terça-feira, 9 de outubro de 2012

UM PILOTO DE CAÇA



                                                        Parte I


Com a queda nas locações de filmes, resolvemos diversificar os negócios.
O aumento da pirataria no país e a possibilidade crescente de baixar filmes gratuitamente pela internet inviabilizaram o comércio.
Os altos custos dos filmes de lançamento e a queda crescente nas locações não compensavam mais o investimento.
Decidimos, por conseguinte, adicionar à vídeo locadora uma lan house.
Colocamos dois refrigeradores comerciais e outras conveniências.
Com isto, o movimento aumentou e o faturamento se equilibrou.
Inocência, daquele seu jeito, ainda morava comigo, mas apesar de eu estar feliz, as incomodações seguiam seu curso.
Nesta época, um jovem de seus 23 anos passou a ser um cliente rotineiro da loja.
Abel tinha estatura média, em torno de 1,70 m, magro, cabelos curtos e pretos e pele morena.
Um jovem simpático e muito comunicativo.
Sempre que utilizava os serviços da lan, gostava de conversar conosco.
Eu e meu irmão ouvíamos sua conversa fiada quase calados e, sem assunto, falávamos de coisas corriqueiras, sem importância.
Um dia, cedo da tarde, quando saia do quartinho, encontrei Vivian me esperando na lan.
Sentada à mesa conversava com Abel, enquanto ele teclava.
Sentei-me ao lado dela e participei da conversa que já estava animada, pareciam velhos amigos.
Não lembro-me do assunto, mas sei que rendeu.
Depois que Abel se aquietou um pouco, perguntei a Vivian sobre as previsões de tarô que lhe fizera noutro dia.
De tempos em tempos, enquanto ela retornava-me os acontecimentos, Abel intrometia-se na conversa.
Mas, como os jovens se identificam prontamente, não me importei.
Enxerido, perguntou se eu jogava tarô, tomando posição no assunto.
E de arrasto a conversa fluiu, e tudo começou por aí.
Nos dias seguintes, a mesma coisa.
Agora ele já sabia que eu estudava cabala e jogava tarô.
As coisas iam ficando mais fáceis pra ele.
Nestes tempos Vivian visitava-me regularmente e, como Abel era um cliente assíduo, entabulavam uma amizade rápida e superficial.
Com mais movimento na loja eu evitava ficar no "cantinho".
Enquanto Inocência ficava no quarto eu recebia meus amigos na lan, disponibilizando-me para ajudar meu irmão a atender os clientes.
Nestes dias e nesse meio-tempo, enquanto Abel teclava, ficava ouvindo nossas conversas discretamente.
Enquanto olhava os seus sites, o abelhudo ouvia a tudo.
Com o pessoal do grupo visitando-me diariamente, numa conversação agradável e bem humorada, foi fácil para ele entrosar-se com todos.
Inclusive fez amizade com meu filho, que seguidamente vinha dar assistência técnica aos computadores da lan.
Abel apresentou-se como filho de imigrantes judeus, e contou-nos que seu pai e sua mãe deixaram Israel para virem morar no Brasil.
E nesta conversa, expansivo, gostava de comentar suas peripécias.
Abel nasceu no Brasil, mas orgulhava-se de ser judeu.
Enaltecia-se de seu engajamento na força aérea daquele país, e de ajudar no passado seu país de coração na guerra contra os Palestinos.
À princípio, ninguém dava-lhe créditos, mas a brincadeira rendeu tanto que começou a adquirir contornos de realidade.
Só para constar, isto quer dizer que não se deve levar tudo na brincadeira.
E a estória começou por aí.


                                                        Parte II


Abel, bem jovem, alistou-se no consulado Israelense.
Aceito pela burocracia, prestou serviço militar em Israel e foi para a linha de frente defender o território judeu.
Contudo, com medo de perder a vida em combate, acovardado, decidiu voltar para o Brasil.
Voltou para fugir dos conflitos constantes nas fronteiras daquele país.
Lógico, que tudo isso foi contado com o tempo, porque ele não era bobo.
Mas com a facilidade de penetração em nosso meio e a indiferença do pessoal com suas estórias, ele achou que nós é que fossemos bobos.
Seguidamente levantava-se exaltado e chamava-nos temeroso,  mostrando-nos os sites árabes e antissemitas que agrediam-no "on line".
Certa vez, pareceu-me preocupado.
— Celso! Olha este site aqui!
— Que site é esse? — perguntei sem entender o idioma escrito na tela do computador.
— Este é um Sheik árabe! — levantou-se rapidamente da cadeira e, com o dedo apontado para o monitor, disse-me em frenesi:
— Eles estão me monitorando Celso. Estão me vigiando! Me acharam!
— Chi! Você conhece ele? — fiquei temeroso com a segurança da lan.
Já tinha visto pela televisão alguns ataques terroristas naquela região.
— Não! Mas já não é a primeira vez que ele entra para me amedrontar. Está me ameaçando! E agora, o que eu faço?
— Mas um Sheik? Por que ele vai te ameaçar? O que ele vai querer contigo? — estranhei.
— Não sei! Acho que me rastrearam. Eles tem um serviço secreto de contra espionagem no país que rastreia qualquer judeu que tenha sites pela internet...
— Ahhh! Te cuida, então!
Fora de minha alçada, desconversei, pedi um tempo e sai de fininho.
Outros dias, ele insistia com a mesma estória, sempre apontando o dedo para o computador, e dizendo aos quatro ventos que o Sheik não parava de ameaçá-lo.
Algumas vezes exclamava histericamente, demonstrando medo e parecia-me convincente.
Depois de algumas semanas acabou conhecendo o pessoal do grupo e ficou amigo de todos, enturmando-se na maior cara de pau.
Como já falei, fez amizade com meu filho, e depois com Amadeus, que era amigo de meu filho, e que na época vinha visitar-nos seguidamente.
Abel era bom de papo e um intrometido simpático e divertido com suas estórias.
Certa tarde, no cantinho, explicando a Peter minha dificuldade em entender a simbologia das letras hebraicas da cabala, ele sugeriu.
— Chama ele aqui Celso! Vamos ver se ele fala a verdade. Vamos ver se ele realmente é judeu. Pergunta pra ele! — e piscou-me o olho.
Peter já estava tão desconfiado quanto eu.
— Espera aí! — disse eu.
Abel estava teclando na lan house, conversando com o pessoal.
Fui chamá-lo.
Mas Abel era ladino, desconfiado.
Mal entrou e já deu uma olhadela rápida nas cartas que estavam sobre a mesa.
Sentou-se ao lado de Peter.
Quando lhe pedi algumas explicações sobre o alfabeto hebraico, ele desconversou.
Falou, falou e falou, e acabou nos enrolando, sem dizer nada com nada.
Apenas olhou para a letra "aleph" e pronunciou-a numa entonação convincente, e nós, leigos, tivemos que engolir o sapo.
Em vez de continuar com as explicações e seguir pronunciando as outras letras, safou-se com subterfúgios filosóficos.
Foi quando olhou para uma das cartas de tarô que estavam sobre a mesa — se não me engano foi o "carro" — e, prolixo, começou a descrever alguns de seus significados evidentes.
Mas Abel, como todo enrolador, gostava de enrolar e era muito simpático, e as coisas ficavam por aí.
Logo depois que ele saiu, Peter comentou.
— Viu só, Celso! Ele ficou enrolando, não falou nada com nada. Não sei, não! Não confio nesse cara! É melhor ficar de olho.
— Só me faltava essa! Mais um mentiroso no grupo. — respondi, incrédulo com as circunstâncias.


                                                        Parte III

Certa tarde, eu estava no "cantinho" quando Abel entrou.
Agora, as portas estavam sempre abertas para ele.
Ele passava o balcão e entrava nos recintos da loja quando quisesse, afinal de contas, já éramos amigos.
Esta tarde, vendo que eu estava sozinho, sentou-se a minha frente.
Educado, pediu minha permissão antes de começar a contar suas estórias.
Disse que prestara serviço militar em Israel, e que era piloto de caça:
— Eu gostava de lá, Celso. Apesar de tudo, Israel é um bom País pra se viver. Eu voltei porque fiquei com medo de entrar na guerra e morrer.
— É, realmente, as coisas andam confusas por lá! — falei sem convicção.
— É! Mas eu me senti no dever de ajudar meu País, por isso me alistei. Mas lá é muito perigoso! Lá, ninguém sabe quem é quem. Qualquer pessoa pode ser o inimigo...Tanto faz...Pode ser uma mulher, uma criança... Quando a gente menos espera pode levar um tiro, ser atacado de emboscada ou ser vítima de uma bomba terrorista. Não sei, não...eu fiquei com medo...é muito perigoso. Aqui é mais seguro, não tem guerra. Meus pais moram no centro oeste, numa cidade pequena e pacata. Eu vim para Porto Alegre procurar emprego. Enquanto isso estou morando com meu tio.
Contou-me que recebia um salário mensal de Israel pelos serviços prestados na força aérea daquele País.
— O salário é provisório, mas vai dar para terminar meus estudos.
— Que legal! — disse eu, sem perguntar o valor deste salário.
Abel diz empolado:
— Agora eu estou esperando ser chamado para o curso de mecânico de aeronaves da TAM.  Eu fiz a prova e passei.
— Você passou nas provas da TAM? — perguntei, perplexo.
— Passei! Só estou esperando ser chamado para a seleção final.
— Mas você tem algum conhecimento de mecânica de aviões Abel?
— Tenho! Fiz o curso em Israel. — respondeu-me prazeirosamente.
Por incrível que pareça, pela cara de otário que tenho, foi isto mesmo o que me contou.
Depois foi fácil.
Com a amizade de todos, começou a fazer parte da grande família.
A amizade com meu filho e seu amigo foi tanta, que saiam para as festas.
Abel fazia muita propaganda de seu narguilé, um objeto raro e precioso que trouxera de Israel.
Um dia, a pedido meu e de Peter, trouxe-o orgulhoso para mostrar-nos seu uso.
Então, algumas vezes, os dois passavam às tardes no "cantinho", fumando.
Eu até que experimentei o cachimbo de água e fumei algumas vezes, mas com outros afazeres e com Inocência por perto, deixá-os entretidos.

                                                         Parte IV

              

Certo Sábado, Beto e eu fomos tocar em Canoas.
O show de rock aconteceria num bar no centro da cidade e várias bandas estavam inscritas.
Inocência, infelizmente, apesar de eu convidá-la para o show, não quis ir.
Também não quis ficar na loja me esperando, resolveu ir dormir na casa de sua mãe.
Sorte a dela e a minha, senão a confusão teria sido ainda maior.
Provavelmente, no caso que contarei a seguir, todos a culpariam pelo acontecido, e injustiças seriam feitas, com certeza.
Beto veio me buscar na loja ao anoitecer.
Antes de sair — como sempre eu fazia para testar os arquétipos do tarô — tirei um par de cartas para comparar com os resultados da noite.
Saiu o EREMITA com o SEIS DE OUROS.
"Opa! Que coisa mais estranha! Um velhinho solitário segurando uma lâmpada olhando para o sucesso! O que significa isto?!" Pensei.
O seis de ouros me parecia uma carta simpática, muito favorável.
Mas o Eremita trazia-me indefinições.
O que será que este velhinho está fazendo parado ali?! O que está olhando?!
Será que alguém estará me observando?!...
Despedi-me do pessoal, prescrutando em buscas de pistas dos significados dos arquétipos do tarô.
Fiquei atento para não perder nenhuma oportunidade.
"Talvez fosse apenas mais uma noite solitária, sei lá.
Bem! Vamos ver no que vai dar."
Para poder me liberar, minha ex-esposa e meu filho ficaram trabalhando na loja.
O show de rock estava ótimo e seguiu madrugada a dentro.
Muitas bandas de cidades vizinhas revezaram-se pelo palco.
O público estava animado e o nosso Rock, com algumas músicas dos anos 60 e 70, agradou a plateia.
Depois de tocarmos, Beto, eu e o nosso baterista, que deslocara-se de Osório para o evento, ficamos ouvindo o som das outras bandas e conversando com alguns músicos no bar.
E, diga-se de passagem, nós éramos os mais velhos dentre eles, e nos reverenciavam por isto e pelo show.
Inquiriam-nos ansiosos.
Queriam saber como atingir suas metas profissionais e o tão almejado sucesso.
Três jovens músicos me cercaram e, como insistiam, dei minha opinião pessimista.
"No meu tempo nos pagavam para tocar. Nenhum profissional tocava de graça. A fiscalização era rígida. Hoje em dia não é mais assim, existe pouco espaço para os músicos. A música eletrônica tomou conta do mercado, obrigando muitos músicos a tocarem de graça para se sobressair. Um desperdício sem sentido, acredito eu. Assim vocês não vão conseguir nada. E afinal de contas, ninguém consegue viver sem dinheiro. Dificilmente alguém irá valorizar o trabalho de vocês assim. Eu e meus amigos tocamos de graça para nos divertir, e mesmo assim não acho correto. Em compensação, hoje vocês têm a mídia a disposição. Gravem uma música e tentem a sorte. Se não fizerem sucesso, gravem outra, é o único modo que conheço. Os shows virão depois.
O clube estava lotado e, com uma  recepção calorosa, acabamos ficando até o dia clarear.
No mesmo dia à tarde, a triste notícia.


                                                         Parte final

Mal cheguei na porta da ferragem, meu irmão, tenso, vem logo perguntando:
— Celso, você pegou o dinheiro das fitas?
Pronto! Quase enfartei.
Demorei para assimilar.
— Como assim? — perguntei.
— Eu fui pegar o dinheiro para trocar e encontrei a caixa vazia. — explicou-me em suspense.
Apressadamente me dirigi ao "cantinho" e olhei decepcionado para a caixa vazia.
— Quem fez isto? — perguntei abatido..
— Não sei! Eu pensei que tivesse sido você! Pensei que tivesse pego o dinheiro para esconder. Perguntei pro Daniel se entrou alguém aqui ontem. Ele disse que não. Que só ele, a mãe e Abel estavam aqui, e que ficou cuidando pra ele não entrar aqui.
— Então quem foi que pegou o dinheiro? Inocência não foi, porque depois que ela saiu, por sorte, eu conferi o dinheiro. — falei aliviado por tirá-la da encrenca.
Daqui a pouco chega o Daniel.
— Pai, o tio te contou o que aconteceu?
— Contou! — respondi chateado.
— Você tem alguma ideia de quem pegou o dinheiro? — perguntou Daniel.
— Não! Não tenho a mínima ideia! Sei que quando saí da loja o dinheiro estava ali Daniel, eu conferi.
Daniel confundiu-se:
— Mas não pode ser pai. Eu fiquei cuidando. Ninguém entrou aqui ontem a noite.
— É, mas alguém entrou, porque o dinheiro estava ali! — afirmei categórico.
— Que estranho! — Daniel ficou pensativo.
Repassando na memória a noite anterior, Daniel lembrou-se de um fato curioso:
— Ah! Só pode ser ele! Agora me lembro! Abel deixou a mochila no cantinho. Ele ficou o tempo todo comigo. Deve ter sido muito rápido. Não sei como ele conseguiu fazer isto, mas deve ter pego o dinheiro quando foi buscá-la. Nós combinamos sair pra balada depois que eu fechasse a loja. Um pouco antes de eu fechar, ele entrou no cantinho, mas voltou rápido. Disse que tinha ido buscar a mochila. Só pode ter sido ele, então! Que safado!
Aí, buscando pistas, indaguei:
— Como foi a noite Daniel? Você não notou nada de estranho no comportamento dele?
Daniel começou a rir:
— Não! Abel é uma figurinha pai. Ele estava numa boa. Eu o Amadeus pegávamos no pé dele todo o tempo. Ele é todo desajeitado, tem vergonha de chegar nas gurias. Ele saiu da festa bêbado, mal conseguia ficar em pé. Acho que não está acostumado a beber... Ah!.. Espera aí!.. Que malandro!.. Eu e o Amadeus estranhamos o comportamento dele. Assim que pedíamos as cervejas ele se oferecia para pagar. É isso aí! Quando vinha a conta, ele pagava tudo, não reclamava. Eu achei que estivesse fazendo isso para nos agradar, não me dei conta. Estranhei o comportamento dele. Ele não tem jeito de quem tem dinheiro, pai. Ele usa a lan house e fica devendo. Fica embromando pra pagar. Quem tem dinheiro não faz isso.
— Acho que vocês fizeram a festa com o nosso dinheiro, então! — brinquei.
— Mas que cara de pau! E nós achando que estávamos bebendo de graça. No fim, eram vocês que estavam pagando a conta. Mais que bichinho mais salafrário. — Disse Daniel sorrindo, divertindo-se com a sacanagem de Abel.
— Pelo menos, vocês se divertiram com o nosso dinheiro. Menos mal! Isto é sinal que nem tudo está perdido. O dinheiro foi gasto numa boa causa, então. — brinquei também..
Mas meu irmão não achava graça nenhuma na brincadeira e continuava sério.
Depois do susto e da aceitação da perda financeira e da quase certeza que o gatuno tinha sido Abel, ligamos para Amadeus.
Amadeus é advogado. E, como todo o advogado, é matreiro.
Sem nos contar, planejou um ardil.
No outro dia, quando Abel entrou na loja, eu chamei-o no "cantinho" para conversar:
— Oi Celso! O que houve? O Daniel me disse que você queria falar comigo. — olhou-me assustado.
Abel era muito assustado.
Mas hoje eu entendo porquê.
Quem deve teme.
— Quero! Senta aí! — concordei com a cabeça.
Abel tinha um  aparelho de dvd portátil que Amadeus queria comprar, então aproveitei a deixa para provocar:
— Amadeus quer falar contigo. Disse que é urgente. Pediu para você ir no escritório dele.
— Ué! Mas porque ele não vem aqui? Por que eu tenho que ir até lá?
— Não sei! Ele só me pediu pra te dizer isso! Quem sabe ele não quer comprar o teu dvd?
— Mas por que o meu dvd ia ser tão urgente?
— Não sei! Só estou dando o recado.
— Mas por que eu tenho que ir lá? Por que ele não vem aqui? Isso é muito estranho! — repetiu, levantando-se e recuando um passo.
— Eu também acho estranho Abel,  mas ele disse que o assunto era muito sério. — teatralizei.
— Não sei, não!.. Eu tenho medo... Eu não gosto destas coisas!.. Eu sou muito nervoso.
Abel parecia uma criança desamparada.
Achei sua formulação estranhíssima, sem nexo, e tive pena dele.
Mesmo assim continuei com a encenação:
— Medo de que?
— De nada! É que eu sou muito nervoso Celso! Não sei!.. Eu não gosto disso!.. — falava agoniado.
— É, mas ele insistiu pra você ir lá! Disse que o assunto é urgente, e é do teu interesse! — forcei.
Abel, confuso e reticente, concordou:
— Está bem, então! Eu vou! — e saiu, borocoxó.
No outro dia, Amadeus chegou na loja debochando.
— Peguei o safado! Ele confessou!
— O que você fez para ele confessar? — perguntei aliviado..
— Eu disse que tinha uma câmera de vídeo instalada no "cantinho e que ninguém sabia, só vocês. Disse que a câmera tinha filmado tudo. Se por acaso ele não devolvesse o dinheiro, eu encaminharia o vídeo para a polícia e pediria sua prisão. Ele caiu direitinho, confessou de primeira.
— Mas o que deu nele? por que ele roubou o dinheiro? O que ele te contou? — perguntei curioso.
Amadeus continua:
— Ele disse que ficou tentado. Achou que ninguém ia desconfiar e resolveu roubar. Fez isto porque queria sair conosco, mas estava sem dinheiro. Vê se pode! Disse que foi coisa do demônio e chorou. Agora, não quer perder a nossa amizade. Esta com vergonha de vir até aqui pedir desculpas para vocês. Não sabe o que dizer. Disse que vocês sempre o trataram com respeito e também não tem coragem de olhar para o pessoal.
— Que chato! Até sinto pena dele, se sujar por tão pouco! Ainda mais, roubar o nosso dinheiro para gastar com vocês numa festa, só para agradar! Que burrada! Que droga! — disse eu.
Amadeus divertia-se bastante com a história e, no final, o alívio foi geral.
Conclusão:
Amadeus, pelos serviços prestados, ficou com o dvd de Abel, e nos recebemos nosso dinheiro de volta em suaves prestações mensais.
Então, foi isto que o "Eremita com o seis de ouros" quis me avisar. Bem que eu desconfiei!

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