terça-feira, 9 de outubro de 2012
PEDRO
Como já falei, nesta época o pessoal do grupo passava os dias no bar do Lucius e algumas vezes vinham me visitar.
Sem ter com quem conversar, eu passava os meus dias solitários com Jorge.
Fora suas chatices, Jorge sempre foi uma companhia agradável.
Ele tinha suas neuroses, que me traziam uma certa inquietação, mas nada de tão grave que fosse realmente me preocupar.
Coisas de velho frustrado e mal amado, pensava eu.
Conversávamos sobre tudo, sobre qualquer trivialidade, mas principalmente sobre tarô e cabala.
Jorge gostava de relembrar o grande amor de sua vida, e de seu erro em deixá-la partir.
Muitas vezes eu me penalizava com suas histórias e entendia os seus choros e o seu erro em não assumir as consequências para ficar com ela.
Mas agora já era tarde demais para se lamentar, pois como ninguém fica para semente, ela já estava casada há muito tempo.
E sobravam tristezas e recordações de um amor impossível.
Algumas lembranças me ficaram desta época, outras apagaram-se de minhas memórias e perderam-se para sempre.
Muitas pessoas que entraram em minha vida neste período partiram sem deixar vestígios.
E nesses tempos, os interesses de alguns tornavam-se quase visíveis, e não me enganavam mais.
Porém, Pame e Pedro, aos poucos, me cativaram.
Pedro era amigo de Lucius.
Eu o conheci-o no bar de Lucius, quando ia comprar.
Lá nós ficávamos conversando um bom tempo.
Pedro gostava de contar suas histórias de vida.
E não sei bem como Lucius e Pedro se conheceram, sei que juntos participavam de alguns rituais mágicos com Karla.
Pedro valorizava muito sua amizade com Lucius, porém, agora, com o seu melhor amigo apaixonado por Samara, seus caminhos mudavam de rumo e sua amizade esvaiu-se.
Conheci Pedro um pouco antes de Pame, na época em que Lucius namorava Karla.
Nossa amizade, que era superficial, fortaleceu-se com o tempo.
Às vezes, como falei, quando ia ao bar do Lucius comprar, encontrava-o por lá e conversávamos um pouco.
Com minha amizade com Pame e seu afastamento de Lucius, Pedro começou a procurar-me na loja.
Ele acabou ficando e tornamo-nos grandes amigos.
Dentre os jovens que me procuravam, acredito que Pedro tenha sido o mais problemático.
Trazia consigo um passado infantil traumatizante, e fortes carências emocionais.
Além disso, com a morte de seu pai, ainda novo, separou-se de seus meios-irmãos do interior e veio morar com sua mãe em Porto Alegre.
À princípio, dedicou-se ao tarot, mas com o tempo resolveu desistir, perdeu o encantamento pelas cartas.
Estava cansado de tantas paranoias, como me dizia.
Certo tarde presenteou-me com o seu tarô de Waite, dizendo-me que não queria mais saber destas coisas.
Desabafou os seus traumas, dizendo-me que seu passado de vampiros e outras besteiras mais, afetaram-lhe o psicológico, e que agora estava tentando libertar-se de suas prisões.
Concordei com ele.
Afinal de contas de contas ele tinha razão.
Ele compreendera conscientemente os danos que sofrera com estas ilusões.
E o tarô, do modo como eu o ensinava, não o faria perder a razão.
Mas as suas psicopatias não o deixavam mais conciliar a realidade com suas ficções e decidiu parar.
Agora, ele queria dedicar-se aos estudos e ao trabalho.
No transcorrer do tempo, Pedro superou algumas de suas dificuldades, mas acabou arrumando outras.
Mas a vida sempre é assim, vivemos para buscar nossas oníricas felicidades e para as nossas atrapalhadas, que o destino se encarregou de trazer-nos para nos encalhar.
Contudo, Pedro esforçou-se ao máximo para conseguir o que conseguiu.
E conseguiu um bom emprego na faculdade e se formou.
Lutou muito por seus ideais, que acredito, não foram tão ideais assim, mas venceu.
Apesar de insatisfeito com seu trabalho e de ainda não ter se realizado profissionalmente, vai levando sua vida.
Continua com seus estudos e busca um salário melhor.
Depois desta década ficaram algumas mágoas entre nós, mas quero dizer-lhe que o respeito mesmo assim.
Tive que lutar por minha liberdade e por meu amor, e sei que um dia ele me compreenderá.
E apesar de minha indignação em um momento passageiro, Pedro foi uma pessoa muito importante em minha vida.
E apesar de tudo, vivemos uma vida juntos e isto não tem preço algum no mundo que possa pagar.
Posso ter sido estúpido com ele, mas foram insatisfações, coisas que brotaram de meu coração.
Algum tempo depois, não sei precisar quando, Peter retornou, trazendo consigo, Rodrigo e Samael.
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