terça-feira, 9 de outubro de 2012
TIAGO
Tiago chegou na loja como um foragido.
Sozinho e desamparado veio procurar um pouco de conforto e tranquilidade.
Quando viu a multidão de amigos que me procuravam, se aproximou.
Tiago estava separado de sua esposa e morava provisoriamente com sua mãe, num apartamento próximo a loja.
Vindo de dois casamentos frustrados, desempregado e em péssimas condições financeiras, não achava paradeiro para sua vida.
Com a separação de sua segunda companheira, entrou em depressão, e, vitimado por tramoias, sem ler o que assinou, acabou perdendo judicialmente seus bens.
Transtornado com o divórcio, assinou documentos ao léu e perdeu tudo, inclusive a casa onde morava com ela.
Teve épocas de grande ascensão financeira, mas várias falências comerciais, ocasionadas por famigerados planos econômicos, agravaram seu casamento.
E sua última falência foi mortal.
Mas a vida de alguns homens são tristes assim, quando têm dinheiro as coisas andam bem, mas quando as dificuldades econômicas surgem, o amor acaba saindo pela porta dos fundos, fugindo que nem ladrão.
Restou seus três filhos, aos quais sempre foi muito apegado e dos quais nunca se separou.
Tiago chegou como um cão sem dono, lentamente.
Quando aproximava-se das lojas, parecia que duvidava entre entrar e ir embora.
Às vezes comprava um chocolate ou bebia um refrigerante.
Aproveitava a ocasião para conversava um pouco conosco, ou então ficava parado na calçada em frente as lojas, sem ter o que fazer.
Acredito que atraído pela quantidade de jovens que me procuravam, entabulou aproximação.
Ouvia nossas conversas ocultistas discretamente, disfarçando, como se estivesse olhando as mercadorias.
E em minha loja sempre foi assim, as amizades se forçavam e, se eu as aceitasse, elas ficavam.
Certo dia eu estava conversando com Samara no balção da ferragem, quando Tiago se aproximou de fininho e ficou.
Irritada com sua interferência silenciosa e indesejada em nossos assuntos, Samara explodiu e o intimou:
— O que você está fazendo aqui? O que você quer parado aí? Ninguém o chamou aqui!
— Vim falar com o Celso, ué! — gesticulou justificando-se acuado, encostado ao balcão.
— Falar o quê? Você vem todos os dias aqui e fica parado aí no balcão, xeretando! — O que você quer com o Celso? Não estou entendendo?!
Samara explodiu.
Fiquei surpreso com sua atitude, mas, apesar de um pouco envergonhado pela brusquidão e sutis insinuações, também curioso por saber a resposta de Tiago, calei-me.
— Ué, eu não posso vir aqui? Vim só pra conversar!... Ué! — respondeu ele, gesticulando os seus braços na defensiva, com um sorriso constrangido.
"Que situação mais ridícula", pensei.
"A vida, às vezes, é muito engraçada."
Eu, que eu já estava pagando para ver a confusão gerada por Samara, sorri por dentro — e depois que ele se foi, me diverti à beça com o estranhamento dos dois.
Tiago, constrangido, para se safar, olhando rapidamente para o relógio, como se tivesse um compromisso urgente, despediu-se.
Nesta época, Tiago estava com 48 anos de idade.
Estatura média, cabelos e olhos castanhos escuros, tinha o hábito de usar boné, o que se mostrava motivo de brincadeiras de minha parte.
Quando ele entrava na loja eu colocava o meu boné para o receber.
Muito reservado e educado, não gostava de se meter em confusão — ao menor sinal, dava um jeito de se escapar.
Com o passar do tempo, foi expondo-me suas preocupações.
Ouvindo minhas filosofias com o pessoal do grupo e avaliando minhas respostas às suas perguntas, acabou confiando em mim.
Com nossa amizade, Tiago, finalmente sentiu-se com coragem para pedir o meu auxílio.
Num certo dia ao entardecer, temeroso, desabafou:
— Celso, eu sou de religião. — parecia preocupado com minha reação. — E o que você diz entra em contradição com o que aprendi. Acho que você é a pessoa certa para me ajudar.
Não querendo expor-se ao grupo, afastamo-nos para o lugar mais reservado da loja.
No cantinho, Tiago comentou:
— Frequento uma casa de religião há muitos anos e fui iniciado, mas nunca me falaram o que você fala...
—Você tem uma entidade? — fiquei surpreso.
— Tenho! E é sobre isto que quero lhe falar, se não se importa, é claro?
— Claro que não, pode falar!
Isolados no "cantinho",Tiago contou-me sua história.
" Eu decidi me afastar da religião. Não acho certo frequentar os cultos por obrigação. Tenho que estar lá todos os fins de semana, mas alguma coisa me diz que isto não está certo, mas não consigo me libertar.
— O que está errado Tiago? Por que não consegue se libertar?
— A entidade não deixa! Mal fico um tempo sem ir as seções e ela já começa a se manifestar. Hoje estava em casa vendo televisão, quando de repente, ela se aproximou. Eu fiquei com medo, comecei a suar, tremer, perdi o controle. Não acho certo ter um protetor que me domine. Se ele está comigo é para me ajudar, não para me oprimir. Fiquei ouvindo você falar sobre isso e tenho certeza que fui mandado até aqui. Você é pessoa certa para me ajudar.
— Tudo bem Tiago, eu posso te ajudar; mas, antes, preciso saber de uma coisa muito importante. Você confia em mim?
— Claro que confio?
— Tem certeza? Eu preciso que você confie totalmente em mim?
— Eu confio, Celso!
— Bem, então aos poucos vou repassando os processos psicológicos do seu caso.... Em casa, quando acontecer de novo, lembre-se do que eu lhe falei e confie. Isso vai acabar, lhe prometo!
Após algumas explicações de como o ocultista percebem os processos psicológicos de incorporação, Tiago saiu mais tranquilo e confiante.
Depois disso, Tiago começou a frequentar a loja regularmente e nos tornamos bons amigos e, às vezes, até saíamos juntos para caminhar pelo bairro e conversar.
Na loja, ele conheceu Diana, uma cliente intrometida, por quem se enamorou.
Diana, tinha seus 32 anos de idade.
Uma morena muito bonita, cabelos compridos, muito simpática e extrovertida, com um filho adolescente muito problemático.
Mas...bem..., isto também já é uma outra história...
Diana também acabou ficando e participando, não do grupo, mas sim, agora, de uma coletividade de conhecidos.
Às vezes, eu sentia-me como um santo casamenteiro, tantas as uniões que aconteceram nos meus tempos de loja.
Hoje, Tiago refaz sua vida, tem planos para o futuro, um bom trabalho e está casado com Diana.
Convive em paz com sua entidade e está mais feliz.
Sinto que sempre seremos amigos.
Certa noite, no "cantinho", Tiago, pedindo minha assistência, invocou confiante sua entidade, no intuito de dirimir algumas dúvidas de Tana.
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