terça-feira, 9 de outubro de 2012

A ESTRELA COM 10 DE ESPADAS



     



                                       UM PRESSENTIMENTO RUIM.

Tudo começou num mês de Janeiro, de um verão muito quente em Porto Alegre.
Beto e eu tocávamos numa banda de Rock, e os ensaios eram realizados quase sempre aos sábados à noite em sua casa em Canoas, com exceção dos meses de Janeiro e Fevereiro, época de férias, quando a maioria do pessoal deslocava-se para o litoral.
Num destes sábados de Janeiro, numa época em que eu começava a conhecer Tana, Samara e Dimitrys, Beto, sem ter o que fazer fim de semana, me ligou.
— E aí Celso? Não quer dar um passadinha por aqui? Estou sozinho em casa. Não tenho nada para fazer hoje à noite. Deixei minha família na praia e voltei para trabalhar. Quem sabe não aproveitamos o tempo para descontrair um pouco e ensaiar? Topa?
— À que horas?
— Assim que você se liberar daí vem pra cá! Vou comprar uma garrafa de martíni pra nós, tá legal?
— Tá legal!...
Cheguei na casa de Beto lá pelas oito horas da noite, e ele, como o prometido, esperava-me com uma garrafa de martíni.
Ficamos bebendo e jogando conversa fora, conversando fiado por algum tempo, falando de nossas vidas.
Depois, afinamos as guitarras e fomos tocar.
Ele na guitarra e eu no contrabaixo.
Hoje nós estávamos mais decididos que o normal... mais objetivos.
Devido a inconstância de nossos parceiros musicais, decidimos: Se eles não nos acompanhassem aos shows, por qualquer motivo que fosse, iriamos tocar sozinhos.
Beto e eu tínhamos uma grande afinidade musical, tocávamos juntos desde a adolescência.
E naquela época de bandas, vivíamos rixas ocultas com músicos que queriam ser estrelinhas e não se importavam com os sonhos de seus parceiros.
Beto tinha o desejo de cantar, e eu de divulgar minhas canções.
Tocamos algumas músicas, quando visivelmente cansado, ele parou.
Beto nunca foi assim, nunca o vi tão abatido e preocupado nos ensaios, estranhei o seu comportamento.
— Celso! Você não está sentindo uma certa negatividade no ar? Tem alguma coisa errada?!
— Como assim?
— Tem alguma coisa estranha no ar! Não sei como te explicar. Você não está sentindo? Parece que o ar está carregado! — falou ele.
— Não estou sentindo nada. Só estou um pouco cansado. Fez muito calor hoje!
E Beto, que sempre foi um brincalhão, hoje estava sério.
— Tenho a sensação de que alguma coisa ruim vai acontecer, Celso! Não sei como te explicar...Tem alguma coisa errada.
Pronto! Esta foi a deixa! Sua intuição foi mortal.
Preocupei-me.
Sugestionado, estressei-me, e comecei a ter um mau pressentimento.
E sua negatividade desceu rapidamente pela sala de ensaios, trazendo-me no lúgubre zumbir da aparelhagem, um receio sutil, uma expectativa transcendental.
E no leve zunir da aparelhagem, somadas ao ronco do potente ventilador de chão, me extasiei.
A frequência das luzes florescentes realçavam as nuances escurecidas da sala e as pequenas partículas de pó que pairavam pelo ar.
E o silêncio quedou-se.
Um vazio no interior de minha alma.
E as minúsculas partículas de pó flutuavam como flocos de neve, brilhando vagarosas em minha excitação visual.
Rompendo o silêncio, Beto falou:
— Quem sabe a gente não para um pouco, Celso? Tenho algumas coisas que quero te expor.
— Acho uma boa ideia também! Não tô a fim de tocar mesmo. Hoje o dia foi muito cansativo. Está muito quente... Vamos parar!...Quer que eu jogue o tarô pra ti? — perguntei.
— Quero!
— Tudo bem, então!
— Mas vamos lá pra cozinha, que é melhor. Vou fazer um café para nós. — disse ele.
Beto nunca foi um grande admirador do meu tarô e muitas vezes o ridicularizava, estranhei sua rápida adesão.
Mas também nunca me importei com suas brincadeiras, porque, no íntimo, eu sabia que ele levava a sério minhas leituras, como uma vez me confessou.
Beto era um turrão.
Desligamos os aparelhos, e como estava uma noite quente dos infernos, ficamos um pouco no pátio para conversar.
Instigado com a tranquilidade da noite, ele desabafou os seus receios.
E baseando-se em suas antigas e fúnebres premonições, me falou:
— Tenho a sensação de que alguém vai morrer Celso! Já senti isto antes! Receio que seja alguém de minha família.
— Tem certeza de que é alguém de sua família? — perguntei desconfiado.
Beto parou para respirar, antes de responder.
— Não sei... acho que sim...pode ser alguém do meu meio talvez... um amigo... sei lá! — resmungou sorumbático.
E citando-me casos antigos, relembrou fatos em que suas premonições se concretizaram.
Contou-me a visão repentina de um grave acidente de avião no aeroporto Salgado Filho, quando se dirigia para casa de carro pela BR 116.
Na verdade, alguns meses depois de sua premonição, um avião acabou derrapando na pista e foi parar num barranco próximo a BR, mas sem consequências graves.
Mas, com certeza, se não contassem com a sorte e a habilidade do piloto, muitas pessoas teriam morrido.
Depois, contou-me o pressentimento que tivera com sua avó, que veio a falecer alguns meses depois dele receber um aviso...e outras coisas mais.
Como a conversa estava longa, eu sugeri:
— Quem sabe não vamos lá para a cozinha tomar um cafezinho e jogar o tarô enquanto conversamos. Talvez as cartas nos indiquem uma linha de raciocínio, porque eu não sei o que te dizer!
Beto concordou:
—Acho uma boa ideia...Vamos tentar.

                                                              O TARÔ

Eu, para me centrar no que iria ler, questionei:
— Mas antes, temos que resolver um probleminha, Beto! Seu pressentimento não é muito claro, não sabemos quem é! Pode ser qualquer um de nós! Como iremos jogar? Se jogarmos as cartas em aberto, não saberemos de quem estamos falando? Marcaremos o problema, só isto! Temos que pensar numa maneira mais objetiva de jogar.
 —Tem razão!
Beto ficou pensativo e eu procurando concatenar as ideias.
Nesse meio tempo, sugeri marcarmos pessoa por pessoa.
Neste método evitaríamos confusões na leitura, as jogadas seriam diretas, pelo menos saberíamos de quem estávamos falando.
Tiraríamos apenas um Arcano Maior e um Menor por pessoa.
Ele me diria o nome da pessoa, e eu jogaria as cartas e as leria.
Mas havia mais uma enrascada nesta situação.
Lá ia eu aprimorando minhas técnicas de novo.
Sabendo o nome da pessoa, eu poderia induzir a leitura.
Então decidimos que, primeiro eu leria as cartas, depois ele diria-me o nome da pessoa marcada.
Eu leria as cartas da forma mais "científica possível", com isenção.
A ele, caberia o julgamento de minhas leituras.
Combinamos, para evitar maiores confusões, que não lançaríamos novas cartas na mesa para a mesma pessoa, teríamos que nos contentar com as que caíssem, fossem quais fossem.
Só então, conscientizei-me.
— E se o problema for comigo Beto? E se for com alguém da minha família? Você pode estar achando que é contigo. E se não for?  — perguntei temeroso, desconfiando que ele pudesse estar me escondendo alguma coisa.
E Beto sério e abatido, levantou os ombros e gesticulou.
— Pois é! É o risco!
Incomodado com esta nova possibilidade, pensei um pouco antes de resolver.
E decidi.
— É! Não tem saída mesmo! Se for comigo eu vou saber de qualquer maneira! Então é melhor eu saber agora, talvez dê para evitar!
Beto balançou afirmativamente a cabeça.
—Também acho! —  e a fumaça de seu cigarro enroscou-se pelo ar.
O calor continuava insuportável e, mesmo no pátio, a falta de ventos carregava o ar.
O destino veio testar-nos, vinha observar-nos e sussurrar entre as portas de nossa realidade, cedendo-nos uma oportunidade única de vencê-lo no caos, pressionando-nos ironicamente.
Escondendo-se pelo éter, presenteou-nos com uma intuição, uma certeza divina.
E acredito que torcia por nós, pois concedeu-nos a possibilidade mística dos Deuses, convidando-nos para participar de seu panteão.
Silenciamos por algum tempo, pensativos, enquanto terminávamos de fumar.
— Está bem então, vamos lá! — falei.
Enquanto Beto fazia o café, eu pegava o tarô.
Repassei os procedimentos das jogadas.
— Você pensa na pessoa Beto, tira um Arcano Maior e um Menor para cada uma delas. Não me diz o nome antes! Espera eu ler primeiro!
Beto, que ouvia-me atentamente enquanto fazia o café, respondeu-me preocupado:
— Está bem!
E o café era feito como nos tempos antigos, feito na hora, bem quente, na dose exata para nós dois
Separei os arcanos maiores dos menores e coloquei-os em ordem.
Orientei-o para embaralhar um monte de cada vez, e depois para que tirasse uma carta de cada um, a sua escolha.
Dadas as explicações, enquanto bebíamos o café, tensos e concentrados, seguimos a jogar.
Afinal de contas, era de nós e de pessoas de quem gostávamos que iríamos perguntar.
Para cada par de cartas jogadas na mesa, a expectativa era grande.
Primeiro nos marcamos, um suspense.
Reconheço que senti medo, e pela cara que fez, ele também.
Depois continuamos por pessoas mais próximas, nos sentindo aliviados ao final.
Todas as Cartas jogadas foram irrelevantes para a grave questão.
Aumentamos o círculo, procuramos a esmo por nomes conhecidos, e nada.
Já quase ao ponto da exaustão e de desistir, questionei-o:
— Quem sabe você não se enganou Beto? Quem sabe não é só uma negatividade de sua parte e nada de mal vai acontecer?
Mas Beto, para meu dissabor, insatisfeito e teimoso, não queria desistir, continuava com seus maus pressentimentos.
Então, ocorreu-me um nome que prontamente ele descartou.

                                                        LUCIANA

Luciana era de uma beleza excepcional.
Era a cunhada de Beto, a irmã caçula de sua esposa.
Com 20 anos de idade, ela estava no auge de sua beleza e de seu vigor físico.
Uma jovem de cabelos castanhos escuros e lisos e pele branca, muito alegre e cheia de sonhos.
Era praticamente a única pessoa de sua família de quem ainda não tínhamos perguntado.
Beto reagiu instintivamente, e irritou-se comigo.
— Acho que não há necessidade de inclui-la nisso Celso! Luciana é muito saudável! Você a conhece! E além do mais, qual o problema que uma jovem de 20 anos poderia ter? Isto já está virando uma paranoia! Acho melhor pararmos por aqui!
Eu estranhei sua reação desproposital, que discordava totalmente do que havíamos combinado, mas resolvi ficar calado.
Contudo, instantes depois, olhando-me sério e compenetrado, vencido por suas dúvidas e pelo carma, se recompôs.
Sem esperar minha resposta, que sabia que não viria, Beto marcou Luciana e jogou.
Incrédulos, olhamos para as duas cartas sobre a mesa.
Eram "A Estrela" e o "10 de espadas".
— E, então? — perguntou-me Beto, pressentindo a negatividade das cartas.
Pensei bem antes de falar.
— Pelas cartas... é ela, Beto! — respondi secamente.
— Não pode ser! Luciana não tem problema algum de saúde! Você a viu! Qual o problema que ela pode ter?
— Bem! —  disse eu  — Nós combinamos que você jogaria as cartas e que eu as leria! O tarô marcou ela!
— O que as cartas querem dizer? — perguntou abatido, vencido pelos meus argumentos e pelo cansaço.
Depois que li os seus arquétipos e debatemos os seus significados, ele falou-me um pouco de Luciana.

                                                    DIVAGAÇÕES

Beto contou-me que ela estava feliz em sua casa.
Que passava um tempo com eles, mas que já havia decidido voltar para o marido e o filho:
— Roberto é uma pessoa muito boa, Celso. Ele é apaixonado por Luciana. Pena que tiveram o filho muito cedo. Luciana era muito jovem quando o conheceu, quase uma criança. Ela vinha do interior passar os fins de semana conosco, queria sair, se divertir, conhecer a vida, namorar. E foi em uma destas saídas que ela conheceu o seu marido e engravidou. Foi muito cedo para ela assumir um compromisso tão sério.
Durante o período de gravidez ela veio morar conosco e ficou até ganhar a criança.
Nem teve tempo para aproveitar a vida.
Agora ela pediu um tempo pra ele e venho morar conosco. Mas eu sinto que ela anda triste, está querendo voltar pra casa.
Acho que está começando a valorizar mais o Roberto. Ele uma pessoa boa, não reclama de nada, aceita tudo o que ela faz e ainda quer que ela volte pra casa. Não existem mais homens assim hoje em dia. Ela o ama também, tenho certeza disso, só não quer admitir.
— Com que idade ela teve o filho? — perguntei.
— Com 15 anos! Roberto foi seu primeiro namorado! Ele é muito jovem também, mas é um guri muito responsável, cuida do filho, da casa. Eles têm um futuro pela frente.
Beto desabafa:
Mas de que adianta saber que Luciana corre risco de vida, se não posso fazer nada?
— Leve-a ao médico! — respondi.
Beto irritou-se novamente:
— Em primeiro lugar, com que argumentos vou convencer Luciana a ir ao médico? Vou dizer que você leu no tarot que ela está doente? Como ela vai reagir? Vai ficar apavorada! Nem pensar!
Mesmo que eu a convença a fazer exames, o que eu digo pro médico? Digo que você leu que ela está doente? O médico vai me achar um louco, um irresponsável!
Sem respostas, divaguei:
— É! Você tem razão! Mas qual a solução, então? — perguntei.
Beto, agora mais calmo com o desabafo, e porque também sentiu a pressão, tentou amenizar a gravidade da situação, mudando o foco da leitura.
— Você pode ter interpretado mal as cartas, Celso! Talvez o tarô estivesse querendo dizer que ela está sozinha, longe do filho, que sente falta do marido, de casa...
— Pode ser. Mas, e se não for? — questionei. — A pergunta que fizemos ao tarô foi bem específica. Nós jogamos para saber quem iria morrer. Nós combinamos isto antes de jogar. Eu ainda acho que a única maneira de sabermos o que ela tem, é levando-a ao médico. Quem sabe um médico que acredite no ocultismo? Ou então...
A casa de Beto era de construção antiga.
As duas portas altas da cozinha tinham saídas: uma, para o pátio dos fundos do casa, a outra se abria para o corredor que levava até a sala de estar.
Havia uma terceira porta que permanecia quase sempre fechada, e que dava para um pequeno quarto conjugado a cozinha.
Uma grande janela envidraçada mostrava a visão do muro da pequena entrada lateral de sua casa.
Uma sensação de mal estar tomou conta de nós.
Com tanta negatividade, eu já estava até com receio de ir embora, temendo que alguma coisa ruim pudesse me acontecer.
Joguei uma Carta para saber como seria a minha volta para casa e me acalmei.
Nós estávamos ficando paranoicos.
O assunto tornou-se cansativo e deprimente.
Esgotados, resolvemos trocar de assunto e falar de amenidades.
Para aliviar a tensão, após mais uma xícara de café e algumas considerações musicais, mais tranquilo, resolvi ir embora.
Voltei para casa de madrugada, um pouco antes do amanhecer, divagando pela noite escura sobre meus devaneios.
E sentia-me feliz ao andar de carro pelas ruas e estradas vazias que ligavam as duas cidades, apreciar sua paz, suas luzes noturnas.
E nestes tempos, estranhamente, ao meu modo, eu comportava-me como um desbravador, um viajante de um outro mundo, e sentia-me verdadeiramente feliz.
O reencontro comigo mesmo aumentava e, minha mente, em êxtase, mudava de marcha rapidamente.
Infelizmente, alguns meses depois, Luciana veio a falecer.


                                     A HISTÓRIA

Meses depois...
Luciana queixava-se constantemente de dores de cabeça.
Ela voltou a morar no interior do estado com seu marido e com seu filho, mas, com saudades de sua grande família, seguidamente vinha a Canoas visitar sua irmã.
Todos gostavam imensamente dela, uma jovem simples e sincera, cheia de vivacidade e de esperanças.
Numa destas visitas de fim de semana, Luciana queixa-se novamente de fortes dores de cabeça.
Os remédios com que se automedicava não surtiam mais efeito.
No domingo à noite, com uma dor quase que insuportável, Luciana liga para uma psicóloga parente de Beto, para se informar sobre os medicamentos.
A psicóloga recusou-se a prescrever medicamentos à Luciana, e aconselhou-a a procurar um médico.
Luciana, sem alternativa, encaminha-se ao hospital de Canoas/RS.
Após consultar com o médico de plantão, segue com seu marido rumo ao interior do estado.
Na consulta, sem exames específicos, o médico, conivente com um sistema "quebra o galho", acabou medicando-a para os sintomas de dores de cabeça e despachou-a.
Contudo, no meio do caminho, Luciana começa a sentir-se mal, e desmaia.
Encaminhada rapidamente ao hospital de Lajeado/RS, chegou praticamente sem vida.
A doença, não diagnosticada à tempo, agravou-se e  não tiveram tempo de salvá-la.
No outro dia à tarde, Beto me ligou.
Muito abalado, comunica-me o falecimento de sua cunhada:
— Infelizmente Celso, as cartas estavam certas. Ontem à noite Luciana faleceu. Quando recebi a notícia de seu falecimento, eu me lembrei das cartas que jogamos. Hoje, no velório, eu recordei de nossas conversas...
Com a notícia e a menção das cartas que jogamos, meu corpo enrijeceu-se num arrepio, e chorei.
Beto descreveu-me os detalhes do desenlace de Luciana, sentindo-se com a mesma sensação de impotência que eu.
Com certeza, não podíamos retroceder no tempo.
A Graça de Deus manifestou-se em nossas mentes e colocou-nos nas mãos o poder de conhecer os seus desígnios, mas amortecidos pelas insensibilidades de Beto e por minhas inseguranças ao ler o oráculo, não conseguimos ouvi-lo com o coração.

                                                   LUCAS E MATEUS

Num destes nossos encontros de sábados à noite, Beto trouxe-nos uma grande notícia.
Empolgado, comunica-nos a chegada de dois novos integrantes para a banda.
Mateus e Lucas eram médicos, e Beto não soube nos explicar como eles souberam que tínhamos uma banda de Rock.
Eles simplesmente apareceram em sua casa para conversar, alguém os havia indicado para nós.
Mateus e Lucas eram de classe média alta e estavam a fim de investir no conjunto.
Junto com eles veio Ana, uma jovem amiga de Lucas e cantora.
Ana ficou por pouco tempo, não se adaptou ao nosso estilo musical.
Empolgados, começamos os ensaios com mais seriedade.
Mateus importou um teclado dos Estados Unidos, e Lucas comprou uma nova caixa de som.
O grupo, antes paupérrimo, estava tomando forma.
O caso de Luciana, ocorrido há alguns meses atrás, ainda estava presente na memória de todos, e, às vezes, comentávamos o assunto.
Num destes sábados, antes de começarmos os ensaios, como o algazarra estava grande na sala de ensaios e todos falavam ao mesmo tempo, eu, entristecido com a vida e com saudades do pessoal do meu grupo, querendo estar em outro lugar, isolei-me no pátio para fumar e meditar.
E  como sempre gostei de ter o meu tempo também, me afastei.
Foi quando Mateus aproximou-se de mim:
— Eu posso falar contigo Celso? — perguntou-me educadamente.
— Claro!
— Eu gostaria de conversar contigo a sós, se não te importar, é claro. —  falou atenciosamente.
E eu, parado no pátio, um pouco afastado do grupo, perto do poço lacrado, ornamentado com sua antiga bomba d'água, perguntei arredio, pois não o conhecia bem:
— Sobre o que?
— Contaram-me algumas coisas que se passaram aqui. Fiquei intrigado com o que ouvi. Gostaria que você me confirmasse estes fatos. Disseram-me que você joga tarô, é verdade?
— Jogo! — Pronto... lá vinha as animosidades de novo. Ainda mais de um médico. — pensei.
E Mateus continuou:
— Sei que a uns meses atrás aconteceu um evento aqui que foi mal compreendido e que te chateou bastante. Eu gostaria de te expor a minha opinião sobre isso. Como médico. Se não te importar, é claro?
E eu até que me importava, mas fiquei quieto. Eu já estava cansado de tantas polêmicas, abatido com tantas contradições que desviavam o curso do meu rio e obscureciam a minha apaixonante luz! E nesta luz, mesclavam-se as minhas alegrias e as minhas tristezas saudosistas de um outro mundo, que fazia parte intrínseca do meu ser.
Então, como o pessoal continuava na sala de ensaios, na parte lateral do pátio fazendo bagunça, resolvemos ir para a cozinha, o lugar mais tranquilo da casa para conversarmos.

                                                   AJUDA TARDIA

Mateus sentou-se na cabeceira da mesa, e eu, em ângulo reto, sentei-me bem próximo a ele, do outro lado da mesa.
Mateus foi direto ao assunto:
— Contaram-me que você leu no tarô que Luciana estava doente! É verdade?
— É! — respondi-lhe com brevidade.
— Bem, Celso! Antes de te expor a minha opinião, quero te dizer uma coisa. Sei de tudo o que aconteceu aqui.  Percebi que você fica chateado quando eles debocham de ti e ridicularizam o tarô.
Por falta de compreensão, eles acham que é misticismo. E pelos comentários que ouvi, percebi que você é muito inseguro no que lê, não confia nas tuas intuições. Estou certo?
— Está! —  senti-me um pouco aborrecido com sua abrupta intromissão nos meus defeitos.
— Não estou aqui para te censurar Celso, muito antes pelo contrário, estou aqui para te incentivar e te dizer que você está no caminho certo. O tarô é uma ciência e pelo que sei você estudou muito estas cartas, não é mesmo?
— Estudei!
— Pois bem, então escute o que vou te dizer.
E com respeito, como se fosse um mestre, continuou:
— Quero te mostrar uma coisa!
Sem eu esperar, Mateus apontou o seu dedo para os azulejos da cozinha, às minhas costas, e disse:
— Está vendo os azulejos?
E eu surpreso, antes mesmo de assimilar os acontecimentos, virei-me para olhá-los.
— Repare nos desenhos, Celso. Eles querem nos dizer alguma coisa.
— Você consegue ler nos azulejos? — perguntei sem entender.
— É claro que sim! Quero te mostrar, para que você entenda! Preste atenção! Vou descrever um pouco de tua vida, olhando para eles.
Eu me empolguei com a experiência, Mateus era um mestre e pertencia ao meu mundo.
Então, perplexo, ouvi-o com atenção:
— Os azulejos me dizem que você teve uma educação muito rígida Celso. Me dizem que você estudou e leu muito, que teve perdas de entes queridos que te marcaram profundamente.
Você não se realizou profissionalmente nem financeiramente, pois sempre se submeteu ao que seu pai e os outros queriam, nunca fez o que o seu coração mandava. Cursou sua faculdade a contragosto e nunca exerceu a sua profissão. Estou certo?
— Está!
— Falo isso para o teu bem, para que entenda. O tarô faz parte do teu desenvolvimento espiritual, como os teus estudos e a música também fizeram. Não desista dele. Ele é uma consequência natural dos teus longos anos de estudos, e não ao contrário. Infelizmente você desistiu de seus sonhos pelos interesses dos outros. Agora quero que você lute pelos seus interesses. Você ainda tem tempo de realizá-los, mas não tanto como antes. Realize-os agora, antes que seja tarde demais. O mundo é seu e a felicidade é sua, realize-os. Não espere mais pelos outros. Não tenha medo de errar. Acredite em teus sonhos e lute por eles, entendeu?
— Entendi! — respondi compreensivo e bastante desiludido.
— Posso falar o que você quiser Celso, ou responder a qualquer pergunta tua, só olhando para os desenhos dos azulejos. Entendeu?
— Mais ou menos!
O Tarô é apenas um instrumento, a natureza responde por si só. Confie em tuas intuições e no instrumento que você usa para prever! E observe os sinais do mundo, qualquer um deles é um oráculo! Mas continue com o tarô, ele é um dos caminhos que você escolheu.
— Entendi!
Agora Mateus, mais sério, num tom mais ríspido, censurou-me:
— Tudo isto pra lhe dizer uma coisa, Celso. Quero que você entenda. Se eu estivesse aqui na época de Luciana e você me dissesse que o tarô marcou problemas graves de saúde para ela, eu providenciaria para ela todo o atendimento médico a meu dispor. Tenho uma policlínica particular em São Leopoldo, com  profissionais de cada área, desde clínico geral, até especialistas e psicólogos. Ela faria todos os exames médicos ao meu dispor, e não sairia de lá enquanto não soubéssemos com certeza o que tinha. Então Celso, confie mais em ti e na ciência das Cartas. Muitos médicos além de mim, sabem da importância  destes conhecimentos e iriam te ouvir. Não tenha medo de errar! Diga o que você leu nas cartas e nós nos encarregaremos de descobrir a verdade.
Agradeci emocionado, sentindo-me um pouco desconfortável.
Talvez fosse minha impressão, mas as palavras de Mateus, além de sugerir confiança, pareciam conter um certo ar de desilusão.
Contudo, infelizmente, já era tarde demais!
E os heróis se lastimam pela batalha perdida.
Estes fatos ocorreram na época em que as profecias de Hugo se iniciavam, sem eu ter consciência disso.

Um comentário: