terça-feira, 9 de outubro de 2012

KARLA

Karla sempre foi uma jovem afável e deixou saudades.
Uma amiga que deixou seu lugarzinho reservado em meu coração, e jamais vou esquecê-la.
Karla era noiva de Lucius.
Conheci-a no bar, nas vezes em que fui até lá.
Ela ajudava-o a atender os clientes, e assim ficamos amigos.
Karla sofria alguns preconceitos, pois usava aparelho auditivo e tinha uma certa dificuldade de dicção, mas era uma jovem bonita, muito simpática e educada.
Eles tinham a mesma idade e estavam sempre juntos.
Karla amava-o, mas cometia os erros da juventude, no que, inegavelmente, ele a ajudava.
Apesar de todos os dissabores por que passou, ela sempre amou as pessoas.
Nunca a ouvi falar mal de alguém do grupo com ciúmes ou desprezo.
Gostava do pessoal, especialmente de Tana, com quem seguidamente ia jogar cartas e aconselhar-se.
Muitas vezes, preocupei-me com a reação de Karla em relação a Samara.
Acreditava que num acesso de ciúmes ela pudesse brigar com Samara, por quem Lucius já olhava diferente.
Mas felizmente enganei-me, Karla sempre a respeitou.
Afinal de contas, Samara era apenas uma adolescente descobrindo o seu mundo novo.
Certa tarde, desabafei com Karla:
—  Eu queria lhe pedir um favor Karla, não brigue com ela, ela é apenas uma criança e eu gosto muito dela.
—  Eu também gosto dela, Celso! Não te preocupa! Eu sei que ela é uma criança e sei do amor que você tem por ela. — disse-me Karla, carinhosamente.
Sinto um pouco de saudades daquela época.
Saudades de Karla, de sua amizade, de sua ingenuidade e de sua atenção.
Mas o jovens são surpreendentes e Karla não era diferente.
Mesmo sabendo de minhas opiniões descrentes em demônios, vampiros e entidades espirituais, Karla não desistia e um dia veio me provocar.
Apesar de estudar cabala, jogar tarô e filosofar sobre ocultismo, eu era um céptico.
Para minha comodidade e tranquilidade, eu sempre tentava enquadrar o sobrenatural na parapsicologia.
Certa entardecer de um sábado, na porta dos fundos da ferragem, escondida de Lucius, Karla resolveu contar-me uma de suas experiências assustadoras.
E descreve:
— Eu e Pedro estávamos na casa de Lucius, praticando o ritual dos vampiros.
Aí, eu fiquei cansada e resolvi subir pro quarto pra dormir um pouco.
Quando cheguei lá, havia um homem morto na cama.
Ao menos ele parecia estar morto.
Eu me assustei e desci as escadas correndo.
Eu gritava feito louca, pedindo socorro, apavorada.
Quando eles vieram me socorrer, eu contei que tinha um homem morto lá encima.
Eles se apavoraram, mas mesmo assim resolveram subir pra ver o que estava acontecendo.
Quando chegamos lá, olhamos para a cama e não vimos ninguém.
A cama estava vazia Celso, bem limpinha e arrumadinha! Não tinha ninguém lá! Nenhum indício de quem quer que fosse!
Então, continuando com a minha narrativa.
Logicamente que depois deste dia, Karla, Lucius e Pedro, concluíram que os rituais estavam atraindo os espíritos malignos e ficando cada vez mais perigosos.
Isto foi um sinal para eles.
Era melhor parar os rituais, eles saíam de controle e atraiam os vampiros, que retornavam para sugar o sangue de suas vítimas.
E então, com muito medo, além de noiva, Karla tornou-se discípula e protegida de Lucius.
E agora, uma verdade ficou, os vampiros existiam realmente.
Karla contou-me esta estória com apreensão, pedindo-me que guardasse sigilo:
— Pelo amor de Deus, Celso! Não conta isso pra ninguém, muito menos pro Lucius! Por favor!  — pediu-me aflita.
Mas vendo minha ironia, revoltou-se:
— Se você não acredita em espíritos é porque nunca viu um! Se você visse o que eu vi, você acreditaria! Você ia ficar muito assustado! E, olha! — apontou-me o dedo, gesticulando. — Eu tô falando sério!
Mas eu brincava, dizendo que isso era coisa de sua mente. Que ela estava tendo alucinações. Que isto não existia.
Mas Karla era teimosa e afrontou-me:
— Ooolha Ceelso, não me provoca! Se você continuar a me desafiar eu vou chamar um deles aqui para você ver!
— Aqui? Na loja? — perguntei hesitante.
"Ihhh..."
— É!... Agora!... Tô te avisando, hein!... Não me provoca!
E dando-me uma rara oportunidade de escolha, confabulou:
— Mas se você quiser, eu invoco um vampiro aqui, mas não te aconselho a pedir!
— Por quê?  — questionei incrédulo.
— É muito perigoso. — disse-me baixinho, olhando rapidamente para trás e para os lados.
E insegura, entrou em pânico, recuando alguns passos, abalada.
Colocando o dedo na boca, desabafou:
— É horrível Celso! Eu tenho medo! Não me peça para fazer isso! Você não vai suportar! Estou te avisando, hein! Você vai ficar apavorado!
Karla estressou-se.
E eu, querendo demonstrar minhas teses, disfarcei meus receios antigos e a contrariei.
Aceitei o desafio.
Karla desconfiou.
Decerto, achou que eu estivesse blefando.
Então, repetiu baixinho, num tom quase ameaçador:
— Ooolha Ceelso, você não sabe o que é isso! É muito assustador! Eu tenho medo!
— Não te preocupa Karla. Eu te protejo. — falei convicto, mas por dentro eu estava receoso, mas queria ver até onde ela ia com esta estória de vampiros.
— Então feche as portas da loja que eu vou te mostrar! — falou decidida, irritada comigo, batendo com o pé direito no chão.
— Fechar a loja?!
— É!
—Tudo bem! — disse eu.
E dirigi-me corajosamente a uma das portas de entrada para fechá-la.
Karla, que olhava-me séria, um pouco brava, retraiu-se com minha decisão.
Ficou olhando-me desconfiada, sem acreditar que eu seguiria adiante.
Quando viu que eu não iria parar, a confusão instalou-se rapidamente em sua mente.
Titubeando com minha atitude, cedeu em suas convicções:
— É! Acho que você tem razão. Isso vem da minha mente. Essas coisas não existem, é loucura!... Mas eu tenho certeza que vi um homem morto lá encima, Celso. — insistiu pensativa, coçando o queixo, como se estivesse falando consigo mesma. — Mas agora, pensando bem, acho que foram eles que me induziram a vê-lo... É...foi isso... nós estávamos fazendo o ritual... aí, eu resolvi subir para descansar um pouco. Eles me avisaram para não ir lá. Me disseram que eu veria algo assustador. Mas mesmo assim eu fui.
— É!... É o que eu acho Karla! Você foi induzida! — e suspirei aliviado.
Karla, depois desse dia, triste e decepcionada com suas ilusões, colocou a dúvida em seu coração, e eu me tranquilizei.
Nunca mais voltamos a falar de vampiros.

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