terça-feira, 9 de outubro de 2012

EVELYN


Novembro de 2004

                                                            Introdução

Este dia, jamais esquecerei.
Cheguei a culpar Lucius por todos os aborrecimentos e constrangimentos que passei.
Enquanto escrevia  este conto, esforçando-me para relembrar as palavras ditas por Evelyn naquele clima de tensão, senti que alguma coisa escapou-me a compreensão.
Algo aconteceu naquela noite que me inquietou, e me vem uma inconsolável sensação de perda e um vazio em meu coração.
Admito que o insensível fui eu.
Faltou-me tranquilidade para discernir os fatos, e superar os meus medos e bloqueios ao vivenciar tais situações.
Evelyn não entrou em minha vida por acaso; mas, sim, para alertar-me.
Se trouxe consigo seus demônios, trouxe-os em passos ordenados pelo destino, e entre os seus demônios, estavam os meus.
O universo respondera-me a sua maneira e enviou-me os sinais, eis uma verdade que jamais deveria esquecer, mas que infelizmente, quando defrontei-me com o desconhecido de Evelyn, esqueci.
Quando nos purificamos, nos sensibilizamos para ver os símbolos que a natureza nos traz, e a magia encantadora do mundo reaparece, e os nossos fantasmas readquirem um novo valor.
Mas de uma coisa estou certo, depois deste dia, forcei-me a abrir uma porta que tanto evitei e, com uma nova visão, deslumbrei-me com seus horizontes.
Ainda haviam inumeráveis portas a serem abertas nesta árvore da vida, e em cada uma delas que abria ou que abriam para mim, eu sentia-me voar para o infinito do meu ser.
E por detrás daquela vida de medos e de consequentes preconceitos, que ensinaram-me a viver, e que me obscureciam a visão, e que deparei inútil, de uma luta desleal e desigual, havia uma beleza eterna, havia um tempo especial para nós.
Haviam outros caminhos à trilhar, haviam muitas coisas para se aprender e apreciar.
E não deveríamos aprender somente no sentido intelectual.
Deveríamos começar, isto sim, pelo sentido interior, espiritual de nossas vidas, que uma sociedade voltada para a competição, o consumismo e a vitória dos "melhores", não nos ensinou a procurar.
E quanto tempo perdido em buscas sem sentido, incompreensões e sofrimentos inúteis.
Deveríamos nos agraciar com estes tempos que jamais voltarão.
E quando falo em espiritualidade, não incluo aqui as religiões como a melhor opção para se espiritualizar, incluo, sim, esta felicidade suprema de nos amar e conhecer.
E Deus sempre está dentro de nós.
Afastaram-se os filósofos de nossas escolas, e  afastaram-os para nos desmerecer.
Abafaram-lhes as vozes, tiraram-lhes a importância, infelizmente.
Então, sem filósofos independentes de um curriculum escolar, deixaram-nos à deriva.
Não nos ensinaram a pensar, a questionar.
Nos acomodaram e direcionaram com professores pragmáticos, religiosos dogmáticos e políticos bem treinados, numa sociedade perfeita.
Às elites, todo o conhecimento; ao povo, nada.
E muitos sofrimentos do mundo seriam resolvidos com tão pouco.
Seriam simplesmente resolvidos com uma iluminação interior, com a liberdade de questionar os nossos valores.
Hoje agradeço a Deus por aprender, depois de haver perdido, mas a vida é sempre assim, aprendemos depois de haver perdido.
E Evelyn, por seus incoerentes e desastrosos caminhos, trouxe-me uma lição.
Trouxe-me à tona, através de manifestações oníricas, verdades do meu e do seu inconsciente.
E encantada e entronizada em sua perturbada lucidez e forte sensibilidade psíquica, envolveu-se mediunicamente em situações relativas ao meu meio, e previu-me algumas coisas em suas alusões.
E digo isto sem presunção de julgar os deuses imortais de nossos panteões, nem questionar os espíritos que vagueiam pelos esteios de nossas religiões.
Deus enviou-me ao mundo para ver e sentir e, eu, como um cego, medroso e insensível, não consegui ver nem sentir.
E eu, que sempre Lhe pedi que me iluminasse os caminhos e me libertasse das prisões, amedrontava-me e me prendia em outros mundos de ilusões.

E digo isto com um pesar.
E resmungo para todos os meus amores fracassados e para todos os enredos de minha vida, que nem sei como descrever o pesar pelas oportunidades que perdi e as dores inúteis que passei.
E digo à todos os contos de fadas que nutriram minha vida, bem vindo ao meu mundo encantado.
E agradeço a estes anjos fantasiosos como eu, que vieram me alegrar.
E entre os tempos, existe um espaço sem tempo, um lugar, um segredo, uma magia.
E se recusei-me a saborear mais aventuras em minha vida, foi porque encontrei e ouvi muitos insanos ingratos, mais loucos do que eu, descendentes de uma sociedade corrompida, que traziam-me seus preconceitos, desviavam-me com seus conceitos e impediam-me de viver.
Deveríamos nascer e viver entre os melhores, está seria a nossa dívida com Deus.
E se por ignorância perdi muitas oportunidades nesta vida; perdi, porque as perdi, e não as vou lamentar.
Tive que aprender a crescer com poucos mestres profissionais, sem alguém de grande sabedoria para me orientar.
A espécie humana é a única espécie que precisa aprender a viver.
Precisa conhecer e aceitar os seus instintos e os seus sentimentos para não se aviltar e não prejudicar a ninguém.
Enquanto eu olhava para fora, para este mundo fantástico e alucinante, esquecia-me de buscar minhas origens.
Gostaria de nascer outra vez, gostaria de amar mais uma vez e aproveitar, apreciar esta beleza eternizada em minha alma.
Gostaria de conhecer novos aromas, sentir estes ventos soprando uma nova canção, com uma nova iluminação, com uma sabedoria divina enebriante, mas talvez não nascesse neste lugar, talvez não suportasse ficar por aqui.
E, em minhas divagações, só restou-me questionar:
"Por que será que depois de tantos anos, ainda incomoda-me os fatos que vou narrar? Será que algo não compreendi? Será que algo ainda está para acontecer?"

                                                            Parte I

Certa vez, num tempo...
Conheci Evelyn através de Lucius.
Ela estava com seus 20 anos de idade e era uma jovem muito simpática e comunicativa.
Evelyn não era muito alta, acredito que em torno de 1,60 m, e seus cabelos pretos, longos e lisos, combinavam com seus grandes olhos castanhos escuros.
Tinha uma leve pinta na bochecha direita e um sorriso cativante e malicioso.
Lucius a conheceu no trabalho e, nas horas vagas, ele costumava jogar tarô para ela e seus colegas.
Ela dizia-se bruxa.
Eles não eram íntimos, e seus contatos resumiam-se praticamente às tarefas diárias na empresa onde trabalhavam e a algumas conversas superficiais sobre ocultismo.
Então, como Lucius falava muito de mim, Evelyn, curiosa, pediu-lhe que nos apresentasse.
E Lucius, que já andava um pouco afastado, procurou-me.
Um dia à tarde, no meio da conversa, expôs-me um pouco sem jeito:
— Celso, eu tenho uma amiga que é do "ramo" e quer te conhecer! E ai? Trago ou não?
— Não sei, Lucius. Tem muita gente aqui. Acho melhor não trazê-la. Nosso grupo já é grande demais. Tem gente demais aqui. Eu me atordoo. Não tenho tempo nem para pensar em mim, chega de confusão! Também já estou cansado de passar as madrugadas na loja. — questionei.
Mas Lucius insistiu e com uma certa ironia, tranquilizou-me:
— Não te preocupa Celso! Ela é uma guria bem legal, você vai gostar dela. Ela trabalha comigo e eu prometi que ia te apresentar...Me quebra esse galho?...
Mas como eu continuava em dúvida, Lucius arrematou:
Ela não é psicótica como as outras Celso, é bem mais velha! A gente fica um pouco e depois vamos embora, tá bom? Eu também quero ir dormir cedo, topa?
— Tem certeza de que é uma boa?
— Tenho, pode confiar em mim. Me quebra esse galho! Prometi que ia te apresentar.
— Está bem então! Mas olhe lá, hein!... Chega de confusão! — disse eu, ressabiado.
Lucius sorriu.

                                                             Parte II

Alguns dias depois do combinado, Lucius aparece na loja com Evelyn.
Chegaram numa bela noite de primavera, perto das 11 horas da noite, quando todos já haviam saído.
E nem sequer olhei para a fase da lua.
Após as apresentações, convidei-os para entrar.
No "cantinho", num ambiente esotérico e aconchegante as coisas fluíam melhor.
Lucius era um apreciador de vinhos, e com uma garrafa de vinho tinto que trouxe para confraternizar, as coisas melhoravam ainda mais.
Com minha atenção, Evelyn sentiu-se a vontade, e neste clima etéreo e de paz, desinibida, logo ambientou-se.
Sentada ao lado de Lucius, de frente para mim, Evelyn discorria animadamente sobre seus conhecimentos esotéricos, superficiais e bem a parte dos meus.
Continuávamos conversando e bebendo, quando, surpreendentemente, seus surtos começaram.
Sem solução de continuidade, Evelyn passou de um estado aparentemente normal, a um outro nível de consciência e delirou.
Tudo aconteceu rapidamente, num piscar de olhos, e pegou-nos de surpresa.
Incoerente, no meio do diálogo, Evelyn introduziu um assunto estranho, totalmente alienígena ao assunto que comentávamos, que nos desestabilizou.
E desandou:
— O destino me trouxe até aqui, Celso. Eu precisava te encontrar...Não se lembra de mim?... Você já me esqueceu?
E escorregando seus braços pela mesa de fórmica, debruçada, aproximou-se manhosa.
Seus olhos brilhavam.
— Não se lembra de mim?
Fiquei um pouco assustado com sua brusca alteração comportamental e, tentando me recompor, neguei ironicamente:
— Não!
“Aí vem bomba!" Pensei incrédulo.
"Mais uma louca."
Visivelmente transtornada, Evelyn, sem tirar os seus olhos dos meus, implorou-me perdão.

                                                             Parte III

E Evelyn falou:
— Eu sei que te fiz mal na outra vida Celso, mas foi sem querer. Eu não sabia que te magoaria tanto. Me desculpa pelo que fiz... Eu não sabia...Me perdoa.
E num desatino pesaroso, continuou o monólogo chorando:
— Foi Deus quem me mandou aqui. Você não pode imaginar o que eu sofri. Você não pode imaginar o quanto eu te procurei Celso. Achei que nunca mais fosse te ver... Depois de tudo o que eu te fiz, eu nunca mais fui feliz... Você sabia disso?... Você sabia disso Celso? — e seus olhos transbordavam de amor.
"Meu Deus do céu! O que é isso? O que eu faço? Que droga!" — aborreci-me.
E Evelyn olhando-me carinhosamente, após um breve pausa, insistiu:
— Preciso que você me perdoe!
— Perdoar o quê? — tentei me acalmar, e perguntei tentando ganhar tempo para assimilar os acontecimentos.
— Você sabe do que estou falando Celso, não precisa me negar.
— Mas eu não sei do que você está falando! — afirmei, perdido.
E Evelyn prescrutou-me, antes de continuar:
— Não se recorda?
— Não!
— Você já me esqueceu Celso?... Você já não se lembra mais de mim?... Você já não me ama mais?...Não me quer mais?...
E me apertou:
—Você não está querendo me enganar, não é?... Está? — olhou-me desconfiada.
Ainda debruçada sobre a mesa, deitou sua cabeça sobre seu braço esquerdo, olhando-me de lado, sedutora, mais parecendo uma gata embriagada ronronando.
E se insinuou melancólica:
— Você já me esqueceu?
E poucas vezes eu senti e conheci um amor assim.
"Como poderia ter ficado bêbada em tão pouco tempo?!" Pensei, desiludido.
E Evelyn, com languidez, me relembrou:
— Você foi meu mestre Celso.... Lembra?... Agora eu sei o que você passou.... o quanto eu te magoei...Eu não imaginava...eu não imaginava... Agora eu sei o quanto você me amou... agora eu entendi o teu sofrimento...entendi o que te fiz passar... me perdoa... finalmente te encontrei... Eu preciso do teu perdão... nunca mais fui feliz depois disso... Minha vida virou um inferno depois do que aconteceu...me perdoa... eu me arrependo muito pelo que fiz...e nunca mais vou te deixar. — e chorou copiosamente.
E eu divagava uma saída:
"As coisas estão ficando pretas para o meu lado! Como vou sair dessa enrascada?! E agora? Eu não merecia isto! Lucius me paga!”
Enquanto isso, Lucius, enervado e incapaz, levantou-se e se afastou um pouco de Evelyn.
Com seus trejeitos e sinais, envergonhado, olhava-me de trás, sem saber o que fazer.
Alguns dias depois do incidente, relembrando os fatos, Lucius comenta-me desanimado:
— Eu não sabia que ela era assim Celso. Se soubesse, não a traria aqui, te juro!  Ela era bem diferente, não sei o que aconteceu. Quando ela chegou aqui, ela mudou completamente. A guria enlouqueceu, ficou totalmente surtada!
Ele ficara tão surpreso quanto eu.


                                                            Parte IV

Mas, voltando a história...
Lucius, no momento do caos, também não soube como agir.
Tentando reordenar suas idéias, o espertinho saiu pela tangente.
Pediu um tempo e foi ao banheiro, deixando-me sozinho com ela, que não parava de repetir as mesmas coisas, até que se apagou!
Quando ele retornou, Evelyn estava debruçada sobre a mesa, desacordada!
Perdendo a calma, eu tive que reclamar:
— Você me trouxe mais um problema, Lucius! Onde você anda com a cabeça?!! Só me faltava essa!
Ele, coitado, de tão transtornado e chateado que ficou, com uma cara de réu, desculpou-se com veemência:
— Me desculpa Celso! Ela era uma guria bem legal! Não sei o que aconteceu! Eu não sabia que ela era assim! Se soubesse, não a teria trazido, juro! — e gesticulou abatido.
Logo em seguida, creio que para não me incomodar ainda mais, desacorçoado, a acordou.
Afagando seu ombro esquerdo, pediu carinhosamente que se levantasse.
Evelyn sonolenta resmungava, e com esforço tentava erguer sua cabeça.
Lucius tanto insistiu, que finalmente, a contragosto, ela se levantou.
Evelyn mal continha-se em pé, e não sei como conseguiu andar.
Abraçada a ele, totalmente grogue, se foram pela porta dos fundos até a locadora!
Neste ínterim, solitário no "cantinho", eu esperava que ela melhorasse e que as coisas se resolvessem rapidamente e da melhor maneira possível.
Fiquei a mercê dos acontecimentos.
Quando os lamentos de Evelyn cessaram, restou-me o sombrio e severo silêncio do ambiente.
O tempo escoando lentamente, uma grande expectativa.
Nenhum som vinha de lá.
E, ao longe, apenas aquele enervante e contrastante tic-tac do relógio de parede, que arrastado, já me soava de um modo sobrenatural.
Receoso, com maus pressentimentos, atucanei-me de vez.
Retraindo os músculos com tensão, mal conseguia controlar-me.
"Mas que droga!
Imaginava quanto tempo iria durar aquela bebedeira.
Afinal de contas, não havia nada que eu pudesse fazer, teria que esperar que ela melhorasse para poder ir para casa.
Para me acalmar, pensei até em chamar uma ambulância, caso piorasse.
Mas agora, a minha vontade era de ir até lá acabar com a paranoia!
Já estava quase a ponto de decidir, quando Evelyn, quebrando o silêncio, chamou-me imperativa:
— Celso! Vem cá!


                                                             Parte V


Evelyn, da outra sala, chamava-me ofegante:
— Não fuja Celso!... Você tem que me libertar!...
Ora provocativa, e num tom mais grave:
— Está com medo de mim?...
“ Não acredito que isto esteja acontecendo comigo!", pensei, ao mesmo tempo em que me desestabilizava emocionalmente.
E chamava-me aos berros:
— Ceeelso!!!! Vem cá!!!
Se ela continuasse assim, acordaria toda a vizinhança.
Novamente, num tom mais grave, aquela voz tétrica chamava-me autoritária:
— Vem aqui Celso!!!... Está fugindo de mim?...Está com medo de mim?...
"Me ferrei, não tenho como fugir", pensei apavorado.
Lucius estava calado, não ouvi sua voz desde que saiu da peça!
Com Evelyn descontrolada, sem parar de gritar e me chamar, me ferrei.
Após algumas divagações que não me levavam a lugar nenhum, sem a quem recorrer e sem saída, resolvi enfrentar a situação.
Mas a desgraceira foi geral.
Ao entrar na peça contígua, deparei-me com uma visão dos infernos.
Evelyn engatinhava em círculos pelo chão como se fosse um animal e, diga-se de passagem, de quatro patas.
Ao fechar seu circulo ao redor de duas prateleiras de vídeo, que ficavam no centro da loja, de costas uma  para a outra, ela parava com brusquidão e virava lentamente sua cabeça para trás, num ângulo de quase 180 graus, somente para fitar-me com aquele seu sorriso diabólico e zombeteiro.
Parei perto da porta, petrificado.
Num síncrono e gélido arrepio, que percorreu todo o meu corpo, uma onda de pavor invadiu-me.
Mal conseguia acreditar no que via.
Evelyn engatinhava em círculos, como um bicho.
Circulava rapidamente e a cada volta completa em torno das estantes, parava por alguns segundos para fixar novamente seus olhos demoníacos em mim.
Amedrontado, recuei imediatamente e retornei ao "cantinho", disposto a fugir do pesadelo.
Mas Evelyn não gostou de minha saída e irritou-se indignada.
Agora sim as coisas se complicavam, ela começava a gritar sem parar.
Em espaços intermitentes, histericamente, baixava sua voz para um tom arrastado e insistia:
— Ceeelso...vem cá!... Está com medo de mim!...
E a seguir berrava neurótica, estridente:
— Vem cá!!!...Vem cá!!!
E ao final, seu berro enlouquecia ainda mais, numa histeria descontrolada de uma mulher autoritária:
— VEM CÁAA!!!
E eu, sentado no "cantinho", acuado e sozinho, olhava apavorado para as portas laterais; uma aos fundos, no meu campo de visão, e a outra na frente, quase oculta pelas prateleiras, e para os dois corredores estreitos; o primeiro, à minha frente, e o segundo,  paralelo a este, ao lado das portas, todos cheios de mercadorias, os únicos lugares por onde ela poderia passar.
Tentei antecipar-me a situação e esforcei-me para readquirir o autocontrole.
Mas meu olhos não conseguiam observar todas estes espaços ao mesmo tempo, e meu corpo arrepiava-se e enrijecia-se constantemente.
O que eu faria se ela entrasse por uma das portas laterais e viesse rastejando por um dos corredores em minha direção?
Meu Deus do céu! Eu tinha que me controlar.

                                                              Parte VI

E a expectativa e o pânico foi grande
Desordenadamente, revisei mentalmente algumas teorias ocultistas sobre obsessões de espíritos.
Tentei buscar ajuda em Crowley, Dion Fortune, Levi, e sei lá mais em quem, e nada.
Me deu um branco total, esqueci-me de tudo, descontrolei-me.
Na prática, as coisas não funcionavam tão bem, os livros que se danem, custei a recuperar-me do susto.
Quando o silêncio voltou num tempo interminável, indignado, resolvi retornar corajoso.
Mas graças a Deus, quando entrei na locadora espiando apavorado, Evelyn, mais calma, estava sentada no chão.
Com sua mão estendida, num tom pungente, pedia-me perdão.
Lucius estava sentado no chão, encostado no balcão de atendimento.
Totalmente estressado, levantou-se abatido.
Aliviado com minha presença, correu para buscar um cobertor e colocou-o no chão, ao lado de Evelyn.
Sentei-me ao seu lado.
Segurando minhas mãos, ela insistia que nos conhecíamos de outra encarnação, e que eu tinha sido seu mestre em outra vida.
Sem parar de chorar, pedia-me perdão pelos erros do passado:
— Agora que eu te encontrei Celso, nunca mais vou te deixar. Você me perdoa?
E este amor suplicante me trouxe a razão e amoleceu meu coração.
Finalmente recomposto, aderi:
— Eu estou aqui Evelyn, não se preocupe, eu te perdoo!

                                                              Parte final

Evelyn, sem palavras, triste e indefesa, balançando a cabeça, agradeceu minha compreensão.
Finalmente, ela começou a compreender o absurdo da situação e voltava a si.
Desamparada e vulnerável, encolheu-se silenciosamente e parou de chorar.
Lucius, aliviado, pede carinhosamente a Evelyn que se levante:
— Vamos Evelyn, já é tarde, temos que ir embora. O Celso quer ir para casa, estamos atrapalhando.
Então, discretamente, aproveitando o momento, ele me fez um sinal para que saísse.
Retirei cuidadosamente minhas mãos das dela, que cedeu tristemente.
Já eram quase 5 horas da manha, quando finalmente saímos da loja.
Evelyn saiu cabisbaixa, escondendo o seu rosto.
Despedimos-nos na esquina e ela nem sequer me olhou, tampouco se despediu, mas me senti aliviado ao final.
No outro dia, peço a Lucius que não a traga mais.
Algum tempo depois, Lucius pede demissão do emprego e monta seu próprio negócio.
Um ano e meio após o ocorrido, Evelyn liga para ele, querendo marcar um encontro.
Comenta que tinha sido abandonada pelo namorado e que estava sem ninguém...
Lucius desculpou-se, alegando estar ocupado e sem tempo:
— Quem sabe uma outra vez Evelyn. —  disse ele.
Depois disso, perdeu o contato.
Hoje, em meus pensamentos, às vezes reencontro Evelyn.
Infelizmente, despreparado para as cenas que presenciei, não soube como agir.
Fui pego de surpresa.
Somente vi cenas como estas em filmes de terror.
Cenas muito parecidas com as do filme "O exorcista" de William P. Blatty.
Hoje vejo que interagi de modo irracional, o que serviu-me de lição.
E pego-me, anos depois, ainda me questionando:
— O que será que Evelyn quis me dizer? Por que me amedrontei tanto? Será que seu subconsciente quis alertar-me de algo? De possessões demoníacas talvez? De demônios vestidos de anjos? Quem sabe não seriam pessoas que teria que precaver-me? Deveria ter perguntado mais!
Algo escapou-me a razão.
Com meus medos e incompreensões jamais irei saber o que ela me fez em outra vida para ter me magoado tanto.
Hoje, sinto-me um pouco idiota e um frágil ser humano.
Apesar de meus esforços filosóficos e espirituais para tentar compreender o sobrenatural, eu ainda levava uma bagagem muito grande de superstições e temores.
A natureza fala por si, disse-me Mateus certa vez, e os sinais estão por toda parte.
Nós é que, como cegos, não conseguimos enxergar.
Hoje eu reverenciaria mais os fatos e não a despediria sem conhecê-la melhor.

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