terça-feira, 9 de outubro de 2012

REIKI



                                                        Parte I

Morgana tinha o arquétipo de mãe.
Acredito que supria sua falta de atributos físicos, com sua candura e simpatia.
Quando soube que eu estudava Cabala, não se interessou.
Chegou até a me criticar.
Insistia com seus velhos conselhos, que me incomodavam.
Sempre gostou de elogiar a minha intuição, para depois criticar-me os estudos.
Dizia-me, carinhosamente, que eu deveria desenvolver mais os meus dons, ao invés de ficar comprando livros e estudando Cabala.
Eu me chateava com sua argumentação e com sua presunção de sabedoria, mas calava-me polidamente, pois sempre fui assim.
E ela dizia que falava isto para o meu bem.
Em compensação, quando queria agradar-me, ou então, quando pressentia uma certa animosidade no ar, apaziguava-me com sua ternura.
Dizia-me que eu era a única pessoa em quem confiava para ler o tarô.
Talvez isto até tenha sido verdade, pois quando as coisa apertavam para o seu lado, bem que ela me procurava para ler as cartas e tirar suas dúvidas.
Morgana, através dos tempos, sempre me recriminou pelos estudos da Cabala.
E cheguei a pensar, pelo modo como se intrometia em meus assuntos espirituais, que talvez estivesse com ciúmes dos meus conhecimentos, sei lá.
Eu não entendia o porquê de suas controvérsias.
Morgana, às vezes, era muito estranha.
Ela escondia os seus conhecimentos, que dizia-me, orgulhosa, passava somente para os seus discípulos preferidos, e eu sentindo-me menosprezado, revidava, ocultando dela os meus.
E ficava uma disputa silenciosa, sem sentido algum para nós.
Coisas de adultos, pecados capitais de egos inflados.
Acredito que, sem entendimento, ela viu na Cabala um desafio intransponível, e acabou gerando uma aversão por ela e uma rixa comigo; e eu, orgulhoso, sentia-me interiormente um vencedor.
Certo dia, depois de algum tempo afastada, Morgana aparece na loja para me ver.
Cumprimentou-me com saudades.
— Oi Celso! Como vão as coisas por aqui? Quanto tempo! O que você anda fazendo da vida?
— Nada de diferente Morgana, tudo na mesma rotina!
Depois de colocarmos a conversa em dia, convidei-a para irmos até ao "cantinho" tomar um café.
E, neste dia eu sentia-me feliz em recebê-la.
Apesar de nossas desavenças Morgana era uma pessoa do meu tempo, com quem eu podia relembrar coisas do passado.
Morgana vivenciara tempos que eu vivenciei e me conhecia muito bem.
Sentados à mesa, ela me surpreendeu.
— Eu queria te fazer um convite, Celso! Depois de tudo o que fez por mim, o mínimo que posso fazer é lhe agradecer. Eu já lhe contei como aprendi o Reiki. Fiz o nível um, o dois e o três, com meus Mestres. Na época paguei caro pelos cursos, lembra?
— Lembro!
— No último curso de Reiki, passei um fim de semana inteiro de retiro no centro budista, sem fumar, foi um sacrifício! O Reiki é uma cura espiritual, Celso. Eu já lhe expliquei como funciona. A imposição da mãos, os chacras, os centros de energia....
 — Lembro!
 — Pois é! O curso foi caro, mas valeu a pena. Acho que agora eu tenho que retribuir para o cosmos o que recebi. Enquanto eu fazia o curso eu me lembrava de ti. Quando eu mais precisei, você meu ajudou. Sempre fui muito grata por isso. Sei que você é meu amigo e sabendo das suas dificuldades, resolvi lhe oferecer o curso de graça.
— Obrigado Morgana, nem sei como te agradecer! — e me emocionei.
— Não precisa me agradecer Celso! Você tem um dom raro, sempre lhe falei isso, apesar de achar que você desperdiça muito o teu tempo com estudos... Eu vou ensinar o Reiki "um" para Isabel, é bem fácil. Quem sabe você não aproveita a oportunidade e participa também? Depois, com o tempo, eu lhe ensino o nível dois e o três, tá bem?
Como eu continuava calado, pensativo, Morgana insistiu:
— Então, você quer fazer o curso ou não? Vão ser apenas duas pessoas, você e Isabel, uma senhora aqui do Bairro!
— Eu até aceito Morgana, mas você sabe que eu não fico muito tempo sem fumar!
— Até pensei nisso, Celso! Regina também comentou o fato, e não parávamos de rir.
Mas achei uma solução para o teu caso! O curso era pra durar um fim de semana, mas eu administro ele em uma noite, é por pouco tempo! Vê se dá um jeito de se controlar e ficar algumas horas sem fumar. Vale a pena, você vai gostar. E depois disso você vai poder ajudar outras pessoas. É muito gratificante. No curso, assumimos a responsabilidade de ajudar de vez em quando as pessoas necessitadas. Espero que você faça o mesmo, quando for necessário...
E Morgana, na minha relutância, pois nunca fui de respostas rápidas, convenceu-me.
Num outro dia, voltou para me confirmar a data do curso.
Morgana sempre gostou de mim.
              
                                                         Parte II

No dia marcado, à noite,  Morgana recebeu-nos em sua casa.
Depois das apresentações e de algumas conversas triviais, entregou-nos uma apostila explicativa do curso e contou-nos brevemente a história do Reiki e dos estudos do monge budista Mikao Usui.
Esclareceu-nos que após as aulas práticas, cada um de nós descreveria as sensações e o que veio a mente no momento dos exercícios, sem racionalizar.
A seguir, explicou-nos os procedimentos teóricos iniciais e fomos a prática.
Morgana colocou um CD de  Reiki, e explicou-nos que o tempo de impostação das mãos em cada chacra, seria sutilmente contado pelas variações musicais, em torno de 2 a 3 min.
A título de explicação, fez um terapia em mim, depois em Isabel.
Agora, seria a nossa vez de praticar.
Isabel foi a escolhida para fazer o Reiki em mim, depois seria a minha vez.
Após o término da sessão, ela comentou suas dificuldades com Morgana e tirou algumas dúvidas.
Morgana, solenemente, inquiriu Isabel:
— Você sentiu alguma coisa diferente no Celso, enquanto fazia o Reiki? Você tem alguma coisa que queira nos dizer?
— Não! Eu não senti nada de diferente nele. Senti apenas algumas variações de energia nas mãos em alguns pontos de seu corpo e uma paz muito grande.
Eu suspirei aliviado com a frase: Uma paz muito grande.
"Logo eu, um neurótico! Será que ela não se enganou?!"
Mas realmente nesta noite eu estava em paz, numa paz feliz, não sei o porquê?! Talvez por me amar de vez em quando.
Mas vamos lá! Agora era a minha vez.
Eu já estava preocupado com o tempo de duração do reiki.
Eu teria que ficar imóvel por muito tempo, com as mãos paradas em cada posição, e já antecipava uma certa ansiedade.
Eu não gostava de ficar muito tempo parado no mesmo lugar, me sentia desconfortável, ainda mais sem fumar.
E antes de começar, lavei minhas mãos novamente, pois se Isabel sentisse o cheiro de cigarro, provavelmente se viciaria também.
Precavi-me, lavando-as bem antes de começar, mas acho que o cheiro já estava impregnado, azar.
Mas chega de paranoia.
Iniciei a sessão pelo chacra coronário, conforme instruções de Morgana.
Contudo, a medida que prosseguia, fui relaxando e me concentrando no que fazia.
Morgana orientava-me nas mudanças de posição das mãos, conforme as variações da música.
Tudo corria bem, mas a partir de um certo momento, sensações estranhas me perturbaram.
Quando terminei de fazer o Reiki em Isabel, saí confuso.
Morgana, mais descontraída, ainda no quarto, perguntou-me o que eu tinha sentido e se tinha gostado do curso.
— Eu gostei Morgana! Achei muito legal!
— E qual foi a tua impressão Celso? O que você tem a nos dizer?
— Nada! Correu tudo bem, Morgana! — E, como pretexto, pedi um tempo e fui ao banheiro pensar se falaria das minhas intuições.
Tempo perdido.
Quando voltei, Morgana olhava-me desconfiada.
— E daí, Celso? — insistiu ela.
— Está tudo bem!
Mas Morgana me conhecia.
Enquanto voltávamos para a sala, ela olhava-me de lado, séria.
Após uma conversa descontraída e algumas brincadeiras, Morgana, sentada numa das poltronas do sofá, repentinamente, olhou-me com cara de braba e me intimou:
— E daí Celso? Você ainda não falou o que sentiu? Eu te conheço muito bem! Nós combinamos que cada um de vocês diria o que sentiu. E daí? O que você tem para nos falar?
 — Bah...Morgana! Eu não sei... tenho vergonha de falar.
E Morgana ficou meiga.
— Não precisa se envergonhar Celso! Pode falar... por mais ridículo que seja. Nós estamos aqui para isso, não é mesmo? Fala o que você sentiu, mesmo que esteja errado.
— Mas é sem sentido, Morgana...
— Fala!  — exaltou-se.
Então, sem graça, comentei:
— Não tem nada a ver o que eu senti!... Vocês vão rir de mim...é besteira!
— Nós estamos aqui para aprender, não é mesmo? Se você não falar, eu não tenho como avaliar o meu trabalho. — insistiu Morgana com seu jeito maternal, quase irritando-se novamente.
As duas olhavam-me em suspense.
Fiquei enrolando mais um pouco, pensando em como falaria o que senti.
Morgana estava confortável no sofá como se estivesse com todo o tempo do mundo.
Então, com aquela velha sensação temperamental de um ego afrontado, irritado, decidi me expor:
— Achei estranho Morgana, mas quando coloquei uma das mãos no chacra cardíaco e a outra no plexo solar de Isabel, tive uma sensação esquisita.
Uma voz soprava na minha mente:
— Minha filhinha... eu estou aqui... eu nunca te abandonei... eu jamais vou te deixar... estou sempre contigo... eu te amo... minha filhinha...
"Pronto, falei o que tinha para falar, azar."
E Isabel, que não tirava os seus olhos de mim, começou a chorar.
Morgana e eu ficamos perplexos.
Quando Isabel se recuperou das emoções, desabafou incontida:
— Minha mãe me deixou num orfanato quando eu tinha sete anos de idade Celso. Depois disso, nunca mais tive notícias dela. Quando fiquei adulta, fui descobrir o seu paradeiro. Voltei ao orfanato de freiras para tentar localizá-la, queria saber por que ela me abandonou. Depois de pesquisarem o meu histórico, me informaram que minha mãe já havia falecido. Me disseram que ela me abandonou por que não teve condições de me sustentar, que não tinha sido culpa dela, e que ela me amava muito.
Desalentada, Isabel desabafou tristemente:
— Meus avós não aceitaram a gravidez, e quando nasci, me rejeitaram, por puro preconceito, e ela, sem condições de me sustentar, teve que me abandonar. Minha mãe não era casada e meu pai não quis me assumir.
Morgana e eu ouvíamos calados.
Isabel continua:
— Obrigado, Celso! Eu nem sei como lhe agradecer! Era isso que eu precisava ouvir. Passo por este sofrimento e por esta tristeza por toda a minha vida. Nunca aceitei o que aconteceu. Nunca mais consegui ser feliz depois disso. Eu tento superar o meu sofrimento, porque sei que meu marido e os meus filhos precisam de mim, e  também sofrem muito com isso.
— Quem sabe o espírito de sua mãe veio se comunicar com você? — falei eu.
Isabel arregalou os olhos.
Morgana interrompeu-me rapidamente e censurou-me irritada:
— Eu já não falei que isto não é um centro espírita. Já não lhe falei sobre isso antes, Celso! O Reiki não lida com espíritos! O Reiki é uma terapia oriental, uma cura espiritual.
Então Morgana silenciou e, com um olhar enviesado, desconfiada, perguntou-me outra vez:
— E você ainda tem alguma coisa a mais para nos falar, Celso?
Morgana, com esse olhar que eu tanto conhecia, me incentivou, e agora, mais confiante com a minha intuição,  perceptiva, sorria para mim.
Comentei minha segunda impressão:
— Tem mais uma coisa que me intrigou, Morgana. Quando coloquei as mãos nos joelhos de Isabel, veio-me a mente as seguintes palavras:
— Eu agora estou forte...me sinto bem... posso trabalhar. Só isso!
Morgana desvia rapidamente o olhar para Isabel, que confirma emocionada.
— Eu fiz uma cirurgia nos joelhos há 6 meses atrás, Morgana. Agora me sinto bem, posso caminhar. Não sinto mais dores, posso trabalhar. Me sinto mais forte, bem como o Celso falou.
— Você tem problema nos joelhos há muito tempo Isabel? — perguntei.
— Sim, há anos. Esta foi a minha segunda operação. A primeira cirurgia não deu certo, mas esta foi bem sucedida, não sinto mais dor.
Isabel, agora mais calma e reconfortada com minhas palavras, desabafou seus problemas familiares e de saúde por um bom tempo, quando depois, Morgana finalizou o curso com algumas recomendações.
Já na porta, quando nos despedíamos, Morgana me elogiou.
— Eu sempre soube que você tinha o dom Celso, e nunca me enganei. Confia mais em ti!
Abraçou-me carinhosamente e com um beijo na face, nos despedimos.
Acompanhei Isabel por uma boa parte do caminho, ouvindo-a emocionada falar de sua mãe.
Agradecia-me constantemente, dizendo-me que daqui para frente a sua vida iria mudar.
— Você me tirou um grande peso da consciência Celso, nem sei como te agradecer. Meu marido e meus filhos nem vão acreditar.
Então, na esquina de sua rua, despediu-se com um forte abraço emocionado.
Depois disso, nunca mais a vi.
Isabel era uma mulher de meia idade, alta, de compleição forte.
Pareceu-me de origem alemã, devido aos seus cabelos loiros e olhos esverdeados.
Durante o trajeto, sempre muito educada e reservada, comentou-me somente os fatos acontecidos no curso.
Os sentimentos de amor que recebi de sua mãe, enquanto aplicava-lhe o Reiki, foram muito fortes e desconcertantes.
E isto, tornou-se inesquecível para mim.

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