabel, olhou para o seu relógio de pulso.
Puxando-a delicadamente pela braço, desculpou-se, dizendo-me que tinham outras coisas para fazer.
Isabel saiu dirigida por ele, olhando-me com cumplicidade.
Fui salvo pelo gongo.
A entrada do bendito cliente e a percepção de Adão, livraram-me do inconveniente de ver o restante dos troféus de Isabel.
E isto era uma coisa que me travava.
Eu não conseguia entender como alguém pudesse achar beleza nestas coisas tenebrosas.
Se ao menos ela se olhasse no espelho, com certeza viria muito mais beleza em si, do que naqueles horripilantes troféus.
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