quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O DESPERTAR





Quando o despertar chegou, certamente eu não sabia o que esperar, nem o que minha alma ansiava.
E eu ansiava por tantas coisas e, como todos, desejava ser feliz.
Mas, o que eu poderia esperar, se nestes tempos vazios eu caminhava perdido e sem fé, sem progredir, sem compreender.
O que poderia esperar do mundo, de minha vida, se eu não conhecia o meu Deus nem o que amava o meu coração.
E, ainda hoje, quando sinto-me triste e perdido, quando tudo parece desabar novamente sobre mim, recordo-me daquela invulgar sensação daquela noite de verão, daqueles poucos minutos de alucinação.
E dentre todos os momentos marcantes de minha vida, este foi, com certeza, o meu limiar interior, insano e indescritível como o foi, que conduziu-me por caminhos diferentes de todos aqueles que imaginei.
E das visões espirituais que eclodiram com o tempo, a que mais me espantou e emocionou, foi a grata surpresa e o supremo mistério de encontrar-me errante por aqui.

Celso Orsini



Tudo começou numa noite linda de verão, numa época crítica de minha vida.
Passava da meia-noite, não recordo o dia, sei apenas que era perto do Natal.
Nesta época de desesperanças eu não tinha mais com o que sonhar.
A vida tornara-se um fardo, uma rotina monótona, uma imposição de valores e preconceitos morais, acumulado de responsabilidades familiares e poucos lazeres pessoais.
Uma armadilha.
Envolvido em laços femininos perfumados e autoritários eu me sentia perdendo o valor.
Nestes tempos idos, aos 48 anos de idade, uma grande tristeza e terminal desilusão invadiram o meu coração.
Meu casamento, destruído por brigas constantes, falta de dinheiro e ciúmes exacerbados de minha cônjuge, ocasionados por conceitos arraigados e definições radicais contra a minha espécie, acabaram com minhas expectativas de felicidade e a realidade tornou-se fria.
Com tantas críticas femininas ao comportamento masculino, eu já não sabia mais como proceder.
Nascido num ambiente familiar de mulheres fortes e pouco flexíveis, eu sentia muito a falta de meu pai, que perdi aos 19 anos de idade.
E sempre soube que nos amou.
Mas agora eu chorava a sua falta e o vazio que me deixou e, tardiamente, com premência, eu necessitava de seus carinhos e conselhos, como homem e como pai, e a saudade vinha me acariciar.
Na verdade, em meus desalentos e desencantos, eu precisava de um dia só para mim.
Um dia em que pudesse resgatar minha identidade masculina que se perdia entre as Rainhas de Espadas.
Um dia que me respeitassem pelo que sou, por minha natureza, meus instintos e minhas opiniões.
Quando jovem, em minha fragilidade, sempre vi as mulheres como seres especiais, protetoras e maternais, e bem mais confiáveis sentimentalmente que os homens, e sempre as considerei como iguais.
Mas hoje, com minha idade e experiências de vida, muita coisa mudou.
Hoje percebo que não somos tão iguais assim.
Na verdade, somos bem diferentes.
Mas eis a beleza, a dualidade tentando se completar.
Para quem não sabe, Crowley, numa de suas cartas de tarô, através das pinturas de Frieda Harris, retratou sua Rainha de Espadas segurando em sua mão esquerda a cabeça decepada de um homem.
Com sua mão direita ela empunha uma espada abaixada em sinal de saciedade; e, ao alto, acima de sua cabeça, vemos o rosto de uma criança.
A Rainha de Espadas está sentada num trono entre as nuvens.
Certamente esta Rainha é uma psicopata assassina, pois além de cortar a cabeça do homem, ainda faz a criancinha presenciar a cena com candura celestial.
E nem vou filosofar sobre isso, que me dá arrepios.
Outros conceitos que me induzem esta Rainha poderosa, por não ser este o objetivo deste capítulo, não os comentarei por aqui.
Deixo, a seguir, algumas indicações de seu poder subentendidos em meu contexto, para a compreensão de pessoas bastante sensíveis ao meu divagar.
Mas, voltando ao assunto.
Após algumas desavenças corriqueiras, mas agora fatais, saí de casa para caminhar.
Era uma noite agradável de verão, próximo ao natal, e a rua estava deserta, tranquila, silenciosa.
Nesta noite de verão quase tudo estava perdido e o mundo nascia sem sentido e girava ao contrário do que sempre idealizei.
Nestes tempos eu andava muito deprimido.
Sempre fui um sonhador, um escapista do mundo "real", mas agora, suicida, estes sonhos antigos já não me acompanhavam mais.
Estórias de realizações que desejei e os sonhos infantis e juvenis que alegraram-me a alma e o coração e trouxeram-me a força para lutar, agora, definitivamente, perdiam-se por uma estrada escura e sem fim.
Mas Deus tem os seus desígnios e não me deixou cair.
De repente, a surpresa.
Quando atravessei a rua, na calçada oposta à esquina do meu prédio, no meio da quadra do outro lado da rua, um estalido estranho em minha cabeça.
Entrei em pânico, achei que fosse morrer.
Naquele instante o ritmo mudou, inacreditavelmente o tempo desacelerou.
Algo acontecia que me surpreendia e preocupava.
Meus sentidos alertavam-se assustados, observadores de um suspense total.
Impotente ante minhas inauditas reações, minha mente silenciou.
Um suspense.
Vi-me a andar em câmera lenta.
Junto a este fenômeno atemporal, o som de uma música romântica entrou em meu coração.
À princípio ela surgiu baixinho, depois aumentou o seu tom.
Sem entender o que estava acontecendo, olhei para trás.
Foi quando vi um carro aproximar-se vagarosamente, num tempo que escorria lentamente e, acredito, que através de seus potentes alto-falantes, a música tocava alta e em bom som.
E se fosse alguma música celestial, algum anjo a enviara para mim.
Desconfiei que fosse a voz de um cantor conhecido no Brasil e que a música se repetiria pela mídia. Mas hoje, depois de tanto tempo de expectativas, entendo que me enganei, pois nunca mais a ouvi tocar.
No mesmo instante, uma paz reconfortante surgiu.
No silêncio da noite, em passos vagarosos, a música invadiu minha alma:
— Você é o meus lábios de mel. — dizia-me ela.
E o refrão me repetia:
— Você é o meus lábios de mel... o meu amor... a pessoa que eu queria encontrar...
O carro aproximou-se lentamente, acompanhou-me por alguns segundos e, a seguir, demorou-se na esquina e partiu.
Partiu levando consigo a música que tocou o meu coração.
E tudo acontecia lentamente.
Querendo continuar a ouvir a música, forcei os meus passos, que não respondiam ao sinal.
E ao longe, o carro, num acentuado colorido de luzes, partiu lentamente.
E neste instante senti-me abandonado, entristecido, quase em desespero.
E no tempo que despertei, não sei precisar o tempo real.
E em vez de chorar, meu coração abriu-se como nunca se abrira antes.
Abriu-se para os cuidados e os sentimentos daquela criança ainda desconhecida que vivia dentro de mim.
Abriu-se para a compreensão de seu amor e de nossa união imortal, e o medo inicial cedeu lugar a euforia.
Extasiei-me.
— Você é os meus lábios de mel — dizia-me a criança. Você é a pessoa que eu queria encontrar...os meus lábios de mel... o meu amor...
A partir daí eu compreendi.
Sensivelmente o meu mundo começava a mudar para sempre.
Incrível a simplicidade destas palavras e a força com que me tocou.
Alguém me amava.
Alguém que estava dentro de mim me amava como nunca alguém me amou.
E esta criança dizia-me simplesmente que eu era os seus lábios de mel, a pessoa que ela queria encontrar.
E prosseguia num acalanto:
— Você é o meu amor Celso... eu te amo...
Então compreendi que o que sempre procurei lá fora, sempre esteve dentro de mim, chamando por mim, cuidando de mim.
E os sentimentos desta criança eram intensos e verdadeiros, admiráveis como jamais algum o foi.
Um amor excepcional.
Uma paixão imortal.
E finalmente compreendi que tudo o que eu vivi, eu vivi por ela.
Que tudo o que eu passei em minha vida aconteceu por sua vontade.
E que todos os caminhos que trilhei, nos desafios supremos de minha vida, na ilógica aparente de meu destino, nas tristezas e nas alegrias, ela sempre esteve ao meu lado.
E tínhamos vivido uma grande aventura juntos.
Tínhamos sofrido, brincado, amado, sido felizes.
Combinamos viver assim... até morrer.
Por sua espontaneidade sincera, deduzi que meu destino já estava traçado antes mesmo de eu nascer.
Ela dizia-me que viemos para brincar, nos divertir.
Que viemos para aproveitar nossa viagem até o fim, sem mágoas e rancor, que tudo já estava previsto.
Que viemos para correr os riscos desta louca aventura que é viver, aprender e não desistir.
Dizia-me como se tivesse uma grande sabedoria, uma sabedoria de tempos imemoriais:
— Não perca tempo! Vamos continuar... Vamos brincar.
E esta criança certamente não era somente deste tempo.
Sempre considerei-me um medroso, mas ela não me demostrava que o fosse.
Mas ela era uma criança "inconsequente", uma criança imortal.
E, também, se alguma coisa saísse errado, quem sofreria as dores seria eu, pensei.
E, num insight, percebi que levaríamos nossas lembranças por toda uma eternidade, num vínculo de amor indescritível, inseparáveis.
Eternamente juntos.
E esta criança irascível e sapeca, que nem se apresentou, sentada numa pedra enorme para o seu tamanho, batendo palmas, agitava-se feliz:
— Vamos, Celso! Não desista... está dando tudo certo até aqui... nós chegamos... vamos continuar... vamos brincar... Você é os meus lábios de mel... meu amor... Lembra?...
E este amor reconfortante, advindo de um êxtase espiritual, eu não o teria como explicar.
A seguir, em flashes, mostrou-me alguns momentos do passado.
E insistia:
— Viu só, Celso... era só uma brincadeira...não era nada a sério... nós estávamos só brincando... lembra?...
E recordando-me as pessoas que amei e que partiram deste mundo, ela pedia-me simplesmente para não desistir, que tudo foi um brincadeira.
— Elas já sabiam que iam morrer... tudo já estava programado... elas já sabiam o que ia acontecer... nós vencemos... vamos continuar... vamos brincar.
E no mesmo instante em que mostrou-me uma das cenas mais críticas e traumatizantes de minha vida, eu compreendi.
— Viu só Celso... aquilo foi perigoso... Que loucura!... Eu fiquei preocupado... torci por você. Mas nós vencemos... nós conseguimos...
E nesta cena fatal, que aconteceu num passado distante, ela olhava-me de algum ponto acima da cena, tensa, com suas mãozinhas apertadas uma nas outras, em expectativa.
E ela estava certa, nós já sabíamos o que ia acontecer.
Já sabíamos do risco desta viagem.
Nós todos  já sabíamos o que iria acontecer.
Instantaneamente o transe mudou.
Olhei para o vento e as árvores ao derredor e interagi com eles.
Vivíamos no mesmo mar, mergulhados no mesmo oceano.
E a distância, uma bonita e imensa árvore copada transmitia seus influxos para mim.
Então compreendi que esta árvore frondosa, intensamente bela e vulnerável, estava ali para nos proteger e alegrar, e que precisava de nossos cuidados e carinhos para sobreviver.
Amorosamente levantei minha mão esquerda e, estupefato, afaguei suas folhas
Em volta um ar denso, magnético, agitava-se; senti-me mergulhado em águas cristalinas.
Quando extasiado eu movia minhas mãos, as ondas geradas seguiam o seu curso e tocavam ao longe.
Após estes eventos o tempo voltou ao normal.
Dei a volta ao quarteirão e voltei para casa calado e feliz.
Reencontrara o meu "EU", mais antigo do que eu, que amava-me incondicional.
O "universo" mostrava-se a sua maneira, em novas dimensões, e o reencontro com o meu ser acalentava o meu coração.
Após isto, se seguiu uma semana de intensa alegria.
Dons surgiram e minha sensibilidade aumentou.
Eu captava os sentimentos dos outros apenas com o olhar, na empatia eu compreendia melhor suas aflições.
Uma semana de intensa euforia, amor e compaixão.
O tarô viria depois.
Num sábado, à tarde, resolvi entrar numa empobrecida igreja do bairro para agradecer os dons recebidos.
Estranhamente, na hora em que o padre oficializava a comunhão, algo nele chamou-me a atenção.
Minha intuição aflorava novamente.
Sua tristeza me incomodava e, para desviar-me de sua cruel realidade, saí antes do ofício terminar.
Ele precisava de ajuda.
Os eventos narrados acima nunca mais se repetiram.

Nenhum comentário:

Postar um comentário